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Caminhadas entre cabanas é a melhor forma de conhecer a Nova Zelândia. Descubra porquê.

Estas estadias baratas de uma noite oferecem vistas espetaculares, proteção contra os elementos e contacto próximo com as tradições locais.

Por Petrina Darrah
Publicado 13/05/2022, 14:57
Browns Hut, Nova Zelândia

Uma caminhada de sete horas leva os viajantes até à Mt. Brown Hut, na costa oeste da Nova Zelândia, um dos muitos abrigos administrados pelo Departamento de Conservação do país.

Fotografia por NicksPlace, Getty Images

“Parece a casa velha de um cão, toda suja e cheia de mofo. Absolutamente nojenta. Eu acho que passam lá cerca de dez pessoas por ano.”

É assim que Carol Exton descreve a Jacs Flat, uma cabana de madeira e zinco localizada numa floresta densa na base de um vale escuro na Nova Zelândia. É tão pequena que temos de nos curvar para rastejar para o interior. No entanto, entre os mais de mil abrigos de caminhada administrados pelo governo neozelandês, este é o preferido de Carol Exton. É o tipo de lugar que inspira aventuras de caminhada e exemplifica a tradição enraizada na tão estimada cultura de caminhada da Nova Zelândia.

De facto, num país que é famoso pelas suas montanhas altas e costas escarpadas, caminhar é um modo de vida. As cabanas ou abrigos pontilham mais de 14.500 quilómetros de trilhos públicos na Nova Zelândia, proporcionando a estrutura ideal para explorar.

Nem todos os abrigos são básicos como é o caso de Jacs Flat. Alguns são obras arquitetónicas impressionantes, empoleirados em cordilheiras alpinas com vista para glaciares. Muitos existem há mais de cem anos, atuando como sentinelas de antigas florestas tropicais e praias imaculadas. Ao longo das décadas, estes abrigos testemunharam a história através dos nomes e mensagens que ficaram gravados nas suas paredes por antigos caminhantes.

Não é por acaso que estes ‘acampamentos’ – muitos gratuitos ou com um custo irrisório – inspiram o tipo de devoção que pode motivar pessoas como Carol Exton a visitar todas as cabanas do país.

Ícones de um legado nacional

As cabanas apareceram pela primeira vez no interior remoto da Nova Zelândia no final da década de 1880. Recorrendo às pedras encontradas localmente, os pastores de ovelhas construíram cabanas no sopé dos Alpes do Sul. Os mineiros de ouro também fizeram cabanas de zinco junto às margens dos rios. Alguns abrigos foram até erguidos em litorais desolados, parecendo um lugar de refúgio para náufragos à deriva.

A Brewster Hut fica situada numa colina por cima do Glaciar Brewster, na região de Otago, na Nova Zelândia. Muitas das cabanas do Departamento de Conservação estão localizadas em áreas naturais deslumbrantes.

Fotografia por Timon Peskin, iStockphoto, Getty Images
Carys Hut, Hanging Valley
Esquerda: Superior:

A Carys Hut – uma cabana que funciona por ordem de chegada – fica nas margens do lago Mavora do Norte, no Parque de Conservação dos Lagos de Mavora.

Fotografia por Geoff Marshall, Alamy Stock Photo
Direita: Inferior:

O Abrigo de Emergência de Hanging Valley fica localizado no Trilho Kepler, um trilho que leva os viajantes pela Área Património Mundial do Sudoeste da Nova Zelândia.

Fotografia por Vincent Lowe, Alamy Stock Photo

Os abrigos começaram a surgir em números ainda maiores em meados do século XX, no rescaldo dos danos ecológicos provocados pelos veados, camurças e por outros animais libertados pelos colonos europeus para fazer com que a Nova Zelândia se parecesse mais com um “lar”. Nas décadas seguintes, caçadores profissionais erradicaram centenas de milhares destes animais e deixaram um legado de seis cabanas em algumas das partes mais isoladas do país.

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Outras cabanas foram surgindo em circunstâncias estranhas. Ao longo da escarpada costa sul de Fiordland, numa caverna marinha pouco acima da linha da maré alta, encontra-se uma cabana de cinco beliches construída por um homem chamado Owen West. “Westy”, como era conhecido, desembarcou neste local em meados da década de 1980 depois de saltar de um barco de pesca após uma discussão. Reza a lenda que Westy atravessou a nado ondas abomináveis ​​até à costa, onde retirou destroços da água para construir a sua moradia.

Depois, também há as cabanas que abrigavam pessoas em fuga. A Ellis Hut, no Parque Florestal de Ruahine, tem o nome de Jack Ellis, acusado de homicídio que se escondeu das autoridades neste local em 1904. A Asbestos Cottage, no Parque Nacional de Kahurangi, já foi o lar de uma mulher que escapou de uma relação abusiva. A mulher fugiu para este refúgio nas montanhas com o seu amante em 1914 e viveu lá durante 30 anos.

Muitas das cabanas tiveram vidas anteriores onde foram usadas como escolas, cabines de faroleiros ou propriedades rurais – mas eventualmente foram todas convertidas para utilização pública. Quando o Departamento de Conservação (DOC) foi formado e herdou toda a rede de cabanas em 1987, havia centenas de cabanas espalhadas pelas montanhas da Nova Zelândia.

Memórias das montanhas

As origens das cabanas combinadas com as suas características arquitetónicas (ou sua ausência) enriquecem a tradição local que torna as caminhadas na Nova Zelândia tão apelativas.

Brian Dobbie, de 64 anos, trabalha na equipa que faz a gestão da rede de cabanas desde a criação do DOC. Nos últimos 34 anos, Brian viu todos os tipos de cabanas, incluindo uma pintada de roxo brilhante com flores laranja, onde passou uma noite divertida na década de 1980.

A Goat Creek Hut é uma chamada “bivvy” com quatro beliches, um tipo de abrigo básico muito estimado pelos fãs de caminhadas entre cabanas.

 

Fotografia por Tim Cuff, Alamy Stock Photo

Brian Dobbie acredita que, como as cabanas geridas pelo DOC estão sempre abertas e acessíveis a todos, promovem o convívio entre estranhos. Brian lembra-se de uma viagem que fez onde uma chuva torrencial o obrigou a ele e a dezenas de outras pessoas a fugir das suas tendas inundadas para uma pequena cabana. “A uma determinada altura, havia 30 pessoas numa cabana de seis beliches”, diz Brian. “Tínhamos muito menos de um metro quadrado para cada um.” Mas passaram todos bem a noite.

Isso faz parte do fascínio, diz Brian Dobbie. Mesmo a cabana mais humilde pode assumir um significado que transcende o telhado de zinco e as paredes de madeira. Tornam-se lugares de ligação e autorreflexão, lugares onde são feitas memórias e onde se pode saborear os prazeres mais simples da vida.

A Hamilton Hut, no Parque Nacional Arthur's Pass, tem 20 beliches. Não importa o tamanho da cabana, é costume acolher os recém-chegados e colocar uma chaleira ao lume para os reconfortar.

Fotografia por Geoff Marshall, Alamy Stock Photo

Os livros de registo contam histórias através dos rabiscos feitos por caminhantes de passagem. Nas cabanas menos usadas – o tipo mais popular – os livros são antigos, mas têm apenas uma dezena de entradas registadas num período de 12 meses. E nem todos são feitos de papel. “O livro de registo da Jacs Flat é a porta”, diz Carol Exton, onde as pessoas gravam os seus nomes juntamente com algumas frases curtas sobre o local para onde se estão a dirigir e o que estão a fazer.

A tradição de registar os viajantes significa que algumas cabanas podem dar origem a descobertas surpreendentes. Numa parede da cabana Double Hut, no Parque de Conservação de Hakatere, em Canterbury, Brian Dobbie descobriu um nome particularmente famoso rabiscado entre muitos outros. “[Era] Sir Edmund Hillary”, diz Brian. “Como é óbvio, [ele não escreveu] Sir Edmund. Escreveu Ed Hillary. Este homem, que chegou ao topo da montanha mais alta do mundo, também ficou aqui abrigado e deixou a sua marca.”

Uma obsessão local

Estas histórias ocultas à espera de serem descobertas são uma das razões pelas quais alguns caminhantes particularmente zelosos se comprometeram em visitar todas as cabanas da rede DOC. Os “papa-cabanas”, como são chamados localmente, vêm de todos os estratos sociais e muitas vezes já são obcecados por esta atividade desde a infância.

Carol Exton cresceu nos subúrbios de Wellington, numa zona cercada pelo porto de um lado e por encostas íngremes cobertas de arbustos do outro. Contudo, enquanto as suas colegas de turma iam para casa a pé vindas escola pela estrada, Carol ia pelas colinas. “Durante duas ou três horas, entre o momento em que saía da escola e a hora de lanchar, eu costumava sair para explorar.” Agora com 60 anos, Carol Exton continua muitas vezes a desaparecer nas colinas para fazer rafting, canoagem e caminhar até algumas das cabanas mais remotas do país. Até agora, Carol já visitou 525 cabanas.

Algumas cabanas, como a Luxmore em Fiordland, na imagem, são grandes o suficiente para acolher grupos enormes. A cabana Luxmore tem espaço para 54 pessoas.

Fotografia por Vincent Lowe, Alamy Stock Photo

Carol vive do fascínio irresistível das cabanas espalhadas pela natureza, locais que estão simplesmente à espera de serem encontrados. Quanto mais difícil o acesso, maior a emoção. Foram necessárias duas tentativas para chegar até à cabana de Jacs Flat, incluindo uma caminhada de três dias e “12 horas difíceis” de caminhada, diz Carol.

Benjamin Piggot, um jovem de 25 anos, adora a liberdade proporcionada pela caminhada entre cabanas. “É uma forma de escapar. É um momento para parar e estar com os amigos, tomar uma chávena de chá à volta da fogueira e conversar sobre coisas que realmente interessam.”

Benjamin Piggot visitou a sua primeira cabana quando tinha 11 anos, algo que despertou uma paixão para o resto da vida. Desde que passou pela primeira vez a noite numa cabana há dez anos atrás, Benjamin já visitou 312 cabanas. A sua preferida é a cabana East Matakitaki, acessível através de uma caminhada de seis dias pelo Parque Nacional Nelson Lakes. “Foi uma viagem brilhante, muita neve, muita aventura, uma daquelas viagens em que estamos com frio e todos molhados na maior parte do tempo.”

A união com a natureza, é disso que se trata a chamada caminhada entre cabanas. “Os neozelandeses são pessoas que gostam de atividades ao ar livre”, diz Benjamin Piggot. “Creio que temos uma ligação profunda com a ngahere [em maori] – com a terra e a floresta.”

DICAS DE VIAGEM
Reservas:
Os preços das cabanas variam de acordo com as instalações que oferecem – podem ser gratuitas (serviço mais básico) ou chegar até aos cerca de 10 dólares por noite para uma cabana com serviço de aquecimento e cozinha. As cabanas Great Walk são as mais confortáveis e têm cozinha a gás, iluminação solar e casas de banho com canalização. Estas cabanas também são as mais caras, custando cerca de 75 dólares e devem ser reservadas online. A grande maioria das cabanas no interior não exige reserva e é paga através de ingressos, que pode comprar com antecedência e usar à medida que vai avançando. A ferramenta de mapeamento online do DOC lista cada cabana, juntamente com a sua localização, preço e recursos. 
Etiqueta: As cabanas que não podem ser reservadas funcionam por ordem de chegada, mas chegar primeiro não significa que a cabana é sua. É costume acolher os que chegam mais atrasados – mesmo que a cabana esteja cheia – e colocar uma chaleira ao lume para os reconfortar.
Algumas cabanas têm funcionários ou gestores dedicados, mas muitas não são visitadas durante meses a fio. A contribuição dos caminhantes é manter as cabanas limpas e arrumadas. Antes de sair, varra o chão, limpe os bancos e reabasteça a lenha. E retire todo o seu lixo (não o queime ou atire para as latrinas).
Aviso de saúde: Até ao momento, não há requisitos de vacinação para permanecer nas cabanas geridas pelo DOC, portanto, os visitantes devem avaliar o risco de exposição à COVID-19 ao planear a sua viagem. Dado que as instalações para dormir, cozinhar e lavar são muitas vezes partilhadas, pode procurar outras opções, como montar uma tenda perto da cabana onde é permitido acampar ou evitar os períodos de maior movimento, como as noites de sábado, fins de semana prolongados e feriados.

Petrina Darrah é uma escritora de viagens freelancer sediada na Nova Zelândia. O seu trabalho já foi publicado na Condé Nast Traveler, Atlas Obscura e New Zealand Herald, entre outras publicações. Pode encontrá-la no Twitter e Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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