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O Médio Oriente pode ser o próximo grande destino para caminhadas

Vários trilhos de longa distância têm sido inaugurados nos últimos anos, alterando as perceções erradas sobre a região e recordando a sua longa história de viagens a pé.

Publicado 19/08/2021, 12:49
Montanhas de Hurghada

Perto da cidade de Hurghada, no Egito, o Trilho da Montanha do Mar Vermelho percorre cumes e vales desérticos. Este é apenas um dos muitos trilhos de longa distância no Médio Oriente.

Fotografia de DEZAIN_Junkie, Alamy Stock Photo

As Montanhas do Mar Vermelho pareciam inacessíveis para Sara Ghenem durante a sua infância na cidade egípcia de Hurghada. Os cumes desérticos destas montanhas erguem-se na extremidade oeste da cidade, cumes que Sara costumava contemplar a partir da varanda da sua família.

“Quando era pequena, estava sempre a olhar para eles durante o pôr do sol, pensando que um dia gostava de poder escalar aquela montanha”, diz Sara. “Mas durante muito tempo, a única coisa que podia fazer era observar. Só os beduínos – os nómadas que vivem no deserto – é que conheciam o caminho até lá.”

Anos mais tarde, Sara Ghenem, agora médica no Cairo, ascendeu finalmente às montanhas que na sua imaginação eram enormes. Em 2019, Sara fez parte de um grupo inaugural que foi convidado para caminhar ao longo dos 170 quilómetros do recém-criado Trilho da Montanha do Mar Vermelho (RSMT na sigla em inglês), que serpenteia por entre os picos mais altos do Egito continental e é gerido pelos beduínos locais.

O RSMT é o primeiro trilho de longa distância do Egito, abrindo uma área que poucos viajantes exploraram nas últimas décadas a forasteiro. Até agora, não há registo de um caminhante que percorreu este trajeto desde o início ao fim, mas em fevereiro de 2022, um pequeno grupo espera concluir o trilho na sua totalidade.

Vai ser uma aventura acidentada que exige 10 dias de viagem a pé ao longo de desfiladeiros íngremes e passagens altas. Os que perseverarem irão ter acesso a maciços de granito, desertos pontilhados por acácias e a uma tradição de hospitalidade que rivaliza com qualquer outra na Terra.

Este trilho é apenas o mais recente de uma rede de trilhos para caminhadas que estão a surgir no Médio Oriente. Alguns, como o RSMT, são projetos de turismo comunitário que ajudam as economias locais e criam laços entre visitantes e residentes.

Como caminhar é uma forma “lenta de viajar” no sentido mais literal, estas jornadas apontam para um tipo de turismo mais sustentável – e a vista que se obtém nestes trilhos pode ser transformadora.

Botas de caminhada assentes no chão

Quando Sara Ghenem caminhou finalmente pelas Montanhas do Mar Vermelho, descobriu que a paisagem era infinitamente mais complexa do que a vista que tinha da sua varanda. “Olhamos para as montanhas a partir da cidade e parece uma pintura abstrata, não vemos quaisquer detalhes”, diz Sara. “Quando vamos realmente para o deserto, descobrimos que é uma enorme rede de montanhas e vales.”

O pôr do sol nas Montanhas do Mar Vermelho perto de Hurghada. Depois de um dia no trilho, caminhantes e guias beduínos costumam partilhar histórias à volta da fogueira.

Fotografia de Image Professionals GmbH, Alamy Stock Photo

“É um verdadeiro tipo de deserto de granito – um labirinto de montanhas destas”, acrescenta o especialista britânico em caminhadas Ben Hoffler, cofundador do RSMT que vive no Egito e escreveu Sinai: The Trekking Guide. As pegadas são escassas; o solo é marcado por rastos de lagartos, besouros e íbex-da-núbia de chifres encaracolados.

O RSMT vem juntar-se a uma rede crescente de trajetos de longa distância que cruzam desertos e montanhas no Médio Oriente. Um destes trajetos é o Trilho Sinai de 550 quilómetros, um trilho irmão do RSMT com um circuito de três vertentes através da Península do Sinai, no Egito.

“As pegadas são escassas; o solo é marcado por rastos de lagartos, besouros e íbex-da-núbia de chifres encaracolados.”

Outros trilhos para caminhada incluem o Trilho de Montanha do Líbano, de 470 quilómetros, criado em 2007, e o Trilho do Património Palestino, de 330 quilómetros, inaugurado em 2014.

O trilho mais recente é o Trilho da Jordânia, uma rota de 650 quilómetros estabelecida em 2017 que atravessa o país de norte a sul, levando os caminhantes através de uma paisagem pontilhada por olivais, vales floridos e zonas arenosas. Quando os caminhantes chegam ao deserto no sudoeste do país, entram a pé pela cidade de Petra, sítio da UNESCO esculpido na rocha, tal como os viajantes fazem há milhares de anos.

Estes trilhos evocam a longa história de viagens a pé do Médio Oriente, desde as antigas caravanas de camelos às rotas de peregrinação que ligam os diversos locais religiosos da região. Neste momento há novos caminhos que continuam a ser forjados: em zonas do norte da região de Hejaz, na Arábia Saudita, uma nova rede de trilhos para caminhadas deve ser lançada nos próximos anos.

Quando Tony Howard e Di Taylor, caminhantes e alpinistas veteranos do Reino Unido, mapearam os trilhos da Jordânia pela primeira vez na década de 1990, a caminhada recreativa era desconhecida na região. Muitos habitantes citadinos na Jordânia não confiavam no deserto e perguntavam a Tony e Di porque é que eles caminhavam se podiam ir de carro.

Desde então, o interesse local por caminhadas floresceu. Formaram-se grupos de caminhada desde Riade, na Arábia Saudita, até Amã, na Jordânia, onde carrinhas lotadas com caminhantes ansiosos partem da cidade todas as manhãs de sexta-feira.

Eliminar estereótipos, um passo de cada vez

Um número crescente de visitantes vindos de fora do Médio Oriente também tem calçado as botas de caminhada para explorar a região. Mas, de acordo com Tony Howard, alguns estrangeiros têm preconceitos errados de que o Médio Oriente é simplesmente demasiado arriscado para este tipo de aventuras.

Os caminhantes ao longo do Trilho da Jordânia podem entrar a pé na famosa cidade de Petra, tal como os viajantes fazem há milhares de anos.

Fotografia de Yadid Levy, Anzenberger/Redux

Há relatos de alguns incidentes mais famosos, como a detenção e encarceramento em 2009 de três alpinistas americanos que passaram do Iraque para o Irão e o atentado terrorista a um autocarro turístico em 2019 perto das pirâmides de Gizé no Egito, mas estas tragédias são raras.

As caminhadas têm o poder singular de oferecer uma compreensão mais rica sobre a região, diz Olivia Mason, investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Newcastle que estuda a geopolítica dos trilhos de caminhada. “Quando nos estamos a mover passo a passo e temos encontros diários em que falamos realmente com as pessoas, os preconceitos e narrativas dominantes perdem o significado e são constantemente desmistificados”, diz Olivia, que caminhou centenas de quilómetros no Trilho da Jordânia.

Outra preocupação comum é a de que as mulheres não estão seguras nas caminhadas pelo Médio Oriente. Olivia reconhece que, em algumas zonas, ainda é raro ver uma mulher a caminhar sozinha.

(Este templo honra a rainha do Egito que governou como um faraó.)

O assédio pode ser um problema sério em algumas regiões do Médio Oriente, diz Hamsa Mansour, documentarista e aventureira egípcia que vive no Cairo. “É muito difícil viver no Cairo enquanto mulher.”

Mas Hamsa, exploradora ávida da natureza que fez caminhadas sozinha no Egito e em Marrocos, sente uma liberdade extraordinária quando explora a natureza selvagem da sua região, que contrasta com os desafios da vida na cidade. “Nunca sinto tanta segurança como quando estou nas montanhas.”

Hospitalidade entre os cumes

Hamsa diz que esta sensação é particularmente verdadeira nas Montanhas do Mar Vermelho. O RSMT passa pela terra natal do clã Kushmaan da tribo Maaza, beduínos nómadas cujo sustento inclui o forrageio de alimentos em cantos remotos da cordilheira. Os caminhantes precisam da permissão dos líderes do clã para visitar a região – um costume antigo – e devem viajar com guias Kushmaan.

“Parte da sua cultura passa pelo quanto valorizam e prezam os seus hóspedes”, diz Hamsa, que realizou uma curta-metragem sobre o RSMT após uma caminhada neste trilho em 2019. Ao caminhar ao lado de beduínos que conheciam todas as plantas e animais, Hamsa sentia-se profundamente segura.

A exploração com guias locais é um dos destaques da caminhada nas Montanhas do Mar Vermelho, diz Ben Hoffler, porque transforma uma experiência selvagem numa oportunidade de aprendizagem sobre a vida tradicional. “Os hábitos antigos ainda estão vivos”, diz Ben. “Estamos em contacto com os últimos guardiões desta cultura nómada muito antiga.”

O edifício da Câmara do Tesouro, um dos edifícios entalhados nas rochas em Petra, é acessível através do Trilho da Jordânia.

Fotografia de Jon Arnold Images Ltd, Alamy Stock Photo

Manter – e mudar – tradições

Merayi Abu Musallem, que lidera as mais de 1.500 famílias do clã Kushmaan, está entre as pessoas que trabalham para preservar esta cultura. O RSMT oferece aos jovens membros do clã a oportunidade de encontrar emprego nas montanhas, diz Merayi, que é cofundador do trilho. É um modo de vida que preserva o conhecimento antigo, ao mesmo tempo que cria oportunidades sustentáveis de emprego e intercâmbio cultural.

“Este trilho está a ensinar muitas coisas à geração mais jovem. Estou surpreendido com a rapidez com que os jovens beduínos estão a aprender”, diz Merayi, acrescentando que gostava que as raparigas Kushmaan também treinassem para serem guias de caminhada, uma rutura com a tradição que ele acredita ser importante.

A aprendizagem, de acordo com Merayi, é mútua. Os caminhantes que visitam as Montanhas do Mar Vermelho – como Sara Ghenem e Hamsa Mansour – trazem as suas próprias histórias para as fogueiras onde os viajantes se reúnem após longos dias no trilho. Se os visitantes deixam as montanhas com uma sensação de transformação pelo que encontram, Merayi diz que os hospedeiros beduínos também são transformados pela experiência.

“Quando os guias se sentam à noite para conversar depois de jantar, é uma coisa benéfica. Eles aprendem com os visitantes e isso está a trazer mais diversidade para os beduínos”, diz Merayi. “Aprendemos as melhores coisas no trilho.”

A escritora de viagens Jen Rose Smith, de Vermont, escreve sobre aventuras ao ar livre, lugares remotos e culinária tradicional. Siga-a no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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