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Será que a Arábia Saudita está pronta para os viajantes?

Este reino do Médio Oriente tem planos ambiciosos para desenvolver o turismo em grande escala – começando com Jidá e a sua arquitetura centenária.

Por Robert D. Kaplan
Publicado 9/05/2022, 11:56
Mesquita Shafi'i

A Mesquita Shafi'i, com o seu minarete de 800 anos, está entre os edifícios históricos de Al-Balad, em Jidá, o bairro mais antigo da Arábia Saudita. Esta é uma das várias áreas que este país do Médio Oriente está a renovar como parte de um esforço para atrair mais turistas.

Fotografia por Arnold Paira, Laif, Redux

No porto histórico de Jidá, na Arábia Saudita, as palmeiras balançam ao sabor do vento, com um mar de água cintilante em pano de fundo. O Egito e o Sudão parecem espreitar no horizonte ocidental do Mar Vermelho, enquanto Meca fica em direção às montanhas mesmo atrás de mim.

Com milhares de anos de idade, Jidá significa “avó” em árabe, e reza a lenda que Eva, da Bíblia, está enterrada neste local. O comércio de peregrinos e as rotas históricas de especiarias do Oceano Índico iam todas dar a Jidá.

Contudo, a Arábia Saudita está a mudar muito rapidamente e parte do chamado plano Vision 2030 envolve o restauro da Velha Jidá. O plano estratégico do governo para preparar a economia e a sociedade para os rigores de uma era pós-petróleo inclui um pouco de tudo, desde a implementação de projetos digitais ou de infraestrutura à libertação das mulheres das restrições da lei islâmica para nutrir uma força de trabalho mais criativa e dinâmica.

Uma casa de pedra figura entre as centenas de estruturas dos séculos XVIII e XIX em renovação no bairro de Al-Balad, em Jidá.

Fotografia por Eric Lafforgue, Art in All of Us, Corbis, Getty Images

Este plano também visa desenvolver o turismo em grande escala para procurar outra fonte de receitas. A solicitação de vistos para quem quer visitar o país está disponível em 49 países (incluindo nos Estados Unidos).

Juntamente com os seus vastos desertos e ruínas arqueológicas impressionantes, a Arábia Saudita recebe-nos com Jidá – a porta de entrada marítima para os locais sagrados da nação. Em Al-Balad (Velha Jidá), podemos encontrar 650 edifícios de pedra coral rebocados de branco dos séculos XVIII e XIX, Património Mundial da UNESCO desde 2014. E agora é o melhor momento para visitar o local, durante este intervalo mágico em que tudo foi renovado, mas em que as hordas de turistas ainda não chegaram.

Passagem para as cidades sagradas

Jidá é a cidade principal da região de Hejaz, que significa “barreira”, uma região estreita ao longo do Mar Vermelho cercada por montanhas e planaltos a leste. Durante séculos, os peregrinos muçulmanos chegaram a Hejaz vindos de todo o Médio Oriente, de África e da Ásia, com destino às cidades sagradas de Meca e Medina, criando assim uma forma de globalização antes de o próprio termo se enraizar. Al-Balad, perto do porto original do século VII, fica no centro de tudo isto, o primeiro lugar na Arábia que os peregrinos viam na era anterior às viagens de avião.

A cidade velha, outrora um centro do comércio de especiarias, é um labirinto de edifícios caiados de branco que estão decorados com varandas fechadas de madeira e teca da Índia. As telas das varandas são cortadas em forma de treliça e chamam-se roshans, da palavra persa rozen, que significa “abertura da janela”. As mulheres podem sentar-se nesta varanda e apreciar a rua sem serem vistas.

As chamadas roshans de Jidá são semelhantes às moucharaby da Tunísia, do Egito e do Levante. A complexidade esculpida nas camadas de fachadas brancas é impressionante pela sua simplicidade. Não há duas roshans idênticas neste local, mas o padrão arquitetónico em todo o porto histórico é uniforme.

“Costumamos dizer em árabe que ‘as casas conversam umas com as outras’”, diz Abir Jameel AbuSulayman, que em 2011 se tornou na primeira guia turística feminina na Arábia Saudita. Abir Jameel levou-me a conhecer Ahmed Angawi, que dirige uma oficina que está a revitalizar a arte de construir roshans.

“As treliças em todas as suas variações”, diz Ahmed Angawi, “representam uma geometria que expressa tanto a unidade como a diversidade do mundo islâmico”.

Quando estão fora da sua teca castanha escura natural, as roshans são pintadas de verde ou azul celeste. O verde é a cor do Islão e do Reino da Arábia Saudita, ao passo que o azul é inspirado nos mushrabiyahs de Sidi Bou Said, uma obra-prima urbana a norte de Túnis, no Mediterrâneo. O efeito das roshans azuis em contraste com as paredes brancas também evoca as ilhas gregas, e há aqui um edifício chamado “Casa de Míconos”. E tal como as ilhas gregas, as ruas estreitas e sonolentas da Velha Jidá também estão deliciosamente povoadas por gatos.

Esquerda: Superior:

Varandas de madeira esculpida, chamadas roshans, adornam as casas em Al-Balad. Estas varandas são projetadas para permitir que as mulheres se sentem e observem a rua enquanto permanecem escondidas da vista do público.

Fotografia por Marco Moretti, Anzenberger, Redux
Direita: Fundo:

As roshans, que são semelhantes às telas encontradas na Tunísia e no Egito, adornam as varandas em Al-Balad.

Fotografia por Wolfgang Kaehler, LightRocket, Getty Images

O aroma a incenso encanta e revigora os interiores de Al-Balad, como acontece por todo o reino. Entro numa loja de doces e vejo as suas centenas de caixas transparentes cheias de sementes de tamarindo da Indonésia, damascos secos da Síria, várias frutas secas da Tailândia, dezenas de tipos diferentes de tâmaras da Arábia Saudita e muito mais, criando um banquete cromático e retilíneo de cor semelhante a uma tela de arte moderna.

(Descubra porque é que o Médio Oriente pode ser o próximo grande destino para caminhadas.)

Depois, entro na fria e escura Nasseef House, uma mansão otomana do século XIX onde Abdelaziz Ibn Saud viveu entre 1925 e 1927. Naquela época, Abdelaziz Ibn Saud era conhecido por “Rei de Hejaz, Sultão de Nejd”, antes de as duas regiões díspares que governava terem sido oficialmente combinadas para formar a Arábia Saudita em 1932.

No segundo andar da mansão (agora museu), sento-me junto à janela onde o próprio Abdelaziz Ibn Saud se deve ter sentado, tentando apagar a passagem do tempo. Sem Abdelaziz Ibn Saud e o seu carisma de guerreiro incansável, este gigante do petróleo da Arábia Saudita provavelmente nunca teria existido, e o Médio Oriente seria agora um lugar radicalmente diferente.

Uma vista do tairama (recinto com cobertura no telhado) de uma casa histórica oferece vistas sobre a arquitetura de pedra coral de Al-Balad.

Fotografia por Eric Lafforgue, Art in All of Us, Corbis, Getty Images

No telhado da Nasseef House há um recinto coberto de madeira com janelas abertas, chamado tairama, um lugar para os pássaros, segundo a guia Abir Jameel e Rawaa Bakhsh, um conservador histórico. Descanso numa almofada de brocado no chão, admirando uma vista repleta de arranha-céus que refletem a luz do sol na Jidá moderna: uma vista que, até há década de 1950, era apenas mar, deserto e um aglomerado de casas em Al-Balad.

A partir deste local também consigo avistar a graciosa Mesquita Shafi'i, que fica perto do antigo porto. O minarete desta mesquita tem 800 anos, ao passo que outras partes do edifício datam do século XVIII. O famoso oficial dos serviços secretos britânicos, T. E. Lawrence, conhecido por Lawrence da Arábia, também deve ter visto esta mesquita, penso eu, dado que começou as suas aventuras pelas arábias neste porto do Mar Vermelho em 1916.

Para além dos estereótipos

Ao longo de décadas tenho conhecido sauditas que estudaram no estrangeiro, que se tornaram membros de um mundo globalizado e, no entanto, regressaram para casa e mantiveram os seus valores culturais: os homens continuam a usar ghutras e agals (o cocar e cordão tradicionais da Arábia Saudita), e as mulheres usam abayas e hijabs. Os sauditas podem ter-se tornado cosmopolitas, mas não abandonaram as suas raízes. E Al-Balad está no centro dessas raízes.

De facto, a Velha Jidá, apesar de agora estar silenciosa e um pouco vazia devido aos trabalhos de acabamento e ao facto de ainda ser um segredo, promete vir a tornar-se na extensão de uma cultura jovem que se está a propagar por toda a Arábia Saudita. Cerca de 70% dos sauditas têm menos de 35 anos de idade, e 84.3% deste país desértico é urbanizado.

Uma menina de 12 anos, jovem o suficiente para não ter de usar lenço na cabeça, anda de trotinete na marginal de Jidá.

Em Jidá e Riade, vi mulheres sentadas sozinhas nos cafés, imersas nos seus portáteis, ou cumprimentando amigos ou amigas. Cenas como estas sugerem que as viajantes solitárias vindas do Ocidente podem ser bem recebidas.

Num café etíope em Al-Balad, converso com um diplomata saudita que decidiu regressar para casa após ter vivido muitos anos no estrangeiro, e ele diz-me: “De acordo com os estereótipos, só temos petróleo, somos a terra do Osama bin Laden, reprimimos as mulheres e cortamos cabeças. O programa Vision 2030 está a tentar desmistificar esta imagem. Porém, este programa, do qual a renovação da Velha Jidá é apenas uma pequena parte, também está agora a ser criticado devido aos seus próprios problemas e imperfeições. Mas o progresso é feito destas coisas.”

Robert D. Kaplan publicou recentemente o livro Adriatic: A Concert of Civilizations at the End of the Modern Age. Robert D. Kaplan é diretor do departamento de Geopolítica Robert Strausz-Hupé do Instituto de Pesquisa em Política Externa dos EUA.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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