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Por que razão Portugal tem andorinhas por todo o lado

Estas aves de cerâmica simbolizam o lar e são um dos souvenirs mais adorados do país.

Publicado 2/11/2021, 12:14
Andorinhas de cerâmica decoram a parede de uma casa em Óbidos. Em Portugal, a andorinha simboliza ...

Andorinhas de cerâmica decoram a parede de uma casa em Óbidos. Em Portugal, a andorinha simboliza família, amor e fidelidade.

Fotografia de Zebra0209, Shutterstock

Quando André Apolinário era criança, os seus pais tiveram uma discussão por causa de um ninho. Este ninho de andorinhas era um acessório que estava na fachada da sua casa em Gaia, e teve de ser removido por operários que estavam a fazer reparações. Depois de removido o ninho, as aves que visitavam esta casa anualmente nunca mais regressaram.

André Apolinário, que dirige a Taste Porto – Food Tours, recorda a primavera em que percebeu que as andorinhas já não iam voltar.

“Lembro-me de estar a chorar e de perguntar à minha mãe porque é que não havia andorinhas naquele ano. E lembro-me da minha mãe perguntar ao meu pai porque é que ele tinha removido o ninho”, diz André Apolinário. “Fiquei muito triste porque sabia sempre que a primavera estava a chegar quando via as andorinhas e as suas crias.”

A andorinha é um símbolo da cultura portuguesa, um símbolo que muitos viajantes podem nem sequer reparar. As andorinhas visitam Portugal por alguns dos mesmos motivos que os humanos o fazem: um clima quente e boa comida. Quando o frio se instala e os insetos começam a diminuir, as andorinhas dirigem-se para sul.

Enquanto as lojas vendem bases de cortiça para copos e garrafas de Vinho do Porto, muitos turistas provavelmente passam por aquela que pode ser a lembrança mais sentimental do país: andorinhas de cerâmica. Os portugueses oferecem estas aves de cerâmica em casamentos, aniversários e inaugurações de casas – e como um presente de despedida.

Estas mesmas despedidas estavam na minha mente quando conheci André Apolinário em fevereiro de 2020. Naquele momento, eu desconhecia felizmente a agitação e os confinamentos que se seguiriam, mas estava bem ciente da cerimónia de formatura iminente do meu filho mais velho e da sua partida para a universidade numa cidade longe de casa.

Não é a primeira vez em que Ethan, o meu filho mais velho, está longe de casa. Ele já foi acampar, dormiu em casas de amigos e participou em viagens escolares, mas eu estive sempre descansada porque sabia que ele ia regressar. Ele volta sempre para casa.

Mas agora não tenho tanta certeza disso.

Estas emoções estavam no seu auge quando acompanhei André Apolinário numa visita a uma pequena loja especializada em recordações portuguesas. Eu estava a olhar para as prateleiras cheias de cadernos vibrantes, latas coloridas de bacalhau enlatado e cremes para as mãos de uma geração passada, quando reparei na abundância de andorinhas.

Laços que unem

“A andorinha está ligada a muitas das coisas que nos são queridas”, explica Ricardo Brochado, arqueólogo e cofundador da agência portuense The City Tailors. As qualidades destas aves – acasalam para o resto da vida e criam os filhos em conjunto – tornam-nas num símbolo nostálgico.

“As andorinhas só saem do ninho quando todas as suas crias saem”, diz Ricardo Brochado. “E regressam sempre.”

Uma andorinha-das-chaminés empoleirada num galho em Guerreiro, Portugal.

Fotografia de Roger Powell, Nature Picture Library

Esta ligação ao “ninho” – ao lar ou à pátria – é tão importante na cultura portuguesa que até existe uma palavra para a descrever: saudade.

Ricardo Brochado explica que este conceito é como aquela sensação de ligação melancólica que sentimos quando provamos a comida da nossa avó ou cheiramos um aroma que nos leva de regresso à infância. A andorinha é considerada a personificação desse sentimento. Quando temos uma andorinha dentro ou fora de casa, essa ave transporta consigo a saudade de quem a ofereceu, uma boa recordação.

“Quando oferecemos uma andorinha, estamos basicamente a dar uma parte de nós próprios que permanece lá. Estamos a criar uma ligação”, diz Ricardo Brochado.

Uma longa história

Em 1896, Raphael Bordallo Pinheiro registou a patente da sua versão original da andorinha de cerâmica. Raphael Bordallo Pinheiro e o seu irmão Feliciano já eram artistas de destaque na época. Quem visita Portugal provavelmente já viu os seus pratos de cerâmica – que ainda são feitos com os moldes originais em Caldas da Rainha – com o formato da comida que devem conter e celebrando coisas como repolhos, galinhas e peixes. Estes itens encontraram uma vida nova nos últimos anos entre os millennials e instagrammers, mas o capricho destas obras é diferente do trabalho feito na solene andorinha.

Andorinhas adornam a parede de uma casa no Alentejo.

Fotografia de Catarina Fale, Shutterstock

Ricardo Brochado diz que a andorinha de Raphael Bordallo Pinheiro marcou um momento crucial na história do país. Portugal estava a afastar-se do romantismo na literatura e na arte para adotar a celebração do realismo.

As andorinhas de Raphael Bordallo Pinheiro foram ficando cada vez mais populares ao longo dos anos. Apesar de ainda podermos comprar as versões originais, há artesãos por todo o país que agora oferecem as suas próprias versões desta forma icónica. Os viajantes encontram opções que variam desde os mais de cem euros até aos 50 cêntimos.

Ligação cultural

As andorinhas também servem como amuletos de proteção. Algumas pessoas acreditam que este símbolo funciona como uma mezuzá judaica, os pequenos rolos de pergaminho que são colocados nas ombreiras das portas e em templos judaicos. “Existe uma ligação comum entre o povo judeu e a diáspora portuguesa”, diz André Apolinário. “Já navegámos pelo mundo inteiro e somos imigrantes, e sentimos sempre saudades da nossa pátria. Muitas pessoas querem regressar. A andorinha representa que existe um ninho algures em Portugal, embora existam portugueses a viver pelo mundo inteiro.”

(Descubra o cobiçado vinho que colocou a ilha da Madeira no mapa.)

Quando André Apolinário me contou a história desta ave pela primeira vez, percebi que precisava de ter uma. Normalmente não compro lembranças, mas o simples facto de poder presentear alguém que amo com um pedaço importante de um lugar que adoro foi uma oportunidade à qual não consegui resistir.

Como eu temia pela vida de uma ave de cerâmica na nova vida universitária do meu filho, optei por uma versão magnética mais pequena. Em setembro, enquanto estava à porta do seu dormitório na universidade a tentar conter as lágrimas, entreguei-lhe um envelope com a andorinha cuidadosamente embrulhada e uma pequena nota a explicar a sua história.

Disse-lhe que o seu ninho permanecia connosco, à sua espera, caso ele precisasse.

Poucos dias depois, quando estávamos a fazer uma videochamada, vi a ave no seu quadro branco. “Eu adoro isto, mãe”, disse ele. “Eu coloquei-a num lugar onde a posso ver sempre, para nunca me esquecer.”

Heather Greenwood Davis é escritora de viagens sediada em Toronto e colaboradora da National Geographic. Siga-a no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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