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O Canadá está a dificultar a observação de baleias

Os novos regulamentos visam salvar orcas e baleias-jubarte. Eis o que significa para o turismo de observação de baleias.

Publicado 21/09/2021, 12:34
Baleia beluga

Uma baleia beluga na Baía de Hudson, na província canadiana de Manitoba. O Canadá atualizou recentemente os seus regulamentos para os mamíferos marinhos, o que significa que as embarcações devem manter uma distância ainda maior das baleias.

Fotografia de Kike Calvo, Nat Geo Image Collection

Três turistas em fatos de mergulho deitam-se de bruços num flutuador de espuma amarrado a um barco na Baía de Hudson, perto de Churchill, em Manitoba. Estas pessoas estão a ser puxadas pelo barco, com máscaras de mergulho na água gelada, na esperança de ver baleias beluga a olhar de volta.

Este passeio de aquaplanagem e observação de baleias é uma das soluções alternativas amigáveis das baleias que a indústria do turismo criou desde que o Canadá começou a implementar regulamentos mais rígidos para proteger a vida selvagem marinha em 2018.

As regulamentações mais rígidas têm como objetivo travar as interações humanas com as baleias, muitas das quais estão em perigo crítico de extinção devido à subida da temperatura do oceano, escassez de alimentos e aumento do tráfego marítimo. De acordo com estas novas regras, todos os barcos devem manter uma distância ainda maior dos mamíferos. Algumas atividades, incluindo mergulhos com baleias-jubarte, estão proibidas.

A maioria das pessoas concorda que as baleias precisam de proteção, mas há debates sobre o alcance das restrições nas embarcações de observação de baleias, que algumas empresas dizem ser “excessivamente onerosas e até excessivas”. Ainda assim, as leis no Canadá mudaram, o que significa que os turistas precisam de ajustar as suas atitudes em relação à forma como observam e apreciam baleias.

As baleias precisam da nossa ajuda

Nas águas canadianas vivem cerca de 30 espécies de baleias. Os turistas podem observar as baleias em toda a costa – desde cidades como Vancouver e Halifax a aldeias como Pond Inlet em Nunavut. Uma viagem de verão a Churchill garante praticamente um avistamento de algumas das 55.000 baleias beluga da Baía de Hudson. As belugas juntam-se a outra dezena de espécies de baleias nos rios St. Lawrence e Saguenay, no Québec, e são facilmente observadas perto da cidade de Tadoussac. Em Terra Nova e Labrador, as baleias nadam por vezes perto dos icebergues.

Um grupo de baleias beluga a nadar ao largo da ilha Baffin, em Nunavut.

Fotografia de Paul Nicklen, Nat Geo Image Collection

Apesar desta abundância de oportunidades de avistamento, algumas baleias estão em perigo de extinção. O número de baleias-francas-do-atlântico-norte é de apenas 366, restando apenas 74 orcas residentes do Sul no Mar Salish, perto da Colúmbia Britânica e do estado de Washington. O alarme foi levantado sobre a situação das orcas residentes do sul em 2018, quando a orca J35, também conhecida por Tahlequah, empurrou o cadáver da sua cria durante 17 dias ao longo de 1.600 quilómetros.

“Muitas das operadoras de observação de baleias reconhecem a necessidade de proteção das baleias e respeitam as regras”, diz Sebastian Teunissen, diretor executivo do Instituto de Baleias Canadiano, uma organização sem fins lucrativos. Na verdade, um estudo feito em 2020 com baleias no Mar Salish descobriu que 72% dos velejadores recreativos desconheciam as regras de observação de baleias. Entre os 365 “incidentes” registados com baleias no ano passado – principalmente violações de velocidade ou distância – apenas 2.7% foram aplicadas a embarcações turísticas.

Apesar dos regulamentos atualizados e da sensibilização, Sebastian alerta que “a interação humana continua a ser uma das principais causas de morte e ferimentos das baleias”. O exemplo mais famoso é a orca Luna (ou L98), conhecida por se aproximar de humanos e barcos perto de Nootka Sound, na Colúmbia Britânica. Luna morreu em 2006 depois de se aproximar demasiado de uma hélice.

As preocupações do Instituto de Baleias Canadiano incluem garantir que as baleias conseguem aperceber-se melhor da aproximação de navios; evitar que os cetáceos se enleiem nas redes e materiais de pesca; e ajudar a mitigar os efeitos das alterações climáticas nos animais.

Lidar com as ameaças

A diminuição do número populacional de baleias e o aumento das ameaças levaram o governo canadiano a fortalecer os seus regulamentos de proteção às baleias e a outros cetáceos nos últimos anos.

Antes das regras atualizadas, o comandante de um barco que avistava um grupo de baleias no Mar Salish desligava o motor. Geralmente, o grupo continuava a nadar em direção aos observadores de baleias. Em Terra Nova e Labrador, onde a maior população mundial de baleias-jubarte passa o verão, mergulhar com baleias era muito popular.

Por todo o Canadá, antes de os novos regulamentos entrarem em vigor, os barcos de observação de baleias costumavam respeitar os animais, embora alguns se aproximassem demasiado para oferecer oportunidades fotográficas aos clientes. Atualmente, os únicos encontros próximos legais só acontecem se as baleias surpreenderem o comandante de um barco, porque o afastamento não é seguro.

No Estuário de Churchill, em Manitoba, baleias beluga curiosas seguem um barco de observação de baleias.

Fotografia de Cindy Hopkins, Alamy

Agora, no Canadá, é ilegal perturbar os mamíferos marinhos; estas ações incluem nadar e interagir com os animais. Todas as operadoras de embarcações devem reduzir a velocidade, o ruído e a pesca sempre que as baleias estiverem por perto. Outras proteções incluem a suspensão de algumas atividades de pesca comercial e recreativa e a criação de novos santuários de baleias.

Desde 2018 que os barcos precisam de permanecer a 100 metros de distância da maioria das baleias. Para as orcas na Colúmbia Britânica (e as belugas no Québec), esta distância aumentou desde 2018 para os 400 metros. “Se virmos uma barbatana ou repuxo de água – devemos ficar longe”, aconselha uma infografia do governo.

Ficar longe das baleias pode ter efeitos negativos indesejados. “As orcas do Sul precisam de nós”, diz Erin Gless. “Se não podemos vigiá-las, não conseguimos protegê-las.” Erin Gless é diretora executiva da Associação de Observação de Baleias do Pacífico, que representa 29 operadoras comerciais de observação de baleias no estado de Washington e na Colúmbia Britânica – estas operadoras têm meio milhão de passageiros todos os anos.

Erin diz que as empresas de observação de baleias ajudam a aconselhar os cientistas sobre a localização e saúde das baleias, e que os barcos de observação de baleias fornecem dicas visuais a outros velejadores de que as baleias estão presentes, o que melhora o comportamento dos velejadores.

O que significam as restrições para o turismo de baleias

O turismo desempenha um papel importante na conservação e proteção de vida selvagem e habitats. “Somos os olhos e os ouvidos [do] mundo, partilhamos observações e alertamos onde as baleias estão a ser assediadas ou abusadas”, diz Mike Reimer, proprietário/operador da Churchill Wild, uma empresa de observação de baleias na Baía de Hudson.

De facto, as operadoras de observação de baleias têm mantido cada vez mais o público ciente e interessado na proteção da vida selvagem marinha. Belle McCarthy, da Tofino Resort + Marina da Ilha de Vancouver, diz que os seus comandantes pretendem duplicar a distância mínima exigida “para criar um respeito mútuo entre os nossos clientes e a vida selvagem”.

(As baleias-jubarte não conseguem engolir um humano. Descubra porquê.)

Mas alguns operadores turísticos – sobretudo em áreas pouco visitadas como Churchill, Manitoba e Terra Nova e Labrador – querem um diálogo renovado entre o governo e as empresas comerciais. O objetivo, diz Mike Gatherall, da Gatherall’s Puffin & Whale Watch em Terra Nova, é adaptar os regulamentos para que “as baleias sejam protegidas, permitindo ao mesmo tempo as oportunidades de educação e consciencialização oferecidas pelos passeios profissionais e experientes de observação de baleias”.

Nas 475.000 milhas quadradas da Baía de Hudson, os regulamentos são um desafio para os operadores de barcos, que devem permanecer a 100 metros de distância das baleias beluga na região, mas em dois estuários estreitos de rios onde os animais se congregam, a distância disponível baixa para cerca de metade. “Tecnicamente, violamos os regulamentos assim que entramos na água”, diz Mike Reimer. “Os nossos barcos ficam rodeados por centenas de baleias beluga curiosas e amigáveis.”

Uma baleia beluga a nadar na Baía de Hudson.

Fotografia de Kike Calvo, Nat Geo Image Collection

Dada a população de 55.000 baleias beluga na Baía de Hudson, a Associação de Operadores de Turismo de Baleias Beluga em Churchill deseja isenções dos regulamentos relativas à distância e uma abordagem mais cooperativa entre governo e a indústria no desenvolvimento de regras. Ao longo das suas vidas, diz Mike, a maioria das belugas “nunca veria um barco ou teria qualquer interação com humanos”.

Mike Gatherall acredita que as regras de distanciamento das baleias devem ter em consideração não só a espécie e a distância da costa, mas também se há crias por perto e o tráfego local de embarcações. “Há casos em que se podem justificar restrições ainda maiores e outros em que as regras atuais podem ser demasiado excessivas.”

Contudo, há sinais de esperança no horizonte. Apesar de ser difícil avaliar até que ponto as proteções concedidas pelo Canadá estão a ajudar as baleias, estão a surgir indícios positivos. As orcas residentes no Sul tiveram três nascimentos no ano passado – incluindo uma nova cria para Tahlequah. Entre estas três crias, duas são fêmeas, ou seja, são essenciais para o crescimento populacional.

Observar baleias mais longe

Apesar dos extensos regulamentos, ainda existem muitas formas de os visitantes verem as baleias no Canadá. Basta procurar operadoras experientes que promovam o respeito pelas leis de proteção das baleias. A Associação de Observação de Baleias do Pacífico tem uma lista das empresas de turismo que estão em conformidade na Colúmbia Britânica. Na região de St. Lawrence, no Québec, devemos procurar membros da Eco-Whale Alliance.

Basta levar binóculos e uma câmara com objetiva zoom, como faríamos com qualquer observação de vida selvagem, e respeitar a necessidade de espaço das baleias. “As interações mais próximas entre humanos e baleias devem ser desencorajadas, independentemente da saúde de uma população”, diz Sebastian Teunissen. A habituação aos humanos “não melhora a vida da vida selvagem, podendo até ser prejudicial”.
 

Johanna Read é uma escritora que mora em Vancouver e que é especializada em turismo responsável. Siga-a no Twitter e no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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