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Sortelha, uma das aldeias mais bem conservadas do país

Do castelo às muralhas e das tradições às lendas, Sortelha é uma das aldeias mais antigas de Portugal que melhor preserva as suas estórias.
Fotografia de Município do Sabugal
Publicado 8/11/2021, 10:40

A aldeia de Sortelha é considerada uma das mais bonitas de Portugal, além de uma das mais bem conservadas. Numa verdadeira viagem no tempo, Sortelha mostra-nos que a singularidade da conservação e reconstrução pode ser um fator deveras diferenciador, para quem é apreciador da história de Portugal e pretende regressar às origens.

Sortelha mantém-se intacta no que respeita aos traços medievais das suas casas rurais em granito. Coroada por um castelo assente num conjunto rochoso a 760 metros de altitude, esta aldeia histórica faz parte dos encantos de Portugal. Quem chega a Sortelha, encontra uma aldeia feita de casas de pedra perfeitamente conservadas, como se tal retrato saísse de uma história de encantar de reis e rainhas.

(Relacionado: Conheça três das aldeias mais pequenas de Portugal.)

 Ao passear pelas ruas íngremes da vila, encontram-se casas dos séculos XV e XVI, algumas delas com elementos de estilo manuelino.

Fotografia de Município do Sabugal

Do alto do rochedo encontra-se o mais tardio castelo românico

Num alto rochoso encontra-se o castelo que remonta ao século XII, mandado construir por D. Sancho I, compondo uma importante linha defensiva de castelos fronteiriços, com as muralhas erguidas em forma circular, envolvendo a aldeia entre ruas e vielas. A vila fronteiriça, apesar de fundação medieval, teve o floral concedido em 1228, embora tenha vindo a perder o estatuto concelhio com a reorganização administrativa feita pelo estado liberal, no século XIX.

Desaparecidas as exigências defensivas da época, a população de Sortelha preferiu, progressivamente, instalar-se ao redor, em zonas mais férteis e menos acidentadas, permitindo assim a preservação do espaço dentro de muros, não o obrigando à adaptação considerada necessária para as condições de vida dos séculos que se sucederam. 

O castelo - o mais tardio castelo românico da Beira Interior - era bem marcado pela Torre de Menagem e, no seu interior, ainda se pode ver a cisterna para o abastecimento de água e uma porta falsa.

Ao longo do cume levantou-se a muralha, provavelmente na sequência de reformas promovidas por D. Dinis ou, já mais tarde, por D. Fernando, no contexto das guerras contra Castela, no seio da qual se estabeleceu a população da antiga vila. As muralhas têm quatro entradas: a Porta Nova, a Porta Falsa (ou da Traição), a Porta da Vila (ou do Concelho) e a Porta Falsa junto ao Castelo.

Foram as obras realizadas em finais dos anos 90 que devolveram o cunho ancestral a Sortelha, com muitas das caraterísticas de uma vila de inícios do século XVI.

Fotografia de Município do Sabugal

Já quase sem lagartixos, Sortelha abre portas ao turismo

Sortelha é terra de emigrantes que deixaram para trás as casas de granito talhado, umas abandonadas, outras esquecidas, onde quase ninguém quer morar por falta de trabalho. Atualmente, dentro das muralhas, conta-se apenas um morador, o dono do Bar do Forno, um dos poucos locais ainda abertos no centro histórico. Apesar do número reduzido de habitantes, o turismo cresce, principalmente por fazer parte da rede das Aldeias Históricas de Portugal.

A aldeia, que pertence ao concelho do Sabugal, conta com 450 habitantes, sendo este um décimo do que se registava no início do século XIX. A santa padroeira de Sortelha é a Nossa Senhora das Neves, que dá nome à igreja matriz e, os seus habitantes, são conhecidos como os lagartixos, que não escondem o orgulho que têm das suas tradições e monumentos históricos.

Numa visita à aldeia de Sortelha, o desafio começa na Porta da Vila, a entrada principal da aldeia, estendendo-se ao Largo do Corro, onde se encontra o único restaurante ainda em funcionamento dentro das muralhas, o Dom Sancho, tal como a casa número um, a casa mais antiga.

Como recantos únicos destacam-se o Pelourinho, datado do século XVI, a antiga Câmara e prisão de Sortelha, já usada como escola entretanto desativada, a Torre Sineira, o Passo da Via Sacra e as casas mais famosas da aldeia, a casa do Governador, dos Falcões e a casa Árabe.

O nome da aldeia deriva da palavra castelhana “sortija”, usada para designar um anel que pode estar relacionado com um jogo antigo, em que os cavaleiros tinham de fazer com que as setas passassem no centro de um anel. O Jardim do Anel, marco de visita, é um pequeno espaço junto às muralhas onde é possível avistar algumas esculturas em pedra onde se inclui também um anel, para além de várias flores coloridas.

As tradições de Sortelha mantêm-se inalteradas

Das tradições da aldeia destaca-se a arte de tecelagem do bracejo, que se apanha no campo e finaliza em cestas que compõem a oferta da única loja de artesanato típico que existe dentro das muralhas, ao lado dos doces, licores, mel e outros produtos da zona.

Depois de passar pela Porta Nova, outra das entradas para a vila, o silêncio é quase absoluto. Daqui é possível visitar o antigo Hospital da Misericórdia, as ruínas da Igreja da Misericórdia ou a Igreja da Santa Rita, como também é conhecida, datada do século XIV, para além de sepulturas antropomórficas escavadas nas rochas.

A Cabeça da Velha é uma atração que dispensa apresentações aos roteiros turísticos. Trata-se de uma curiosa formação granítica, que se localiza entre a Porta Nova e a terceira entrada para a vila de Sortelha, a Porta Falsa ou da Traição. Conta a história de uma senhora idosa de pedra a olhar para a Serra da Estrela, onde se encontra a Cabeça do Velho.

Antes de terminar a visita a Sortelha, os mais corajosos e aventureiros são desafiados a percorrer todo o anel de pedra que circunda a aldeia, para a apreciar de todas as perspetivas e constatar que se trata de uma verdadeira e incrível surpresa. A subida até à Torre Sineira é a garantia de uma vista fabulosa quer sobre Sortelha, quer sobre os vales que a rodeiam.

A região da vila oferece ainda oito percursos pedestres para quem gosta de fazer caminhadas pela natureza. Entre eles está a Rota dos Casteleiros, que começa no Largo de Santo António e termina junto da Capela de São Francisco.

No fim de setembro, acontece a feira medieval, “Muralhas com História”, que se realiza no terceiro fim de semana do mês desde o ano de 2011, oferecendo muita animação a quem a visita.

Esquerda: Superior:

Reserve algum tempo para explorar os recantos do castelo, classificado como Monumento Nacional, desde 1910.

Direita: Fundo:

A vista aérea revela como a sua situação geográfica permitia um controlo do vale.

Fotografia de Município do Sabugal

A lenda do “Beijo sem Fim”

Sortelha, dominante sobre o vale de Ribacôa, do alto das suas torres e muralhas, não se despede de apresentações apenas com o destaque de ser uma das aldeias mais belas de Portugal. É também conhecida pela lenda do “Beijo sem Fim”, uma das mais míticas estórias da localidade, que dá origem a uma festividade da região. Reza então a lenda que, no tempo em que Portugal lutava pela reconquista das Beiras aos mouros, a filha do governador de Sortelha ter-se-á apaixonado pelo príncipe mouro. Entre mensagens e presentes trocados, surge o dia do encontro. A mãe da donzela, que sempre a vigiava, decidiu segui-la e, como praticante de bruxarias, assim que os viu beijarem-se, amaldiçoou-os e transformou-os em pedra. Desde então, a lenda serviu de explicação para os curiosos penedos de Sortelha que, até hoje, conhecidos como as Pedras do Beijo Eterno.

A lenda romântica inspirou o primeiro evento do ciclo “12 em Rede – Aldeias em Festa 2019”, que incluiu um programa repleto de música, gastronomia, animação de rua e visitas guiadas, transformando esta ocasião numa oportunidade única para descobrir a aldeia de Sortelha e os seus habitantes. Neste evento, os visitantes experimentam antigas vivências do quotidiano dos aldeões, como a recriação da ceifa e da malha, aprendem a fazer molídeas para transportar os cestos no topo da cabeça, exploram várias abordagens artísticas à lenda do “Beijo sem Fim”, com ateliers e visitas guiadas encenadas com a participação da comunidade.

São três dias de autenticidade e partilha de saberes, num evento promovido pela Associação de Desenvolvimento Turístico Aldeias Históricas de Portugal, em conjunto com o município do Sabugal, a Junta de Freguesia de Sortelha, além de associações e agentes económicos locais. A iniciativa inicia-se nesta aldeia e prossegue para Piódão, Linhares da Beira, Marialva, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Castelo Mendo, Trancoso, Idanha-a-Velha, Monsanto, Almeida e termina em Belmonte.

Visitar e sentir Sortelha, a aldeia que quem conhece não esquece

Se pretende encontrar temperaturas mais amenas, visite Sortelha entre maio e setembro, quando o tempo é seco e os dias são mais longos. O clima mais frio é também propícios a excelentes escapadinhas por esta aldeia mágica. Aproveite para ficar em Sortelha e explore a Serra da Estrela e outras atrações da região, tirando partido da localização privilegiada da aldeia.

A pequena dimensão deste “reino do silêncio” não traduz o valor de Sortelha, das suas tradições seculares e dos seus habitantes hospitaleiros. Diz-se que “quem conhece, não esquece e volta” e o seu valor inegável faz dela uma das mais belas aldeias históricas de Portugal, com um elevado potencial histórico, cultural e paisagístico, que regista mais de 800 anos de história.

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