Como os passeios de observação de tartarugas podem ajudar na conservação

Desde a recolha de dados aos cuidados de tartarugas feridas, participe num dos programas de conservação de tartarugas marinhas mais importantes da Terra.

Por Caroline Taylor
Publicado 14/06/2022, 11:53
tartaruga-de-couro

Apenas uma em cada mil tartarugas-de-couro sobrevive até atingir a maturidade sexual e regressa ao seu local de nascimento para desovar, como acontece com esta mãe em nidificação em Matura, Trinidad. Os programas vitais de conservação de tartarugas convidam os viajantes a envolverem-se com os animais em Trinidad e Tobago.

Fotografia por Mauricio Handler, Nat Geo Image Collection

As tartarugas marinhas já andam por cá desde os tempos dos dinossauros, tendo sobrevivido a vários eventos de extinção ao longo de 100 milhões de anos. Mas os efeitos em dominó da atividade humana têm provocado um rápido declínio populacional, e agora seis das sete espécies de tartarugas marinhas estão em perigo de extinção.

Mas há vislumbres de esperança, como se pode ver pelo trabalho dedicado de conservacionistas e organizações comunitárias pelo mundo inteiro. Foi exatamente isso que fez de Trinidad e Tobago – uma nação de duas ilhas no extremo sul do arquipélago caribenho – uma das colónias de tartarugas-de-couro mais importantes do Hemisfério Ocidental e a segunda maior do mundo, ficando apenas atrás do Gabão.

Cinco das sete espécies de tartarugas marinhas podem ser encontradas nas águas de Trinidad e Tobago. Nesta imagem, a costa oeste de Tobago abraça o Mar das Caraíbas.

Fotografia por Michael Melford, Nat Geo Image Collection

Em cada época de nidificação, as equipas de conservação das ilhas dependem dos visitantes que ajudam a dar a estas criaturas uma oportunidade de lutar contra a infinidade de ameaças que enfrentam – incluindo destruição de habitat, problemas reprodutivos induzidos pelas alterações climáticas e a captura acidental ao largo da costa.

Os passeios de observação de tartarugas que estas equipas realizam fornecem o rendimento vital que financia os esforços de monitorização e as patrulhas; sem esquecer os voluntários – incluindo viajantes que vêm de longe – que trabalham no local.

 

“Isto é literalmente a nossa paixão – ninguém se mete nisto para ganhar dinheiro”, diz Giancarlo Lalsingh, que já passou mais de 30 anos na conservação local, incluindo mais de uma década na organização Save Our Sea Turtles (SOS Tobago). “É muito difícil. Mas o resultado de todo este trabalho vale realmente a pena.”

Independentemente das aptidões ou experiência, há uma forma de todos nós ajudarmos as novas gerações de tartarugas marinhas a sobreviver. Eis o que precisa de saber sobre as ameaças que estes animais enfrentam e como se pode envolver para ajudar.

História de sucesso com seis décadas

Trinidad e Tobago talvez seja mais conhecida pelos seus tambores de aço, pelo estilo musical calipso, pelo limbo e pelo carnaval ao estilo caribenho. Mas na tranquilidade das suas praias e florestas, existe um tipo diferente de maravilha à nossa espera.

À noite, durante a época de nidificação (e por vezes, muito raramente, à luz do dia), as tartarugas começam a emergir do mar. Enormes tartarugas-de-couro surpreendem os observadores – animais que podem atingir os 900 quilos e mais de 2 metros de comprimento. As mães em nidificação dirigem-se para terra, começando por esculpir os ninhos, colocando depois entre 80 a 100 ovos, antes de camuflarem minuciosamente os seus vestígios na areia e regressarem lentamente para o mar.

(Ovo fossilizado de tartaruga gigante pré-histórica revela cria no seu interior.)

As mães em nidificação fazem várias visitas à praia durante a época – até 10 visitas para as tartarugas-de-couro e 5 para as tartarugas-de-pente. Passados cerca de dois meses, as pequenas crias saem da areia e dirigem-se apressadamente para o mar.

Menos de uma em cada mil consegue atingir a maturidade sexual – 25 ou 30 anos depois. As fêmeas que atingem a maturidade sexual têm de fazer a longa jornada de regresso às praias onde nasceram para produzir a geração seguinte.

Esquerda: Superior:

Uma mãe em nidificação põe uma ninhada de ovos na praia de Matura, na costa nordeste de Trinidad.

Direita: Inferior:

Depois de dois meses na areia, a crias de tartaruga-de-couro emergem e dirigem-se apressadamente para o mar.

fotografias de Brian Skerry, Nat Geo Image Collection

Há cinco espécies de tartarugas marinhas que visitam as águas de Trinidad e Tobago: tartarugas-de-couro, tartarugas-de-pente, tartarugas-verdes, tartarugas-comuns e tartarugas-oliva. As três primeiras nidificam em ambas as ilhas – principalmente nas costas norte e leste de Trinidad, e em menor número em torno de Tobago durante a época de nidificação (que vai de março a agosto para as tartarugas-de-couro e maio a novembro para as tartarugas-de-pente).

Durante os meses de nidificação, mais de 6.000 tartarugas (e até 10.000) põem ovos nas praias destas ilhas. A maior concentração de tartarugas acontece na Grande Riviere – uma praia com pouco mais de um quilómetro de extensão num vilarejo remoto na costa norte de Trinidad, e também é o local de maior densidade de nidificação de tartarugas-de-couro do mundo. Numa noite movimentada, nos meses de pico (maio e junho), cerca de 500 tartarugas podem nidificar só nesta praia; e até 400 em Matura, uma praia maior na costa rural nordeste.

“O número de tartarugas-de-couro que nidificam neste local – é quase como um evento de nidificação em massa”, diz a Exploradora da National Geographic Vanessa Bezy, bióloga marinha e conservacionista de vida selvagem nos EUA que está a trabalhar na proteção de tartarugas marinhas na Costa Rica. “No local onde estou a trabalhar, as tartarugas-de-couro estão em perigo crítico de extinção. Creio que restam apenas algumas centenas de tartarugas naquela região do Pacífico.”

Os voluntários são os grandes responsáveis por tornar a humilde história de conservação de tartarugas de Trinidad e Tobago num caso de sucesso à escala global. Estas pessoas passam horas incontáveis a identificar, a contar e a medir as mães em nidificação; a fazer a sua monitorização e por vezes até a ajudar na realocação de ninhos; e a ajudar a proteger as tartarugas de predadores e de outras ameaças. O trabalho árduo dos voluntários tem feito com que a caça furtiva pela carne e ovos de tartarugas-de-couro tenha praticamente desaparecido.

Voluntários ajudam crias de tartaruga a encontrar o caminho para o mar. Sem esta ajuda, as jovens tartarugas podem ficar desorientadas devido às fontes artificiais de luz e podem ser vítimas de predadores, incluindo cães e guaxinins.

Fotografia por Brian Skerry, Nat Geo Image Collection

O Parque Pigeon Point Heritage, em Tobago, protege os habitats de comunidades de corais, florestas pantanosas, tartarugas-de-pente e mais de uma centena de espécies de peixes.

Fotografia por Michael Melford, Nat Geo Image Collection

Este trabalho começou em 1965 através de uma colaboração entre a Universidade das Índias Ocidentais e o Clube de Naturalistas de Campo de Trinidad e Tobago. Em 1989, o Departamento Florestal do país desenvolveu uma parceria de gestão conjunta com as comunidades rurais onde as tartarugas nidificam, fomentando o crescimento das várias organizações comunitárias que iriam impulsionar os esforços de conservação nas décadas seguintes. Vinte e oito destas organizações compõem agora a organização Turtle Village Trust.

Esta abordagem diferenciada, liderada pela comunidade, particularmente em Matura e em Grande Riviere, tornou-se num modelo para iniciativas semelhantes de conservação por todas as Caraíbas – e estas organizações têm recebido prémios locais e internacionais pelo seu trabalho.

Apesar de uma descida de 99% nas populações de tartarugas-de-couro na vizinha Guiana Francesa, e 90% no Pacífico Oriental, Trinidad e Tobago testemunhou uma recuperação significativa nas populações locais de tartarugas na década de 1990, mas os seus números têm vindo gradualmente a baixar desde então. Os esforços de conservação foram reforçados pelo país, que em 2011 proibiu a caça de tartarugas e em 2014 declarou as tartarugas marinhas espécies ambientalmente sensíveis.

Esforços comunitários

Ainda há muito trabalho para fazer. Só uma fração das praias de nidificação é que é ativamente monitorizada, deixando uma lacuna nos dados não só para as tartarugas-de-couro, mas também para as tartarugas-de-pente e tartarugas-verdes mais pequenas, que são o alvo principal da caça furtiva devido à sua carne e carapaças.

(Quase 5 mil tartarugas marinhas resgatadas nas águas geladas de ilha no Texas.)

Os problemas crónicos ao nível do financiamento, a falta de equipamentos e a escassez de trabalhadores significam que, sobretudo nas praias de nidificação mais movimentadas, algumas tartarugas regressam ao oceano sem serem identificadas ou registadas. Ao largo da costa, o alcance da monitorização é ainda menor. Todos os dados são fundamentais para ajudar os investigadores e as autoridades a compreender as rotas de migração das tartarugas – saber quando, onde e com que frequência nidificam; quão bem nidificam; e as principais tendências populacionais. Isto também ajuda a moldar a legislação ao nível local, regional e internacional.

“O processo de nidificação é apenas uma parte do ciclo de vida”, explica Tomas Diagne, biólogo senegalês e explorador da National Geographic que trabalha na conservação de tartarugas por toda a África. As tartarugas marinhas precisam de viajar e chegar ao local de nidificação, e é isto que direciona o trabalho que este biólogo faz na tentativa de limitar as capturas acidentais no mar – o problema global mais premente para as tartarugas marinhas, juntamente com outros fatores de declínio populacional: poluição por plástico; desenvolvimento junto à costa; e os efeitos da crise climática (desde a perda de habitat à alteração das proporções naturais de género induzidas pelo calor).

Esquerda: Superior:

Uma menina passeia pela baía Store em Tobago. A poucas milhas da costa, no maior recife de coral da ilha, o Recife Buccoo, os visitantes podem observar tartarugas marinhas, tubarões-de-recife, tubarões-martelo, garoupas, raias e mantas.

Fotografia por Michael Melford, Nat Geo Image Collection
Direita: Inferior:

Assim que as crias – como esta tartaruga-de-couro em Matura, Trinidad –  chegam à água, começam num “frenesim de natação” para se afastarem da costa, onde os perigos da predação são muito elevados.

Fotografia por Brian Skerry, Nat Geo Image Collection

Uma das maneiras mais fáceis de ajudar é através de uma aplicação chamada TURT, um projeto da SOS Tobago e da SpeSeas, onde os utilizadores podem relatar avistamentos de tartarugas marinhas em terra ou no mar. Michelle Cazabon-Mannette, uma das diretoras da SpeSeas (juntamente com a Exploradora da National Geographic Diva Amon, de Trinidad), diz que os mergulhadores são um dos principais grupos visados pela aplicação, porque ajudam na monitorização ao largo da costa.

(Nova aplicação pode ajudar a salvar tartarugas-marinhas em perigo crítico de extinção.)

A maioria dos dados vindos das ilhas é recolhida durante a época de nidificação e inserida nas bases de dados organizacionais e nacionais. Mas grande parte é financiada pelos passeios de observação de tartarugas, que são uma forma acessível de observar as tartarugas de perto.

Os voluntários locais e internacionais, por sua vez, são a espinha dorsal do trabalho de monitorização. A organização Nature Seekers é a que recebe o maior número de voluntários vindos do estrangeiro. Embora esta e outras organizações recebam apoio operacional para coisas como o registo de dados e marketing, a maior necessidade está no campo – mas o trabalho pode ser exaustivo.

“Saímos durante a noite, caminhamos longas distâncias, estamos expostos aos elementos, aos mosquitos e à chuva”, diz Giancarlo Lalsingh. “É um trabalho muito duro, fisicamente é muito desgastante.”

Algumas tartarugas aparecem feridas ou com alguma deficiência – com cordas ou equipamentos de pesca enrolados à sua volta, sem barbatanas ou com barbatanas lesionadas, ou com outras lesões devido às suas vidas no mar (uma tartaruga apareceu empalada pelo bico de um peixe-agulha). Os voluntários precisam de trabalhar rapidamente para prestar alguns dos primeiros socorros de emergência, quer seja para desembaraçar ou desenlear as tartarugas das redes, limpar feridas ou ajudar a cavar ninhos.

Os voluntários esperam que a mãe entre no estado crítico de “transe”, quando fica consumida pelo processo de postura de ovos e está pouco consciente e reativa à atividade circundante. Depois, os voluntários começam a trabalhar – medem as tartarugas que regressam e identificam as suas etiquetas (por vezes substituem ou atualizam-nas) ou identificam as novas tartarugas. O contacto em qualquer outro momento pode comprometer todo o processo de nidificação.

Os ninhos continuam a ser monitorizados durante a época inteira, e os voluntários trabalham para garantir que o maior número possível de crias chega ao mar em segurança. Quando há crias que não conseguem sair do ninho por conta própria, os voluntários ajudam a escavar o ninho, e dão às tartarugas alguns cuidados extra, libertando-as depois no mar. Contudo, como algumas tartarugas escolhem locais inóspitos para nidificar – e a erosão na praia é uma grande ameaça – os voluntários podem mudar cuidadosamente o ninho, por vezes para uma incubadora artificial.

“Passados 32 anos, continuo maravilhada com estas criaturas gentis e magníficas”, diz Suzan Lakhan-Baptiste, diretora da organização Nature Seekers. “Eu gostava que o mundo sentisse isto – para envolver aqueles que querem realmente fazer a diferença.”

COMO PODE AJUDAR

Para quem tem pouco tempo: A maneira mais fácil de ajudar os esforços de conservação de tartarugas é através de um passeio de observação de tartarugas, que ajuda a financiar os esforços de monitorização e patrulha. A organização Nature Seekers e a Associação de Guias de Turismo da Grande Riviere organizam passeios nas praias de maior nidificação. A Associação Eco-Friendly Las Cuevas, em parceria com a SOS Tobago, realiza visitas pelas comunidades locais. Também pode fazer doações para apoiar este trabalho.


Para passar vários dias: Nas viagens mais curtas, os voluntários podem ajudar no trabalho de campo, como manter as áreas de nidificação livres de detritos, registar e marcar as tartarugas que nidificam e ajudar na recolha de dados (verificar o tamanho, o número e a localização das tartarugas e dos ninhos). Os voluntários internacionais podem inscrever-se em organizações como a Oceanic Society e a Canadian Sea Turtle Network.


Para passar várias semanas: As organizações locais recomendam uma estadia de pelo menos duas a quatro semanas para obter a melhor formação e ter um impacto mais significativo. Alguns voluntários permanecem no local durante vários meses e regressam ano após ano. Os mais aptos e experientes podem realizar atividades ainda mais práticas, como ajudar a cuidar de tartarugas feridas (mães ou crias) e na escavação ou realocação de ninhos.
 

Caroline Taylor é uma escritora sediada em Trinidad e Tobago. Pode encontrá-la no Twitter.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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