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Descubra as ‘cavernas infernais’ irlandesas onde nasceu o Halloween

Explore a antiga capital da realeza que deu origem à nossa noite dos mortos preferida.

A entrada despretensiosa da caverna Oweynagat em Rathcroghan, na Irlanda, oculta  o papel central que esta caverna teve na história pagã celta. Oweynagat era considerada um portal para o submundo repleto de demónios e o local de nascimento do festival Samhain, as antigas raízes do Halloween. Agora, a Irlanda está a fazer esforços para que este sítio arqueológico seja classificado Património Mundial da UNESCO.

Fotografia de Ronan O'Connell
Publicado 13/10/2021, 12:15

No meio de um campo, numa parte menos conhecida da Irlanda, está um enorme monte ocupado por ovelhas. Estes animais alimentam-se e vagueiam livremente pelo local. Porém, se as ovelhas estivessem neste mesmo sítio há 2.000 anos, provavelmente teriam ficado horrorizadas com os cânticos entoados por pagãos mascarados, enquanto eram sacrificadas em honra dos demónios celtas que habitavam a caverna Oweynagat nas imediações.

Considerada pelos antigos celtas uma passagem entre a Irlanda e o “submundo” infestado de demónios, a caverna de Oweynagat (pronuncia-se “Oen-na-gat” e significa “caverna dos gatos”) foi o local de nascimento do festival Samhain, as antigas raízes do Halloween, de acordo com o arqueólogo irlandês Daniel Curley. Longe de ser o evento adequado para crianças no qual se tornou, o Halloween tem as suas origens num ritual sangrento e misterioso celebrado em Rathcroghan, um antigo centro celta que está enterrado sob as quintas do condado irlandês de Roscommon.

Daniel Curley é especialista em Rathcroghan, o antigo centro do reino irlandês de Connaught. No coração de Rathcroghan, naquele monte monumental, sacrificavam-se animais num imponente templo pagão durante o Samhain. Agora, a Irlanda está a tentar obter o estatuto de Património Mundial da UNESCO para Rathcroghan (“Rath-craw-hin”), um local misterioso com 5.500 anos que está lentamente a ser decifrado por cientistas e historiadores.

O sítio arqueológico de Rathcroghan tem em exposição uma ilustração do templo que outrora existiu no local. Há 2.000 anos, este templo era o ponto de encontro do reino de Connaught.

Fotografia por Ronan O'Connell

Enraizado na tradição

Rathcroghan tem 240 sítios arqueológicos espalhados por uma extensão de 6.4 quilómetros quadrados de terreno agrícola fértil. Estes sítios variam entre montes fúnebres e fortes anelares, pedras monolíticas, terraplenagens lineares, um santuário de rituais da Idade do Ferro e a caverna Oweynagat, o chamado “portal para o inferno”.

Há mais de 2.000 anos, quando o paganismo era a religião dominante entre a maioria do povo celta na Irlanda, foi em Rathcroghan que nasceu o festival do Ano Novo Celta de Samhain (“Sow-in”), diz Daniel Curley. No século XIX, a tradição do Samhain foi levada pelos imigrantes irlandeses para os Estados Unidos, onde se transformou no festival de gulodices que é o Halloween americano.

Dorothy Bray, professora-adjunta e especialista em folclore irlandês na Universidade McGill do Canadá, explica que os celtas pagãos dividiam o ano em verão e inverno. Dentro desta divisão havia quatro festividades. O festival Imbolc, celebrado a 1 de fevereiro, era um festival de primavera que coincidia com a época de parto das ovelhas. O festival Bealtaine, celebrado no dia 1 de maio, assinalava o fim do inverno e envolvia tradições como lavar o rosto com orvalho, colher as primeiras flores que desabrochavam e dançar em torno de uma árvore decorada. No dia 1 de agosto realizava-se o festival Lughnasadh dedicado ao deus Lugh, que era presidido pelos reis celtas e celebrava as colheitas. Depois, no dia 31 de outubro, realizava-se o festival Samhain, quando terminava um ano pastoral e outro começava.

Rathcroghan não era uma cidade, pois Connaught não tinha realmente centros urbanos e consistia em propriedades rurais dispersas. Em vez disso, este local era o ponto de encontro do reino e um lugar chave para os festivais. Durante o Samhain, em particular, Rathcroghan parecia uma “colmeia de atividade” focada no seu templo elevado, que estava rodeado por montes fúnebres da elite Connachta.

Estas pessoas privilegiadas podem ter vivido em Rathcroghan. O resto da comunidade Connachta da classe mais baixa vivia em quintas dispersas e só visitava a capital para participar nos festivais. Durante as festividades, as pessoas negociavam, festejavam, trocavam presentes, jogavam, combinavam casamentos e anunciavam declarações de guerra ou paz.

Os participantes também faziam oferendas rituais. Estas ofertas eram dedicadas aos espíritos do submundo da Irlanda, diz o investigador Mike McCarthy, guia turístico em Rathcroghan e coautor de várias publicações sobre este sítio arqueológico. Os pagãos acreditavam que aquela dimensão obscura e subterrânea, também conhecida por Tír na nÓg (“Teer-na-nohg”), era habitada por demónios, fadas e duendes celtas. Durante o Samhain, alguns destes demónios escapavam pela caverna Oweynagat.

“O Samhain era quando a parede invisível entre o mundo dos vivos e o submundo desaparecia”, diz Mike. “Criaturas temíveis do submundo emergiam para devastar a paisagem e preparar o terreno para o inverno.”

Gratos pelos esforços agrícolas dos espíritos, mas cautelosos para não serem vítimas da sua fúria, os celtas protegiam-se dos danos físicos acendendo fogueiras rituais no topo de colinas e nos campos. E para não serem arrastados para as profundezas de Tír na nÓg pelos demónios, disfarçavam-se de monstros, diz Mike. Passados dois milénios, as crianças do mundo inteiro continuam a seguir esta tradição no Halloween.

Apesar de todas estas lendas envolventes – e do extenso sítio arqueológico que habitam – uma pessoa pode facilmente passar por Rathcroghan e ver apenas vedações para o gado. A Irlanda, habitada há mais de 10.000 anos, tem tantos vestígios históricos que muitos passam praticamente despercebidos. Alguns estão escondidos debaixo do chão, foram abandonados há séculos ou lentamente consumidos pela natureza.

Isto inclui o sítio arqueológico de Rathcroghan, que alguns especialistas alegam ser o maior complexo da realeza por escavar na Europa. Para além de Rathcroghan nunca ter sido escavado, também é anterior à história escrita da Irlanda. Isto significa que os cientistas tentam descodificar a sua história através de tecnologias não invasivas e dos artefactos encontrados nas proximidades.

Um caminho nas colinas vai dar às cavernas Keshcorran no condado de Sligo. De acordo com a lenda irlandesa, estas cavernas eram as portas para o inferno e estavam ligadas a Oweynagat.

Fotografia de Ronan O'Connell

Embora os irlandeses tenham acreditado durante séculos que este local era o lar de Rathcroghan, só na década de 1990 é que uma equipa de investigadores irlandeses usou tecnologia de sensoriamento remoto para revelar os segredos arqueológicos no subsolo.

“As descobertas feitas em Rathcroghan aconteceram sem a destruição que acompanha a escavação de monumentos verticais de terraplenagem, é essa a beleza da abordagem feita a este local”, diz Daniel Curley. “[Agora] podemos realizar escavações direcionadas, algo que poderá responder às nossas questões de investigação, ao mesmo tempo que limita os danos inerentes a uma escavação.”

Candidatura a Património Mundial da UNESCO

Esta política de preservação da integridade e autenticidade de Rathcroghan estende-se ao turismo. Apesar da sua importância, Rathcroghan é pouco conhecida fora da Irlanda e também atrai poucos visitantes internamente. Talvez as coisas fossem diferentes se este sítio já tivesse sido divulgado como o “local de nascimento do Halloween”, diz Daniel Curley. Mas não há sinais do Halloween em Rathcroghan ou em Tulsk, a cidade mais próxima.

Contudo, Rathcroghan pode ter mais fama se a Irlanda for bem-sucedida nos seus esforços para obter a classificação de Património Mundial da UNESCO. O governo irlandês incluiu Rathcroghan nos “Royal Sites of Ireland”, a lista mais recente de locais para consideração a estatuto de Património Mundial. A exposição global dada pela UNESCO pode atrair muito mais visitantes para Rathcroghan.

No entanto, parece pouco provável que esta pérola histórica seja publicitada como uma atração turística relacionada com o Halloween. “Se Rathcroghan conseguisse uma classificação da UNESCO e atraísse mais atenção, seria ótimo, porque isso poderia resultar em mais recursos para cuidar do local”, afirma Daniel Curley. “Mas queremos turismo sustentável, não uma vaga tresloucada de turismo por causa do Halloween.”

Os visitantes que quiserem ver Rathcroghan podem ter problemas em encontrar a sua caverna infernal. Oweynagat é elusiva – apesar de há 2.000 anos ter sido o local de nascimento da rainha Medb, ou Maeve, que provavelmente é a rainha mais famosa da história da Irlanda. A caverna está mal sinalizada e está escondida atrás de umas árvores num recinto com cercas, no fim de uma estrada sem saída, a cerca de mil metros a sul do monte do templo – que é bastante mais acessível.

Os visitantes podem saltar cerca, caminhar pelo campo e descer pela passagem estreita de Oweynagat. Na Idade do Ferro, este comportamento teria sido extremamente arriscado durante o Samhain, e o uso de um disfarce monstruoso talvez não fosse suficiente para escapar à ira de um demónio.

Quer seja para evitar demónios ou para andar de casa em casa, para os antigos celtas e também para as crianças da atualidade, a noite de 31 de outubro impõe respeito. Mas há uma diferença fundamental. Há cerca de dois milénios, os monstros que vagueavam pelo festival Samhain recebiam carcaças de animais.

Hoje em dia, as multidões de jovens que vagueiam na noite de Halloween ficam satisfeitas com guloseimas. Enquanto se perdem nesta brincadeira anual, a maioria das pessoas não percebe que está a imitar uma tradição pré-histórica ligada a cavernas infernais, monstros sobrenaturais e um reino celta enterrado.

O australiano Ronan O’Connell é jornalista e fotógrafo freelancer sediado na Irlanda e na Tailândia.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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