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Como as linhas de cruzeiro se estão a adaptar à COVID-19 na era da Ómicron

A pandemia continua a afetar a indústria de cruzeiros. Se quiser navegar para algures, descubra como o pode fazer.

Publicado 25/01/2022, 15:35
Passageiros com máscara desembarcam do navio de cruzeiro AIDAnova e entram num autocarro em direção ao ...

Passageiros com máscara desembarcam do navio de cruzeiro AIDAnova e entram num autocarro em direção ao aeroporto de Lisboa, no dia 3 de janeiro de 2022. Esta linha de cruzeiros alemã, da empesa Carnival, cancelou a sua viagem cinco dias antes de regressar a Hamburgo, na Alemanha, após 68 membros da tripulação e passageiros terem testado positivo para a COVID-19, apesar dos requisitos de vacinação exigidos a bordo.

Fotografia por Horacio Villalobos, Corbis/Getty Images

A pandemia está novamente a afetar a indústria de cruzeiros.

No final de dezembro, apenas seis meses após os navios de cruzeiro terem retomado a navegação nos portos dos Estados Unidos, os casos de COVID-19 começaram a disparar a bordo – passando de 162 casos nas primeiras duas semanas de dezembro para os 5.000 casos na segunda metade do mês. Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, disse recentemente aos legisladores que isto representa um aumento de cerca de 30%.


Nas semanas que se seguiram, os CDC alertaram os viajantes para evitarem as viagens de cruzeiro, mesmo que estivessem completamente vacinados. Foram vários os cancelamentos, incluindo muitas viagens das empresas Royal Caribbean e Norwegian Cruise Line, devido aos tripulantes que adoeceram e aos destinos que começaram a encerrar os seus portos aos cruzeiros. Os navios que zarparam tiveram de apertar os seus protocolos COVID-19 – que incluem vacinação obrigatória, testes e uso de máscara – e alterações nos itinerários à última da hora.

Transportando mais de 2.000 passageiros, o luxuoso navio de cruzeiro Cordelia Empress chega ao porto de Mumbai, na Índia, no dia 4 de janeiro de 2022, depois de um membro da tripulação ter testado positivo para a COVID-19. Na era da variante Ómicron, com os casos de reinfeção, muitos cruzeiros tiveram de alterar os seus itinerários ou cancelar as viagens a meio.

Fotografia por Indranil Mukherjee, AFP/Getty Images

Para complicar ainda mais as coisas, a Ordem de Navegação Condicional dos CDC – uma estrutura de procedimentos de segurança obrigatórios para os navios de bandeira estrangeira nas águas dos EUA – expirou no dia 15 de janeiro. Esta regra é agora opcional para os navios de cruzeiro, o que significa que as embarcações podem seguir as suas próprias rotas até um porto seguro.

Para as pessoas que planearam as suas viagens com meses ou até mesmo anos de antecedência, a chegada da Ómicron apresenta circunstâncias que se alteram rapidamente e que são quase impossíveis de contornar

“As pessoas que viajam agora precisam de ser muito flexíveis”, diz Chris Gray Faust, editora-chefe da Cruise Critic, uma publicação online dedicada ao setor. “Tente perceber o que a sua linha de cruzeiro está a exigir, porque as exigências feitas há um mês podem não ser as mesmas que se aplicam hoje.”

Portanto, como é que os viajantes podem obter orientações? Eis o que dizem os especialistas.

Quais são as mudanças nos protocolos COVID-19?

As linhas de cruzeiro, ansiosas para afastar a reputação que as acompanha desde o início da pandemia – eram consideradas transportadoras flutuantes de doenças –  trabalharam de perto com os CDC para instituir protocolos COVID-19 muito rígidos a bordo. Esta também é uma condição da agência para permitir a navegação de navios nos portos dos EUA. Os CDC estabeleceram diretrizes para testar tripulantes e passageiros e formas de lidar com os surtos. A maioria das linhas de cruzeiro também exige vacinação obrigatória.

(Os navios de cruzeiro estão a navegar novamente durante a pandemia. Porquê?)

Nos EUA, as coisas não vão mudar muito para os navios que participam no novo programa voluntário dos CDC. As embarcações continuam a apresentar diariamente à agência os dados sobre a COVID-19 e seguem regimes de testagem específicos para passageiros e tripulantes. As linhas de cruzeiro também não podem escolher quais são os protocolos que seguem, diz a Comandante Aimee Treffiletti, chefe da unidade marítima dos CDC. Se as companhias optarem por participar no programa, são obrigadas a concordar com tudo.  

A companhia Norwegian Cruise Line já indicou que vai aderir ao programa dos CDC. Brian Salerno, vice-presidente do departamento de política marítima global da Associação Internacional de Linhas de Cruzeiro, espera a adesão de várias companhias. Brian refere que as linhas de cruzeiro vão muitas vezes para além dos requisitos dos CDC – com muitas a instalar tecnologia de purificação de ar ou até mesmo laboratórios de testes PCR a bordo – e provavelmente não vão ficar menos exigentes agora.

“Comercialmente, é imperativo fazer tudo como deve de ser”, diz Brian Salerno. “Ninguém pode relaxar com a Ómicron.”

E também se trata de uma questão de imagem pública. Os CDC planeiam continuar a emitir para cada navio um estatuto ordenado por cores ao qual qualquer pessoa pode ter acesso para verificar os casos de transmissão a qualquer momento. Os navios sombreados a verde não têm casos relatados de COVID-19; os navios sombreados a vermelho estão sob investigação dos CDC; e as linhas de cruzeiro que não fazem parte do programa voluntário da agência ficam sombreadas a cinzento. Estes navios podem ter os seus próprios protocolos de saúde e segurança, mas não foram revistos pelos CDC.

“Ninguém quer estar assinalado a cinzento”, diz Brian Salerno. “É óbvio que querem estar todos a verde.”

Mas com os casos da variante Ómicron a dispararem, porque é que os CDC estão a afrouxar o controlo sobre a indústria de cruzeiros? Aimee Treffiletti diz que a agência está confiante de que identificou as melhores práticas para mitigar a transmissão a bordo de um navio – algo que Aimee enfatiza que foi feito em parceria com as linhas de cruzeiro. “Agora, os CDC decidiram flexibilizar a sua autoridade regulatória caso a caso, em vez de encerrar todos os navios de cruzeiro de uma só vez.”

Os CDC continuam a poder embarcar em qualquer navio que esteja em águas norte-americanas e podem fazer inspeções. Os navios que não participam no programa voluntário continuam a ter de relatar todos os casos de COVID-19 – mas não diariamente – e continuam sujeitos às ordens da agência que exigem o uso de máscara nos transportes públicos.

Como funciona a vacinação obrigatória?

A maioria das linhas de cruzeiro exige atualmente que todos os passageiros, incluindo crianças em idades elegíveis, estejam completamente vacinados (ou seja, duas doses da vacina da Pfizer ou da Moderna, uma dose da vacina da Johnson & Johnson ou um equivalente aprovado pela OMS). Brian Salerno diz que as taxas de vacinação a bordo dos navios de cruzeiro rondam os 95% para passageiros e tripulantes.

Algumas companhias recebem crianças que não foram vacinadas: a Royal Caribbean e a Carnival, por exemplo, exigem que todos os passageiros com mais de 12 anos estejam vacinados, enquanto que os passageiros mais novos podem embarcar com um teste negativo. A Disney Cruise Lines exige que todas as crianças com idade superior a cinco anos estejam vacinadas. (A The Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic Partners.)

Profissionais de saúde respondem a um surto de coronavírus a bordo do Queen Elizabeth da companhia Cunard, atracado na Galiza, em Espanha, no dia 4 de janeiro de 2022.

Fotografia por M. Dylan, Europa Press/Getty Images

As linhas de cruzeiro também alinham as suas políticas de vacinação com as dos respetivos destinos. Por exemplo, apesar de o Reino Unido considerar que as crianças que só levaram uma dose de uma vacina mRNA estão completamente vacinadas, os navios que zarpam para as Caraíbas só permitem crianças vacinadas com as duas doses.

Enquanto isso, à medida que a Ómicron se propaga, algumas linhas de cruzeiro também começam a exigir doses de reforço. Nos EUA, a partir do dia 1 de fevereiro, a Viking exige que qualquer pessoa em idade elegível para receber uma dose de reforço o faça pelo menos 14 dias antes de partir.

A Ómicron é ainda mais transmissível do que a variante Delta – e consegue evitar a imunidade conferida pela vacina. Contudo, apesar de as vacinas terem perdido alguma da sua eficácia em impedir que fiquemos infetados, continuam a ser a melhor proteção, diz Kathryn Willebrand, epidemiologista e coautora de um estudo feito recentemente com Lauren Pischel, médica de doenças infeciosas, sobre a transmissão de COVID-19 a bordo de navios de cruzeiro.

Kathryn Willebrand salienta que as vacinas continuam a ser eficazes na prevenção de casos graves de doença – algo que é particularmente importante quando estamos no meio do oceano num navio cuja equipa médica pode estar sobrecarregada ou até doente. “Ninguém quer necessitar de cuidados médicos quando está longe de casa”, diz Kathryn.

Qual é a regularidade dos testes?

As linhas de cruzeiro exigem que os passageiros e tripulantes façam testes antes de embarcar num navio, embora os requisitos específicos possam diferir. Algumas companhias só aceitam testes PCR, enquanto que outras aceitam os resultados de um teste rápido de antigénio – em alguns casos o teste têm de ser supervisionado por um profissional de saúde. E apesar de algumas empresas exigirem que façamos o teste antes de sairmos de casa, outras fazem testes no terminal antes do embarque.

Os membros da tripulação são geralmente submetidos a testes de rotina durante a viagem porque são particularmente vulneráveis a infeções. A tripulação passa mais tempo no navio, em locais mais fechados, e tende a ter mais interação com outras pessoas. Mas os passageiros podem ser obrigados a fazer o teste antes de qualquer excursão a terra se o porto de escala assim o exigir, ou se desenvolverem sintomas durante a viagem.

Quem não apresentar quaisquer sintomas, geralmente não precisa de ser testado antes de desembarcar do navio. Em vez disso, Aimee Treffiletti e os CDC recomendam que se faça o teste cinco dias após a viagem. No entanto, Chris Gray Faust alerta que, se precisarmos de fazer um voo internacional, o destino final pode exigir um teste negativo – ou a linha de cruzeiro pode fazer testes a todos se houver um surto de COVID-19 particularmente grave a bordo.

O que acontece em caso de surto?

A COVID-19, porém, já provou que consegue ultrapassar todos estes protocolos, sobretudo na era da variante Ómicron. A COVID-19 é uma doença que se transmite pelo ar e os navios de cruzeiro são ambientes fechados, ou seja, são ambientes com maior risco de transmissão, diz Kathryn Willebrand. Há milhares de pessoas que passam pelas salas de jantar, pelos casinos e por outras áreas onde partículas de vírus ainda podem pairar no ar.

De acordo com as orientações dos CDC, as linhas de cruzeiro devem ensinar tanto a tripulação como os passageiros para saberem identificar e relatar os sintomas de COVID-19. Se uma pessoa desenvolver sintomas a bordo, é testada e isolada até que se verifiquem os resultados, ou até deixar de ser infeciosa. As pessoas que permanecerem infeciosas no final de uma viagem geralmente são obrigadas a ficar de quarentena em terra – e Aimee Treffiletti diz que os CDC podem trabalhar com as linhas de cruzeiro para facilitar isto.

Contudo, como todos os passageiros são vacinados, os contactos de proximidade não precisam necessariamente de ficar em quarentena, a menos que comecem a apresentar sintomas. Chris Gray Faust diz que as linhas de cruzeiro têm sido bem-sucedidas no rastreio de contactos e na notificação dos contactos de proximidade – porque são comunidades fechadas, o mesmo motivo pelo qual os navios de cruzeiro são tão vulneráveis à transmissão.

“Se formos a um restaurante e a pessoa ao nosso lado estiver doente, não sabemos disso”, diz Chris. “Mas num navio, as empresas analisam os dados e encontram as pessoas. Isto é algo que os navios de cruzeiro desenvolveram e que vai realmente para além do que os outros meios de transporte fazem.”

Tudo isto depende de uma espécie de sistema de honra. Tal como observamos em terra, existe sempre o risco de os nossos colegas viajantes se recusarem a cumprir o uso obrigatório de máscara, ou podem ocultar os seus sintomas da tripulação para evitar o período de quarentena. As linhas de cruzeiro têm autoridade para exigir o  desembarque destes passageiros e as despesas de regresso a casa são suportadas pelos mesmos.

Ainda assim, estas regras nem sempre são aplicadas – e é por isso que os especialistas dizem que a decisão de zarpar, em última análise, cabe à tolerância que cada pessoa tem ao risco.

O que podemos fazer para garantir uma viagem mais tranquila?

Apesar de os CDC recomendarem que se evite as viagens de cruzeiro, Aimee Treffiletti diz que, se decidirmos viajar, há algumas coisas que podemos fazer para ajudar a mitigar os riscos.

Antes de partir, verifique a tabela codificada por cores no site dos CDC para perceber se o seu navio participa no programa voluntário COVID-19 da agência. Se for esse o caso, pode verificar se há algum surto a bordo. Se não se sentir confortável, a maioria das linhas de cruzeiro tem implementado políticas de remarcação e cancelamento bastante flexíveis.

Para quem vai fazer reservas agora, deve pesquisar os protocolos de cada linha de cruzeiro para ver se estão alinhados com o seu nível de conforto. Chris Gray Faust recomenda a compra de um seguro COVID-19 que cubra atrasos ou o cancelamento da viagem – um custo extra que irá valer a pena se ficar infetado e não puder embarcar no navio.

Chris acrescenta que a nossa lista de bagagem também deve ter em consideração as incertezas e recomenda que se leve roupa e medicamentos extra para o caso de ficarmos de quarentena a qualquer momento. Sempre que possível, também devemos levar algumas máscaras KN95 adicionais e testes rápidos de antigénio.

Chris diz que, acima de tudo, os viajantes devem estar cientes de que vão estar sujeitos aos protocolos de saúde em vigor – protocolos que podem mudar à medida que as condições pioram ou melhoram – e que há pessoas no local para os manter seguros.

“As pessoas têm de aceitar isto”, diz Chris. “E podem desfrutar de uma ótima viagem ao mesmo tempo que se protegem a si e aos outros com o uso de máscara e sendo vacinadas.”

A National Geographic Expeditions e a Adventures by Disney fazem viagens de cruzeiro para muitos destinos em todo o mundo. A The Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic Partners.

Amy McKeever é escritora e editora da National Geographic. Pode encontrá-la no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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