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De terreno baldio tóxico a parque nacional

Após uma limpeza de 50 milhões de dólares, flores e animais selvagens substituem agora os produtos químicos e os carros enferrujados num canto do Parque Nacional de Cuyahoga Valley, em Ohio.

Por Shannon Bohle
Publicado 4/05/2022, 14:57
Parque Nacional de Cuyahoga Valley

Graças a uma limpeza feita ao longo de vários anos e a um investimento de milhões de dólares, o que outrora era um ferro-velho tóxico tornou-se numa zona repleta de flores e fauna no Parque Nacional de Cuyahoga Valley, em Ohio. Muitos parques nacionais nos EUA contêm ambientes que foram reaproveitados ou recuperados.

Fotografia por Chris Davis, National Park Service

Um ferro-velho que outrora abrigava carros enferrujados e milhares de barris com produtos químicos tóxicos acabou de ser adjudicado a um parque nacional. A antiga lixeira de Krejci, uma parcela de 18 hectares que operou desde 1948 até 1980, abriu ao público em dezembro de 2021 integrada numa adição de mais de 80 hectares ao Parque Nacional de Cuyahoga Valley, uma extensão de 13.000 hectares que serpenteia entre Cleveland, Akron e Ohio.

Ao longo dos últimos 16 anos, este pedaço de terra perto do rio Cuyahoga passou de um local acompanhado pelo programa de limpeza Superfund para se transformar num pântano repleto de aves e plantas. Este projeto é o mais extenso e dispendioso entre as centenas de projetos de recuperação e reabilitação atualmente supervisionados pelo Serviço Nacional de Parques (NPS) dos EUA.

O trabalho desta agência é transformar zonas tóxicas – áreas abandonadas de mineração de carvão, zonas de perfuração de petróleo ou locais de despejo de resíduos perigosos – em oásis seguros e agradáveis ao ar livre. “Praticamente todos os parques nacionais dentro do nosso sistema têm um local contaminado”, diz Veronica Dickerson, diretora da Divisão de Conformidade e Limpeza Ambiental do Serviço Nacional de Parques. “As pessoas costumam pensar em insetos, coelhos e paisagens bonitas quando se fala em parques nacionais, mas eu faço a gestão de 13 dos projetos mais complicados no serviço de parques.”

Todos os anos, milhões de pessoas visitam as paisagens variadas e deslumbrantes geridas pelo Serviço Nacional de Parques. Mas poucas têm noção de que muitos destes parques não surgiram de uma natureza imaculada. O Grand Canyon já abrigou uma mina de urânio na sua extremidade sul; e locais de extração de cobre e arsénico costumavam poluir o que atualmente é o Parque Nacional Joshua Tree. Os parques nacionais são paisagens em crescimento e em evolução que, ao longo do tempo, receberam ou adquiriram novas parcelas que exigiam trabalho de recuperação.

Hoje, os novos hectares do Parque Nacional de Cuyahoga Valley oferecem aos seus visitantes a oportunidade de mergulharem num espaço natural revitalizado. Descubra como este parque passou de desastre tóxico a vitória ambiental.

Poluição inspira um movimento – e um parque em Ohio

No dia 22 de junho de 1969, quando o poluído rio Cuyahoga incendiou pela 13ª vez, revistas como a Time e a National Geographic publicaram artigos e fotografias a detalhar a crise ecológica na região. A indignação nacional que se seguiu catapultou Cleveland para o centro do novo movimento ambientalista da América, ajudando a criar a Agência de Proteção Ambiental em 1970 e a aprovar a Lei da Água Limpa de 1972.

Uma fotografia tirada em 1985 mostra a lixeira de Krejci, um local tóxico integrado no programa Superfund que foi reabilitado e reaberto como parte do Parque Nacional de Cuyahoga Valley.

Fotografia por of NPS Collection

A Lei da Água Limpa inspirou agências governamentais e grupos de voluntários a limpar os cursos de água nos Estados Unidos. E também estimulou em 1974 a criação da Área de Recreação Nacional de Cuyahoga, com 13.000 hectares – e o Serviço Nacional de Parques comprometeu-se a proteger e a restaurar um quarto da extensão do rio Cuyahoga. O local recebeu a designação de parque nacional em 2000.

(Rios como o Amazonas são agora reconhecidos como pessoas. Descubra porquê.)

O Serviço Nacional de Parques continua a comprar os terrenos privados adjacentes aos parques nacionais e às áreas de recreação, removendo estruturas feitas pelo homem e os riscos ambientais com o objetivo de devolver estas áreas ao seu estado natural. Foi exatamente isso que o Serviço Nacional de Parques fez em 1985 na Área de Recreação Nacional de Cuyahoga, quando adquiriu a lixeira e ferro-velho de Krejci, um terreno gerido por John Krejci. Sr. e pela sua família ao longo de mais de 30 anos.

De programa de limpeza Superfund a pantanal

Um estudo feito pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA descobriu que a lixeira de Krejci estava contaminada com resíduos tóxicos e perigosos, incluindo os chamados PCB, benzeno, cádmio e chumbo.

O governo dos EUA apresentou o processo judicial “Superfund” em 1997, uma ação legal que responsabiliza financeiramente os poluidores. Foram erguidas vedações, a área foi sinalizada e o longo processo de reversão dos danos iria começar.

Uma fotografia de 2006 mostra a lixeira de Krejci depois de o solo tóxico ter sido removido. As colinas resultantes tiveram de ser ancoradas como parte de uma operação de limpeza a rondar os 50 e os 60 milhões de dólares.

Fotografia por of NPS Collection

(Barcos de turismo podem vir a salvar os famosos pântanos da Cidade do México.)

“O rio estava morto naquele local. Não era como se tivesse apenas alguns peixes, não havia qualquer peixe. Em algumas zonas o teor de oxigénio era zero”, diz Chris Davis, ecologista que trabalha no Parque Nacional de Cuyahoga Valley. “A lixeira de Krejci era um ‘deserto biológico’, o que significa que quase nada conseguia viver naquela área.”

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA é responsável pela gestão dos locais abrangidos pelo programa de limpeza Superfund, obrigando quem polui a financiar as operações de limpeza. Para limpar a lixeira de Krejci, seis empresas, incluindo a Ford e a General Motors, desembolsaram entre 50 e 60 milhões de dólares. “O custo total foi exorbitante; e esta foi de longe a maior limpeza na história do Serviço Nacional de Parques”, diz Chris Davis.

Os esforços de limpeza e recuperação começaram assim que o processo judicial Superfund foi resolvido em 2002. A Ford pagou e organizou a remoção de 375.00 toneladas de solo contaminado em 2002, ação que exigiu a escavação de uma profundidade de até 7,5 metros. A direção do parque começou a naturalizar a área em 2012, nivelando o solo e recriando mais de 1 hectare de brejos sazonais e plantando vegetação nativa, flores silvestres e ciperáceas.

O renascimento de uma maravilha natural

Hoje, a antiga lixeira de Krejci é um local de renovação ambiental. Na região central do parque podemos encontrar um pântano sazonal repleto de plantas e animais, flores silvestres, salamandras, sapos, águias e galinholas.

“Se alguém estiver interessado na restauração de habitat, não há lugar melhor para visitar”, diz Chris Davis. “Este terreno baldio era tóxico há poucas décadas atrás. É notável conseguirmos ver lá esta diversidade de espécies.”

Pântanos e flores silvestres sazonais preenchem agora a antiga lixeira de Krejci.

Fotografia por Chris Davis, National Park Service

Nos hectares de Krejci ainda não existem trilhos, instalações ou pontes oficiais. Por enquanto, a melhor forma de ver a lixeira que se transformou em maravilha natural é conduzindo pela Hines Hill Road entre as Cataratas de Brandywine e o Centro de Visitantes de Boston Mill. Uma paragem no lado leste da estrada dá acesso a um pequeno trilho; Chris Davis diz que “é um lugar agradável e tranquilo para contemplar a natureza”.

Porém, este é apenas um dos inúmeros locais restaurados e recuperados no interior deste parque nacional. Quase três milhões de pessoas visitaram o Parque Nacional de Cuyahoga Valley em 2021 –  para pedalar e caminhar pelo trilho Ohio & Erie Canal Towpath, para andar de canoa no rio ou tirar fotografias das Cataratas de Brandywine, uma queda de água de 18 metros de altura que mergulha num desfiladeiro.

Um dos primeiros esforços de restauração no parque de Cuyahoga Valley aconteceu em 1984, quando membros do Sierra Club, da área de Cleveland e Akron, trabalharam com o Serviço Nacional de Parques para limpar outro ferro-velho. Esses esforços levaram à criação da conhecida zona de Beaver Marsh, na metade sul do parque. Este local figura agora entre os pontos mais visitados do parque, onde corredores, ciclistas ou caminhantes atravessam um passadiço de 170 metros de comprimento para observar castores ou tartarugas no meio de lírios.

Peg Bobel, membro do Sierra Club, lembra-se dessa operação de limpeza. “A poluição visível no rio era de partir o coração. Mas a abordagem prática do movimento ambientalista e as leis nacionais que estavam a ser aprovadas funcionaram em sintonia.”

Shannon Bohle, sediada em Ohio, escreve sobre tecnologia e ciência. O seu trabalho já foi publicado na Nature e Journal of the Medical Library Association. Pode encontrá-la no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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