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Como a escalada desportiva está a ajudar a revitalizar uma ilha grega

A ilha de Kalymnos, outrora famosa pelos seus pescadores de esponjas do mar, atrai agora aventureiros para as suas montanhas.

Publicado 10/08/2021, 09:13
Ilha grega de Kalymnos

Antigamente conhecida pela pesca de esponjas do mar de alta qualidade, a ilha grega de Kalymnos é agora um dos principais destinos mundiais de escalada desportiva, uma nova modalidade olímpica.

Fotografia de Photobac, Getty Images

Durante mais de 50 anos, Antonis Kampourakis acordou de madrugada e mergulhou nas profundezas do Mar Egeu com um par de barbatanas e uma máscara. O seu objetivo? Apanhar as valiosas esponjas do mar que sustentaram a ilha grega de Kalymnos durante séculos.

Antonis é apenas um dos vários habitantes locais que têm laços com este ofício tradicional, que muitas vezes foi transmitido ao longo de gerações. Em 1986, quando uma doença catastrófica começou a dizimar as esponjas do mar, a principal fonte de rendimento dos ilhéus também se afundou.

Mas depois surgiu um novo foco, um foco na paisagem da ilha – nos seus penhascos íngremes, nas suas cavernas de estalactites, rochas de calcário e vistas deslumbrantes sobre o mar.

Agora, esta ilha árida, porém pitoresca, é um dos melhores locais do mundo para a escalada desportiva, um tipo de escalada onde as rotas são fixadas com âncoras permanentes. Esta atividade está a ajudar a revitalizar a economia local, atraindo tanto aventureiros amadores como experientes, e este ano está a receber atenção global por ser uma nova modalidade olímpica.

Uma cultura imersa no mar

A apanha de esponjas do mar – uma atividade mencionada nos épicos de Homero do século VIII a.C. – é praticada em Kalymnos desde o século XIX. Os pescadores de esponjas tornaram-se lendários, mergulhando até profundidades superiores a 75 metros e usando técnicas engenhosas, porém arriscadas, desde mergulho livre a mergulhos com pesos de mármore onde respiravam através de uma longa mangueira que serpenteava até à superfície.

“Apesar de ser difícil e perigoso, este trabalho para mim era um parque de diversões. Eu ansiava pelo amanhecer para mergulhar no mar”, diz Antonis, agora com 80 anos. “Durante 52 anos continuei a mergulhar à procura de esponjas, até mil vezes por dia... mas era bem pago, criei seis filhas, comprei casas para as suas famílias”, diz Antonis, cuja imagem está retratada numa estátua local que homenageia os mergulhadores de esponjas.

Esquerda: Superior:

Um pescador mergulha à procura de esponjas do mar em Kalymnos. As esponjas costumavam ser uma importante fonte de rendimento para os ilhéus, mas agora escasseiam.

Direita: Fundo:

O comércio de esponjas do mar, muitas são agora importadas, ainda prospera em Kalymnos devido à capacidade de processamento dos habitantes locais na sua venda.

Fotografia de Francesco Zizola, NOOR/LUZ/Redux

Enquanto os ilhéus mergulhavam para apanhar esponjas, os comerciantes vendiam o “ouro de Kalymnos” em mercados distantes. “Costumava haver entre 200 a 250 barcos de pesca de esponja a navegar por toda a Grécia e no leste do Mediterrâneo”, diz Nikolas Papachatzis, um comerciante de esponjas. “Agora, restam poucos.”

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A junção entre longas décadas de colheita, a doença que atingiu as esponjas na década de 1980 e o aumento na frequência de eventos climáticos extremos desde a década de 1990 quase que acabou com a indústria de esponjas.

Agora as esponjas locais são escassas, mas surpreendentemente o comércio de esponjas ainda floresce. Devido ao conhecimento aprofundado dos ilhéus, as esponjas de outros lugares são processadas aqui.

“É tudo feito à mão, esponja a esponja; limpar, lavar, aparar”, diz Nikolas Papachatzis. Kalymnos é responsável por 80% das exportações de esponjas do mundo inteiro e importa esponjas de águas tropicais para responder à demanda. “Porém, uma esponja do Mediterrâneo tem uma qualidade impar e uma vida útil de 10 anos”, diz Nikolas.

À medida que os esforços globais se concentram na redução do uso de plástico, as esponjas naturais podem parecer mais sustentáveis do que as artificiais. No entanto, devemos ter em consideração as populações de esponjas fragmentadas que ainda restam, diz Thanos Dailianis, biólogo marinho do Centro Helénico de Pesquisa Marinha.

“Para as pescarias de esponjas continuarem, é imperativo estabelecer esquemas sólidos de gestão e aplicar práticas sustentáveis”, diz Thanos. “Está provado que cortar só uma parte da esponja, em vez da sua remoção completa do substrato, minimiza o impacto da colheita, pois permite que as partes restantes regenerem.” Thanos também defende a designação de zonas protegidas, “que podem ter benefícios significativos a longo prazo, promovendo a repovoação de áreas esgotadas”.

Com o declínio na pesca de esponjas, a ilha atrai agora viajantes com os seus portos pitorescos e paisagens montanhosas.

Fotografia de Norbert Eisele-Hein, VISUM/Redux

A ascensão da escalada desportiva

Enquanto a colheita de esponjas estava a diminuir, uma indústria completamente diferente estava a emergir. Ao longo da costa da ilha, falésias de tom amarelo alaranjado erguem-se do mar – características dramáticas que chamaram a atenção do alpinista italiano Andrea Di Bari quando este passou férias em Kalymnos em 1996. Encantado com a qualidade das rochas, Andrea regressou no ano seguinte com companheiros de escalada para abrirem 43 rotas.

As imagens publicadas pelo fotógrafo Andrea Gallo chamaram ainda mais a atenção dos escaladores. Aris Theodoropoulos, um guia de montanha, instrutor de escalada e autor do Guia de Escalada de Kalymnos, colaborou com o município para ajudar a tornar Kalymnos num verdadeiro destino de escalada.

“Em 1999, reparámos numas pessoas estranhas carregadas com equipamento e vimos as suas figuras penduradas nas rochas”, diz George Hatzismalis, chefe do Gabinete de Turismo do Município. “Em pouco tempo, começámos a procurar quais eram as intervenções necessárias para isto evoluir: abrir e manter novas rotas, organizar um festival de escalada.”

O primeiro festival aconteceu no ano 2000 e desde então já se realizaram mais 13, com os maiores nomes da escalada a enfrentarem as rotas mais impressionantes e a construírem novas. Hoje, existem cerca de 90 setores de escalada e 3.900 rotas de ponto único que variam de dificuldade, desde 4c até 9a (iniciante a profissional). A ilha vizinha de Telendos oferece sete setores adicionais e 800 rotas, algumas com vários pontos.

“Os números têm aumentado de forma consistente”, diz Lucas Dourdourekas, presidente da Equipa de Resgate de Kalymnos e instrutor de topo de escalada desportiva. “A combinação entre enormes paredes verticais, falésias, percursos com bolsas, a enorme variedade e as rotas todas perto umas das outras… e a vista a espetacular para o mar durante a escalada... é incrível.”

Mas os escaladores não precisam de ser especialistas. As rotas de fácil acesso acomodam diferentes níveis e estilos, desde os que procuram adrenalina até amadores e famílias mais cautelosas.

“Kalymnos é ótima para escalada de férias, é boa para os iniciantes”, disse à National Geographic o alpinista de elite Alex Honnold. “Eles têm umas cavernas enormes com estalactites enormes e um calcário com características muito divertidas, também podemos nadar no mar se quisermos e é realmente bonito.”

A primavera e o outono são as melhores estações para escalar, mas o clima da ilha é ameno o ano inteiro. “A ascensão da escalada levou à extensão da temporada turística de três ou quatro meses para pelo menos oito meses”, diz Nikolaos Tsagkaris, presidente da Associação de Hoteleiros de Kalymnos, “com todos os benefícios que isso traz à comunidade local”.

A ilha recebe anualmente cerca de 12.000 escaladores que querem desafiar as suas capacidades e resistência. Alguns compraram casas na ilha e outros preferiram ficar aqui durante os confinamentos devido ao coronavírus. “O vínculo entre alpinistas e habitantes locais é forte”, diz George Hatzismalis. “As relações pessoais vão-se desenvolvendo e os visitantes já não são estranhos.” Kalymnos também ficou popular enquanto local de férias para as pessoas que não escalam, mas que pescam, fazem mergulho ou natação.

Hoje, Kalymnos tem cerca de 3.900 rotas de escalada com vários níveis de dificuldade, muitas com vista para o mar.

Fotografia de Luliia Leonova, Alamy Stock Photo

Um modelo sustentável de turismo?

Apesar de o mar continuar a desempenhar um papel vital na vida da ilha, a popularidade dos penhascos parece que veio para ficar, sobretudo agora que a pandemia deu uma nova ênfase aos destinos de viagem com várias atividades ao ar livre.

“As nossas montanhas, que outrora eram uma maldição na ilha porque eram inacessíveis e não davam para cultivar, tornaram-se agora numa bênção”, diz Dimitris Diakomichalis. “O nosso objetivo é fazer um bom uso das montanhas de todas as formas possíveis... como desenvolver rotas para caminhadas e bicicletas de montanha.”

Kalymnos conquistou um lugar no mapa global da escalada, mas para ser sustentável a longo prazo, o património natural da ilha precisa de ser salvaguardado. As autoridades estabeleceram o Protocolo Nova Rota em 2018 num esforço para evitar a expansão descontrolada, garantir a segurança e minimizar os impactos negativos no ambiente.

“Não foram feitas intervenções no espaço natural circundante e os escaladores, como são ambientalmente conscientes, apreciam a paisagem intocada”, diz George Hatzismalis. “Enquanto os locais de interesse arqueológico e as formações antigas, como as estalactites de Grande Grotta, forem respeitados, os potenciais desafios podem ser evitados.”

À medida que o turismo global regressa, muitos habitantes locais vislumbram um futuro risonho para a escalada em Kalymnos – e talvez mais além. “Com cuidado e manutenção das rotas atuais e futuras”, diz Lucas Dourdourekas, “isto pode ser um modelo para outros destinos”.

Maria Atmatzidou é uma escritora sediada em Atenas que faz a cobertura de viagens e arqueologia. Anteriormente, Maria foi editora-chefe das edições gregas das revistas National Geographic e National Geographic Kids. Siga-a no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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