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Como os hotéis ‘emissão-zero’ podem tornar as viagens mais amigas do ambiente

Desde painéis solares a janelas de vidro triplo, os construtores estão a tentar projetar hotéis que produzam mais energia do que a que consomem.

Publicado 28/04/2022, 14:37
edifício Pirelli em New Haven

Esta imagem gerada em computador mostra como o edifício Pirelli em New Haven, no Connecticut, uma estrutura de betão de 1970 ao estilo Brutalista, foi reaproveitado como hotel movido a energia solar. Este hotel, chamado Marcel, está prestes a ser certificado como o primeiro hotel “emissão-zero” nos EUA, o que significa que produz energia renovável suficiente para alimentar todas as suas necessidades elétricas, de refrigeração e aquecimento.

Fotografia por BECKER + BECKER, HOTEL MARCEL

O edifício Brutalista Pirelli já chegou a ser eleito a estrutura mais feia do Connecticut. Agora, este volumoso arranha-céus de 1970 adquiriu um novo superlativo: o hotel com maior eficiência energética dos Estados Unidos.

O hotel Marcel – batizado em homenagem ao seu célebre arquiteto modernista Marcel Breuer – vai ser inaugurado em New Haven em maio enquanto hotel completamente elétrico, ou seja, gera a sua própria energia através de um sistema de painéis solares no telhado e coberturas solares no parque de estacionamento. Este sistema contém baterias de iões de lítio que armazenam a energia criada durante o dia para usar à noite.

Marcel Breuer, arquiteto do século XX, projetou o edifício Pirelli em New Haven recorrendo a conceitos Brutalistas e de Bauhaus, incluindo geometria estrita e materiais simples. Agora, este edifício foi convertido em hotel.

Fotografia por PAT KRUPTA HOTEL MARCEL

Esta propriedade de 165 quartos já recebeu a certificação Passive Building, o que significa que usa menos 80% de energia do que um hotel típico nos EUA. O Green Building Council atribuiu ao Marcel a classificação mais alta de eficiência, o certificado LEED Platinum, colocando-o entre a dezena de hotéis nos EUA com esta designação.

Se o Marcel for de facto assim tão eficiente em termos energéticos, esta propriedade vai ser o primeiro hotel “emissão-zero” do país. Embora o zero líquido possa ser alcançado de várias formas, num sentido mais abrangente isto significa que um edifício produz energia renovável suficiente para responder às suas próprias necessidades anuais de consumo energético

Ao contrário dos hotéis luxuosos mais recônditos ou estâncias de glamping fora da rede elétrica, os hotéis emissão-zero podem operar a preços mais baixos nos espaços urbanos, que têm códigos de construção mais rígidos que não permitem estruturas fora da rede. Estar ligado à rede significa que estes hotéis podem potencialmente adicionar energia renovável às comunidades circundantes.

A instalação de painéis solares e baterias é mais dispendiosa do que a construção convencional. Mas o foco crescente da indústria de viagens no clima significa que há mais hotéis emissão-zero no horizonte.

“Em comparação com outros edifícios, os hotéis têm geralmente o pior desempenho em termos de eficiência energética”, diz Bruce Becker, arquiteto e projetista do Marcel. “Mas não é preciso usarmos combustíveis fósseis para termos um hotel de sucesso.”

Contribuição dos hotéis para as alterações climáticas

Os hotéis são responsáveis por cerca de 1% das emissões globais, de acordo com a Organização Mundial de Turismo da ONU, um número que deve aumentar à medida que mais pessoas se juntam à classe média e têm rendimentos para viajar. Para manter o aquecimento global no limite abaixo dos dois graus Celsius acordado nos Acordos Climáticos de Paris, o setor da hospitalidade deve reduzir as suas emissões em 66% até 2030, de acordo com um trabalho de investigação da International Tourism Partnership.

Os hotéis usam mais energia do que os edifícios de escritórios, lojas, casas de habitação e empresas de manufaturação industrial, de acordo com um relatório do Urban Land Institute. Mas os hotéis enfrentam desafios diferentes dos das outras propriedades.

Muitos destes edifícios são únicos, o que significa que os planos para reduzir as emissões devem ser adaptados a cada local. A complexidade que envolve o modelo de propriedade deste setor também significa que não há partes responsáveis por pensar em práticas sustentáveis. Durante uma renovação ou reconstrução, as preocupações para não afetar a experiência do cliente geralmente superam o objetivo de poupar energia.

Os edifícios emissão-zero podem ajudar o setor da hospitalidade a afastar-se da reputação de “eco-lavagem”, ou das ideias em pequena escala (dispensadores recarregáveis, toalhas de banho usadas mais de um dia) que não são realmente suficientes para reduzir as emissões.

A ênfase crescente no combate às alterações climáticas noutros setores também está a influenciar a indústria hoteleira. “Está a ser muito mais pressionada”, diz Claire Whitely, da organização Sustainable Hospitality Alliance. “Existem expectativas tanto por parte dos hóspedes do hotel como dos clientes corporativos.”

Algumas cadeias de hotéis estabeleceram metas de emissão-zero em todas as suas propriedades, incluindo as cadeias de hotéis Hilton, Marriott e Accor. A organização Sustainable Hospitality Alliance lançou um guia para ajudar os proprietários a reduzirem as emissões quando desenvolvem novas propriedades, fazem renovações em grande escala ou quando compram edifícios.

As renovações, que geralmente acontecem de dez em dez anos, são uma oportunidade para quase todos os hotéis reconsiderarem as suas emissões de carbono. “Estes momentos são oportunidades para pensar nos tipos de tecnologias que se podem instalar”, diz Claire Whitely.

A pandemia e a escassez de materiais na cadeia de abastecimento têm abrandado a construção e a renovação de hotéis. Contudo, Jan Freitag, diretor do departamento de análise do mercado hoteleiro da CoStar, uma empresa que gere propriedades comerciais, diz que os projetistas estão agora mais interessados do que nunca em hotéis emissão-zero. A guerra na Ucrânia – que está restringir o fornecimento de combustíveis fósseis e a colocar em questão os apoios dados aos regimes ricos em petróleo – veio acrescentar um novo sentido de urgência à descarbonização.

“Já sabíamos que tínhamos de fazer isto”, diz Jan Freitag. “Agora, é imperativo.”

Criar um ‘eco-hotel’

No hotel Marcel, Bruce Becker e a sua equipa concentraram-se tanto na produção de energia como na redução da energia necessária para operar o hotel. O estilo Brutalista do edifício também ajudou: com tanto betão e janelas mais pequenas do que o normal, a estrutura evita que o calor e o ar frio escapem, e faz isto melhor do que um arranha-céus com laterais de vidro.

A renovação do hotel incluiu a instalação de janelas com vidros triplos para ajudar a manter a temperatura, e a instalação de eletrodomésticos com eficiência energética para a cozinha do restaurante e lavandaria. Toda a iluminação funciona através de um sistema chamado Power over Ethernet (PoE), que fornece energia de baixa tensão.

Esquerda: Superior:

Uma fotografia de arquivo da década de 1990 mostra a sala de reuniões do edifício Pirelli, quando este ainda era usado como escritório da empresa de pneus.

Fotografia por BEN SCHNALL, ARCHIVES OF AMERICAN ART/HOTEL MARCEL
Direita: Fundo:

Marcel Breuer criou uma torre para os escritórios e uma ala de dois andares para um laboratório de investigação no edifício Pirelli. Este projeto de utilização dupla foi convertido em hotel, com quartos de hóspedes na torre e um restaurante na ala do laboratório.

Fotografia por ROBERT GREGSON, HOTEL MARCEL

Vai ser necessário pelo menos um ano a operar para avaliar a produção e o uso de energia do edifício antes de o hotel Marcel poder afirmar que é realmente emissão-zero. Ao contrário de algumas certificações, que permitem aos próprios hotéis certificar os seus esforços, a validação emissão-zero é atribuída pelo New Building Institute, que vai analisar doze meses de leituras dos painéis solares e, de seguida, garantir que a energia criada corresponde ou supera as necessidades do Marcel.

“Existe a chamada ‘eco-lavagem’ na indústria”, diz Bruce Becker. “Mas nós respeitámos o rigor no processo de construção. Há mil coisas que podemos fazer para darmos aos nossos edifícios um perfil ambiental diferente, mas com estas certificações, precisamos de algo significativo e não podemos descurar qualquer pormenor.”

Todo este planeamento cuidadoso tornou os custos de construção ainda mais elevados do que aconteceria com um hotel convencional, mas Bruce Becker diz que a poupança energética vai pagar o custo adicional dentro de poucos anos.

À procura de uma estadia mais sustentável

Ainda não se sabe realmente quantos hotéis emissão-zero existem. Mas sabe-se que os viajantes procuram opções de estadia mais ecológicas. De acordo com uma sondagem feita em 2021 pela Booking.com, 81% dos viajantes inquiridos diziam que queriam ficar em instalações sustentáveis; e 49% diziam que as opções disponíveis não eram suficientes

Mas há mais propriedades ecológicas a espreitar no horizonte. Em Viena, o Boutique hotel Stadthalle foi renovado em 2009 para atingir a emissão-zero. A  proprietária deste hotel, Michaela Reitterer, diz que o momento foi difícil – Michaela pediu um empréstimo à Lehman Brothers, que lhe negou o empréstimo pouco antes de se dissolver durante a crise financeira. Michaela Reitterer acabou eventualmente por encontrar uma mulher ligada ao mundo financeiro que compreendeu a sua visão e garantiu os fundos necessários para adicionar os painéis solares e as bombas de calor que fornecem energia ao hotel.

Esquerda: Superior:

O Boutique hotel Stadthalle em Viena, Áustria, opera com energia solar e bombas de calor elétricas. Este hotel foi criado através da junção de um edifício de apartamentos do século XIX e uma estrutura nova construída com os padrões da Passive House.

Direita: Fundo:

O telhado do Boutique hotel Stadthalle de Viena tem painéis solares, colmeias e vasos de lavanda.

fotografias de TINA HERZL, BOUTIQUE HOTEL STADTHALLE

Muitas das propriedades emissão-zero, nas suas tentativas de atingir a sustentabilidade, vão para além da energia livre de combustíveis fósseis. “Ter um edifício ecológico não é o suficiente”, diz Michaela Reitterer. No restaurante do hotel Stadthalle, Michaela serve comida orgânica; os grãos de café para o pequeno-almoço são importados de veleiro; e também vende petiscos e bebidas no lobby do hotel, em vez de ter minibares nos quartos, que são parasitas energéticos dissimulados.

No Círculo Polar Ártico da Noruega, o hotel Svart, com inauguração prevista para 2024, quer ser o primeiro hotel “emissão-positiva” do mundo, ao colocar mais energia na rede do que o necessário, e usando menos 85% da energia usada por um hotel convencional. Isto significa usar painéis solares e reciclar o calor gerado localmente.

A forma curva e impressionante do Svart vai projetar-se no Fiorde Holandsfjorden e a sua base estrutural é feita de aço e betão, que consomem menos energia para produzir do que outros materiais de construção. A cozinha deste hotel vai reduzir o desperdício de alimentos através de hortas orgânicas e aquacultura local.

Apesar de todos os cuidados em torno da sustentabilidade da propriedade, este hotel continua a ter as suas subtilezas, como tratamentos spa e vistas de inverno da aurora boreal. “Podemos desfrutar dos luxos de viajar sem uma sensação de culpa”, diz Ivaylo Lefterov, diretor do departamento de desenvolvimento do hotel.

Algumas empresas hoteleiras contam com edifícios preparados para os efeitos das alterações climáticas. Isto inclui a construção de hotéis em locais mais distantes da costa ou das margens dos rios. Apesar de os hóspedes adorarem as propriedades à beira-mar, estas podem vir a ficar cada vez mais precárias no futuro, de acordo com Jan Freitag.

“Queremos ter menos impacto na natureza”, acrescenta Jan Freitag. “Mas a natureza também tem um impacto sobre nós.”

Jackie Snow é uma escritora sediada em Los Angeles que cobre tecnologia e viagens. Pode encontrá-la no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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