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É verão na Antártida. Descubra como explorar este destino de forma responsável.

As expedições científicas de pequena escala ajudam a equilibrar turismo e preservação nos confins gelados da Terra.

Por Emma Gregg
Publicado 19/01/2022, 14:31
Embarcação com ecoturistas

Uma embarcação leva ecoturistas através da Baía de Andvord, na Antártida, onde têm um vislumbre de como é ser um cientista nesta frágil região.

Fotografia por Robert Harding Picture Library, Nat Geo Image Collection

Enquanto turista, é extremamente raro ter acesso a uma região imaculada que está reservada principalmente para a ciência e conservação. É igualmente raro conhecer um lugar onde as aves e os animais selvagens, em vez de fugirem, aproximam-se de nós. As ilhas e costas do Oceano Antártico, na Antártida, são um desses lugares. O seu único rival em termos de drama natural são as Ilhas Galápagos.

Apesar de a maioria das cerca de 10.000 pessoas que vivem na Antártida durante o verão austral ser composta por climatologistas, glaciologistas, ornitólogos e ecologistas, um fluxo constante de ecoturistas também visita a região, enfrentando longos voos e mares tempestuosos. Entre novembro e março, num ano normal, cerca de 40.000 turistas percorrem esta região única.

Embora possa parecer muita gente para um destino ecologicamente delicado, a Associação Internacional de Operadores de Turismo Antártico (IAATO) tem protocolos rigorosos de conservação para minimizar os danos. Os modestos, embora confortáveis, navios de expedição como este onde estou a viajar não transportam mais do que 200 passageiros, facilitando a vida a quem quer tornar a sua visita o mais amiga do ambiente possível.

Uma baleia-anã curiosa aproxima-se de canoístas em Neko Harbor, na Antártida.

Estas embarcações são pequenos mas robustos quebra-gelos com uma pegada de carbono abaixo da média. Alguns barcos têm cascos aerodinâmicos e motores híbridos; outros eliminam as comodidades luxuosas dos navios de cruzeiro para consumir menos combustível.

Mas o que diferencia realmente estes navios de expedição são os seus guias experientes, que oferecem palestras e excursões que ensinam aos visitantes um pouco de tudo, desde biologia de focas até aptidões de sobrevivência. A bordo de uma destas embarcações obtemos um gostinho de como é a vida de um cientista, naturalista ou explorador polar.

O navio que escolhi está classificado como “pequeno”, o que significa que podemos navegar por enseadas estreitas e desembarcar em terra. Para nos prepararmos, inspecionamos meticulosamente o equipamento.

“Vamos lá, mostrem-nos todos o velcro”, dizem os guias da expedição, verificando os fechos e costuras à procura de sementes, insetos, lama ou areia e limpando cada centímetro do equipamento com um aspirador.

Os guias ensinam-nos a respeitar o ambiente, incluindo a manter a distância dos animais e a não deixar vestígios. “Nada de lenços de papel, migalhas ou mensagens na neve!” Depois, colocam os Zodiacs (barcos rígidos insufláveis) na água e estamos prontos para atravessar um mar coberto de gelo, diretamente para o centro da ação.

Sessenta e cinco graus sul

Neko Harbour fica nas extremidades da Baía de Andvord, um imaculado fiorde antártico com uma forma elegante e alongada, parecida com os contornos de Itália. Há pouco mais de um século, no início da violenta era da pesca baleeira na Antártida, os navios de carga atuavam como fábricas flutuantes. Hoje, depois de uma batalha arduamente vencida, as águas calmas do lago entre os icebergues na Baía de Andvord são uma imagem de paz.

Enquanto observo as águas a partir da praia, uma baleia-jubarte e a sua cria fazem uma lenta aparição, alterando a imagem espelhada das montanhas e provocando um frenesim entre os passageiros de um Zodiac que está extremamente perto. Quando a ondulação assenta, um pequeno bando de painhos-de-wilson sobrevoa gentilmente a superfície, mordiscando krill na água.

As encostas cobertas de neve que se erguem por trás da praia estão listadas com os caminhos dos pinguins que sobem até aos íngremes locais de nidificação. Os fluxos constantes de pinguins-gentoo, que mais parecem caminhantes numa estância alpina movimentada, sobem e descem obstinadamente as encostas. Caminho em torno do porto até uma encosta com vista para um glaciar enorme. Enquanto faço uma pausa para admirar os seus penhascos de gelo, ouço um ruído estrondoso à medida que uma das suas secções desmorona, enviando um mini tsunami de ondas que irradiam pela baía.

A exploração deliberada da vida selvagem pode ter acabado, mas a Antártida enfrenta agora uma ameaça diferente. De acordo com os cientistas climáticos, os eventos de partos glaciares – as imagens mais famosas das alterações climáticas nas regiões polares – estão a tornar-se cada vez mais comuns.

Uma cruz assinala o Monumento Antártico Britânico na Ilha Petermann. Este marco homenageia os cientistas que morreram a estudar esta região inóspita desde 1944, ano em que o governo britânico estabeleceu o seu primeiro posto avançado de pesquisa em Port Lockroy.

A Península Antártica está a aquecer cerca de seis vezes mais depressa que a média global, e as plataformas de gelo que a rodeiam também estão a diminuir. Apesar de a região parecer intocada pelas mãos humanas, os efeitos climáticos têm um grande alcance e a Antártida é muito frágil.

Por mares turbulentos

A minha viagem começou no porto turístico de Ushuaia, no sul da Patagónia, perto da extremidade da América do Sul. Num cruzeiro de final de tarde pelo Canal de Beagle, começou um rito de passagem.

Durante dois dias, o nosso navio atravessou as águas agitadas da infame Passagem de Drake, uma travessia oceânica tão tempestuosa que todos objetos que não estiverem bem fixos ganham uma vida própria. A minha cabine, mobilada de forma incongruente com prateleiras abertas, parecia a obra de um violento poltergeist.

As preocupações com o tempo que se faz sentir na região são compreensíveis para os turistas que visitam a Antártida. Todos nós já vimos imagens de aventureiros polares com narizes e extremidades congeladas. Em 2020, porém, a região testemunhou as temperaturas mais elevadas de que há registo – ultrapassando os 17 graus na ponta norte da península – pelo segundo ano desde 2015.

Na realidade, é fácil ficarmos confortáveis se nos vestirmos dos pés à cabeça com camadas respiráveis e nos protegermos do sol, do vento e do mar. E rapidamente nos habituamos à rotina de descer até à zona mais suja do navio para nos equiparmos com impermeáveis, galochas de sola grossa e coletes salva-vidas para partir para a aventura seguinte.

Nas nossas primeiras incursões, vimos o dourado do nascer do sol nos glaciares que ladeiam os canais Neumayer e Lemaire, e deslizámos por águas calmas até vermos as primeiras colónias de pinguins em Damoy Point – e também vimos focas-leopardo a descansar em blocos de gelo, com os seus sorrisos sinistros e predatórios.

No final do verão austral, as focas já estão bem alimentadas e muitos dos pinguins-de-adélie e pinguins-de-barbicha já estão na água, arriscando uma dentada mortal das focas. Os pinguins-gentoo, que se reproduzem mais tarde, são os próximos; por enquanto, as suas crias felpudas permanecem em terra, implorando aos pais por comida quando estes regressam das suas viagens de forrageio.

Um pinguim-gentoo observa a partir de um posto avançado rochoso enquanto um navio de expedição se aproxima.

Fotografia por Design Pic Inc, Nat Geo Image Collection

Os pinguins-gentoo mais jovens e famintos correm pelas cabanas históricas de Port Lockroy e pelo posto de correio do Royal Mail, enquanto os mais velhos inspecionam as nossas malas e se defendem das oportunistas pombas-antárticas.

Continuamos até à Baía de Pléneau, onde admiramos icebergues que parecem brilhar por dentro, seguindo para a Ilha Trinity, onde caminhamos cuidadosamente através de um parque de esculturas de gelo curvilíneo e focas aveludadas. Mais tarde, na Ilha Petermann, descobrimos que a neve da Antártida nem sempre é branca; à medida que o clima aquece, as algas fertilizadas pelo guano dos pinguins podem tingir a neve em tons de verde ou rosa.

Neko Harbour e o porto mais próximo, com o nome apropriado de Paradise Bay, oferecem-nos outra novidade emocionante: a oportunidade de pisar o continente antártico, tendo também em consideração a noção estonteante de que, se continuarmos mais 25 graus a sul e escalarmos mais de 2.700 metros, chegamos ao Polo Sul.

No rasto de um grande explorador

Dado que o clima e as condições do mar na Antártida podem ser complicados, os desembarques – quer seja nas ilhas ou no continente – nunca são garantidos. Para além disso, as regras da IAATO estabelecem a visita de apenas um navio em cada local de desembarque, e não são permitidas mais de 100 pessoas em terra a qualquer momento. Para além de minimizar os distúrbios, isto maximiza a sensação de aventura. Cada vez que desembarcamos, é quase como se fossemos o primeiro grupo a chegar.

As pessoas já desembarcam nas costas do Oceano Antártico desde que James Cook cruzou pela primeira vez o Círculo Antártico em 1773. Durante várias décadas, porém, os exploradores não progrediram muito além das ilhas: só no início de 1821 é que os aventureiros pisaram o continente pela primeira vez.

Focados na caça de focas para fins lucrativos, em vez de fazer história, estes pioneiros mantiveram silêncio sobre os seus movimentos – as localizações dos melhores pontos de desembarque eram um segredo comercial. Mas a curiosidade aumentou e, no espaço de um século, alguns dos exploradores mais famosos do mundo deixaram a sua marca no continente. No final do século XX, a mudança de uma exploração implacável dos recursos naturais da Antártida para uma vertente científica, de conservação e ecoturismo já estava mais ou menos completa.

Ao contornarmos a ponta da península, o tempo piora, forçando o comandante a mudar de rumo. “É aqui que as coisas ficam realmente interessantes”, diz o assistente da expedição, Christophe Gouraud. No barco, esprememo-nos por turnos para visitar a ponte, observando silenciosamente enquanto os oficiais navegam por uma rota complicada através de icebergues monumentais com penhascos atravessados por fendas.

As condições levam-nos até locais que os navios de expedição raramente visitam, passando pelo Estreito Antártico e chegando perto do Mar de Weddell. Demoramos cerca de duas horas a navegar ao longo do imenso A-68A, um icebergue tabular que, até recentemente, parecia estar a dirigir-se para a ilha Geórgia do Sul, representando uma grave ameaça para os seus delicados ecossistemas.

Na Ilha Elefante (nome que homenageia os imponentes elefantes-marinhos que outrora pontilhavam a sua costa rochosa), os pinguins-de-barbicha evitam a rebentação. Foi neste pedaço de praia que a tripulação da expedição Endurance, liderada pelo explorador Ernest Shackleton, ficou encalhada durante 105 dias em 1916. O explorador demorou outros 16 longos dias a navegar daqui até à ilha Geórgia do Sul, para procurar ajuda, uma travessia que agora fazemos em pouco mais de dois dias.

“Todos anseiam pela chegada à ilha Geórgia do Sul – até os trabalhadores na casa das máquinas que geralmente nunca vemos”, diz o ornitólogo da expedição, Ab Steenvoorden, que observa os céus à procura de albatrozes. “Eles poupam o tempo de folga e saem nas suas próprias viagens em Zodiacs. É uma ilha incrível, e a única maneira de chegar até aqui é pelo mar.”

Quando desembarcamos em Peggotty Bluff, onde Ernest Shackleton já exausto começou a sua épica travessia pelas ilhas, fico contente quando descubro que os animais na ilha Geórgia do Sul são ainda mais destemidos que os da Antártida. Jovens focas, implacavelmente curiosas e com propensão para morder, galopam na nossa direção. Abrimos os braços para parecermos maiores, obrigando-as a pausar, e depois seguimos através da vegetação até uma enseada distante, governada por um verdadeiro gigante: um elefante-marinho enorme.

Na manhã em que chegamos à Baía de St. Andrew, acordo cedo e vou para o convés com os binóculos na mão. Apercebo-me que as manchas na praia estão a mudar – são pinguins-rei, cerca de 300.000 adultos e crias. Dentro de uma ou duas horas, estarei ao lado destas aves imponentes. Um companheiro de viagem descreve o momento na perfeição: “Este é um daqueles lugares que temos mesmo de viver em primeira mão, com os nossos próprios olhos, ouvidos, nariz, coração e alma.”

COMO VISITAR

Chegar ao local: Os principais pontos de partida dos cruzeiros antárticos ficam em Ushuaia, na Argentina, e em Punta Arenas, no Chile. A partir de Buenos Aires e Santiago, pode ir até Ushuaia através das Aerolíneas Argentinas, e de Punta Arenas com a LATAM Airlines.

Os navios de expedição demoram geralmente dois dias a cruzar o Canal de Beagle e a Passagem de Drake, e passam entre quatro e cinco dias em torno das ilhas Shetland do Sul e da Península Antártica, antes de uma viagem de regresso de dois dias. Os itinerários mais longos, incluindo visitas à ilha Geórgia do Sul e Ilhas Malvinas, duram entre duas a três semanas.

Quando visitar: Os cruzeiros de expedições antárticas operam entre novembro e março. Na época alta (entre dezembro e janeiro), as temperaturas diurnas em torno da Península Antártica rondam os zero graus, os dias são longos e pode observar pinguins a cuidar das suas crias. Nos últimos meses do ano, os pinguins começam a desaparecer no mar, mas os avistamentos de baleias aumentam. A ilha Geórgia do Sul é mais fria, com temperaturas que raramente sobem acima dos zero graus e que em março caem para os três graus negativos.

Existem mais de duas dezenas de linhas de cruzeiro com partidas para a Antártida, incluindo a National Geographic Expeditions e a Adventures by Disney. A The Walt Disney Company é a proprietária maioritária da National Geographic Partners. Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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