Uma equipa revolucionária de alpinistas fez história no Evereste

Ao escalar o cume da montanha mais alta do mundo, um grupo de alpinistas negros e nepaleses acabou de tornar o montanhismo mais inclusivo.

Por Melba Newsome
Publicado 17/05/2022, 11:30
alpinistas, Evereste

Sete membros da expedição Evereste Full Circle, composta inteiramente por alpinistas negros, chegaram ao topo do Monte Evereste no dia 12 de maio de 2022. Este grupo espera que a sua escalada inspire uma nova geração de exploradores.

Fotografia por Amrit Ale, Full Circle Everest

Foi feita história no cume mais alto do mundo, quando sete membros da expedição Evereste Full Circle – juntamente com oito guias nepaleses – chegaram ao cume do Monte Evereste. Na manhã do dia 12 de maio de 2022, a equipa chegou a Chomolungma, o nome tibetano para o Monte Evereste, que significa “Deusa Mãe do Mundo”.

Desde a primeira subida documentada ao pico em 1953, só 10 alpinistas negros é que chegaram ao cume. A equipa Full Circle, composta inteiramente por alpinistas negros, espera que o seu sucesso inspire uma nova geração de exploradores de todas as origens.

“Estou profundamente honrado em informar que sete membros da equipa Evereste Full Circle chegaram ao cume no dia 12 de maio”, foi a publicação feita no Twitter por Philip Henderson, líder da equipa e um dos únicos instrutores negros no Centro de Alpinismo de Khumbu (KCC) no Nepal, que treina alguns dos melhores alpinistas do mundo. “Apesar de alguns membros, incluindo eu, não terem chegado ao topo, todos os membros das equipas de escalada e xerpas regressaram em segurança ao Acampamento Base, onde celebramos este momento histórico!”

A maioria das expedições ao Evereste normalmente visa atingir o cume entre a primeira e a terceira semana de maio, quando há menos probabilidades de tempestades de neve e as velocidades do vento normalmente ficam abaixo dos 80 km por hora.

Fotografia por Jay Dickman, Nat Geo Image Collection

Alguns membros da equipa já tinham conseguido feitos inéditos: Abby Dionne foi a primeira mulher negra nos Estados Unidos a ter um ginásio de escalada; James “KG” Kagam¬bi foi o primeiro africano a escalar o Denali, no Alasca, e o Monte Aconcágua, na Argentina. A equipa é composta por três mulheres e oito homens, com idades entre os 29 e os 60 anos, e inclui um cientista de dados, um professor de psicologia, um professor de química do ensino secundário e um técnico em eletrónica marinha.

Os carregadores, guias e equipa de apoio nepaleses da expedição incluíam: Fura Chheten Sherpa, Pasang Nima Sherpa, Lhakpa Sonam Sherpa, Phurtemba Sherpa, Dawa Chhiri Sherpa, Sonam Gyalje Sherpa, Nima Nuru Sherpa, Chhopal Sherpa, Chhowang Lhendup Sherpa, Tashi Gyalje Sherpa, Amrit Ale (fotógrafo), Pemba Sherpa (operador de câmara) e Ngawang Tenjin Sherpa (operador de câmara).

No final de março, o grupo encontrou-se na capital do Nepal, Katmandu, de onde seguiu de avião até à cidade de Lukla. Neste local, a equipa começou a escalar cerca de 300 metros por dia através do Vale Khumbu, para chegar ao Acampamento Base Sul no Evereste (com uma elevação de 5363 metros), onde aguardou pelo clima ideal para começar a ascensão final. A maioria das expedições chega ao cume durante a primeira e última semana de maio, quando há menos probabilidades de tempestades de neve e as velocidades do vento são inferiores a 80 km por hora (as velocidades seguras são geralmente inferiores a 50 km por hora).

Agora, após anos de preparação, esta equipa de alpinistas espera que a sua conquista mude a perceção que as pessoas têm do montanhismo enquanto desporto não inclusivo e consiga convencer mais pessoas negras a abraçar as aventuras ao ar livre.

Mudar a face do alpinismo

Todos os anos, há centenas de alpinistas que tentam chegar ao teto do mundo, mas esta escalada é notoriamente arriscada e o sucesso não é garantido. A “zona de morte” da montanha – um ponto de elevação acima dos 7900 metros onde a privação de oxigénio, o comprometimento nas capacidades de decisão e as condições climatéricas tornam as coisas imprevisíveis – já ceifou a vida de centenas de pessoas, incluindo alpinistas ocidentais e xerpas.

No início de abril de 2022, membros da equipa Evereste Full Circle subiram ao Acampamento Base, no Nepal, para ambientar os seus corpos à alta altitude.

Fotografia por Philip Henderson, Full Circle Everest

De acordo com um relatório de 2019 do Clube Alpino Americano, apenas 1% da comunidade de escalada se identifica como sendo negra. E só em 2003 é que o sul-africano Sibusiso Vilane se tornou no primeiro homem negro a escalar o Monte Evereste. Três anos depois, Sophia Danenberg tornou-se na primeira e única mulher afro-americana a escalar o Monte Evereste, um evento que, até há poucos anos, passou em grande parte despercebido.

Mas as coisas estão a evoluir lentamente. Philip Henderson diz que já viu mais negros em eventos de escalada e montanhismo nos últimos quatro anos do que nas últimas duas décadas.

Philip também refere que as redes sociais são responsáveis pela visibilidade que as pessoas de cor têm tido, sem esquecer os esforços de diversificação feitos pela indústria de aventuras ao ar livre. “Creio que a indústria está a tentar. Estão a perceber que não estão a contar as histórias das pessoas de cor e não estão realmente a convidá-las para entrar.”

(Alpinistas nepaleses alcançam primeira escalada de inverno do K2.)

A equipa da expedição Evereste Full Circle encontrou um equilíbrio entre movimento e descanso enquanto aguardava pelas condições climatéricas adequadas para começar a jornada até ao cume da montanha.

Fotografia por Pemba Sherpa, Full Circle Everest

Fred Campbell, cientista de dados da Microsoft e membro da equipa Evereste Full Circle, reconhece que esta visibilidade faz-se acompanhar por mais responsabilidade. “Era bom escalar simplesmente [o Evereste], mas estamos a representar os negros. Apesar de ser um fardo adicional, creio que vai ter um impacto positivo.”

Conrad Anker, montanhista profissional e fundador do KCC, acrescenta: “Quando as crianças de todo o mundo se veem refletidas nesta expedição composta só por negros, também vão sentir e tornar-se parte do conjunto de valores que é o alpinismo.”

Contudo, a equipa Full Circle não escalou sozinha. Os alpinistas foram ajudados por guias de escalada nepaleses, muitos dos quais são de etnia Xerpa. No Evereste, os guias são a espinha dorsal de todas as expedições. No entanto, apesar de constituírem uma parte essencial da equipa e assumirem muito mais riscos do que os seus clientes, os nepaleses também são frequentemente esquecidos quando se trata de distribuir elogios ou posar para as fotografias no cume.

Foram os guias nepaleses que montaram o acampamento base, que prepararam a rota pela traiçoeira Queda de Gelo Khumbu, que fizeram inúmeras viagens às regiões superiores da montanha enquanto transportavam equipamentos e botijas de oxigénio para os acampamentos e fixavam cordas ao longo de todo o percurso. Perto do cume, foram os guias nepaleses que ajudaram a equipa Full Circle a chegar ao pico e agora vão trazê-la de regresso em segurança.

A importância do trabalho de equipa

O alpinismo é cada vez mais encarado como um desporto de equipa que exige uma liderança forte e confiança entre os membros. Ao contrário dos grupos que se reúnem no Acampamento Base do Evereste, os membros da equipa Full Circle treinaram juntos no Monte Rainier, no estado de Washington, e nas montanhas perto de Bozeman, no Montana, para se prepararem para os desafios que se avizinhavam.

Philip Henderson acrescenta que existe uma segurança adicional quando se faz parte de uma equipa onde as pessoas se parecem connosco e riem das mesmas piadas. “Ter este tipo de apoio num esforço como este, onde tentamos escalar uma montanha, é importante”, diz Philip. “É mais sobre essa jornada do que apenas escalar uma montanha.”

A equipa Full Circle chegou ao Acampamento Base Sul do Evereste no dia 17 de abril e juntou-se a centenas de outros candidatos esperançosos de alcançar o cume na colorida cidade de tendas no topo do Glaciar Khumbu. Todos os dias desta jornada de dois meses foram agendados levando em consideração a habituação gradual à altitude e para maximizar a saúde e coesão da equipa.

Nas semanas que antecederam a ascensão ao cume, a equipa estabeleceu uma rotina para comer, descansar, ambientar, passear rapidamente pela montanha e considerar os desafios logísticos que ia enfrentar.

Esperar foi a parte mais difícil, diz Philip Henderson, que não tentou chegar ao cume, ficando em vez disso a coordenar a equipa a partir do Acampamento Base. “O Evereste é um lugar perigoso e de alto risco. Temos de avançar lentamente.”

Melba Newsome é uma escritora freelancer premiada que vive em Charlotte, na Carolina do Norte.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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