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A controvérsia em torno das maravilhas antigas desta cidade da Rota da Seda

No Uzbequistão, os debates centram-se nos trabalhos de restauração feitos em Samarcanda, não se sabendo se vão preservar ou apagar a história.

Por Patrick Kenny
Publicado 13/01/2022, 12:47
Um menino caminha pela ornamentada Mesquita de Bibi Khanym, construída pelo conquistador do século XIV Timur ...

Um menino caminha pela ornamentada Mesquita de Bibi Khanym, construída pelo conquistador do século XIV Timur (Tamerlão). A mesquita, juntamente com vários outros edifícios históricos em Samarcanda, no Uzbequistão, tem sido uma fonte de controvérsia à medida que estudiosos, habitantes e agências governamentais decidem a melhor forma de preservar as antigas relíquias da cidade.

Fotografia por Bert de Ruiter, Alamy Stock Photo

À primeira vista, as cúpulas turquesa e as superfícies reluzentes da Mesquita de Bibi Khanym em Samarcanda representam tudo o que um visitante – que anseie por vislumbrar a história desta famosa cidade da Rota da Seda – poderia desejar: romance, beleza, piedade e um enorme memorial que homenageia a riqueza e glória do passado de Samarcanda. Construída no início do século XV, a mesquita recebeu o nome da esposa de Timur, um senhor da guerra conhecido no Ocidente por Tamerlão, que conquistou uma vasta área da Ásia antes de morrer em 1405. Sob as cúpulas da mesquita, uma caligrafia elaborada decora a enorme entrada, com azulejos azuis e dourados espalhados pelas suas paredes imponentes.

Mas nem tudo é necessariamente o que parece. Uma destas famosas cúpulas azuis já esteve rachada e outra desmoronou completamente; mas estão agora substancialmente reconstruídas. Alguma da caligrafia é uma adição feita no final do século XX, ao passo que as secções recém-ladrilhadas usam um design moderno que replica mal os padrões medievais. As próprias paredes já não são como eram antigamente; com o passar do tempo, as paredes desta mesquita desafiaram milagrosamente o rumo normal do envelhecimento e tornaram-se substancialmente mais altas.

Pessoas num mercado em Samarcanda, por volta de 1910. Ao fundo estão os restos da Mesquita de Bibi Khanym, parcialmente destruída por um sismo em 1897.

Fotografia por Roger Viollet, Getty Images

Os tradicionais azulejos de cerâmica esmaltada em formas geométricas intrincadas, muitas replicadas na restauração do edifício, decoram a entrada da Mesquita de Bibi Khanym.

Fotografia por Mel Longhurst, VW Pics, Redux

Ao longo dos anos, esta mesquita e muitos outros edifícios históricos em Samarcanda têm sido alvo de debate entre os visitantes, habitantes locais, estudiosos, governos e órgãos internacionais. Algumas pessoas dizem que os restauros são necessários para proteger estes locais e garantir as verbas vitais vindas do turismo. Outras pessoas opõem-se ao que consideram ser restaurações negligentes que danificam estruturas originais e são acompanhadas pela demolição de bairros que não são considerados dignos de conservação.

A UNESCO concedeu o estatuto de Património Mundial a vários locais no Uzbequistão, incluindo Samarcanda, cidade à qual chama de “Encruzilhada de Culturas”. Porém, também a UNESCO criticou repetidamente as obras de reconstrução.

Estes argumentos já ecoam há décadas, mas tudo isto pode estar a mudar. As iniciativas recentes sugerem que está a surgir uma abordagem mais colaborativa, com o objetivo de preservar a história de Samarcanda de forma sustentável.

Rota da Seda – romance e realidade

O Uzbequistão, e particularmente a cidade de Samarcanda, abriga algumas das arquiteturas islâmicas mais famosas do mundo e tem sido objeto de fascínio na cultura ocidental. Apesar de nunca ter visitado a cidade, o poeta e dramaturgo Christopher Marlowe escreveu sobre as “torres brilhantes [que] irão consternar os céus” de Samarcanda. Edgar Allan Poe chamou à cidade “rainha da Terra”, e o título do poema mais famoso de James Elroy Flecker é A Jornada Dourada até Samarcanda.

Na tentativa de captar todo este ambiente de romance e entusiasmo, e também para criar uma identidade nacional, os sucessivos governos do Uzbequistão ergueram inúmeras estátuas de Timur, publicitando a Rota da Seda por todo o país e – mais notavelmente – realizando restauros substanciais em edifícios históricos, incluindo em Samarcanda. Este trabalho de restauração vai muito para além da Mesquita de Bibi Khanym.

(Veja as mesquitas mais impressionantes do planeta.)

A entrada do grande mausoléu de Timur, por exemplo, foi substancialmente reconstruída e adornada com uma nova inscrição do Alcorão. No centro da cidade, a praça pública conhecida por Reguistão é ladeada por três enormes madrassas – escolas religiosas islâmicas – cujos azulejos foram substituídos e todas as superfícies estão agora decoradas com padrões caleidoscópicos. Outros locais e outras cidades uzbeques também foram alvo de restauros semelhantes.

Há quem argumente que a história do Uzbequistão se poderia ter perdido para sempre se não fossem os restauros. Os monumentos foram danificados por sismos e saqueados devido aos seus materiais de construção; e talvez pudessem ter desmoronado se não tivessem sido reparados. Muitos visitantes ficam encantados com os resultados, maravilhados com a imponência e a beleza dos belos pórticos ladrilhados, cúpulas iridescentes e pátios repavimentados.

As cidades uzbeques têm testemunhado restauros substanciais ao longo dos anos, incluindo Bukhara, outro centro comercial histórico da Rota da Seda, localizado a oeste de Samarcanda.

Fotografia por Markus Kirchgessner, Laif, Redux

Não são apenas os turistas estrangeiros que ficam impressionados. Odil Jahangirov, que gere uma pousada em Samarcanda, diz que até os habitantes da vizinha capital uzbeque de Tasquente ficam frequentemente impressionados com os trabalhos de restauro. “São pessoas mais citadinas, não veem edifícios antigos todos os dias. E querem sentir esse espírito antigo. Para estas pessoas, Samarcanda é como se fosse uma coisa exótica”, diz Odil Jahangirov. “As pessoas ficam impressionadas.”

Mas outras pessoas ficam menos entusiasmadas quando passeiam por uma sala de oração restaurada na “Madrassa Dourada” incrustada de ouro ou contemplam os intrincados mosaicos na antiga necrópole de Samarcanda, que foi alvo de diversos trabalhos de restauração. Para estas pessoas, as mesquitas, madrassas e mausoléus restaurados tornaram-se demasiado higienizados e falsos, assemelhando-se mais a exposições de parques temáticos do que a locais históricos.

Robert Hillenbrand, um conceituado estudioso de arte islâmica, destaca a restauração da Mesquita de Bibi Khanym num artigo sobre os desafios que envolvem o estudo da arquitetura islâmica, condenando o que considera serem tentativas inadequadas e mal executadas de substituição e reparação de partes dos edifícios.

Alguns visitantes estrangeiros podem ficar preocupados com o que está a ser feito ostensivamente por causa do turismo, mas os habitantes locais são os mais afetados pela forma como as obras de restauro têm sido realizadas. Os marcos mais famosos do Uzbequistão podem ter sido afetados pelos atos excessivos de conservação, mas Ona Vileikis, investigadora da Universidade College de Londres, que trabalha na conservação de património, sublinha que as áreas circundantes têm sofrido devido à falta de interesse ao nível governamental e internacional.

“Os monumentos de Samarcanda foram separados do seu tecido urbano”, diz Ona Vileikis. “A arquitetura local passa maioritariamente despercebida.” Isto resultou na construção de muros que dividem os bairros da cidade e separam artificialmente as áreas consideradas turísticas.

Esquerda: Superior:

A Mesquita de Bibi Khanym é uma das maiores mesquitas da Ásia Central. Para a sua construção, foram levados da Índia inúmeros trabalhadores escravizados e 95 elefantes.

Fotografia por Hemis, Alamy Stock Photo
Direita: Fundo:

Localizada nas extremidades do deserto de Kyzylkum, Samarcanda floresceu nos séculos XIV e XV sob o domínio de Timur (cuja estátua vemos retratada na imagem) e dos seus sucessores.

Fotografia por Michel Setboun, Corbis/Getty Images

Muitas destas áreas, incluindo antigos mercados e casas, sobretudo em torno de Reguistão, foram clareadas ao longo dos anos para dar lugar a novas estradas e edifícios de apartamentos. Muitas vilas e cidades por todo o país passaram por processos semelhantes, às vezes resultando em protestos contra as demolições e a alegada falta de compensação.

Desde que Samarcanda recebeu o estatuto de Património Mundial que a UNESCO alerta para os trabalhos de restauração que afetam a autenticidade dos sítios históricos, chamando também a atenção para as novas obras e para a falta de uma regulamentação adequada, manifestando preocupação com a regeneração urbana.

Novas iniciativas

Esta dinâmica pode estar a mudar. Odil Jahangirov diz que o governo já está a ser mais cauteloso nos seus trabalhos de restauro. Ona Vileikis explica que os habitantes locais, incluindo as novas gerações de engenheiros e arquitetos, estão cada vez mais envolvidos na conservação.

Ao longo de 2021, foram realizadas várias reuniões entre a UNESCO e o governo uzbeque. Em setembro do ano passado, foi anunciada uma nova iniciativa entre ambas as instituições. Esta iniciativa visa uma colaboração mais estreita na proteção e preservação dos monumentos do Uzbequistão – e uma forma de agir que envolva as comunidades e especialistas locais.

Apesar da controvérsia, muitas pessoas parecem concordar em determinadas questões e estão a fazer pressão para que os trabalhos de restauração sejam historicamente precisos e correspondam às necessidades dos habitantes e turistas; incluindo a proteção dos materiais originais, em vez da sua substituição; e preservação da história e cultura uzbeques que se afastam da fantasia tradicional da “Rota da Seda”.

Patrick Kenny escreve sobre a China, a Ásia Central e o Médio Oriente. Siga-o no Instagram e no Twitter.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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