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Granada: uma antiga cidade de sultões e uma maravilha do século XXI

Granada, em Espanha, preserva tesouros do passado. Mas as novas tendências e um novo parque ecológico colocam esta cidade com os olhos no futuro.

Fotografias Por Ben Reynolds
Publicado 6/01/2022, 11:37
Miradouro de San Nicolás

O miradouro de San Nicolás, no bairro de Albaicín, é um bom local para observar o pôr do sol sobre a antiga cidade de Granada, em Espanha.

Fotografia de Ben Roberts

Regressar a Alhambra é como reler um livro. Esta cidadela no topo de uma colina, construída pelos sultões Nasridas por cima de Granada, na região autónoma da Andaluzia, é uma obra-prima de engenharia medieval, mas também de literatura – com poesia e filosofia expressas na sua arquitetura onírica. Versos, bênçãos e ditados estão gravados nas suas fachadas, é quase como se a estrutura estivesse a falar.

“A tranquilidade perpétua e o êxtase contínuo...” são palavras gravadas nas paredes que rodeiam o espelho de água do Palácio de Comares. “Seja moderado nas suas palavras e irá em paz”, aconselha a parede interior por cima do trono do sultão. O telhado abobadado desta estrutura é composto por mais de 8.000 peças de madeira e incrustado com uma constelação de estrelas que representa os sete céus da cosmologia islâmica.

Esquerda: Superior:

Detalhes intrincados adornam as paredes de Alhambra, Património Mundial da UNESCO. Os sultões Nasridas construíram este palácio durante os séculos XIII e XIV.

Direita: Fundo:

Os arcos do Palácio de Partal de Alhambra erguem-se sobre um sereno espelho de água, um local muito popular entre os visitantes.

Fotografia de Ben Roberts

Durante o pôr do sol em Alhambra, habitantes locais e visitantes desfrutam da vista no miradouro de San Nicolás.

Fotografia de Ben Roberts

O grande palácio medieval de Alhambra, Património Mundial da UNESCO, prepara o cenário para o que podemos esperar desta cidade histórica repleta de tradições – e um dos melhores destinos de viagens da National Geographic para 2022. Mas enquanto a cidade tem um pé no passado, o outro já está no futuro. Para além da sua longa história de canto e dança flamenca, Granada é um centro europeu para um subgénero do hip-hop conhecido por “música trap”. E também é uma cidade universitária eternamente repleta de estudantes, um lugar onde os tradicionais bares de tapas partilham as ruas movimentadas com restaurantes de fusão contemporâneos.

História viva

Fundada no século XI, Granada foi um próspero reduto mouro até cair sob o domínio católico de Fernando II e Isabel I em 1492. Nos anos seguintes, muçulmanos e judeus foram forçados a viver na zona de Albaicín, um bairro a norte de Alhambra.

Atualmente, este bairro medieval muçulmano preserva o seu labirinto de casas caiadas de branco, que serpenteiam colina abaixo em ruelas estreitas. De facto, existe aqui uma sensação de história nos cafés e bares de tapas que oferecem vistas incríveis de Alhambra.

É possível sentir a passagem dos séculos quando atravessamos arcadas como as de El Bañuelo, as ruínas de um balneário muçulmano do século XI. Anos mais tarde, os monarcas católicos iriam destruir muitas estâncias semelhantes a esta, porque consideravam que eram pecado. Felizmente, esta casa de banhos sobreviveu e vive sob a forma de um pequeno museu.

O rei e a rainha que reconquistaram Espanha e enviaram Cristóvão Colombo para o Novo Mundo estão sepultados na Capela Real da Catedral de Santa Maria da Encarnação. Neste local, que é um dos muitos santuários católicos erguidos durante o reinado do casal, um clima sombrio de romance gótico prevalece em torno dos seus túmulos esculpidos.

Com uma caminhada pelo centro histórico os visitantes encontram outras figuras famosas, incluindo o poeta e dramaturgo Federico García Lorca. Nascido em Granada e executado com um dos primeiros tiros disparados na Guerra Civil Espanhola, este poeta ainda é recordado como o filho preferido da cidade. As visitas guiadas à casa de verão da sua família, Huerta de San Vicente, levam os visitantes por uma viagem que revela a vida e obra do autor. O parque no exterior – que antigamente era um pomar – é um ótimo lugar para ler a sua poesia.

Tapas e mais

A cultura espanhola de servir petiscos começou nesta região, e as hospedarias de Granada conseguem ser absurdamente generosas em realçar esta tradição local oferecendo tapas gratuitamente com cada bebida alcoólica. Até o copo mais pequeno de cerveja pode vir acompanhado por uma sandes gigante de lombo de porco. Alguns dos bares na zona de Realejo ou Plaza Nueva são capazes de nos deixar tão empanturrados quanto a comida de um casamento.

Entre a miríade de bares de tapas, La Trastienda, numa casa que antigamente era um talho, mantém um perfil mais reservado. Em 1836, o proprietário começou a oferecer alguns dos cortes aos clientes famintos que estavam na fila. O menu atual continua a incluir carnes curadas e queijos fumados de alta qualidade.

Esquerda: Superior:

Habitantes locais jantam no Bodega Castañeda, um dos bares mais históricos de Granada.

Direita: Fundo:

Para além do xerez, o Bodega Castañeda também serve vermute com tapas.

Fotografia de Ben Roberts
Esquerda: Superior:

Jarros e bules adornam as prateleiras de uma loja da Ceramica Fajalauza, uma empresa familiar que trabalha olaria em Granada há mais de 500 anos.

Direita: Fundo:

Irene Urbistondo Molina é fotografada em frente à Esparteria San Jose, uma cestaria gerida pela sua família em Granada há 113 anos.

Fotografia de Ben Roberts

Um pouco fora da zona de conforto culinário da cidade antiga, que envolve sempre presunto, borrego e lingueirão, o Restaurante Cala é onde podemos encontrar mais variedade. Numa sala de jantar iluminada e moderna, o chef francês Samuel Hernández torna um menu amplamente mediterrânico em algo mais cosmopolita através de leite de tigre, aguachile verde e molho chinês.

Albaicín é um bairro pontilhado por carmen (restaurantes ao estilo tradicional), com vinhas e pomares que crescem em torno dos seus altos muros brancos. O primeiro destes restaurantes é o Las Tomasas, que oferece uma vista deslumbrante sobre Alhambra. A comida aqui baseia-se em alimentos básicos regionais e nacionais, desde lulas pequenas a rabo de boi.

Nesta cidade espanhola, as tapas andam de mãos dadas não só com o xerez, mas também com os cocktails. O bar Bodegas Castañeda, uma relíquia da época da Guerra Civil, está repleto de garrafas e barris de vinho e xerez local, mas o especial da casa é o calicasas – uma receita caseira preparada com vermute, gin, rum, refrigerante e especiarias.

O bar Tragofino-SanMatías 30 é uma alternativa relativamente jovem e separada das tabernas antigas de Granada. Este bar também se destaca pela sua abordagem aos cocktails de romã servidos por toda a cidade. Aqui, esta bebida é feita com polpa fresca e licor Pama, e é servida num frasco de compota.

Para além do flamenco

O flamenco nasceu na Andaluzia há cerca de um milénio, e evoluiu para uma forma de arte meio improvisada que envolve trabalho de pés, canto lamentoso e acordes de guitarra acústica. A questão em torno do local de flamenco mais “autêntico” de Granada continua a ser motivo de debate por parte dos habitantes locais.

Os bares populares em cavernas, como o Cueva de la Rocío, no bairro de Sacromonte, podem amplificar os ritmos explosivos do flamenco, mas os sons e as cores também são animados em ambientes mais arejados como os Jardines de Zoraya, que têm um palco de flamenco e um restaurante no jardim, formando um chamado tablao de classe mundial para jantar e ver um espetáculo.

Atualmente, a cena musical de Granada é alimentada por estudantes e imigrantes de toda a Europa, do Norte de África e da América Latina. Isto resulta em muitos géneros musicais a flutuar pelo ar – desde violoncelistas do Conservatório Superior Real de Música Victoria Eugenia de Granada a ensaiar numa praça a baladas de acordeão vindas dos Balcãs que se misturam com batalhas vocais de rap francês em sessões improvisadas perto do jardim Huerto de Carlos.

Esta cultura musical é ainda mais dissolvida no Boogaclub, uma pequena e adorada discoteca. Com sessões regulares de jazz, reggae e flamenco, o Boogaclub também tem desempenhado um papel fundamental na separação dos grupos dissidentes do hip-hop que fizeram da chamada música trap um som mais sintonizado com o movimento underground espanhol.

Uma terra de maravilhas naturais

Longe do centro da cidade encontramos outras maravilhas à espera de serem descobertas. A vila suburbana de Monachil conduz à cordilheira da Sierra Nevada, através de um trilho estimulante que atravessa o vale de Los Cahorros. Aqui, as longas pontes suspensas balançam dramaticamente sob os nossos pés, e as paredes do desfiladeiro inclinam-se tanto sobre o rio que só conseguimos passar se nos agarrarmos a alças de metal embutidas na rocha.

Dois caminhantes percorrem um trilho rochoso na entrada do dramático desfiladeiro de Los Cahorros perto de Monachil, uma área recreativa montanhosa que fica a 20 minutos de carro do centro de Granada.

Fotografia de Ben Roberts

Uma viagem de meia hora para além dos limites da cidade leva os viajantes até uma paisagem pré-histórica repleta de colinas de argila ricas em fósseis. Este é “o outro lado de Alhambra”, como dizem os promotores do geoparque em torno de Granada, designado recentemente património da humanidade pela UNESCO.

Os primeiros colonizadores mouros cavaram habitações subterrâneas nestes terrenos, que mais tarde foram ocupadas por pessoas que não tinham dinheiro para construir ou comprar casas. Estas moradias foram recentemente reaproveitadas por operadoras como a Cuevas Almagruz, uma empresa familiar que gere um sistema de cavernas que alberga um museu subterrâneo e uma série de acomodações rústicas e chiques esculpidas em rocha vermelha macia.

Quando ficam hospedados numa destas câmaras, os visitantes tornam-se numa figura de um conto folclórico durante uma noite. Os hóspedes dormem e sonham no ventre de uma montanha, depois acordam e levantam-se na boca de uma caverna, prontos para vaguear pela história desta região única no sul de Espanha.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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