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Para os viajantes com deficiências, os videojogos são uma janela para o mundo

As tecnologias avançadas conseguem criar ambientes tão vívidos que os jogadores podem ter benefícios ao nível da saúde mesmo sem sair de casa.

Por Laken Brooks
Publicado 26/11/2021, 12:45
Terapeuta testa os novos óculos de realidade virtual

Uma terapeuta testa os novos óculos de realidade virtual à prova de água, que reproduzem um filme de golfinhos, em 'S Heeren Loo, um centro de cuidados para pessoas com deficiências em Apeldoorn, nos Países Baixos. Os estudos mostram que as tecnologias avançadas que simulam ambientes e experiências naturais podem ser tão benéficas quanto a própria realidade.

Fotografia de John Thys, AFP/Getty Images

Valerie Johnson é uma ávida viajante que adora atividades ao ar livre. A próxima atividade na sua lista é uma viagem ao lago Walden, no Massachusetts. Mas esta texana de 27 anos não precisa de uma passagem de avião; só precisa de um videojogo.

Valerie Johnson foi recentemente diagnosticada com hipertensão intracraniana idiopática, um distúrbio neurológico que pode provocar dores de cabeça, dores nas articulações e afetar a visão. Estes sintomas tornam as viagens – principalmente ao ar livre – assustadoras. “Tenho medo de me perder num trilho ou de ter dificuldade em regressar para o meu veículo”, diz Valerie Johnson. “Portanto, apesar de acampar e fazer caminhadas ser divertido, fico hesitante em sair.”

Felizmente, Valerie Johnson encontrou um escape nos videojogos, e não está sozinha. Num momento em que as visitas aos parques nacionais e a outros locais ao ar livre estão a aumentar, os videojogos tornaram-se numa ferramenta improvável de assistência – uma nova forma para milhões de pessoas com deficiências ou doenças crónicas poderem fazer turismo.

Esquerda: Superior:

A névoa matinal cobre o lago Walden, no Massachusetts, durante o outono.

Direita: Fundo:

Esta captura de ecrã do jogo Walden, A Game mostra as extremidades de um barco à medida que este flutua pelo lago Walden. Os criadores do jogo trabalharam com especialistas locais para colocar todos os detalhes nesta experiência.

Fotografia de Timothy G. Laman, Nat Geo Image Collection(Esquerda)(Superior)
Fotografia de Courtesy Tracy Fullerton, Walden Team(Direita)(Fundo)

Em vez de navegar pela imprevisibilidade da natureza, os videojogos permitem aos viajantes visitar outros destinos a partir de casa. Para Valerie Johnson, isto significa entrar no Walden, A Game, uma simulação de “mundo aberto” onde os jogadores podem explorar de perto o oásis florestal do filósofo Henry David Thoreau. Durante o jogo, Valerie Johnson pode ouvir o vento a sussurrar pela floresta e admirar os pinheiros à beira do conhecido lago.

A natureza enquanto medicina

Os benefícios de estar ao ar livre estão bem documentados. Um estudo de 2019 descobriu que passar pelo menos duas horas por semana em contacto com a natureza reduz os níveis de cortisol – a chamada hormona do stress – e diminui a probabilidade de doenças e o sofrimento mental.

Estes benefícios podem mudar a vida de pessoas com deficiências, que tendem a apresentar índices elevados de depressão, stress e ansiedade. De acordo com um estudo, a exposição à natureza através dos chamados “banhos de floresta” ou até mesmo através da prática de jardinagem pode aliviar a dor crónica e prevenir os sintomas da depressão sazonal nos meses mais frios.

Porém, apesar de as pessoas com deficiências poderem beneficiar do contacto com a natureza, muitas vezes são excluídas das atividades ao ar livre. Paul Martin, um ávido jogador online que depende de uma cadeira de rodas e muletas para se movimentar, testemunhou esta desigualdade em primeira mão durante uma viagem ao Parque Nacional de Yosemite. “O que podia fazer, onde podia ir, era extremamente limitado”, diz Paul Martin. “Para mim, não há caminhadas no Half Dome.”

Os trilhos para caminhadas e os caminhos de gravilha nem sempre são adequados para muletas ou cadeiras de rodas. “Dependendo do terreno, as muletas podem fazer com que eu escorregue e caia”, diz Paul Martin. “Adoro pescar, mas chegar perto da água pode ser bastante perigoso.”

Nos EUA, em parte devido a estes perigos, cerca de 3.6 milhões de pessoas com deficiências raramente saem de casa, muito menos planear uma viagem até um parque nacional ou trilho de caminhada, de acordo com um relatório da Agência dos Transportes dos EUA.

É aqui que os novos videojogos de realidade virtual, com um foco nas experiências ao ar livre, podem ajudar os viajantes que estão fechados em casa. Os investigadores estão a descobrir que a exposição virtual – através de fotografias, vídeos e paisagens sonoras – pode ser tão terapêutica quanto a exposição física. Os dados que o suportam referem-se a uma descoberta feita em 2017, onde médicos suíços perceberam que os pacientes internados nas unidades de cuidados intensivos recuperavam mais depressa depois de usarem óculos de realidade virtual que mostravam inúmeras imagens da natureza.

Construir mundos

Embora os jogos sejam simulações, podem ter ainda mais impacto do que as visitas guiadas em vídeo ou galerias de fotografias. “Ver um filme ou um vídeo coloca o público numa posição passiva”, diz Sid Dobrin, autor de Mediating Nature. “Existe um certo grau de participação ativa quando estamos a interagir num videojogo.”

Por exemplo, em Thru-Hiker’s Journey, os jogadores têm de encontrar alojamento, saber quais são os mantimentos a levar e como responder a emergências que poderiam enfrentar se estivessem fisicamente a caminhar nas Montanhas Apalaches.

“Estes jogos não adicionam acomodações como rampas para cadeiras de rodas ao [Trilho dos Apalaches] real, mas podem oferecer acesso a diferentes tipos de experiências para as pessoas que não podem visitar o local presencialmente”, acrescenta Sid Dobrin.

Tecnologias como fotogrametria e imagiologia LiDAR estão a tornar os videojogos ainda mais realistas. A tecnologia LiDAR (abreviatura para Light Detection and Ranging) é usada em algumas câmaras de smartphones, mas já é usada na aviação desde 1960 para medir distâncias. Este sistema envolve um laser que reflete luz infravermelha num objeto, medindo com mais precisão a distância do objeto. A fotogrametria combina várias fotografias sobrepostas, captadas de pelo menos dois ângulos, para gerar uma imagem 3D de um objeto.

“Agora é certamente possível, através destes dois meios, criar ambientes 3D muito realistas com base numa análise real feita no terreno”, diz Alenda Chang, autora de Playing Nature: Ecology in Video Games.

Por outras palavras, os videojogos que usam estas tecnologias adicionam profundidade e amplitude aos ambientes simulados. Uma fotografia pode oferecer uma imagem agradável e realista de uma rocha, porém, num videojogo, podemos caminhar em torno da rocha e até mesmo “saltar” para cima dela.

Para além destas tecnologias avançadas, alguns criadores de jogos adicionam outros elementos. Para o jogo Walden, A Game, os programadores do USC Game Innovation Lab colaboraram com observadores de aves e especialistas em vida selvagem do Massachusetts para recriar o lago Walden como era no tempo de vida de Henry David Thoreau, seguindo a crença do filósofo de esta área tem oito micro estações do ano, em vez das quatro estações padrão.

Esquerda: Superior:

Durante o crepúsculo, duas pessoas caminham ao longo das extremidades do lago Walden, no Massachusetts.

Direita: Fundo:

Uma captura de ecrã do jogo Walden, A Game mostra uma cena semelhante.

Fotografia de Timothy G. Laman, Nat Geo Image Collection(Esquerda)(Superior)
Fotografia de Courtesy Tracy Fullerton, Walden Team(Direita)(Fundo)

“Cada arbusto, cada planta, a cor ou luz no lago, o vento a soprar, o céu e o clima – todas estas coisas mudam ao longo das nossas oito estações no jogo”, diz Tracy Fullerton, diretora do USC Game Innovation Lab. “Queremos refletir o arco emocional que representa um ano de vida na floresta.”

A oportunidade para visitar o lado Walden durante o ano inteiro através de um jogo é muito importante para Valerie Johnson, porque o clima pode provocar-lhe dores de cabeça e alterar a sua temperatura corporal. “Quero ver as estações sem que o frio ou o calor me afetem. Quero poder fechar os olhos e quase sentir que estou lá.”

Transformar destinos turísticos em jogos

Os videojogos são uma forma de escape desde que William Higinbotham revelou ao mundo um simples jogo de ténis em 1958. Hoje, milhões de jogadores por todo o mundo têm acesso aos videojogos. Durante a pandemia, este número aumentou substancialmente à medida que mais pessoas procuravam distrações durante os períodos de confinamento.

As organizações de turismo estão a começar a explorar esta popularidade transformando destinos turísticos em jogos. Recentemente, a União Europeia financiou o desenvolvimento de 40 jogos que representam locais de oito destinos. Um destes protótipos usa a histórica cidade de Vilanova, em Espanha, onde os jogadores embarcam numa aventura pelo Mediterrâneo enquanto aprendem sobre a história e cultura da região.

Por muito promissores que estes projetos sejam, os videojogos não são uma alternativa para a falta de acessos que as pessoas com deficiências continuam a encontrar. Aumentar a acessibilidade é um processo contínuo – e um desafio – para o turismo. Organizações como a Disabled Hikers incentivam os locais a tornar os trilhos mais acolhedores para os viajantes de diferentes capacidades. Alguns parques e zoológicos adotaram zonas sensoriais mais tranquilas para os visitantes com autismo.

Equilibrar preservação e conservação com acessos nem sempre é fácil. “Eu fico preocupado porque se começarmos a adicionar rampas, elevadores e outras estruturas de betão, podemos acabar por perder o que torna aquele lugar especial, ou podemos danificar o ambiente”, diz Paul Martin. “Mesmo que eu seja uma das pessoas afetadas, sinto que é importante preservar ao máximo a natureza.”

Entretanto, os videojogos estão a ajudar a preencher essa lacuna. “Os jogos aumentaram exponencialmente de popularidade durante o último ano devido aos períodos de confinamento, porque todas as outras pessoas também ficaram retidas em casa”, diz Paul Martin. “Os jogos foram sempre o meu escape, e são a minha janela para o mundo.”

Laken Brooks é escritora freelancer e cobre temas como bem-estar, cultura e tecnologia para a CNN, Washington Post, Forbes e outros meios de comunicação.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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