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Será que alguns dos lugares mais ameaçados do mundo deviam estar vedados a turistas?

Os especialistas avaliam o que se pode fazer para mitigar o sobreturismo.

Por Norie Quintos
Publicado 15/10/2021, 12:56
Desfiladeiro Fjaðrárgljúfur, no sudeste da Islândia

O desfiladeiro Fjaðrárgljúfur, no sudeste da Islândia, foi invadido por turistas depois de aparecer no vídeo I’ll Show You de Justin Bieber em 2015. O aumento do tráfego de pedestres provoca danos graves na vegetação circundante, pelo que as autoridades costumam encerrar esta área para permitir a sua recuperação.

Fotografia de DB Images, Alamy Stock Photo

A perda de habitat, o sobreturismo e as consequências das alterações climáticas colocam cada vez mais pressão sobre alguns destinos turísticos, mesmo com as paralisações forçadas devido à pandemia a proporcionarem um certo descanso a lugares que costumam estar apinhados de turistas.

Isto levou-nos a fazer a seguinte questão aos subscritores da nossa newsletter e aos nossos seguidores no Facebook: “Será que devíamos ter lugares na Terra vedados ao turismo? A natureza deve ter algum tipo de restrição?”

As respostas inundaram a nossa caixa de correio eletrónico, com a maioria a apresentar argumentos que visam limitar o turismo. “As últimas décadas ensinaram-nos muito sobre o que acontece aos lugares selvagens quando as pessoas andam por todo o lado”, escreve Margaret Cervarich, referindo a acumulação de lixo no acampamento base do Evereste.

“Na minha opinião, muitas das áreas imaculadas e protegidas deviam estar completamente vedadas aos humanos. E em algumas zonas avaliadas cuidadosamente deve ser permitida a realização de estudos científicos”, escreve Charlisa Cato. Várias pessoas, incluindo Alper Takci, sentem que as restrições deviam ir mais além: “Devíamos vedar todo o planeta aos humanos.”

Acredita-se que as paredes maciças e escarpadas do desfiladeiro Fjaðrárgljúfur se formaram há cerca de 10.000 anos, no final da última Idade do Gelo.

Fotografia de Scott Barclay, Alamy Stock Photo

De facto, alguns locais têm sido temporariamente encerrados aos visitantes, incluindo o desfiladeiro Fjaðrárgljúfur, na Islândia, que se tornou viral através de um vídeo de Justin Bieber. A baía de Maya, no arquipélago tailandês de Phi Phi, foi invadida e os seus corais destruídos após a estreia em 2000 do filme A Praia com Leonardo di Caprio. Esta praia, que está encerrada desde 2018, pode reabrir em breve com condições mais rígidas. Também há outros destinos que proibiram atividades específicas. No Havai, uma nova lei que entra em vigor no dia 28 de outubro proíbe nadar com golfinhos-rotadores.

Também colocámos a mesma questão aos especialistas. A maioria concorda que vedar estes locais às pessoas não é a resposta. “Oponho-me à ideia de que, aparentemente, proibiríamos o turismo em lugares mais frágeis”, diz Jeremy Sampson, da Travel Foundation, uma organização sem fins lucrativos sediada no Reino Unido que trabalha no melhoramento da indústria do turismo. “Na realidade, determinados tipos de turismo podem ajudar a proteger recursos naturais ou a preservar património.”

Estratégias para diminuir a sobrelotação

Existem muitos casos em que as intervenções ajudaram a mitigar a sobrelotação de turistas. Em julho, a Itália proibiu a entrada dos enormes navios de cruzeiro nas águas de Veneza e declarou a lagoa da cidade um monumento nacional. O Butão segue há décadas uma estratégia de “alto valor e baixo volume”, com preços que só os viajantes de luxo conseguem pagar, enquanto investe na preservação da natureza e da cultura. Alguns destinos – incluindo Amsterdão – pararam ativamente de promover as cidades a turistas, mudando os objetivos de “promoção de destinos” para “gestão de destinos”, pensando no bem-estar dos habitantes locais.

“Temos muitos exemplos de sistemas de gestão de visitantes que funcionam para limitar o turismo em locais mais vulneráveis”, diz Greg Klassen, especialista em turismo sediado em Vancouver. “Por exemplo, muitos parques nacionais têm áreas que estão apenas abertas por ordem de chegada dos visitantes.”

Este tipo de medidas tem vindo a ganhar tração. Em 2017, o Peru limitou o acesso a Machu Picchu a duas entradas cronometradas por dia e restringiu os visitantes a trilhos específicos. As novas restrições mais rígidas devido à pandemia – por exemplo, os visitantes têm de comprar ingressos para horários específicos em vez de períodos de meio dia – provavelmente serão permanentes. Nos EUA, os Parques Nacionais das Montanhas Rochosas e de Yosemite introduziram recentemente um sistema de entrada programada para gerir as multidões durante a pandemia. Apesar de temporárias, estas medidas podem ser estratégias para reduzir a sobrelotação de turistas no futuro.

(Será que o sobreturismo pode ser sustentável?)

Os sistemas de entrada programada ou limitados por ordem de chegada também foram sugeridos pelo leitor Wayne Woodman, que escreve: “Creio que muitos dos nossos parques naturais e nacionais estão a ser sobrecarregados e precisam de limitações. Portanto, sim, prefiro controlos mais rigorosos com um acesso baseado na ordem de chegada, para não afetar os mais desfavorecidos.”

Porém, estas medidas não conseguem solucionar tudo. “Não se trata apenas de matemática. As pessoas querem sempre apresentar números, mas acho que isso é demasiado simplista. Podem existir outras soluções com mais subtilezas”, diz Jeremy Sampson. Podemos, por exemplo, incentivar os visitantes a terem um comportamento responsável. Nos últimos anos, destinos como a Islândia, Nova Zelândia, arquipélago de Haida Gwaii e a ilha do Havai têm pedido aos turistas para assinar compromissos de responsabilidade, quer seja antes ou no momento da chegada. As mensagens variam, mas a maioria pede aos visitantes para ter cuidado, proteger a natureza e respeitar a cultura.

Turistas assistem ao pôr do sol perto do Centro de Informações de Mauna Kea, no Havai.

Fotografia de Megan Spelman, The New York Times/Redux

“A maioria dos visitantes de Palau nem sequer sabia o que era um comportamento razoável”, diz Greg Klassen, que ajudou a desenvolver medidas para este país do Pacífico. “O arquipélago está rodeado por uma área marinha protegida, mas os visitantes levavam corais para casa, deixando lixo para trás e, em alguns casos, com um mau comportamento.”

Entre as medidas que Greg ajudou a desenvolver está uma série de diretrizes que dizem o que os visitantes podem ou não fazer (“Não recolha souvenirs de vida marinha. Aprenda sobre a cultura e as pessoas.”) Ao contrário de outras medidas, estas diretrizes são aplicadas com multas de até 1 milhão de dólares. “Mesmo em alguns locais onde estas medidas são voluntárias, os compromissos continuam a oferecer algum nível de educação e empenho – e as mudanças simples no comportamento dos visitantes também podem ser úteis”, acrescenta Greg.

Fomentar uma economia de conservação

Em alguns lugares, sobretudo em África, é fundamental que o turismo seja estritamente controlado devido à conservação da vida selvagem, e as verbas geradas por estas atividades são vitais para os habitantes locais que, de outra forma, poderiam recorrer às indústrias de extração para sobreviver.

“No Ruanda, as licenças para o turismo de alto valor, ou turismo de luxo, geram mais de 18 milhões de dólares por ano, contribuindo para o aumento da população de gorilas, que passou de apenas 254 animais em 1981 para 600 em 2019”, diz Tiffany Misrahi, vice-presidente do departamento de política e investigação do Conselho Mundial de Viagens e Turismo.

O turismo torna-se assim crucial para a preservação destes lugares selvagens. “Se estas florestas esquecidas no coração de África não estiverem ligadas às pessoas do mundo, existe o perigo de desaparecerem para sempre”, diz Praveen Moman, fundador da Volcanoes Safaris, organização que há 25 anos leva um número limitado de visitantes ao Uganda e ao Ruanda para verem gorilas-das-montanhas e chimpanzés.

Muitas vezes deixados fora desta equação estão os povos indígenas de todo o mundo – as pessoas que mantiveram o planeta em equilíbrio durante milénios.

“Podemos pegar num mapa dos ambientes ameaçados de todo o planeta e colocar outro mapa por cima com os lugares culturalmente ameaçados, onde os povos indígenas, os seus idiomas e tradições estão com dificuldade em sobreviver. Estes mapas são praticamente idênticos”, diz Elizabeth Kapu’uwailani Lindsey, cineasta polinésia, antropóloga e Exploradora da National Geographic.

“Portanto, quando falamos sobre lugar, também devemos falar sobre pessoas. Precisamos da sabedoria de quem tem gerido a terra durante milhares de anos. Precisamos de aprender com estas pessoas e nutrir a nossa própria interligação com o mundo natural.”  

No Canadá, nos fiordes costeiros da Colúmbia Britânica, na Floresta Tropical de Great Bear, existe uma faixa de terreno do tamanho da Irlanda que protege árvores com mil anos e o urso mais raro do mundo. Nesta floresta, a Spirit Bear Lodge –propriedade da Nação Kitasoo Xai’xais – dá as boas-vindas a visitantes de todo o mundo cujo dinheiro revitaliza as comunidades locais e financia a conservação, incluindo um esforço bem-sucedido para impedir a caça aos ursos.

Esquerda: Superior:

Árvores antigas rodeiam um lago costeiro na Floresta Tropical de Great Bear, no Canadá. Em 2006, dois milhões de hectares de floresta tropical – quase o tamanho de Nova Jersey – foram interditados aos madeireiros.

Direita: Fundo:

Uma mãe urso-pardo e as suas crias de um ano observam a outra margem de um rio na Floresta Tropical de Great Bear.

Fotografia de Ian McAllister, Nat Geo Image Collection

“Os mais velhos costumam dizer que o que temos aqui não é nosso, estamos apenas a cuidar das coisas para as gerações seguintes, e isso é muito importante em tudo o que fazemos”, diz Douglas Neasloss, conselheiro-chefe da Nação Kitasoo Xai'xais. “A comunidade deixou bem patente que não se trata apenas de dinheiro, mas sim do futuro. Conseguimos revitalizar a nossa cultura e criar um modelo de negócio sustentável, onde não pescamos um peixe ou cortamos uma árvore.”

Para ajudar a ligar estes empreendimentos sociais e de conservação aos viajantes – que, de outra forma, convergiriam para os mesmos locais frágeis – a Jordânia, juntamente com a Tourism Cares, uma organização sem fins lucrativos, criou um “mapa de viagens importantes” do país. Este mapa refere 12 experiências ligeiras, que dispersam os turistas e têm um grande impacto na comunidade. O programa teve tanto sucesso que a Colômbia está a planear um mapa semelhante.

Vedar o acesso aos visitantes talvez deva ser encarado como um último recurso, e algumas das respostas dos nossos leitores concordam com esta perspetiva. “Para preservarmos os lugares que estão ameaçados, precisamos de permitir que um número mínimo de pessoas fiquem maravilhadas com esses lugares”, escreve Ebrahim Hamad. “As pessoas não vão proteger o que não conhecem”.

Começar com um objetivo em mente

Outra ideia é construir um destino a partir do zero. Erguendo-se no deserto costeiro da Arábia Saudita no Mar Vermelho, numa área do tamanho da Bélgica, está uma futura cidade chamada Neom. Os planos desta cidade exigem a preservação de 95% da natureza, “sem carros, sem ruas e sem emissões de carbono”.

“É um dos primeiros destinos a nível mundial que é completamente impulsionado pelos princípios do turismo regenerativo”, diz Paul Marshall, diretor do departamento do ambiente da Neom. Este destino planeia usar a tecnologia para transformar a forma como as pessoas se envolvem com a natureza e a conservação, em vez de canalizar os turistas para um centro de visitantes.

“Queremos ter um centro de visitantes feito de dentro para fora com tecnologias como realidade aumentada e realidade virtual para projetar [imagens] enquanto as pessoas estão ao ar livre na natureza”, diz Paul. “Não é a natureza a fingir que está num edifício; a paisagem real vai ter informações projetadas.”

Mas também existem outras aplicações tecnológicas. O Instagram e outras plataformas de redes sociais contribuem para a destruição de lugares mais frágeis, já que os imitadores seguem os influenciadores para lugares “instragamáveis”, mas há outras organizações que estão a usar os mesmos métodos para mitigar os danos.

A organização Leave No Trace, juntamente com destinos como Jackson Hole, incentiva os viajantes a usar marcadores geográficos genéricos em vez de específicos, para reduzir as probabilidades de sobrelotação num local em específico. E a realidade virtual, que manteve as pessoas a “viajar” durante a pandemia, pode facilmente ser implementada para aliviar o fardo em alguns dos destinos mais fragilizados. As famosas cavernas de Lascaux em França, que estão encerradas desde 1963, partilham a sua notável arte pré-histórica através de uma caverna replicada, uma exposição itinerante de alta tecnologia e passeios virtuais online.

“Alcançar um futuro que permita o acesso aos lugares sem os danificar não é uma tarefa fácil. As pessoas têm boas intenções... porém, será que alguma vez houve um grupo de pessoas que concordassem em tudo?” pergunta a leitora Bárbara Cool. Talvez não, mas é fundamental agirmos.

“A questão que devíamos estar realmente a colocar é: Como é que as viagens podem ser usadas como ferramenta para resolver estes problemas globais? Porque podem ser usadas nesse sentido”, diz Jeremy Sampson.
 

COMO PODE AJUDAR
Quando estiver a percorrer o mundo, tenha sempre em consideração estas formas sustentáveis de viajar. Sempre que possível, evite viajar para locais com excesso de turismo. Evite a aglomeração de pessoas em zonas frágeis quando usa as redes sociais. A organização Leave No Trace, juntamente com alguns destinos turísticos, incentiva os viajantes a usarem marcações geográficas genéricas em vez de específicas para reduzir as probabilidades de sobrelotação de um local em específico. Se viajar para destinos como a Islândia, Nova Zelândia, arquipélago Haida Gwaii e a ilha do Havai, certifique-se de que assina e cumpre os compromissos dos visitantes, protegendo a natureza e respeitando a cultura.

Norie Quintos escreve sobre o mundo das viagens de uma perspetiva cultural. Siga-a no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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