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O globo do meu avô gira na ponta do meu indicador

Uma volta pelos quatro cantos do mundo
Por Pedro Guerra
Publicado 12/05/2022, 11:24

Memórias de criança. Lembro-me das férias de verão em casa do meu avô. Numa estante havia um pequeno globo terrestre, predominantemente azul, com uma lâmpada que o iluminava desde o interior. Guardo memórias, embora difusas. Sentava-me com o globo ao colo. Girava-o de olhos fechados e o indicador em riste. Quando o globo parava eu abria os olhos num novo país.  Repetia a sequência, à volta o mundo.

Uma volta ao mundo. O local da partida é o mesmo local da chegada. Igual, mas pelo lado oposto. A mala é feita em função de tudo. Dois hemisférios. Seis continentes. Vinte e quatro fusos horários. A rota une-se por pontos e a cada ponto um novo país. Acumulam-se pontos e redimensiona-se a perceção da distância. O grande passa a pequeno. A escala torna-se menor. As fronteiras esbatem-se, paradoxalmente. Na verdade, vista do espaço, a terra não tem fronteiras.

As cores dos lagos glaciares de Joffre Lakes, Canadá.

Fotografia por Pedro Guerra

O globo gira na ponta do indicador enquanto sobrevoo o atlântico. Rumo a ocidente, como Fernão de Magalhães. Irrompo pela América do Norte. Ligo os seus estados e províncias. Sedento. Absorto. Sinto a terra estremecer com a força da água em Niágara. Vaguei-o por ruas perpendiculares enquanto a terra gira e o sol se esgueira por entre os prédios altos de Nova Iorque, Toronto, Detroit ou Chicago. Visto um casaco pesado para lidar com as temperaturas de Banff, enquanto ligo os faróis de um 4x4 preto num fundo branco. Avanço ligando as costas. De este para oeste. O sol da Califórnia leva o casaco pesado de volta à mala e é de manga curta e vidros abertos que percorro a Pacific Coast Highway (PCH). A estrada é icónica e junto ao mar. Vou devagar, ou não fosse forçado a parar para fotografar cada milha do Big Sur. De São Francisco a Los Angeles. Vivo cada clichê de sorriso nos lábios. Deixo o carro, vou de bicicleta. Pedalo pelo famoso “the strand” californiano. Jogo vólei na praia de Manhattan. Partilho as ondas com os surfistas locais em Venice. Vejo o pôr do sol em Santa Mónica, enquanto a roda gigante dá mais uma volta.

Gira a roda, gira o globo.

Esquerda: Superior:

A beleza simétrica do vulcão Arenal, Costa Rica.

Direita: Fundo:

A cratera banhada a azul turquesa do vulcão Poás, Costa Rica.

fotografias de Pedro Guerra

Recorro ao velho truque de ir movendo o indicador, ora para cima, ora para baixo, como se medisse a latitude. Indicador no mapa. Novo destino. Rumo a noroeste. Aterro em Anchorage, Alasca. São 5 da manhã e o azul do céu californiano dá lugar a um cinza escuro. Chove. Faz frio. “Don´t let the weather hold you back – we don´t!”, leio a propósito. Entro no jipe. Mãos no volante. Pneus no chão. Estradas largas. O verde das montanhas contrasta com o branco dos cumes. Gosto de verde e branco. Avanço. Os lagos envolvem o perímetro das montanhas. Não corre vento. Estão espelhados. Paisagens que valem a dobrar. Ao fundo já avisto o Denali, a maior montanha da América do Norte. Dou asas à imaginação. Deixo-a livre. Livre para voar. Dou por mim num avião. Vermelho. Bimotor. Estilo 007. Vejo-me de auscultadores na cabeça. Vou sentado junto à janela. Voamos a baixa altitude. Vamos subindo colados à montanha. As asas inclinam-se em movimentos sem padrão. A montanha define a rota. Ela manda, o avião obedece. Sobrevoamos o cume. Imponente. Isolado. Melancólico. Paradoxalmente luminoso. O sol reflete no gelo do glaciar. Brilha a dobrar. E se aterrássemos ali? Imagino, enquanto me deixo hipnotizar pela hélice a girar.  

Gira a hélice, gira o globo.

Esquerda: Superior:

Um 4x4 preto num fundo branco. Castle Moutain, Banff, Canadá.

Direita: Fundo:

Muitas milhas acumuladas em estradas de gelo até à cidade de Calgary, Canadá.

fotografias de Pedro Guerra

A natureza em estado puro, Joffre Lakes, Canadá.

Fotografia por Pedro Guerra

O indicador aponta a sul. Entro na América Central para uns dias de “pura vida”.  Começo na capital San Jose, mas rapidamente me perco nas selvas densas da Costa Rica. Coleciono vulcões. Arenal e Poas não têm rivais. O primeiro pela dimensão e perfeição simétrica. O segundo pela cratera banhada a azul turquesa. Por falar em azul, de um lado o azul do caribe, do outro o azul do pacífico. É um privilégio que poucos países podem ostentar. A Costa Rica pode, o Panamá também. Passo a fronteira em direção ao skyline mais imponente da América Latina. Aterro na Cidade do Panamá. Entro num táxi. Conversa puxa conversa. Recebo a primeira lição de história: a independência dos colombianos; a influência dos americanos; o dólar como moeda corrente; a construção do canal, do fracasso dos franceses, ao sucesso dos americanos. “Qual é o ponto mais alto da cidade?” Pergunto, interrompendo temporariamente a lição. “Cerro Ancón!” Recebo perentoriamente a resposta. “Vamos lá.” Gosto de começar pelo ponto mais alto. Gosto de progredir do macro para o micro. Aperfeiçoei este racional a viajar. Procuro a visão de helicóptero.  À esquerda a parte nova. O centro financeiro, os arranha-céus, a modernidade. À direita a parte histórica. Identifico Casco Viejo, uma pequena península para onde foi transladada a génese da cidade, Panamá Viejo, depois desta ter sido saqueada por piratas ingleses, a mando de Henry Morgan. Viajar é ter num taxista, um livro de história. Ele gira o volante, eu giro o globo.


Continua.
 

Pedro Guerra já visitou 96 países e completou uma trilogia de voltas ao mundo. Tem um fascínio especial por montanhas, frio e locais remotos. Começou a viajar à procura de respostas. Adora escrever, pontos finais e frases curtas.  Pode acompanhar as suas viagens na sua conta Instagram.

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