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A poluição está a ameaçar parte da arte rupestre mais antiga do mundo

Os cientistas receiam que as alterações climáticas e a contaminação devido à mineração possam destruir Murujuga – local candidato a património da UNESCO na Austrália – dentro de um século.

Por Ronan O’Connell
Publicado 13/04/2022, 10:31
Murujuga, Península de Burrup, na Austrália

A região de Murujuga, localizada na Península de Burrup, na Austrália Ocidental, é uma das regiões de arte rupestre mais importantes do mundo, com cerca de um milhão de petróglifos criados há mais de 40.000 anos.

Fotografia por Viktor Posnov, Alamy Stock Photo

Numa península remota na Austrália Ocidental, a 16 horas de carro da cidade mais próxima, rostos com 30.000 anos de idade observam os raros visitantes deste local selvagem. Estas representações humanas fazem parte de Murujuga, uma das maiores coleções de arte rupestre antiga do mundo. Estes artefactos são 10 vezes mais antigos do que as pirâmides do Egito.

Com dezenas de milhares de anos, este aglomerado de um milhão de imagens na Península de Burrup é como uma enciclopédia artística, retratando a evolução humana e ambiental. Esculpidas nas rochas estão imagens de paisagens em mudança, costumes tribais e espécies agora extintas, como o tigre da Tasmânia e o canguru de cauda gorda. Estes petróglifos também revelam a mitologia de uma das civilizações mais antigas do mundo, os aborígenes australianos.

Apesar de este lugar extraordinário ser pouco conhecido, incluindo para a maioria dos australianos, agora está a ganhar reconhecimento por dois motivos diferentes. Existe algum entusiasmo em torno da candidatura de Murujuga a Património Mundial da UNESCO, algo que pode impulsionar o turismo. Este entusiasmo, porém, é atenuado pelos alertas graves dos cientistas, que avisam que a arte rupestre de Murujuga pode vir a ser destruída dentro de um século devido à poluição do enorme e crescente recinto industrial que a rodeia.

Este tipo de catástrofe não é inédito na Austrália Ocidental, cuja economia depende da extração de recursos. Há dois anos, a segunda maior mineradora do mundo, a empresa Rio Tinto, explodiu um abrigo sagrado de arte rupestre aborígene com 46.000 anos, o Desfiladeiro de Juukan, enquanto expandia um projeto de minério de ferro. Esta atrocidade ocorreu a cerca de 225 quilómetros a sul de Murujuga.

Arte rupestre para a eternidade

Ambos os sítios de arte rupestre ficam localizados em Pilbara. Esta região acidentada no norte da Austrália Ocidental tem desfiladeiros imponentes, montanhas serrilhadas, vastas planícies de terras vermelhas e muitas minas que geram lucros multimilionários. A Austrália Ocidental está entre os territórios mais escassamente povoados do planeta. Esta área de terra tem quase quatro vezes a área do Texas, mas abriga apenas 2.6 milhões de pessoas, cerca de 80% das quais vivem na capital do estado, Perth, e menos de 4% são aborígenes.

A arte rupestre em Murujuga inclui representações de figuras humanas, rostos de pessoas e animais que habitaram a região há milhares de anos.

Fotografia por Suzanne Long, Alamy Stock Photo

Ainda mais valioso do que os recursos de minério de ferro e gás natural líquido de Pilbara é a sua herança aborígene. Há mais 50.000 anos, antes de os britânicos colonizarem brutalmente a Austrália, esta região era habitada pelo povo Ngarda-Ngarli. Este termo coletivo designa os grupos aborígenes que são os proprietários tradicionais de Murujuga – os Ngarluma, Yaburara, Mardudhunera, Yindjibarndi e os Wong-Goo-Tt-Oo.

Foram estas pessoas que batizaram o local com o nome Murujuga, que abrange o Arquipélago Dampier e a adjacente Península de Burrup. Aqui, uma das coleções de petróglifos mais importantes do mundo foi criada ao longo de milhares de anos, diz Benjamin Smith, professor de arte rupestre na Universidade da Austrália Ocidental.

Se englobarmos todos os locais significativos de arte rupestre no mundo – desde arte com 7.000 anos na Noruega, pinturas rupestres com 25.000 anos no Brasil e pinturas com 13.000 anos no Zimbabué – nenhum rivaliza com Murujuga em termos de volume ou continuidade, diz Benjamin Smith. “O que torna Murujuga especial é a densidade e a quantidade absoluta de arte rupestre. Esta arte também tem uma sequência mais longa do que a encontrada em qualquer um dos outros locais, estendendo-se desde tempos recentes até há pelo menos 40.000 anos, provavelmente 50.000 anos.”

Até agora, os investigadores de arte rupestre só catalogaram apenas 3% da área total de Murujuga, um projeto em desenvolvimento que já documentou 50.000 imagens, diz Benjamin Smith. E podem haver até 2 milhões de petróglifos em Murujuga.

Para além de serem obras de arte majestosas, estes trabalhos oferecem observações científicas notáveis. Murujuga tem algumas das imagens mais antigas conhecidas de rostos humanos e de uma série de animais extintos. A mudança na fauna revelada por esta arte mostra enormes mudanças climáticas e ambientais ao longo do tempo. Este local esteve outrora localizado a quase 100 quilómetros para o interior, mas agora é uma península cercada de mar.

Segundo a mitologia do povo Ngarda-Ngarli, a arte rupestre de Murujuga foi moldada pelos seres criadores ancestrais Marrga. Estes espíritos ajudaram a moldar o mundo natural. E também habitam o chamado Dreamtime, um conjunto de lendas e crenças que sustentam a cultura aborígene, explicando a criação e oferecendo um guia para a vida humana.

Esculpidas nas rochas de Murujuga estão histórias com milhares de anos do Dreamtime. No entanto, esta arte rupestre continua a ser muito relevante para os aborígenes, diz Raelene Cooper, guardiã do povo Marduthenera. Para quem está de fora, as rochas de Murujuga podem parecer objetos inanimados. “Mas para o nosso povo, têm ADN, uma energia espiritual viva, que respira.”

“A arte rupestre conta a história da evolução e é um arquivo bíblico da nossa antiga história sagrada”, acrescenta Raelene Cooper. “Estes trabalhos continuam a ter uma ligação profunda com a Mãe Terra.”

Murujuga explica o passado, o presente e o futuro para as novas gerações, diz Belinda Churnside, guardiã do povo Ngarluma, que faz parte do conselho da Corporação Aborígene de Murujuga, que representa os interesses dos proprietários tradicionais do local. “Esta arte rupestre vai desde o início dos tempos até ao fim dos tempos”, diz Belinda Churnside.

A luta para preservar Murujuga

Contudo, num sentido mais físico, o futuro de Murujuga é sombrio, diz Benjamin Smith. A poluição gerada pelos enormes complexos industriais em expansão na Península de Burrup ameaça este antigo local. “Se os níveis de poluição continuarem aos níveis atuais, serão provocados danos graves nas superfícies rochosas de Murujuga, e depressa”, diz Benjamin.

Os especialistas acreditam que a Península de Burrup e o arquipélago de Dampier têm a maior concentração de arte rupestre do mundo.

Fotografia por Suzanne Long, Alamy Stock Photo

Alguns grupos aborígenes opõem-se ao desenvolvimento do campo de gás de Scarborough, um investimento de 12 mil milhões de dólares planeado pela empresa Woodside. Raelene Cooper afirma que as emissões tóxicas deste projeto vão danificar Murujuga. “Conseguimos ver fisicamente as consequências destruidoras da poluição química e das emissões de gases de efeito estufa [dos projetos já existentes].” Um porta-voz da Woodside afirma que a empresa apoia o Programa de Monitorização de Arte Rupestre de Murujuga, que é gerido pela Corporação Aborígene de Murujuga e pelo governo da Austrália Ocidental.

Ainda assim, no meio de tanta controvérsia, as comunidades locais continuam entusiasmadas com a candidatura pendente de Murujuga a Património Mundial da UNESCO e com o seu potencial enquanto atração turística. Raelene Cooper e Belinda Churnside dizem que seria uma honra para o povo Ngarda-Ngarli se a sua terra fosse homenageada com a designação UNESCO. “Receber uma plataforma global para partilhar a nossa história sagrada com o mundo é algo digno de assinalar e respeita as lutas e traumas do passado”, diz Raelene Cooper.

Com planos para submeter a candidatura final à UNESCO no início do próximo ano, as autoridades locais estão a preparar-se para receber um fluxo de visitantes em Murujuga. Para acomodar os visitantes, está a ser criada uma zona turística na Baía de Conzinc. A construção de uma nova estrada pode vir a dar acesso a esta localidade costeira na região noroeste de Murujuga, que atualmente só pode ser alcançada através de veículos com tração às quatro rodas. O ponto de encontro vai ser o Centro de Conhecimento Vivo de Murujuga. O presidente-executivo da Corporação Aborígene de Murujuga, Peter Jeffries, diz que esta instalação “vai contar as histórias que estão nas pedras e guiar os visitantes pelas terras antigas de Murujuga”.

Já foram concluídas algumas melhorias na infraestrutura para os visitantes, incluindo a criação do Trilho de Visualização de Arte de Ngajarli. Este passadiço elevado de 700 metros de comprimento conta com plataformas de observação e placas a explicar a arte rupestre no Desfiladeiro de Ngajarli. Neste local, as rochas cor de ocre estão embelezadas com petróglifos de até 47.000 anos, que retratam lagartos, tartarugas, cangurus e megafauna. “Este [passadiço] permite aos visitantes observar os petróglifos de perto, protegendo-os da degradação”, diz Natasha Mahar, CEO da empresa australiana Northwest Tourism.

Se a candidatura de Murujuga à UNESCO for bem-sucedida, é provável que muitos mais turistas internacionais fiquem cara a cara com estes rostos humanos esculpidos há mais de 30.000 anos, rostos que contam a história antiga de um povo e da sua amada terra – maravilhas entalhadas à mão, imbuídas de sabedoria e projetadas para encantar para sempre.

Ronan O'Connell é um jornalista e fotógrafo australiano que vive entre a Irlanda, a Tailândia e a Austrália Ocidental.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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