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Será que os tesouros escondidos desta ilha grega conseguem atrair visitantes?

Cárpatos, ignorada até pelos próprios gregos, equilibra o aumento do turismo com a manutenção das suas antigas tradições.

Por Fahrinisa Campana
fotografias de Ciril Jazbec
Publicado 18/03/2022, 11:43
viajam de barco para Diafani

Habitantes locais viajam de barco para Diafani, um charmoso assentamento costeiro no lado norte da ilha grega de Cárpatos. Os moradores locais querem garantir que conseguem receber turistas, preservando o modo de vida tradicional.

Fotografia por Ciril Jazbec, National Geographic

Depois de arregaçar as mangas até aos cotovelos e atar um avental à cintura, Evangelia Agapiou está pronta para a sua próxima aula de culinária. Hoje, Evangelia vai fazer makarounes, a massa tradicional de Cárpatos, uma ilha grega no Mar Egeu entre as ilhas de Creta e Rodes. Esta massa leva apenas dois ingredientes: farinha e água. Mas há muito trabalho – e história – por trás do que a torna tão especial.

Que é exatamente o que Evangelia Agapiou quer mostrar aos visitantes da ilha. “Muitas pessoas pensam que a massa vem da ocupação italiana, mas tínhamos makarounes muito antes da chegada dos italianos”, explica Evangelia. A Itália invadiu Cárpatos pela primeira vez em 1912, ocupando a ilha durante quase quatro décadas.

Dirigindo-se a um pequeno grupo de viajantes, Evangelia apimenta as suas instruções culinárias com a história da ilha, as suas tradições e a profunda ligação dos seus habitantes com a terra e o mar.

Esquerda: Superior:

Raparigas vestidas com trajes tradicionais para a celebração da festa de Santa Irene, em maio, na vila de Olympos, também conhecida por Olymbos.

Direita: Inferior:

Uma capela isolada no cimo de um penhasco, perto de Olympos, com vista para o Mar Egeu.

Enseadas escondidas recortam a tranquila costa nordeste de Cárpatos, a segunda maior ilha do arquipélago do Dodecaneso, que inclui as populares ilhas de Rodes e Patmos.

Apesar de ser a segunda maior ilha do Dodecaneso, ficando atrás de Rodes, há uma sensação palpável de isolamento em Cárpatos. O ferry que parte de Atenas demora 28 horas a chegar aqui, e embora Cárpatos tenha um aeroporto internacional, só existem voos diretos de alguns países, como Itália, Países Baixos e Bélgica.

Os habitantes de Cárpatos também conseguiram manter uma profunda noção de autossuficiência e independência, sobretudo no lado norte da ilha, onde a maioria das famílias continua a sobreviver de práticas como agricultura e pastoreio. Em muitos lares, o queijo e a manteiga são feitos com o leite das suas cabras e ovelhas, e muitas famílias produzem o seu próprio mel, vinho e azeite.

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Mas as coisas na ilha estão a mudar. Nos últimos anos, Cárpatos testemunhou um aumento constante de turistas que procuram uma experiência mais fora do comum, e que querem evitar as grandes multidões nas ilhas mais conhecidas. Este movimento tem trazido benefícios financeiros palpáveis para a ilha, mas também uma série de outros problemas – a escassez de água potável natural e a crescente necessidade de uma instalação de reciclagem adequada são apenas dois exemplos.

Um caminho antigo à beira de um penhasco, na aldeia de Avlona, em Cárpatos, vai levar a esta caverna nas ruínas de Vrykounda, uma cidade que foi habitada até ao século VI. A pequena capela no interior é agora dedicada a São João Baptista.

Enquanto exploram as ruelas estreitas de Olympos, os visitantes encontram artesanato à venda e cafés com esplanadas ao ar livre para degustar os sabores locais, como makarounes, uma massa artesanal.

Em Olympos, os fiéis celebram a Festa da Transfiguração no mês de agosto.

Quando comparada com outros pontos de foco turísticos como Míconos e Santorini, ilhas que enfrentam há muito tempo questões como a gestão adequada de resíduos e água potável, Cárpatos tem uma vantagem – a chegada tardia à indústria do turismo. Isto deu aos seus habitantes tempo suficiente para observarem o que está a acontecer nas outras ilhas, algo que, segundo Evangelia Agapiou, “os ajudou a evitar muitos problemas e a não se concentrarem apenas no turismo de massas como se fosse a única solução”.

A maré crescente do turismo

Até recentemente, os únicos visitantes de verão em Cárpatos eram os filhos e netos dos habitantes que se mudaram para os Estados Unidos entre as décadas de 1950 e 1970, e que passavam os meses de verão a visitar os familiares.

Evangelia Agapiou fundou a Ecotourism Karpathos em 2016, quando percebeu que a ilha, ainda pouco conhecida até para a maioria dos gregos, estava a começar a receber mais turistas durante os meses de verão. Os turistas estavam especificamente interessados em atividades ao ar livre – windsurf, caminhadas e observação de aves – bem como nas tradições locais de Cárpatos, como a celebração anual de Páscoa, quando os habitantes vestem trajes tradicionais coloridos.

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Evangelia oferece oportunidades que vão desde passeios, ações que incluem uma limpeza de praia e estadias em acomodações alimentadas a energia solar.

“A minha ideia é ajudar as pessoas aqui em Cárpatos – que não é uma ilha turística como Míconos, Santorini, Creta ou Rodes – a ver um lado diferente do turismo”, explica Evangelia. “Eu vi como a nossa sociedade mudou em 10 anos por causa do turismo de massas, como as nossas tradições se têm vindo a perder.”

Uma caminhada pela montanha Profitis Ilias recompensa os visitantes com vistas da costa e acesso a uma encantadora capela branca no cume.

Outro dos problemas é o perigo bastante real de a ilha enfrentar uma degradação ambiental devido à falta de recolha, transporte, tratamento e descarte adequados dos resíduos produzidos localmente, sobretudo durante os meses de verão, quando a população de 4.000 habitantes aumenta exponencialmente. Em 2019, a ilha recebeu cerca de 190.000 visitantes.

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“É um problema enorme para nós, porque não temos capacidade de reciclagem”, admite Andreas Tsagkaris, que trabalha como consultor turístico do Município de Cárpatos. “É muito mau para os turistas e para os habitantes, porque dá má reputação à ilha.”

Tem havido um esforço recente, porém, para reduzir os copos, palhinhas e sacos de plástico descartáveis. À medida que o turismo cresce, diz Andreas Tsagkaris, “temos de fazer algo [mais] sobre isto”.

Foco no turismo lento

A ilha de Paros, nas Cíclades, na zona centro do Mar Egeu, pode fornecer um modelo de sucesso. Paros está a caminho de se tornar na primeira ilha livre de plástico descartável na Grécia, graças ao trabalho de organizações como a Clean Blue Paros, uma iniciativa da Common Seas, uma empresa social sediada no Reino Unido.

Esquerda: Superior:

Um burro parado ao longo do trilho que vai dar à antiga cidade de Vrykounda, em Cárpatos.

Direita: Inferior:

Relíquias das antigas civilizações da ilha podem ser encontradas ao longo do trilho para Vrykounda.

Esquerda: Superior:

Muitas das mulheres em Olympos continuam a usar os tradicionais vestidos e lenços pretos.

Direita: Inferior:

Uma menina celebra a festa de Santa Irene, em maio, com os tradicionais loukoumades com mel e sésamo.

Paros suporta uma indústria de turismo há mais tempo do que Cárpatos, “mas o trabalho que fizemos pode ser replicado nas ilhas gregas com algumas coisas a serem modificadas devido às dimensões de cada ilha e de todos os outros parâmetros”, diz Zana Kontomanoli, gestor do projeto da Clean Blue Paros.

Zana Kontomanoli diz que Cárpatos é capaz de atrair um tipo diferente de turistas – pessoas com maior consciência ambiental e ficam felizes em pagar mais por isso. “É mais lento em termos de crescimento financeiro, quando comparado com o turismo de massas, mas existe uma certa beleza em crescer mais organicamente.”

Uma das formas pelas quais a ilha pode evitar o turismo de massas é prolongar a época turística com atividades durante a época baixa na Grécia. Isto inclui passeios de observação de aves durante a migração do falcão-da-rainha, que faz uma paragem durante meses em Cárpatos antes de seguir para Madagáscar.

Um aspeto importante do trabalho de Evangelia Agapiou é envolver o maior número possível de habitantes locais – quer seja através de demonstrações de vinicultura tradicional ou através de atividades noturnas como pescar com os pescadores locais.

Um casal viaja de barco para a aldeia de Diafani, onde os cafés e bares se alinham na marginal ao longo de uma praia pitoresca.

“Na realidade, trata-se de um negócio comunitário, porque todos os dias temos muitos moradores envolvidos nos nossos passeios”, explica Evangelia. “E, claro, partilhamos sempre todos os benefícios. Isso é ecoturismo.”

Desta forma, Evangelia Agapiou também espera que os habitantes locais percebam que o ecoturismo, em vez do turismo de massas, é o caminho a seguir para Cárpatos. “Às vezes, as pessoas ficam confusas com esta definição”, diz Evangelia, enquanto deita makarounes numa panela de água a ferver, juntamente com uma dose generosa de sal marinho recolhido na costa da ilha.

Para terminar, Evangelia serve os makarounes polvilhados com um tradicional queijo de cabra crocante e picante, feito pela sua mãe; junta cebolas caramelizadas cultivadas nos jardins da sua família e o cabrito guisado, também do rebanho da família.

“Em inglês, a definição de ‘eco’ é mais ‘ecológica’”, diz Evangelia Agapiou. “‘Ecos’ em grego significa o lar, a pátria, a comunidade. Portanto, isto é ecoturismo – unir as pessoas.”

O nascer do sol sobre a vila de Olympos, que se estende pelas encostas leste e oeste da montanha Profitis Ilias.

O raiar do dia é o momento ideal para subir a Profitis Ilias até à capela no cume.

Fahrinisa Campana é uma repórter que cobre matérias sobre género, migração, alterações climáticas e questões dos direitos humanos. Pode encontrá-la no Twitter.
Ciril Jazbec é um fotógrafo esloveno cujo trabalho se concentra geralmente nos efeitos das alterações climáticas. Pode encontrá-lo no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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