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Coleira de cão ou de escravo? Um museu holandês questiona um passado brutal.

Sob pressão de antigas colónias e ativistas, um museu histórico está a perscrutar as suas coleções para obter uma narrativa mais abrangente.

Por Ye Charlotte Ming
Publicado 15/09/2021, 11:39
Coleira de ouro

Os investigadores chegaram a pensar que esta coleira finamente decorada, em exibição no Rijksmuseum de Amesterdão, pertencia a um cão doméstico. Mais tarde, foi descoberto que a coleira era usada por um negro escravizado. O Rijksmuseum é um dos vários museus europeus que estão a reavaliar os seus artefactos e a dissecar as suas raízes coloniais para recontar a história com mais precisão.

Fotografia de Rijksmuseum

Quando uma coleira de ouro do século XVII finamente gravada foi doada ao Rijksmuseum, o museu nacional dos Países Baixos em 1881, foi catalogada como uma coleira para cães. Mas, há poucos anos, quando o museu reexaminou as suas coleções para a recente exposição sobre o comércio holandês de escravos, os curadores perceberam que este belo objeto tinha um passado horrível.

“Se olharmos atentamente para as pinturas daquele período e procurarmos aquelas coleiras, não as encontramos no pescoço dos animais de estimação, mas sim nos pescoços de jovens africanos”, diz Valika Smeulders, diretora do departamento de história do Rijksmuseum e uma das curadoras da exposição Escravatura, que pode ser vista online.

Do século XVII ao século XIX, os comerciantes holandeses venderam mais de 600.000 africanos a compradores na América do Norte e do Sul e escravizaram e venderam entre 660.000 e 1.1 milhões de pessoas em territórios asiáticos.

Uma mulher observa a exposição do Rijksmuseum que apresenta a história do comércio holandês de escravos.

Fotografia de Rijksmuseum

Desde 2017, ano em que começou o planeamento da exposição Escravatura, que os curadores reavaliam as histórias incompletas de alguns dos artefactos da coleção permanente do Rijksmuseum. Este ano, o museu – conhecido pelos seus tesouros artísticos de classe mundial, incluindo obras dos pintores holandeses Rembrandt van Rijn e Johannes Vermeer – adicionou um segundo catálogo de informações a 77 itens, colocando cada um num contexto histórico mais preciso. Estes objetos serão exibidos em paralelo com as informações originais durante um ano, antes de serem integrados em futuros catálogos.

Uma reanálise semelhante está a acontecer nas instituições culturais de toda a Europa. Algumas destas organizações, muitas fundadas durante o período colonial, já estiveram repletas de artefactos adquiridos de forma ilegal ou pouco ética, cuja história foi em grande parte escamoteada. Agora, sob pressão de antigas colónias, ativistas e académicos, vários museus estão a explorar narrativas que confrontam as raízes coloniais e os legados das suas coleções, ponderando quem devia contar estas histórias.

Mudança interna

Em Amesterdão, o Rijksmuseum, fundado em 1885, acumulou a sua coleção a partir de propriedades privadas dos “ricos da sociedade, os que tinham poder político, os que tinham os meios económicos”, diz Valika Smeulders. “O período mais importante na nossa coleção é o século XVII, que é o início do período colonial [holandês].”

Esquerda: Superior:

Este retrato de 1665 mostra Pieter Cnoll (ao centro), um comerciante da Companhia Holandesa das Índias Orientais, ao lado da sua esposa, Cornelia van Nijenrode, das filhas e de dois servos escravos. Surapati, o homem ao fundo que está a segurar numa bandeira, iria rebelar-se contra a Companhia Holandesa das Índias Orientais em Java, tornando-se assim um herói nacional.

Direita: Fundo:

Uma etiqueta interpretativa próxima do quadro explica o significado de Surapati, uma figura frequentemente esquecida no fundo deste retrato de família.

Fotografia de Rijksmuseum(Esquerda)(Superior)
Fotografia de RIJKSMUSEUM(Direita)(Fundo)

O museu reconhece que tem sido lento a abordar a sua história. “O passado colonial e a escravatura em específico são um tema regular de debate na esfera pública”, afirma Valika Smeulders. “Ainda assim, na educação e nos museus, estes temas têm sido pouco representados.”

Em 2013, quando o museu nacional celebrou o fim das suas obras de renovação, que demoraram 10 anos, o museu começou a fazer uma análise mais crítica sobre a sua coleção e sobre as terminologias utilizadas na descrição das suas obras. Isto levou à remoção de termos desatualizados ou racistas dos títulos das obras de arte, bem como à criação de uma visita multimédia para telemóvel que reexamina a história colonial holandesa.

“A história da Holanda é uma história internacional e a nossa sociedade é o legado dessa história”, diz Valika, especialista em histórias pouco representadas na história da escravatura holandesa. Nascida em Curaçao, uma ex-colónia holandesa nas Caraíbas que ainda faz parte dos Países Baixos, Valika Smeulders diz que, para se contar adequadamente as histórias de uma sociedade diversa, os museus precisam de funcionários com perspetivas culturais e profissionais variadas, e a mudança não se deve ficar pelas exposições sobre raça. “Se tornarmos estas mudanças permanentes, o conhecimento amplo e diverso que adquirimos pode ser incorporado e utilizado em todas as áreas.”

Narrativas em conflito

Noutras instituições europeias está a acontecer uma introspeção semelhante. Em 2018, após uma renovação de cinco anos, o Museu de África, na Bélgica, criticou fortemente a ocupação brutal do rei Leopoldo no Congo. Isto marcou uma reviravolta para um museu que anteriormente retratava a colonização como uma dádiva da civilização e melhor bem-estar para os povos supostamente selvagens. Agora, as exposições deste museu descrevem a história colonial da Bélgica e a forma como os objetos foram adquiridos.

Algumas instituições, como a Associação Alemã de Museus, estabeleceram diretrizes para cuidar dos objetos obtidos à força ou através de vendas ilegais. As recomendações salientam que os museus têm a responsabilidade de fornecer acesso às comunidades de origem das obras, incluindo a digitalização de arquivos para que outros países consigam localizar facilmente os objetos perdidos. Estas diretrizes também priorizam a construção de relações com as comunidades de origem para promover a troca de opiniões e um maior conhecimento sobre os itens das coleções, para além de detalhar a forma como se deve lidar com artefactos que não têm uma proveniência clara ou que foram adquiridos através de métodos eticamente questionáveis.

“Estas diretrizes ajudaram a sensibilizar curadores, conservadores e diretores de museus”, diz Larissa Förster, da Fundação Alemã de Arte Perdida, que financia as investigações dos museus sobre a origem das suas coleções. O estudo da proveniência dos artefactos força as instituições a “consciencializarem-se de como se tornaram cúmplices do projeto colonial”, diz Valika.

Mas os registos da era colonial que detalham as histórias de aquisição podem ser difíceis de obter, sobretudo depois de duas guerras mundiais durante o século XX. Quando existem registos, geralmente foram escritos pelas pessoas que se apropriaram dos objetos, deixando de parte as perspetivas daqueles que os possuíam, criaram ou usaram originalmente.

Para além de todo este processo moroso, temos as batalhas de longa data sobre a restituição ou devolução de obras de arte ou artefactos aos seus países de origem. O exemplo mais famoso são os Mármores do Pártenon (também conhecidos por Mármores de Elgin) do Museu Britânico, que foram retirados do seu ponto de referência mais famoso em Atenas por Lord Elgin, o embaixador britânico no Império Otomano, entre 1801 e 1805. A Grécia quer os mármores de volta, mas o Museu Britânico recusou a sua devolução, alegando que os mármores foram adquiridos legalmente. Outro dos objetos é o busto de Nefertiti que está no Museu Neues em Berlim, objeto que é alvo de uma campanha de repatriação por parte de especialistas em antiguidades egípcias.

Muitos museus rejeitam as reivindicações de repatriação com base no conceito de “museus universais”, uma declaração assinada em 2002 pelos principais museus da Europa e dos Estados Unidos, que afirma que os objetos têm valores globais e que os museus que os mantêm podem salvaguardá-los para toda a humanidade. (Esta declaração foi feita originalmente em defesa da posição do Museu Britânico sobre os Mármores do Pártenon). Os críticos argumentam que só as pessoas que visitam esses museus em cidades ocidentais, como Londres ou Nova Iorque, é que têm acesso aos mesmos.

A maioria dos esforços feitos pelos países que desejavam recuperar os seus tesouros não teve sucesso, mas há avanços por parte das organizações que são favoráveis à repatriação. Em maio, a Alemanha anunciou planos para enviar centenas de peças roubadas de regresso para a Nigéria, tornando-se no primeiro país a concordar em devolver os bronzes do Benim que foram saqueados pelos soldados britânicos no final do século XIX. Pouco depois, o Museu Nacional da Irlanda também se comprometeu a fazer o mesmo.  

“A restituição é uma forma de reparar as injustiças do passado, reparar o que pode ser reparado”, diz Larissa Förster. “Os museus pelo mundo inteiro estão a despertar e a tomar consciência do colonialismo e dos seus legados.”

Opinião pública

O público está a ficar cada vez mais consciente de que estas instituições nem sempre são templos neutros do conhecimento. Mas os visitantes dos museus podem sentir-se muitas vezes oprimidos pelas narrativas que são apresentadas, diz a autora e historiadora de arte Alice Procter. “Vamos a um museu e esses espaços são montados para fazer parecer que tudo ali é inevitável – é uma história única; aquela é a verdade.”

Antes da pandemia, Alice Procter organizava visitas independentes aos museus de Londres, como o Museu Britânico, durante as quais falava sobre as raízes coloniais das coleções de arte ocidental e ensinava os visitantes a examinarem as informações de uma exposição. “Pensem na linguagem que é usada para descrever os locais”, diz Alice. “Será que falamos sobre esses lugares com os seus nomes coloniais?”

Os textos que acompanham a arte e os artefactos nos museus chegam por vezes a mencionar quem doou os objetos, mas raramente descreve a forma como foram adquiridos. “O que se passava nos bastidores... qual era a dinâmica de poder que permitia a esta pessoa fazer uma coleção”, questiona Alice. “Como é que este homem britânico conseguiu viajar pela Índia no século XVIII?”

Valika Smeulders acrescenta que, para tornar os museus mais inclusivos, os visitantes de todas as origens devem conseguir ver as exposições como se fossem as suas próprias organizações de património e não devem ter receio de partilhar as suas opiniões. “As histórias das pessoas devem fazer parte disto.”

Alice Procter, historiadora de arte, durante uma visita de “Arte Desconfortável” na Galeria Nacional de Retratos, em Londres, em janeiro de 2019. Estas visitas mostram como o imperialismo e o colonialismo sustentam as coleções de algumas das principais instituições culturais de Londres, incluindo o Museu Britânico e a Galeria Nacional de Retratos.

Fotografia de Andrew Testa, The New York Times/Redux

Em 2017, quando o Rijksmuseum anunciou à imprensa que ia organizar a exposição Escravatura, membros do público também apresentaram as suas ideias sobre o que devia ser colocado na exposição. “Fomos abordados por muitas pessoas, escreveram-nos muitos emails e deram-nos as suas opiniões”, afirma Valika.

O museu também permitiu que uma equipa de filmagens acompanhasse o planeamento da exposição. O documentário resultante, New Light, foi transmitido na televisão pública da Holanda este ano. “Todas as pessoas viram como nos questionámos uns aos outros, como lutámos sobre o que devíamos colocar na exposição.”

Com os conselhos da opinião pública, o Rijksmuseum apresentou as histórias de 10 indivíduos, incluindo pessoas escravizadas, os que escravizavam e indivíduos que ganharam a sua liberdade. O museu tem uma visita áudio da exposição que não é narrada pelos curadores, mas sim pelos descendentes diretos ou outros que partilham uma história semelhante. Valika diz que, “desta forma, os museus não estão apenas a expandir as suas narrativas para incluir o legado colonial, estão também a apresentar a história de maneira que fique claro que não se trata de um passado muito antigo, porque as pessoas ainda sentem o legado desta história no seu quotidiano”.

Ye Charlotte Ming é uma jornalista sediada em Berlim. Ye Ming escreve sobre cultura, história e fotografia.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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