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O turismo ‘Dark Sky’ está em ascensão nos EUA

Os observadores de estrelas procuram escuridão noturna em locais ‘Dark Sky’ remotos como Idaho, Nebraska e Arkansas.

Por Cassandra Brooklyn
Publicado 16/08/2021, 11:16
Tenda Brilhante

Uma lista crescente de Reservas Dark Sky nos EUA, como o Parque Nacional do Grand Canyon aqui retratado, ajuda os viajantes a encontrarem lugares com a menor quantidade de poluição luminosa – e onde se pode observar melhor as estrelas.

Fotografia de Christian Heeb, laif/Redux

A luz elétrica revolucionou as nossas vidas, mas quando as luzes feitas pelo homem começaram a brilhar de forma tão intensa quanto o sol e a lua, os habitantes urbanos rapidamente perderam de vista a vasta galáxia que cintilava nos céus – e os benefícios dos céus negros.

“A lâmpada é indiscutivelmente a invenção mais transformadora que os humanos introduziram neste planeta. Mas as lâmpadas têm um lado negro, porque raptaram a noite. O excesso de luz que despejamos nos nossos ambientes está a colocar em risco os ecossistemas, afetando animais cujos ciclos de vida dependem do escuro”, escreveu Nadia Drake num artigo para a National Geographic sobre a luz elétrica e o seu respetivo impacto inesperado na vida selvagem e saúde humana. “De uma certa forma primordial, perdemos a nossa ligação com os céus noturnos, as tapeçarias nas quais os nossos antepassados teciam as suas histórias salpicadas de estrelas, regulavam o plantio e a colheita de safras e interpretavam as leis físicas que governam o cosmos.”

Os céus por cima do Parque Nacional do Vale da Morte competem com a poluição luminosa, que pode viajar mais de 350 quilómetros desde a fonte.

Fotografia de Babak Tafreshi, Nat Geo Image Collection

É aqui que entra a International Dark-Sky Association (IDA). Fundada em 1988, esta organização sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos reconhece parques públicos, reservas e locais pelo mundo inteiro com a menor quantidade de poluição luminosa. A maioria está aberta a campistas ou oferece alojamento, o que significa que podemos passar uma noite inteira a olhar para a beleza universal do céu – realçando ainda mais a sua necessidade de proteção.

Nos EUA, uma lista crescente de Reservas Dark Sky oficiais fornece cenários ideais para a observação estelar. Cada vez há mais cidades, vilas e regiões a trabalhar na preservação dos seus céus noturnos para ajudar as populações de vida selvagem sensíveis à luz, garantindo também que os habitantes locais têm acesso a céus escuros e melhorando a indústria de turismo.

Muitos observadores de estrelas procuram as Reservas Dark Sky simplesmente para obter uma visão desobstruída da Via Láctea. Mas o céu escuro é mais do que uma simples atração turística; é uma parte vital dos esforços de proteção e conservação de vida selvagem.

“O aumento da poluição luminosa pelo mundo inteiro está agora mais firmemente ligado ao declínio de espécies de insetos polinizadores e aves migratórias, que desempenham papéis críticos nos ecossistemas saudáveis”, diz John Barentine, diretor de conservação da International Dark Sky Association.

Existem atualmente mais de 60 parques, comunidades e reservas Dark Sky nos EUA. Mas apenas 12 dos 63 parques nacionais da América são certificados pela IDA. Esta certificação inclui o Grand Canyon, Mesa Verde, Joshua Tree, Vale da Morte e os Parques Nacionais de Big Bend.

Estrelas iluminam o Celeiro Moulton em Mormon Row, no Parque Nacional de Grand Teton.

Fotografia de Raul Touzon, Nat Geo Image Collection

Os locais “Dark Sky” e outras áreas protegidas semelhantes não contribuem apenas para os ecossistemas saudáveis, também servem como laboratórios naturais para os estudos de campo em grande escala. No Parque Nacional de Grand Teton, no Wyoming, o Serviço Nacional de Parques dos EUA está a realizar investigações de “tratamento de iluminação” em alguns dos parques de estacionamento do parque para estudar os efeitos dos comprimentos de onda de luz na população de vida selvagem circundante. Aliás, esta experiência só é possível porque o parque está amplamente protegido da influência da poluição luminosa.

Os parques nacionais costumam atrair multidões, mas não são os únicos locais onde podemos ter um vislumbre do cosmos. Seguem-se algumas áreas protegidas no Arkansas, Idaho e Nebraska, onde podemos ver as estrelas – e apreciar o trabalho de conservação das pessoas.

Noites estreladas no Arkansas

Estabelecido em 1972, o Rio Nacional Buffalo, no noroeste de Arkansas, tornou-se o primeiro Rio Nacional do país e, em 2019, recebeu a designação International Dark Sky. De acordo com Cassie Branstetter, chefe de interpretação do Parque Dark Sky do Rio Nacional Buffalo, a equipa trabalhou em estreita colaboração com os parceiros comunitários do parque no início do processo de certificação porque “não é apenas a nossa própria infraestrutura que pode poluir o céu noturno, também é a poluição luminosa vinda das comunidades próximas.”

As cidades vizinhas não foram obrigadas a fazer alterações para o Rio Nacional Buffalo receber a sua designação IDA. Mas, inspirados pelos esforços do parque, os funcionários da vizinha Gilbert mudaram a iluminação da sua cidade para melhor preservar o céu noturno.

Ben Fruehauf, ex-presidente da Câmara de Gilbert e proprietário do Buffalo Camping & Canoeing, prevê – e está ansioso para – o aumento do turismo Dark Sky na região. Como o parque não tem planos para realizar festas Dark Sky, Ben Fruehauf e os seus vizinhos decidiram planear os seus próprios eventos. Em outubro, Gilbert vai organizar o seu primeiro Festival Dark Sky, com uma participação estimada entre 1.500 a 3.000 pessoas.

De acordo com Ben, não faltam terrenos para tendas de campismo e autocaravanas, para além de algumas dezenas de cabanas e pousadas na cidade de Gilbert e arredores. Ben acrescenta que, como Gilbert é um destino popular nas Ozarks para rafting, canoagem, caminhadas, ciclismo e tirolesa, os participantes do festival têm muitas atividades ao ar livre para complementar os eventos programados.

Idaho e o cosmos

Idaho é o lar da Reserva Dark Sky de Idaho Central, a primeira região do país reconhecida pela IDA e o único céu com uma avaliação dourada (um estatuto reservado para os céus mais escuros). O Parque Estadual de Bruneau Dunes pode em breve receber esta designação. Bruneau, que tem a duna de areia de estrutura única mais alta da América do Norte, com mais de 140 metros acima do deserto circundante, começou a procurar a sua designação IDA em 2015.

Os funcionários do parque passaram anos a garantir financiamento e a instalar acessórios certificados pela IDA. Mas a pandemia forçou a equipa a redirecionar os seus esforços para a manutenção do parque devido ao aumento de visitantes. O diretor do parque, Bryce Bealba, diz que a nova meta é garantir a certificação da IDA até maio de 2023, para coincidir com o 25º aniversário do telescópio do parque, bem como com a abertura de um novo observatório.

Construída em 1998, a torre de observação do parque atrai milhares de visitantes todos os anos, e Bryce espera que o novo telescópio e a designação Dark Sky ensinem as pessoas sobre “a importância de preservar o céu noturno e os potenciais impactos da poluição luminosa nos humanos e vida selvagem”. O novo telescópio não vai ser apenas mais poderoso, vai eliminar a necessidade de uma escada para se chegar à ocular, ficando assim acessível a pessoas com deficiências.

Constelações sobre o Nebraska

Localizada 40 quilómetros a sudoeste de Valentine, no Nebraska, a Área de Recriação e Reservatório Estadual Merritt realiza as suas festas anuais, ou Star Parties, desde meados dos anos 1990, uma época em que as festas de observação estelar só existiam em cerca de cinco cidades pelo mundo inteiro.

Agora que esta região pouco conhecida corresponde aos requisitos da IDA, incluindo a instalação de escudos em torno de luzes exteriores e lâmpadas de baixa temperatura, bem como a realização de um inventário sobre iluminação, a equipa está a trabalhar para obter a designação de Santuário Dark Sky. Esta categoria destina-se a áreas particularmente remotas e geograficamente isoladas, com poucas ou nenhumas ameaças à qualidade do céu noturno.

(Reserva Dark Sky: Conheça o lado negro do Alqueva.)

Para os observadores estelares que desejam observar a Via Láctea em grupo, a Star Party anual do Nebraska atrai todos os verões centenas de entusiastas de céus escuros. O espaço sobre o Reservatório Merritt e nas proximidades da Floresta Nacional Samuel R. McKelvie oferece uma observação fenomenal das estrelas entre abril e outubro; e a 28ª Star Party Anual do Nebraska deste ano estava agendada para 1 a 6 de agosto.

“Queremos que todos os que visitem Merritt aproveitem a visão imaculada das estrelas”, diz Jenn Bartja, especialista em viagens de aventura da Nebraska Tourism, “mas a nossa participação no Programa Internacional Dark Sky tem como objetivo ajudar a promover a proteção dos céus noturnos.”

De acordo com Jenn Bartja, geralmente isto é uma coisa tão simples como apagar as luzes.

Cassandra Brooklyn é uma escritora e líder de expedições turísticas sediada em Nova Iorque especializada em sustentabilidade e atividades ao ar livre. Cassandra é a autora do guia Cuba by Bike. Siga-a no Instagram e no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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