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Séculos de história por entre serras, testemunhados pelos rios Douro e Tâmega

Povoados e monumentos que marcam o território

Em Amarante, o rio Tâmega torna-se o actor principal, e testemunho de muitos acontecimentos históricos que por ali ocorreram. Na imagem o centro histórico com a ponte e a igreja de São Gonçalo.

Fotografia por João Nunes da Silva
Publicado 9/05/2022, 09:14

O tempo não está de feição. Apesar do sol de Inverno, está frio e o vento cortante assobia enquanto subo o morro que me permite observar grande parte das ruínas que outrora constituíam o povoado. No  local, a vista é magnífica, com vales e serras a toda a volta. Atraído pela história do lugar, por momentos imagino o barulho repetitivo do martelo na forja a construir os  utensílios fundamentais na época. Encontro-me na Citânia de Sanfins, localizada a poucos quilómetros de Paços de Ferreira, considerada um dos principais testemunhos da cultura castreja do noroeste peninsular. Outrora, este povoado, cuja construção poderá ter tido início no século XI a.C., terá desempenhado o papel de grande metrópole e de centro cultural de toda uma região. Hoje, ao visitar o lugar estrategicamente localizado numa posição elevada, com o intuito de se defender  contra possíveis inimigos, sentimos o peso da história do lugar. Percorremos os arruamentos no planalto, que ocupam uma área de 18 hectares, onde se pode observar as ruínas de cerca de uma centena e meia de habitações de planta circular e quadrangular, agrupadas em cerca de quarenta conjuntos de unidades familiares. Por aqui, passaram os romanos e, ainda hoje, se observa aquilo que foi outrora um balneário público. Já da idade média, identifica-se os vestígios de um cemitério medieval que continha trinta e quatro sepulturas, assim como uma capela.

Detalhe de ruínas na Citânia de Sanfins um povoado que é considerado um dos principais testemunhos da cultura castreja do noroeste peninsular.

Fotografia por João Nunes da Silva

Todo este espólio começou a ser posto a descoberto em 1895, ano em que se iniciaram as primeiras escavações arqueológicas e ao longo dos anos foram realizadas diferentes campanhas que se seguiram até aos dias de hoje. Face ao enorme valor arqueológico, a Citânia de Sanfins foi classificada como Monumento Nacional pelo então Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR). Não deixa de ser irresistível, depois de passar por este local, não aprofundarmos os nossos conhecimentos sobre a história deste povoado, com uma visita ao Museu Arqueológico de Sanfins, local onde estão depositados as inúmeras descobertas efectuadas. Merece destaque o tesouro monetário, a estátua do guerreiro, os fragmentos de cerâmica e inúmeras peças de joalharia em ouro e prata. Foi aqui que iniciei um percurso fotográfico que me levaria numa viagem por lugares históricos e naturais, inseridos numa magnífica região de Portugal, caracterizada pelos rios Douro, Tâmega e Bestança assim como em serras como a do Marão, Aboboreira e Montemuro. Envolto numa natureza grandiosa, ao longo desta viagem podemos testemunhar os primórdios da presença humana no território, inúmeros vestígios romanos e conhecer várias tradições seculares. Uma grande parte dos monumentos históricos encontra-se reabilitada, integrando a Rota do Românico e alguns fundem-se com a história da própria nacionalidade.

O magnífico vale do rio Bestança na serra de Montemuro que apresenta um estado de conservação elevado e deságua no rio Douro que se pode avistar ao fundo.

Fotografia por João Nunes da Silva

Os temas da pré-história sempre fascinaram e conhecer os principais locais da presença humana na região do Tâmega e Sousa, torna obrigatória uma visita à serra da Aboboreira. Distribuída pelos concelhos de Amarante, Baião e Marco de Canaveses, a serra da Aboboreira concentra inúmeros vestígios da pré-história, ao longo de milhares de anos, sendo referência nacional neste domínio. Na serra da Aboboreira os vestígios mais antigos da ocupação humana datam do período Neolítico, de 4500 anos a.C., e no planalto superior, estendem-se até à idade do Bronze, nomeadamente 2500 a.C. Área profundamente estudada em termos arqueológicos, desde 1978,  já foram identificados mais de quarenta monumentos megalíticos, dos quais merece destaque o Dólmen de Chã de Parada e as Meninas do Crasto. Para se conhecer com detalhe alguns dos dolméns, recomendo algum trabalho de casa prévio na identificação dos mesmos através da internet. O município de Baião através do seu museu municipal disponibiliza diversa informação no seu site e pequenos guias, que podem ser obtidos para quem tiver interesse em visitar os locais. Percorrendo o estradão que cruza o alto da serra da Aboboreira e que passa pelo Miradouro da Senhora da Guia, podemos observar vários conjuntos megalíticos. Por vezes, alguns encontram-se dissimulados pela vegetação, e se não se souber o seu local exacto através das coordenadas GPS, pode-se ter dificuldade em os encontrar. Outros estão bastante bem identificados e são perfeitamente visíveis.

Esquerda: Superior:

Vista aérea do Dolmén de Chã de Parada classificado como monumento nacional desde 1910 e que merece uma visita obrigatória.

Direita: Fundo:

O conjunto megalítico das Meninas do Crasto merece destaque no alto da serra da Aboboreira e é facilmente identificado.

fotografias de João Nunes da Silva

Tendo o rio Douro como montra de fundo, Resende não é só conhecida pela beleza dos seus vales pintados de branco por alturas da floração das cerejas. A poucos quilómetros da vila situa-se Cárquere, uma freguesia onde se localiza o Mosteiro de Santa Maria de Cárquere, já com porta de entrada para a serra de Montemuro. Se há lugares que se fundem com os primeiros anos da nacionalidade, o Mosteiro de Santa Maria de Cárquere, datado do século XII, é um deles. Foi neste lugar que, segundo a lenda, o ainda jovem infante Afonso Henriques supostamente se curara da sua maleita das pernas, sob orientação do seu aio Egas Moniz e intercessão da Virgem Maria. De aspecto majestoso ao primeiro olhar, o monumento destaca-se na paisagem verdejante, ladeado por algumas árvores e o relevo ao fundo da serra de Montemuro. Após as diversas intervenções que o mosteiro foi sofrendo ao longo dos séculos a partir da construção original, sobressai a torre e a fresta da capela funerária dos Resendes. O mosteiro tornou-se o panteão da família dos Resendes, nome marcante que ainda hoje tem referências nesta região a sul do Douro. 

De Cárquere a Montemuro

Cerca de vinte quilómetros separam Cárquere do alto da serra de Montemuro. Esta serra alberga uma fauna e flora bastante rica e diversificada, como as turfeiras activas e o lobo-ibérico, uma espécie ameaçada de conservação prioritária, que encontra em Montemuro um dos últimos refúgios a sul do rio Douro. Várias aldeias serranas gerem o seu dia-a-dia, num compasso lento ao longo das estações do ano, como é o caso da emblemática aldeia da Gralheira, localizada a cerca de 1100 metros de altitude. A paisagem envolvente é magnífica, rodeada de lameiros e algumas manchas de carvalhos. Os Invernos são gélidos, com a neve a marcar presença. Um passeio pela aldeia permite-nos observar os materiais de construção que outrora eram utilizados por aqui na arquitectura tradicional: o granito e o colmo. A curta distância da aldeia da Gralheira localiza-se a ponte da Panchorra, já referenciada na idade média, e que permite a passagem sobre rio Cabrum que, até desaguar no rio Douro, vai delineando a divisão entre os concelhos de Cinfães e Resende. A presença do homem desde os tempos mais antigos é evidenciada também em alguns locais na Serra de Montemuro, como o recinto megalítico de São Cristóvão e o conjunto megalítico de Felgueiras, no concelho de Resende.

Panorâmica do alto da Serra de Montemuro na zona de Resende com o rio Douro ao fundo.

Fotografia por João Nunes da Silva

Um dos vales mais fantásticos que percorri nos últimos tempos e que faz parte integrante da paisagem da serra de Montemuro, foi o vale do rio Bestança. Nasce em plena serra, nas Portas de Montemuro, a 1229 metros de altitude. Depois de serpentear livremente por cerca de 13,5 quilómetros pelo estreito vale, vai desaguar no rio Douro. Todo o curso fluvial do Bestança apresenta um estado de conservação elevado, que pode ser observado à medida que o percorremos. Por entre uma luxuriante vegetação ribeirinha de espécies autóctones, da qual fazem parte carvalhos, amieiros, salgueiros, loureiros e azevinhos, entre outros, o curso de águas límpidas e transparentes ultrapassa inúmeros desníveis, formando magníficas cascatas e piscinas convidativas. Ao nível da fauna, a truta e a lontra são uma referência entre outras espécies. Também pela sua enorme riqueza etnográfica e cultural é possível observar ao longo do vale algumas azenhas que serviram de sustento a diversas famílias ao longo de gerações. O rio Bestança está classificado como Biotopo Corine e integra a Rede Natura 2000, assumindo desta forma uma referência em termos ecológicos, não só nacional, mas também internacional. Existe actualmente uma vasta rede sinalizada de percursos pedestres e de BTT, que permite unir inúmeros pontos de atracção entre concelhos, que passam por aldeias tradicionais, monumentos classificados, centros de interpretação e  belezas naturais referenciadas na região. Alguns dos percursos podem ser efectuados ao longo de vários dias. Um dos que recomendo é o da Rota do Vale, com uma distância de 18 quilómetros e uma duração de aproximada de cinco horas, que percorre grande parte do vale do rio Bestança.

O magnífico rio Douro que caracteriza toda esta região numa vista aérea a partir do Miradouro de Frende em Baião.

Fotografia por João Nunes da Silva

A Serra do Marão e o vale do Tâmega

Percorrer a serra do Marão permite-nos usufruir do ambiente da verdadeira montanha, qualquer que seja a altura do ano. Com 1416 metros de altitude, oferece-nos vistas panorâmicas e uma diversificada natureza por entre alguns bosques frondosos. Existe uma extensa mancha florestal na serra do Marão, sendo maioritariamente constituída por pinheiros, mas também podemos observar carvalhos, castanheiros e vidoeiros, entre outras espécies de flora. Durante a Primavera e princípios do Verão as encostas da serra formam extensos tapetes de cores rosa e amarela, provenientes da urze e de carqueja, que se podem observar nas zonas mais altas do Marão. O Outono torna o Marão deslumbrante, com os seus bosques de espécies de folha caduca a pintalgarem de tons quentes a paisagem e com alguns regatos de água. É também uma boa oportunidade para ouvir e observar o melro-de-água no rio Teixeira junto à encaixada aldeia de Mafómedes. Já no Inverno, as temperaturas do Marão por algumas vezes atingem valores negativos e não são raras as vezes em que a serra se cobre de branco com um ou outro nevão. Quem quiser conhecer de perto a serra do Marão, pode percorrer o trilho “O Marão tem sangue azul”. Trata-se de um percurso através de paisagens florestais que acompanha parte das margens da Ribeira da Póvoa e apela à conservação e gestão sustentável do sistema ribeirinho da serra do Marão.

Detalhe da fachada da igreja de São Gonçalo recentemente recuperada e que serve de cartão-de-visita à cidade de Amarante.

Fotografia por João Nunes da Silva

Não muito distante da serra do Marão, também o vale do rio Tâmega merece ser explorado, não só pela sua natureza, mas também pelo valioso património histórico que por ali existe. Alguns quilómetros antes de banhar Amarante, junto à zona de Rebordelo, visto do ar o Tâmega percorre um vale pouco profundo com uma paisagem ondulante e colorida sobressaindo ao longe a Senhora da Graça, nos seus quase mil metros de altitude. Na cidade de Amarante, o rio Tâmega torna-se o actor principal, e testemunho de muitos acontecimentos históricos que por ali ocorreram. Atravessando a ponte e dominando uma das principais praças do centro histórico, ergue-se a imponente igreja de São Gonçalo, servindo de cartão-de-visita à cidade de Amarante. Recuperada recentemente, no seu interior encontram-se os restos mortais do Santo casamenteiro amado pelas gentes da terra ao longo dos tempos. Foi ali que, segundo a tradição, São Gonçalo ergueu uma pequena ermida.

Esquerda: Superior:

Na região de Amarante o rio Tâmega cruza algumas paisagens com vinha com esta em Gatão.

Direita: Fundo:

Vista deslumbrante sobre o rio Douro a partir do miradouro da Serra da Boneca em Penafiel.

fotografias de João Nunes da Silva

Posteriormente e por deliberação do Rei João III, a pequena ermida daria lugar a um convento dominicano cujas obras tiveram início em 1543. Mesmo ao lado, na parte que outrora albergava o extinto convento de São Gonçalo, encontra-se o Museu Amadeu Souza-Cardoso, filho da terra e pintor modernista, considerado um dos maiores artistas portugueses do século XX e cujo museu merece uma visita. Em 1809, a defesa da ponte de São Gonçalo em Amarante marcou um dos feitos mais notáveis ocorridos durante as invasões francesas, com uma violenta batalha que durou catorze dias e que gerou vários mortos. Pode-se ler uma placa alusiva ao centenário desse feito, à entrada da ponte de São Gonçalo, hoje denominada de avenida General Silveira, em homenagem a um dos heróis da altura. Actualmente, ainda são visíveis alguns efeitos do período violento da história que Amarante testemunhou. Não só as marcas das balas de canhão na fachada principal da igreja de São Gonçalo, mas igualmente as ruínas do Solar dos Magalhães, incendiado na altura pelas tropas francesas. O edifício esteve anos em ruínas, mas recentemente, iniciou um processo de reabilitação e aí será criada “A Casa da Memória”. Percorrendo os diversos sentidos da cidade, o rio Tâmega está sempre presente, proporcionando magníficas panorâmicas a partir do centro histórico e convidativas actividades junto às suas margens. Para além da sua história, Amarante é uma referência também pelos seus doces conventuais e produção de vinho verde. Algumas quintas são referências na história, ao longo de várias gerações. Seguindo o percurso do rio Tâmega e antes deste desaguar no rio Douro, na localidade alusiva ao nome Entre-os-Rios, podemos contemplar, para terminar o nosso percurso, o Rio Douro, a partir do miradouro da serra da Boneca, já em Penafiel. Ao longo desta região, somos surpreendidos por uma natureza grandiosa, em que os rios são os grandes protagonistas e testemunhos da própria história.

João Nunes da Silva é jornalista e fotógrafo de natureza, contribuidor frequente de várias revistas nacionais e internacionais, e autor de quatro livros sobre natureza portuguesa.

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