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Práticas de conservação indígena podem significar um turismo de vida selvagem mais rico no Canadá

Na Colúmbia Britânica, as práticas tradicionais de conservação indígena demonstram como humanos e ursos podem partilhar território. São boas notícias tanto para os ursos como para os turistas.

Na Colúmbia Britânica, a floresta tropical de Great Bear tem sido o lar de ursos-pardos e comunidades das Primeiras Nações. Um novo estudo mostra que ambos podem ter sido atraídos para esta região costeira devido à abundância de alimentos, água e abrigo.

Fotografia por Jesaja Class
Publicado 24/03/2022, 15:21

A nossa jangada de rafting desce o rio Atnarko na exuberante floresta tropical de Great Bear, na Colúmbia Britânica, uma das maiores florestas temperadas remanescentes da Terra. Enquanto contornamos uma faixa rochosa da margem do rio, um jovem urso-pardo fêmea e as suas duas crias emergem da vegetação e começam a marchar em fila indiana ao nosso lado – demasiado perto até.

Os anos que passei a fazer caminhadas no interior – e os protocolos de segurança estabelecidos para evitar ursos-pardos – dizem-me para colocar mais espaço entre nós. Mas um estudo feito recentemente no Canadá, desenvolvido em colaboração com grupos comunitários das Primeiras Nações, sugere que os humanos podem ter partilhado uma relação mais próxima com os ursos, com base na reciprocidade de recursos e não no medo.

Um urso-pardo pesca salmão no rio Atnarko, na floresta tropical de Great Bear, na Colúmbia Britânica.

Fotografia por Jesaja Class

Num ecossistema que está a lidar com a perda de habitat devido à extração de madeira, e numa província com um histórico de usar os ursos-pardos como troféus de caça, as descobertas deste estudo podem ter vastas implicações para a conservação liderada pelos indígenas e para o turismo de vida selvagem na Colúmbia Britânica. O estudo apoia a sabedoria convencional de que as tradições indígenas são práticas de conservação eficazes.

Uma visão de ‘parentesco’

Em 2021, investigadores de cinco Primeiras Nações costeiras e cientistas da Universidade de Victoria estudaram grupos genéticos de ursos-pardos na costa central da floresta tropical de Great Bear. Através de amostras de ADN recolhidas de fios de pelagem, os investigadores fizeram uma observação impressionante. Há três grupos genéticos distintos de ursos a viver em áreas geograficamente alinhadas com os territórios tradicionais de três grupos de línguas indígenas: Tsimshian, Wakashan do Norte e Salishan Nuxalk.

A equipa concluiu que estes territórios de ursos podem ter se formado a partir de recursos partilhados com os humanos, e não devido a “fatores de resistência” ou barreiras físicas, como uma cadeia montanhosa. Por outras palavras, os ursos optaram por ficar nas áreas com uma abundância de comida, água e abrigo, assim como os grupos indígenas. “A paisagem está a moldar ursos e as pessoas de formas semelhantes”, diz Lauren Henson, bióloga do Laboratório Raincoast de Ciência de Conservação Aplicada da Universidade de Victoria e coautora do estudo.

Estima-se que estas gravuras rupestres das Primeiras Nações tenham sido esculpidas em rochas na floresta tropical de Great Bear há mais de 5.000 anos – e são consideradas sagradas para o povo Nuxalk.

Fotografia por Jesaja Class

Esta conclusão parece ecoar a visão de “parentesco” pela qual algumas Primeiras Nações costeiras se regeram durante séculos – a de que todos os elementos naturais de um ecossistema estão intimamente relacionados. “Os nossos anciões diziam que os ursos ensinam-nos muito sobre como viver na região – o que podemos comer, onde podemos ficar. Temos muitas das mesmas necessidades”, diz Jennifer Walkus, membro do conselho da Nação Wuikinuxv e coautora do estudo.

Estas descobertas desafiam a eficácia das atuais práticas de gestão de ursos-pardos do governo, que não levam em consideração os dados genéticos. Esta é uma distinção importante porque a monitorização das diferenças genéticas pode ajudar a melhorar a saúde de uma população, alertando sobre elevados níveis de endogamia. E também pode ajudar os ursos a adaptarem-se melhor às ameaças e a um ecossistema em mudança.

O estudo também apresenta um argumento convincente para a integração do conhecimento ecológico indígena nos esforços de conservação, uma recomendação agora apoiada por um mandato do governo canadiano.

Práticas de conservação indígenas suportadas pela ciência

O conhecimento indígena não se limita a contribuir para as investigações mais subtis, até porque um estudo feito em 2021 mostra que este conhecimento pode levar a uma conservação mais bem-sucedida. Descobertas semelhantes têm sido feitas pelo mundo inteiro, desde a Austrália ao Brasil. Na Colúmbia Britânica, as investigações lideradas ou patrocinadas por indígenas têm sido usadas para impactar as políticas de conservação de ursos, desde acabar com a caça de troféus em 2017 à proteção de habitat nas ilhas da Colúmbia Britânica.

“Os investigadores geralmente ficam no local durante um curto período de tempo, ao passo que se estivermos a trabalhar com as nações locais que trabalham no interior de um território, eles conseguem ver o que acontece a estes animais durante o ano inteiro”, explica Jennifer Walkus.

Um jovem urso-pardo caminha ao longo das margens do rio Atnarko, na floresta tropical de Great Bear. As estâncias na floresta, incluindo a Tweedsmuir Park Lodge, organizam passeios de observação de ursos que respeitam as regras em vigor na Colúmbia Britânica.

Fotografia por Jesaja Class

O conhecimento que as sociedades das Primeiras Nações adquiriram ao longo de séculos de vida na região costeira central da Colúmbia Britânica permite uma abordagem holística à gestão dos ecossistemas. “O governo tende a olhar para todas as espécies com um nível abrangente e gere isso à escala regional, ao passo que o nosso povo gere os recursos à escala de uma bacia hidrográfica”, diz William Housty, gestor de conservação do Departamento de Gestão Integrada de Recursos de Heiltsuk e coautor do estudo sobre o grupo de idiomas. “Quando começamos a olhar para a saúde de todos estes recursos diferentes num sistema, conseguimos realmente vislumbrar uma imagem de como isto está tudo interligado e gerir as espécies individualmente de acordo com as necessidades.”

Esta filosofia está a ser aplicada na população de salmão da Colúmbia Britânica, a principal fonte de alimento dos ursos-pardos que tem sido dizimada pela sobrepesca e alterações climáticas. Para restaurar uma população saudável no seu território, a Nação Wuikinuxv está a trabalhar com a agência governamental Fisheries and Oceans Canada (DFO) para determinar o tamanho populacional de uma espécie e limites de colheita que levem igualmente em consideração os ursos, os peixes e as pessoas.

Este esforço vem no seguimento de vários estudos feitos pela Nação Wuikinuxv e pela Fundação Raincoast de Conservação. Um destes estudos descobriu que as pessoas e os ursos podem partilhar salmão de uma forma equitativa e que beneficie ambos. “Encontrar formas de gerir não apenas as pessoas, mas todas as espécies na nossa terra é verdadeiramente fundamental”, diz Jennifer Walkus.

O que significa para os viajantes?

O estudo genético sobre os ursos-pardos feito em 2021 não está apenas a preencher um contexto importante para a conservação, também pode levar a uma experiência mais rica de observação de vida selvagem para os viajantes em lugares como a pousada Knight Inlet Lodge, gerida por indígenas, na ilha de Vancouver, na floresta tropical de Great Bear, que ajudou a estabelecer a Associação Comercial de Observação de Ursos da Colúmbia Britânica (CBVA). Esta associação também liderou os esforços para acabar com a caça de troféus na Colúmbia Britânica e define agora o padrão para uma observação responsável de ursos na área.

“A experiência de ver um urso-pardo juntamente com mensagens de conservação num cenário de turismo tem potencial para influenciar as atitudes e perceções das pessoas”, diz Kate Field, cientista de conservação da Universidade de Victoria, que está a colaborar com investigadores indígenas para estudar os efeitos da presença humana no comportamento dos ursos.

“Este estudo pode ajudar as pessoas a compreender o quão intrincada e importante é a relação entre as pessoas e os ursos, e dar às pessoas a oportunidade de ver exatamente isso no terreno”, acrescenta William Housty. “Quanto mais as pessoas conhecerem e compreenderem isto, mais fácil será gerir a nossa relação com os ursos e conservar o seu habitat.”

(Estas mulheres indígenas estão a remodelar a indústria de turismo do Canadá.)

Ao aprender esta história, bem como o significado cultural dos ursos-pardos para as Primeiras Nações costeiras, os viajantes podem sair daqui com uma perspetiva diferente sobre a sua própria relação com os ursos e a terra. Isto é importante para Ellie Lamb, guia de ursos da CBVA que trabalha em parceria com a Tweedsmuir Park Lodge e passou anos a refinar o seu conhecimento sobre estes animais com especialistas em comportamento de ursos e membros do povo Nuxalk.

“As Primeiras Nações sabem conviver bem com os ursos; é algo que foi passado de geração em geração”, diz Ellie Lamb. “Eles vivem isto e nós, enquanto guias, podemos aprender com eles.”

De regresso à floresta tropical de Great Bear, Ellie Lamb leva-me a fazer uma caminhada em Kettle Pond, no Parque da Província de Tweedsmuir. Paramos em frente a uma marca no musgo aveludado. “É uma marca de uma pisada”, explica Ellie Lamb, feita pelos ursos enquanto “pisam” pela floresta, deixando o seu odor e pelo por todo o lado enquanto coçam as costas nos troncos das árvores.

“Esta foi feita recentemente”, diz Ellie, enquanto arranca pelo de urso de uma das árvores. Aquela sensação familiar de adrenalina que senti a fazer rafting regressa, mas rapidamente se dissipa. À medida que seguimos as pegadas do urso, assim como os povos das Primeiras Nações fazem há séculos, a sua proximidade provoca um sentimento mais parecido com parentesco do que com medo. Eu olho para os rastos dos ursos nesta floresta antiga como um lembrete da ligação que os povos indígenas costeiros têm com os ursos-pardos.

Quem seria melhor para liderar o futuro do ecoturismo de ursos do que as pessoas que convivem com estes animais há milénios? “Quando pensamos na gestão de ursos, é como uma gestão de nós próprios”, diz Jennifeer Walkus. “Estamos intimamente ligados.”

Como visitar
A floresta tropical de Great Bear estende-se por 400 quilómetros desde Knight Inlet até ao Alaska Panhandle, ao longo da costa da Colúmbia Britânica. Pode chegar ao Parque da Província de Tweedsmuir através de um voo de uma hora do Aeroporto Internacional de Vancouver em direção a Bella Coola. A Pacific Coastal Airlines faz esta rota cinco dias por semana. A Indigenous Tourism BC oferece mais sugestões sobre viajar com responsabilidade na província.
Os ursos-pardos vagueiam pela floresta durante a primavera e o verão, mas para ver mais ursos, planeie a sua viagem para o início do outono, para coincidir com a corrida do salmão.

Caminhe connosco: Quer estar ao ar livre? Nós podemos ajudar. Os Mapas Ilustrados de Trilhos da National Geographic destacam os melhores lugares para fazer caminhadas, acampar, passear de barco, praticar remo e fazer observação de vida selvagem nas fronteiras cénicas e acidentadas da América do Norte e orlas urbanas. Criados em parceria com as agências locais de gestão de terras, estes mapas minuciosamente investigados fornecem detalhes incomparáveis e informações úteis para orientar os entusiastas das aventuras ao ar livre mais experientes e os visitantes casuais. Clique aqui para aceder a um mapa de trilhos da região oeste do Canadá, incluindo as florestas tropicais da Colúmbia Britânica.

Chloe Berge é uma escritora sediada em Vancouver que cobre viagens, conservação e cultura. Pode encontrá-la no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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