Pantanal mexicano ameaçado de extinção pode ser recuperado por ‘nanobolhas’ e barcos de turismo

A poluição está a sufocar Xochimilco, Património Mundial da UNESCO na Cidade do México. Mas uma cientista está a aproveitar o poder de pequenas bolhas para salvar o local.

Por Sarah Freeman
Publicado 27/01/2022, 15:31
Trajinera

Uma turista observa a paisagem a partir da proa de uma trajinera, uma barcaça colorida que oferece passeios pelos famosos canais de Xochimilco, na Cidade do México, canais que estão em perigo de extinção.

Fotografia por Florian Buettner, laif/Redux

Com gondoleiros ao leme, os coloridos barcos de passeio conhecidos por trajineras percorrem um canal banhado pelo sol. Estes barcos passam por músicos mariachi que fazem serenatas nos seus próprios barcos e por comerciantes que vendem petiscos em canoas de madeira.

Esta cena semelhante a um carnaval acontece na maioria dos fins de semana em Xochimilco (pronuncia-se “zo-chee-MILK-oh”) – local Património Mundial da UNESCO e um destino muito popular entre os turistas na Cidade do México. Cerca de 11% da biodiversidade do país encontra-se neste pântano que tem quase 2.600 hectares e é pontilhado por 170 quilómetros de canais pré-hispânicos. Este facto é desconhecido para a maioria dos cerca de dois milhões de turistas e chilangos (gíria para os habitantes da Cidade do México) que visitam o local anualmente quando embarcam nas trajineras para fazer um passeio.

Esta fotografia aérea mostra as chamadas trajineras no cais do canal Nativitas em Xochimilco, no dia 23 de agosto de 2020. Xochimilco é um distrito pantanoso no sul da Cidade do México, cujos canais pré-hispânicos e quintas flutuantes o tornam uma das principais atrações turísticas da capital.

Fotografia por Pedro Pardo, AFP/Getty Images

Mas este ecossistema frágil enfrenta um futuro incerto, porque a poluição acumulada ao longo de décadas suga a vida destes canais, ameaçando um património vivo no processo.

Contudo, numa reviravolta surpreendente, os turistas que visitam Xochimilco nas trajineras podem vir a ser os salvadores improváveis deste pântano – isto se um plano local que passa pela utilização das embarcações de madeira para purificar as profundezas mais escuras dos canais vier a dar frutos.

Ecossistema em perigo

O pântano de Xochimilco é considerado um dos últimos vínculos existentes com os astecas, graças às notáveis quintas flutuantes da reserva conhecidas por chinampas. Estas ilhas foram construídas por humanos – 2.215 hectares de ilhas – a partir do solo rico em nutrientes vindo dos leitos dos canais, tornando as chinampas num dos tipos de agricultura mais produtivos do mundo. E estas ilhas já alimentam a capital do México há mais de um milénio.

Hoje, cerca de 55 toneladas de vegetais cultivados nas chinampas – desde beterraba até culturas endémicas, como abóbora talamayota – enchem diariamente as bancas dos mercados de bairro na Cidade do México e no extenso fornecedor retalhista Central de Abastos de la Ciudad.

“Xochimilco tem um pouco de tudo. Dá comida e água, regula o clima da capital e mitiga os efeitos das inundações, cria emprego e está enraizado na tradição”, diz Claudia Alejandra Ponce de León, professora de ciências ambientais da Universidade Nacional Autónoma do México.

Esquerda: Superior:

Esta fotografia de arquivo, captada por volta de 1930, mostra as chinampas, quintas flutuantes feitas pelo homem.

Direita: Inferior:

Trabalhadores transportam flores cempasúchil em Xochimilco, no dia 13 de outubro de 2020. Estas calêndulas mexicanas são muito populares nas celebrações do Dia dos Mortos.

fotografias de Ricardo Flores, Xinhua/Redux

Porém, a água usada para cultivar estas frutas e vegetais está repleta de patógenos há vários anos, diz Refugio Rodriguez Vázquez, ativista e professora de biotecnologia do Instituto Politécnico Nacional do México, que começou a estudar este pantanal em 2016.

Refugio Vázquez diz que a mistura tóxica de agroquímicos vindos do escoamento e das águas residuais das quintas terrestres e flutuantes é a grande responsável por esta situação. As águas residuais são despejadas de El Cerro de la Estrella em três estações de tratamento mais pequenas num raio de 20 quilómetros e acaba nos canais ao ritmo alarmante de 2.000 litros por segundo. É o suficiente para encher uma piscina de 2,5 metros de profundidade, 75 centímetros de largura e 1 metro de comprimento num segundo.

Para agravar o problema, o nitrogénio e o fósforo destas fontes proliferam algas feitas de lentilhas de água e nenúfares – estes últimos, introduzidos na década de 1980 “para fins decorativos” pelo então presidente do México, revelaram-se uma espécie invasora problemática.

Esta proliferação de algas cobre a superfície da água, bloqueando o sol e o oxigénio. “Quando [as algas] morrem, depositam-se no fundo do canal sob a forma de sedimentos. Este terreno é fértil para as bactérias que produzem metano e libertam gases de efeito estufa de regresso para a atmosfera”, diz Refugio Vázquez.

“Segundo o governo canadiano, a poluição nos nossos canais está a adoecer gravemente as aves migratórias como o pato-mexicano e a garça-azul”, acrescenta Armando Tovar Garza, biólogo da Humedalia, uma organização local de conservação. A degradação ecológica em Xochimilco já deixou espécies endémicas como a salamandra axolote à beira da extinção. “Os pantanais são importantes para preservar a qualidade de vida da Cidade do México como a conhecemos”, diz Armando Garza.

Os problemas de Xochimilco começaram há 40 anos, quando as autoridades secaram as suas fontes naturais para abastecer a população em crescimento da Cidade do México, e depois encheram os canais com água tratada. Esta mistura tóxica é agravada pelas descargas ilícitas de águas residuais vindas dos bairros ilegais nas redondezas.

“Estas terras afundaram seis metros nas últimas duas décadas devido à extração de água dos aquíferos para alimentar a Cidade do México”, diz Luis Martínez, um  chinampero de terceira geração que cultiva 15 variedades de vegetais no seu terreno de 1 hectare em San Gregorio. “Precisamos desesperadamente de melhorar a qualidade da água.”

Solução moderna para canais antigos

Se tudo correr conforme planeado, há um plano ambicioso que visa aproveitar o poder de pequenas bolhas – que serão largadas pelos barcos turísticos – que pode restaurar os canais do pantanal e ter implicações que vão muito para além de Xochimilco.

“As nanobolhas conseguem penetrar nos sedimentos lamacentos”, diz Refugio Vázquez. Estas bolsas de ar microscópicas são cerca de 2.500 vezes mais pequenas do que um grão de sal fino e dão literalmente vida às águas carentes de oxigénio. “Nas condições certas... têm um efeito de até seis meses”, acrescenta Refugio Vázquez.

Desde que foram descobertas na década de 1990, as nanobolhas têm sido usadas para remover poluentes em muitas indústrias, incluindo na indústria biofarmacêutica e no processamento de alimentos. Como as nanobolhas não têm uma flutuabilidade natural, permanecem debaixo de água, onde cada pequena bolha carregada negativamente é atraída pelos poluentes carregados positivamente e pelas toxinas nocivas. Esta união faz com que as nanobolhas libertem radicais hidroxilo, que conseguem extinguir patógenos e quebrar lentamente as paredes celulares das algas.

Um habitante local navega pelas águas de Xochimilco, no dia 5 de fevereiro de 2017. Os habitantes locais esperam que as nanobolhas limpem os químicos tóxicos e as algas que atormentam estes canais antigos há décadas.

Fotografia por Adriana Zehbrauskas, The New York Times/Redux

Para entregar as bolhas, Refugio Vázquez desenvolveu uma configuração de tubos e painéis solares que aproveita a infraestrutura turística já existente no pantanal – as 1.103 trajineras.

Estas embarcações sem motor (que transportam até 20 pessoas) fornecem uma fonte de rendimento que é essencial para toda uma comunidade de músicos, cozinheiros e remeros como José Gabriel Gonzales Franco. Este gondoleiro de quinta geração é descendente dos Xochimilcas que aqui viveram muito antes da chegada dos astecas. Os remeros continuam a fazer as varas das barcaças tal como os seus antepassados, com madeira dos abetos endémicos oyamel. “Pertencemos a esta terra”, diz José Franco. “Nós [remeros] mantemos a tradição viva na região.”

Até agora, Refugio Vázquez só testou os protótipos na sua oficina e laboratório flutuante (uma trajinera reciclada que foi batizada com o nome de “passarinho”). Contudo, os extensos modelos de computador criados através de um estudo controlado numa piscina, incluindo inúmeras investigações de suporte, mostram que esta aplicação é bem-sucedida na limpeza de águas poluídas.

Em outubro de 2021, um sábado quente e sufocante marcou a primeira vez em que este mecanismo foi instalado numa trajinera com turistas a bordo. Dois painéis solares de 50 watts foram fixados no teto curvo do barco de Carlos Díaz, cuja família transporta visitantes ao longo dos canais Cuemanco e La Cruz a partir do Cais Flores Nativitas desde 1960.

Um emaranhado de fios liga os painéis a uma pequena caixa de controlo, que gera energia fotovoltaica. Este processo aciona uma bomba nos tubos submersos, que por sua vez extraem água do canal, redistribuindo-a sob a forma de milhares de bolhas do tamanho de uma partícula de COVID-19. Refugio Vázquez diz que um dos objetivos do seu plano a longo prazo é comunicar a mensagem do projeto através de uma série de infografias coladas no teto de cada barco.

Na semana seguinte, Refugio Vázquez e a sua equipa de estudantes de doutoramento levaram o equipamento para o campo para garantir que todas as partes móveis funcionavam em conjunto. Desta vez, equiparam uma frota de barcos de turismo que transportavam um grupo de estudiosos intrigados com o funcionamento do projeto. A frota partiu do Cais de Puenta de Urrutia, a porta de entrada para algumas das quintas flutuantes mais famosas de Xochimilco.

Para além de Xochimilco

Felizmente, o equipamento funcionou – uma pequena, mas significativa vitória para o trajeto desafiador que Refugio Vázquez ainda tem pela frente, porque precisa de patentear a sua tecnologia caseira e obter apoios do governo local.

Ainda não foi possível extrair dados definitivos sobre este teste, sobretudo devido à sua escala reduzida. Além disso, provavelmente serão necessários vários meses para que os benefícios das águas oxigenadas sejam tangíveis, porque o volume de florescimento de algas é enorme. Ainda assim, há muita esperança de que este projeto consiga atingir a meta de Refugio Vázquez, que quer limpar um terço da rede de canais de Xochimilco.

Apesar de ainda haver um longo caminho para percorrer, a comunidade académica no México e não só já está atenta a outras aplicações possíveis para a invenção de Refugio Vázquez. Jordi Morató Farreras, coordenador da Cátedra UNESCO de Sustentabilidade da Universidade Politécnica da Catalunha, diz que se imagina a usar esta tecnologia noutros destinos protegidos.

Oxigenar um lago na Colômbia e descontaminar o solo agrícola no estado de Puebla são apenas algumas das ideias que os investigadores estão a apresentar.

Isto também seria um motivo de orgulho para os habitantes locais. “Visitei Xochimilco pela primeira vez há oito anos e fiquei impressionada com a quantidade de trajineras, a cor da água e o quanto estava poluída”, diz Gabriela Vianey, professora local que hoje está bordo da trajinera de teste. “Eu não tinha conhecimento do projeto [de Refugio Vázquez]. Espero que [Xochimilco] ainda esteja cá para os meus netos o verem.”

Sarah Freeman é uma jornalista sediada no Reino Unido cujo trabalho é focado em viagens relacionadas com conservação. Siga-a no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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