A disseminação global do coronavírus está a afetar os viajantes. Mantenha-se atualizado sobre a explicação científica por trás do surto>>

Como as companhias aéreas estão a facilitar as viagens para os passageiros autistas

Viajar pode ser complicado para os viajantes neurodivergentes. É por esta razão que as companhias aéreas estão a trabalhar para tornar as viagens aéreas mais confortáveis.

Por Lauren Rowello
Publicado 9/12/2021, 15:32
Família no aeroporto

Uma família observa a pista do aeroporto. As companhias aéreas estão a tentar tornar as viagens aéreas mais acessíveis para os viajantes neurodivergentes.

Fotografia por Maria Dubova

As viagens aéreas podem ser stressantes para qualquer pessoa, mas para os viajantes neurodivergentes, existe uma camada adicional de ansiedade que acompanha os voos.

Dora Raymaker, investigadora autista e uma das diretoras da AASPIRE, uma iniciativa comunitária de pesquisa centrada em adultos autistas, diz que as pessoas neurodivergentes são frequentemente sinalizadas pelos agentes da Administração de Segurança dos Transportes (TSA) dos EUA devido a comportamentos suspeitos. Isto acontece quando outras pessoas interpretam erradamente determinados comportamentos, como diferenças na função motora ou movimentos lentos, ausência de contacto visual e tendências não-verbais.

Dora Raymaker descreve a chamada neurodivergência como uma deficiência invisível porque as outras pessoas nem sempre se apercebem que é necessária uma atenção extra, sobretudo quando se está a viajar. Dora diz que os desafios nos aeroportos são apenas um exemplo dos problemas sistémicos que os viajantes neurodivergentes enfrentam, problemas que acabam muitas vezes por dificultar ou impossibilitar as viagens para alguns adultos autistas.

Circular nos aeroportos pode apresentar desafios prolongados para os viajantes neurodivergentes.

Fotografia por

Dora Raymaker fala por experiência própria. “A [TSA] não conseguiu processar porque é que eu precisava de acomodações diferentes se não estava numa cadeira de rodas, até que os deixei colocarem-me numa cadeira de rodas para conseguir obter os serviços de que precisava.”

Nos EUA, tem-se verificado um aumento nas informações e recursos para famílias neurodivergentes, mas Dora Raymaker diz que há poucas ajudas, se é que existem sequer, para os adultos que viajam sozinhos. Em 2020, os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças divulgaram o primeiro estudo feito nos EUA sobre adultos que vivem com transtorno do espectro autista – concluindo que mais de 5 milhões de adultos nos Estados Unidos são autistas. Com uma taxa elevada de pessoas por diagnosticar na comunidade autista e muito poucas investigações sobre os padrões de viagem ou as necessidades e barreiras enfrentadas pelos adultos neurodivergentes, pouco tem sido feito para promover alterações sistémicas que tenham em consideração estes viajantes.

Ao longo dos últimos anos, várias companhias de viagens implementaram programas para aumentar a acessibilidade aos viajantes neurodivergentes, e muitas aproveitaram a pandemia para aumentar as suas competências com formação adicional. Muitos viajantes autistas esperam que estas melhorias conduzam a viagens mais seguras e confortáveis à medida que os clientes regressam às viagens nesta época festiva.

Mudanças ao nível do solo

Alguns aeroportos têm investido em áreas próprias para os viajantes neurodivergentes. Samantha Stedford, diretora do departamento de atendimento ao cliente do Aeroporto Internacional de Pittsburgh, diz que a ideia inicial para a área sensorial do aeroporto incluía atividades imersivas e tecnologia numa sala iluminada e mais virada para as crianças. Depois de ouvir a comunidade autista, a companhia descobriu que tinha percebido tudo mal.

Tanto os adultos autistas como os cuidadores e pessoas com sensibilidades sensoriais – incluindo outras deficiências ocultas, como transtorno de stress pós-traumático – queriam que o espaço fosse redesenhado para contrastar com o ambiente caótico dos aeroportos. “O que ouvimos por parte das pessoas foi: menos é mais”, explica Samantha Stedford.

A nova área sensorial do aeroporto de Pittsburgh foi inaugurada em 2019 e tem luzes reguláveis, torres que servem como bolhas protetoras, texturas suaves nas paredes e lugares mais recatados. A casa de banho tem várias opções de acessibilidade, como um trocador de roupa para adultos e um lavatório ajustável em altura; e divisões à prova de som para oferecer mais privacidade.

“Todas as pessoas queriam coisas diferentes”, diz Samantha Stedford, pelo que o aeroporto tentou tornar cada elemento personalizável. Existem pelo menos seis aeroportos internacionais que possuem estes espaços – os aeroportos de Atlanta, Birmingham, Alabama e Lehigh Valley nos EUA, e Gatwick no Reino Unido e Shannon na Irlanda – e todos variam em tamanho e características.

Durante a pandemia foram inauguradas áreas semelhantes em Seattle-Takoma e noutros aeroportos dos EUA. O aeroporto de Pittsburgh inclui a cabine de um avião simulada, para ajudar os viajantes a familiarizarem-se com o ambiente antes da partida, e um espaço entre as áreas comuns e a sala sensorial que tem informações sobre o voo em tempo real e um mapa interativo do terminal para uma transição mais suave para o avião. Samantha Stedford diz que qualquer pessoa nervosa com o voo pode agendar uma visita guiada que leva os passageiros através dos procedimentos de segurança. Nos aeroportos de Filadélfia, Boston, Atlanta e de outras cidades norte-americanas também é possível fazer esta preparação antes do voo – mas muitas vezes concentram-se exclusivamente em ajudar famílias neurodivergentes com crianças.

Mikah Villagomez, de 3 anos, pressiona o botão para chamar os assistentes durante um voo simulado no Aeroporto Internacional de Salt Lake. O programa “Taking Flight for Autism” encoraja as crianças autistas e as suas famílias a familiarizarem-se com as rotinas e os sons das viagens aéreas através de um voo simulado.

Fotografia por Spenser Heaps, Deseret News

Samantha Stedford acrescenta que as autoridades do aeroporto de Pittsburgh receberam recentemente formação para discernir os comportamentos neurodivergentes dos riscos de segurança. “Tenho trabalhado com uma universidade local para desenvolver módulos de formação para treinar toda a nossa equipa sobre como reconhecer e abordar alguém com necessidades diferentes.”

Estas necessidades podem incluir um comportamento repetitivo e auto-estimulante – como agitar as mãos, bater ou balançar, limpar a garganta e vários outros movimentos ou vocalizações. Sarah Selvaggi Hernandez, terapeuta ocupacional autista, diz que toda a equipa deve ser treinada para identificar estes comportamentos como um sinal de sobrecarga sensorial.

“A sobrecarga sensorial acontece quando o cérebro está a processar demasiadas informações sensoriais de uma só vez”, diz Selvaggi Hernandez, algo que, se for prolongado, pode provocar incidentes cardíacos, acidentes vasculares cerebrais, comportamentos de autoflagelação e outros problemas de saúde física e mental. Selvaggi Hernandez salienta que estes comportamentos devem ser encarados como um método de comunicação e não devem ser feitas tentativas para os impedir. Treinar efetivamente o pessoal de segurança do aeroporto para compreender como este comportamento pode sinalizar as necessidades de uma pessoa é um passo importante para diminuir a escalada de eventos potencialmente traumáticos. Uma audição ativa e uma comunicação clara podem reduzir muito a angústia que alguns viajantes neurodivergentes podem sentir.

Dicas a ter em consideração

A formação das autoridades aeroportuárias em neurodiversidade promove um melhor atendimento e compreensão, mas os esforços não devem ficar por aí. Selvaggi Henandez diz que a criação de novas políticas pode ajudar a remover algumas barreiras desnecessárias. “As necessidades sensoriais são necessidades neurológicas reais. Creio que é uma oportunidade para fazermos uma grande melhoria [em direção a] um modelo de suporte.”

Desde os desafios na aquisição de bilhetes às aplicações confusas para telemóveis das companhias aéreas, passando pelo check-in da bagagem e verificações de segurança, a navegação nos aeroportos pode apresentar desafios complexos para os viajantes neurodivergentes. E os eventos inesperados, como atrasos e voos sobrelotados, criam interrupções adicionais. Quando os outros passageiros ficam tensos durante estas situações frustrantes, isso pode adicionar outra camada de tensão para as pessoas neurodivergentes que muitas vezes são altamente sensíveis às emoções de outras pessoas.

Antes de fazer uma viagem, entre em contacto com as equipas de atendimento ao cliente da sua companhia aérea para se informar se é possível melhorar a sua experiência. Considere a visualização de fotografias e de instruções relevantes, simule as interações e desenvolva ou pratique rotinas sociais para se familiarizar com os encontros típicos de um aeroporto.

(Para os viajantes com deficiências, os videojogos são uma janela para o mundo.)

As pessoas neurodivergentes ou que ficam sobrecarregadas com o ruído e todo o movimento nos centros de transportes podem levar cartões para comunicar as suas necessidades de ajuda. Outra opção é imprimir as perguntas e respostas usadas com frequência se for difícil estabelecer uma interação verbal.

A agitação nos aeroportos pode ser demasiado estimulante, mas os eventos emocionantes ou as surpresas positivas também podem provocar alguma desregulação – e os viajantes devem antecipar a forma como os seus corpos vão responder a estas experiências, diz Selvaggi Hernandez. “Leve um cachecol para usar numa variedade de situações, quer seja para criar privacidade, bloquear odores ou as luzes e manter a temperatura corporal.”

Selvaggi Henandez acrescenta que as empresas que tentam criar acomodações para as pessoas neurodivergentes devem levar em consideração que, embora os autistas partilhem um diagnóstico geral, as necessidades individuais variam de pessoa para pessoa. Um artigo publicado recentemente na National Geographic – sobre a forma como os parques nacionais dos EUA podem ser mais amigos do autismo – gerou muitos comentários por parte dos leitores, incluindo Lisa Kaufman, que escreveu: “Eu imagino uma espécie de porteiro. Eles podiam fazer um pouco de tudo, respondendo a uma variedade de situações que podem beneficiar de uma abordagem personalizada.”

Samantha Stedford diz que o aeroporto de Pittsburgh conta com a contribuição de um grupo de consultoria sobre acessibilidade e especialistas em design universal que incentivam a empresa a ir para além dos padrões estabelecidos pela Lei dos Americanos com Deficiências. “Tornar as coisas melhores para as pessoas com necessidades adicionais torna as coisas melhores para todos”, diz Samantha Stedford.

Lauren Rowello é escritora queer e autista de Filadélfia, cujo trabalho tende a explorar temas de identidade, saúde mental e justiça. Siga-a no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Viagem e Aventuras
Por que razão Portugal tem andorinhas por todo o lado
Viagem e Aventuras
12 Formas Sustentáveis de Viajar no Novo Ano
Viagem e Aventuras
Vai Viajar de Avião com Crianças? Siga Estas Dicas Para Um Voo Tranquilo
Viagem e Aventuras
Destinos que estão a ajudar os visitantes LGBTQ+ a viajar com orgulho
Viagem e Aventuras
Estas formações rochosas deslumbrantes estão num local onde outrora os dinossauros vaguearam

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados