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Dwayne Fields: “O mundo é um lugar muito melhor se fores tu próprio”

O explorador e naturalista é um dos oradores do National Geographic Summit que terá lugar em Lisboa no dia 31 de maio, no teatro Tivoli BBVA. Conheça a sua história épica.

Dwayne Fields é um dos protagonistas da série “Bem-vindos à Terra”, disponível no Disney+. É um dos oradores do Summit, que terá lugar a 31 de maio no Tivoli BBVA, em Lisboa.

Por Filipa Coutinho
Publicado 25/05/2022, 11:33

Nascido na Jamaica, onde tinha uma relação próxima com o mundo natural, Dwayne Fields mudou-se para o Reino Unido com seis anos de idade para viver com a mãe. Cresceu numa zona do leste de Londres com presença de gangues, onde testemunhou crimes violentos e sobreviveu a uma tentativa de tiro à queima-roupa, após lhe terem roubado uma bicicleta que construiu. Nesse cenário, decidiu mudar a sua vida para sempre.

Em 2010, embarcou na sua primeira expedição, tornando-se o primeiro jovem negro britânico a caminhar mais de 370 quilómetros para alcançar o Pólo Norte Magnético. Desde então, dedica-se a inspirar mais pessoas a explorar a natureza com maior consciência sobre o ambiente. Em 2013, foi-lhe concedida a mais alta distinção 'The Freedom of the City of London'. É embaixador da Ordnance Survey, Scout Association, National Trust, Woodland Trust e é Fellow da Royal Geographical Society. Em 2019, cofunda com a sua colega Phoebe Smith a Fundação #WeTwo, que realizará  este ano a primeira missão à Antártida neutra em carbono, com jovens de origens desfavorecidas.

Em criança, estava no sítio errado à hora errada num incidente com uma arma que colocou a sua vida em risco. O que lhe ensinou esse episódio?
Ensinou-me que ir para um incidente chateado não é a melhor forma. Fui um idiota por colocar-me nessa situação. Estava tão arreliado, tão frustrado e farto de situações como esta [o roubo da sua mota]. Caminhei para o lugar, exigi as minhas coisas de volta… E, se não estivesse chateado ou me tivesse permitido respirar por um momento e considerar o que poderia acontecer, isso podia ter sido evitado.
A principal lição é que quando estamos chateados ou frustrados, devemos dar um passo atrás, analisar a situação e elaborar um plano sensato. Ensinou-me também que as pessoas querem sempre que nos comportemos de uma forma que por vezes é diferente da forma como nos queremos comportar, e devemos seguir o nosso instinto.

Dwayne Fields sempre teve uma ligação especial à natureza, tendo crescido na Jamaica, rodeado por florestas.

Fotografia por Michael Wharley

Alguém tentou dar-lhe um tiro e foi salvo pela aventura. Como encontrou paz na natureza?
É muito estranho, porque a minha paz na natureza começou quando nasci na Jamaica – era o meu espaço seguro, o ambiente que eu conheci primeiro. Portanto, para mim, voltar a esse ambiente de segurança foi algo muito natural. Voltamos sempre aos espaços onde nos sentimos seguros e para mim esse lugar era a floresta perto de minha casa, onde cresci na Jamaica. Retirar-me para a natureza era a melhor coisa que podia fazer, era o ideal para mim.
No incidente, a arma não disparou por duas vezes – e, sim, a tentativa era atingir-me, mas felizmente falhou. A dificuldade depois é que depois temos outras pessoas a tentar encorajar-nos, a dizer que devíamos fazer isto e aquilo… e o meu escape dessas pessoas e de retaliar foi esconder-me na natureza.

Qual foi o impacto da viagem ao Polo Norte na sua carreira?
A viagem ao Polo Norte foi uma expedição gigantesca que me fez sentir mais confiante em ir para outros ambientes que não eram um gelo absoluto, nem ficavam a muitos quilómetros de distância. Era um ambiente que eu nunca tinha experienciado a esta escala, e se eu conseguisse estar no Polo, conseguia estar em qualquer lado.
Para mim foi um enorme reforço de confiança e do que o mundo tinha para vivenciar. Foi um momento de insights, do que eu poderia atingir se abrisse os olhos para o mundo, porque para mim o Polo Norte não era apenas a barreira física ou psicológica, era também a barreira económica. Demorei 18 meses a ultrapassar isso [a juntar dinheiro para a viagem] e deu-me tanto trabalho como ir ao Polo Norte. Ultrapassar as barreiras na comunidade fez-me estar mais preparado para ir a outros lugares no mundo.

“Cada pessoa é diferente, cada pessoa é igual.”

Li que está a organizar uma expedição à Antártida com adolescentes desfavorecidos através da sua Fundação #WeTwo. Como será?
Tivemos de adiar a expedição para novembro porque o barco em que queremos ir não estava na América do Sul nas datas em que pensámos inicialmente ir. No ano passado, esse barco foi reconhecido como a embarcação ambientalmente mais sustentável na sua categoria, porque navega através de baterias, não só gasolina.
A premissa de levar estes 10 adolescentes e a minha parceira de viagem à Antártida é ter uma pegada de carbono negativa sempre que possível e pegada neutra nos restantes momentos. Isto não é possível ser feito em barcos tradicionais. Já estamos a fazer ações locais com os adolescentes, para termos a certeza que compensamos, inspiramos e encorajamos outros jovens da zona. Não é apenas o adolescente, mas a sua família e a sua comunidade. Vai ser espetacular! Vão fazer ciência em tempo real na Antártida, recolher amostras, fazer observação de baleias, …vão fazer imensas coisas para merecer o seu lugar nesta expedição! Ninguém tem uma viagem “gratuita”. Não têm de pagar a viagem porque eu e a minha colega Phoebe angariamos dinheiro para pagar as suas viagens, mas têm de pagar em ações.

Integrar-se enquanto criança foi um desafio para si. Como inspira a próxima geração a integrar-se através da aventura?
Sempre senti que me tinha de integrar, mas nós não temos de nos integrar. Temos apenas de aceitar que cada pessoa é diferente, cada pessoa é igual. Se fizermos isso com as outras pessoas, elas não têm de se integrar num molde pré-definido. Se conseguirmos levantar esse véu dos jovens isso retira-lhes a pressão. Se pudermos ser quem somos em jovens… se gostarem do ar livre, explorem essa paixão. Se gostarem da vida selvagem, explorem isso, não escondam!
No meu caso, senti que a paixão pela natureza e o ar livre seria alvo de chacota pelos meus colegas de escola, e na verdade seria. Ao crescer na zona do leste de Londres, se dissesse que queria ser um explorador, ligavam para um hospital psiquiátrico e tratavam do meu internamento. Se dissesse que queria trabalhar na natureza, iriam rir-se de mim. Se não tivesse essa pressão dos meus amigos na altura, se não achasse que tinha de integrar-me no molde que tinha sido “definido”, teria sido um explorador muito mais cedo.
O meu conselho para os jovens é: sê tu próprio. O mundo é um lugar muito melhor se fores tu próprio. Vivemos num planeta lindo. Há uma razão para estares cá. E o mundo é um lugar muito melhor quando és tu próprio. Vais aproveitar melhor a vida. Vais sentir-te mais confiante, mais capaz e vais inspirar mais pessoas se não estiveres a tentar calçar os sapatos de outra pessoa.

 

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