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Novas ferramentas digitais estão a ajudar os viajantes a evitar discriminação

Os viajantes negros e LGBTQ+ estão na linha da frente no desenvolvimento de tecnologias inclusivas que ajudem as suas comunidades a viajar em segurança.

Por Alexandra Gillespie
Publicado 2/02/2022, 11:59
cidade, tecnologia

Uma sondagem feita pela Accenture em 2019 descobriu que 74% dos viajantes querem saber se uma empresa de viagens oferece produtos e serviços direcionados para a sua comunidade. Agora, uma série de recursos online criados por minorias estão a preencher as lacunas nestes serviços, oferecendo aos viajantes as informações necessárias para encontrarem espaços inclusivos.

Fotografia por Mohammed Elshamy, Anadolu Agency/Getty Images

Planeamos férias com o TikTok, recebemos atualizações sobre voos através de mensagens de texto, reservamos passagens com aplicações e os nossos rostos são scaneados para entrarmos num avião. A tecnologia geralmente facilita as nossas viagens, mas nem sempre é assim para os viajantes das comunidades marginalizadas. As reservas para boleias partilhadas são geralmente mais canceladas para os negros do que para os brancos, e para os passageiros LGBTQ+ em comparação com os utilizadores heterossexuais. É mais provável que um viajante negro acabe por ver a sua reserva Airbnb negada. As investigações feitas recentemente mostram que a tecnologia de reconhecimento facial, que se está a tornar cada vez mais popular nos aeroportos, tem mais probabilidades de identificar erradamente pessoas de cor, e os reconhecimentos corporais feitos pela autoridade dos transportes dos EUA podem identificar os viajantes transexuais ou simplesmente assinalá-los como uma ameaça à segurança nacional.

Os principais intervenientes do setor estão a trabalhar para resolver o problema. A empresa Airbnb, por exemplo, baniu mais de 1 milhão de utilizadores por não aceitarem a sua política de não discriminação e lançou uma iniciativa interna que analisa o histórico dos utilizadores para avaliar os atos de discriminação racial. Estas informações ajudam a empresa a criar novas ferramentas e políticas para eliminar virtualmente as desigualdades. Mas os viajantes afetados por estas situações não estão à espera que os serviços convencionais ofereçam uma solução. E estão a usar a tecnologia para criar ferramentas inclusivas que qualquer pessoa pode usar para planear a sua próxima viagem.

Direções digitais

O guia seminal de Victor Hugo Green, The Negro Motorist Green Book, ajudou os negros americanos a encontrar espaços seguros enquanto viajavam sob as leis Jim Crow – desde a década de 1930 até ao final dos anos 1960. Estas leis desapareceram, mas para os viajantes negros, a dificuldade em navegar através de espaços desconhecidos ainda persiste.

Stefan Grant, um rapper jamaicano que vive no sul da Flórida, passou por esta experiência em primeira mão quando a polícia apareceu no Airbnb onde estava hospedado em Atlanta em 2015, depois de um vizinho ter chamado a polícia para relatar falsamente que Stefan Grant e os seus amigos estavam a assaltar a casa. Stefan partilhou a experiência traumatizante nas redes sociais e o evento tornou-se viral.

Os espaços socialmente definidos para “brancos” e “negros” são muito comuns nos Estados Unidos”, diz Mia Bay, professora de história americana na Universidade da Pensilvânia e autora de Traveling Black: A Story of Race and Resistance. “As viagens podem muitas vezes perturbar estes tipos de divisões sociais.” Mia Bay acrescenta que as leis Jim Crow limitavam até onde os negros podiam ir, mas também deixavam bem patente onde eram bem-vindos – porém, os turistas da atualidade enfrentam uma incerteza ainda maior.

“Só porque um lugar é seguro para mim enquanto homem negro heterossexual, isso não significa que para a minha irmã, que é uma mulher negra queer, a experiência seja semelhante e que ela também se sinta confortável.”

por CHRISTIAN LOWE
CRIADOR DO PROJETO GREEN BOOK

Os empreendedores negros estão a enfrentar esta incerteza adaptando o espírito do guia escrito por Victor Hugo Green para a era digital. A experiência angustiante de Stefan Grant levou-o a criar o Noirbnb, uma plataforma de aluguer mais virada para os viajantes de cor. “O site visa educar, capacitar e fornecer oportunidades económicas para criar uma comunidade inclusiva para os viajantes”, diz Stefan Grant. “As pessoas que usam o Noirbnb sabem que a pessoa que fornece este espaço respeita a sua humanidade e dignidade.”

Outros programas, como o Green Book Global, oferecem guias urbanos na perspetiva dos viajantes negros. O site EatOkra liga os utilizadores a mais de 11.000 restaurantes geridos por negros. A aplicação Blapp e o site SupportBlackOwned.com oferecem informações sobre vários negócios diferentes por cidade, desde estúdios de ioga a lojas de retalho. O site Culture onShore, uma base de dados de viagens que vai ser lançada ainda este ano, agrega experiências culturais geridas por minorias.

“Se os viajantes não tiverem conhecimento do pequeno restaurante de comida de aconchego, se não conhecerem o restaurante de comida caribenha, o pequeno operador turístico que exibe a herança negra ou o pequeno museu negro, então o seu dinheiro não chega a estas comunidades”, diz Stephanie Jones, criadora do site Culture onShore e fundadora da National Blacks in Travel and Tourism Collaborative.

Há várias aplicações e sites em andamento para ajudar os grupos marginalizados a evitar discriminação enquanto viajam pela estrada.

Fotografia por Jon Lowenstein, NOOR/Redux

O Projeto Green Book, uma aplicação desenvolvida pelo engenheiro de software Christian Lowe, permite aos viajantes determinar o quão inclusivo é um negócio através de um sistema de pesquisa exclusivo que se baseia na forma como os utilizadores se identificam, indicado com uma hashtag as suas pesquisas. Por exemplo, um viajante queer vegan pode filtrar as avaliações de um restaurante para obter informações sobre a forma como as suas necessidades específicas serão correspondidas pelos funcionários.

“Só porque um lugar é seguro para mim enquanto homem negro heterossexual, isso não significa que para a minha irmã, que é uma mulher negra queer, a experiência seja semelhante e que ela também se sinta confortável”, diz Christian Lowe.

Algumas das grandes plataformas também estão a trabalhar para melhorar as suas opções de pesquisa, embora estes esforços estejam longe de serem perfeitos. O GoogleMaps, OpenTable e Yelp permitem aos utilizadores filtrar as pesquisas por empresas geridas por pessoas LGBTQ+ – e o Yelp permite aos utilizadores filtrar por casas de banho de género neutro. Apesar de se poder pesquisar “negócios geridos por mulheres” no Google, as pesquisas como “LGBTQ+”, “seguro para transgénero” e empresas “geridas por latinos” e “veteranos” não são. O Google está a desenvolver esforços para acrescentar mais opções pesquisáveis, de acordo com um porta-voz da empresa.

(Descubra como os viajantes de cor estão a derrubar estereótipos.)

Para além das aplicações e ferramentas tecnológicas mais recentes, os viajantes podem simplesmente pesquisar hashtags específicas no Instagram, diz Martinique Lewis, presidente da Black Travel Alliance, que está a adaptar o seu livro de 2021, The ABC Travel Green Book, para aplicação.

Procurar hashtags como #BlackInParis, #BlackInAmsterdam, #BlackInNewYork ou #BlackOwnedNewYork e #BlackOwnedAmsterdam irá, diz Martinique Lewis, “ajudar-nos a ter uma ideia de quem está lá, o que estão a fazer, onde podemos comer, onde podemos festejar, onde podemos ver uma exposição sobre a história negra”.

Pela cidade

Os viajantes homossexuais enfrentam dificuldades semelhantes, diz Robert Geller, fundador da plataforma de aluguer FabStayz, que é virada para os viajantes LGBTQ+.

Robert Geller diz que o seu site e outros, incluindo o Misterb&b e o Ebab, proporcionam uma sensação de segurança aos viajantes, para que estes não precisem de andar à procura de um anúncio especifico ou de uma propriedade e tentar descobrir se aquele local é acolhedor. “Assim não há mistério e a ansiedade desaparece. É como ficar na casa de um amigo.”

O Spartacus International Gay Guide, publicado anualmente desde 1970 até 2017, ano em que passou para o formato digital sob a forma de aplicação, destaca os negócios sem preconceitos LGBTQ e eventos do movimento orgulho em milhares de cidades por todo o mundo. O Gay Travel Index, da mesma empresa, classifica os países anualmente em relação ao quão amigáveis são dos viajantes LGBTQ+. A TripIt, uma aplicação de logística de viagens, e o GeoSure, uma aplicação de segurança para viagens, também classificam os bairros consoante a sua aceitação LGBTQ+.

Os recursos específicos para viajantes transgénero incluem o Equaldex, uma base de dados virada para a comunidade defensora dos direitos LGBTQ+ que identifica se a identidade de género não binária é legalmente reconhecida em determinado local. O Relatório de Mapeamento Legal Transexual da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais detalha as leis sobre os direitos dos transexuais em mais de 140 estados membro das Nações Unidas. O Guia de Viagem Man About World LGBTQ+, acessível online ou através de aplicação, inclui dicas para os viajantes transexuais nos EUA, explicando por exemplo a inscrição nos procedimentos antecipados de segurança da autoridade dos transportes para reduzir as probabilidades de uma pessoa ser sinalizada durante as verificações. Este guia também indica grupos como o The Facebook Transgender Alliance e aconselha que se pesquise nas redes sociais por #TravelingWhileTrans.

Independentemente das aplicações que utilizemos, Kayley Whalen, que gere o blog de viagens Trans Worldview, recomenda aos viajantes para entrarem em contacto com os grupos de defesa de transexuais no destino através das redes sociais. Organizações como a Asia Pacific Transgender Network, que opera em 15 países, desde a China até à Mongólia, podem fornecer uma perspetiva prática sobre a forma como as pessoas transexuais são tratadas e facilitar as ligações locais.

Ao entrar em contacto com o grupo FTM Vietnam e o Centro ICS local antes de fazer uma viagem ao Vietname, por exemplo, Kayley Whalen conseguiu travar uma amizade instantânea: “Uma mulher transexual associada a estes grupos encontrou-me no aeroporto, e levou-me a jantar e acompanhou-me ao Airbnb na primeira noite que passei no Vietname, para se assegurar de que eu me sentia bem-vinda enquanto pessoa transexual”, diz Kayley no seu vlog.

Kayler Whalen acrescenta que, ao criar estes espaços digitais inclusivos, os viajantes de diferentes origens podem sentir-se ligados uns aos outros enquanto viajam, em vez de se sentirem estranhos ou isolados.

“Creio que viajar é uma forma de afirmação para as pessoas transexuais. Porque mostra que o género não é igual em todos os países.”

Alexandra Gillespie é uma jornalista de viagens sediada no sul da Califórnia.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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