Destinos que estão a ajudar os visitantes LGBTQ+ a viajar com orgulho

Os destinos que acolhem as comunidades LGBTQ+ são recompensados com mais visitantes. Este sucesso mostra como o turismo pode ser mais inclusivo.

Por Connor McGovern
Publicado 7/06/2022, 12:09
São Francisco

No distrito de Castro, em São Francisco, nos EUA, as passadeiras estão pintadas com as cores do arco-íris da bandeira do orgulho. Destinos como São Francisco estão a enveredar esforços para que os viajantes LGBTQ+ se sintam em casa.

Fotografia por Jason Doiy, Getty Images

Já passa da meia-noite, e a Praça de Chueca em Madrid faz jus ao título de coração vibrante e efervescente do bairro gay da capital espanhola. O ar quente estremece ao som de vozes, não só em espanhol, mas também em línguas de todo o mundo.

As leis progressistas e as atitudes amplamente liberais em Espanha tornaram este país num paraíso para os viajantes LGBTQ+, que há muito se aglomeram nas cidades, costas e ilhas espanholas.

Talvez exista uma ligação nativa entre a comunidade LGBTQ+ e o mundo das viagens, diz John Tanzella, presidente da International LGBTQ+ Travel Association (IGLTA).

“A própria natureza de se ser LGBTQ+ significa que há uma mente aberta e um desejo de ver o mundo. Esta é uma comunidade leal que adora viajar várias vezes por ano e gasta muito dinheiro em todo o lado. De repente, fica bem evidente porque é que as empresas nos querem alcançar.”

Barcelona, em Espanha, tem uma vida gay muito animada, principalmente nos bairros de Eixample e Gràcia. Um dos locais populares para observar o pôr do sol é em Bunkers del Carmel (na imagem), no distrito de El Carmel.

Fotografia por Westend61, Veam, Getty Images

As recompensas financeiras podem ser muito tentadoras: uma investigação da LGBT Capital, uma empresa de consultoria corporativa e gestão de ativos, estima que o setor tenha um poder global de compra a rondar os 3.9 mil milhões de dólares. Existe até um nome para isto – “dinheiro rosa”. Mas as experiências oferecidas em troca nem sempre estão à altura do investimento.

“Muitas vezes, os viajantes pagam centenas de dólares por noite, mas acabam por ter uma má experiência”, explica Simon Mayle, diretor do departamento de eventos da Proud Experiences, uma convenção para empresas de viagens LGBTQ+. “A fasquia está muitas vezes demasiado baixa.” Simon Mayle cita exemplos como conversas estranhas sobre os chinelos ‘dele e dela’ nas casas de banho, ou sobre as camas à chegada. Alguns casais, acrescenta Simon, chegam a ser completamente rejeitados.

Contudo, há pessoas que não percebem sequer qual é a necessidade do setor da hospitalidade em adaptar os seus serviços para casais heterossexuais – de acordo com os estudos feitos recentemente, a maioria dos viajantes procura o mesmo tipo de experiências: explorar, relaxar, visitar belas paisagens e locais históricos.

(Novas ferramentas digitais estão a ajudar os viajantes a evitar discriminação.)

Apesar de todos os pontos em comum, a experiência de viagem em si pode ser muito diferente para a comunidade LGBTQ+ –  perceber quando e onde demonstrar afeto, conhecer as leis sobre atividades do mesmo sexo e questões de género relacionadas com os passaportes, para citar apenas alguns exemplos.

Em 2010, a Preferred Hotels & Resorts criou o programa Preferred Pride – uma coleção de hotéis que coloca a experiência dos viajantes LGBTQ+ em primeiro lugar. Para Rick Stiffler, vice-presidente do departamento de vendas e lazer desta cadeia de hotéis, esta atitude foi em parte motivada pelo desejo de ver mais iniciativas semelhantes no mundo hoteleiro. Rick Stiffler acreditava na altura que havia poucas marcas a fazer esforços reais em relação à inclusão.

“Queríamos que os nossos hotéis se envolvessem realmente com a comunidade, tanto ao nível local, como internacionalmente. Se as pessoas querem estar realmente neste ramo, precisam de o mostrar… se um hotel inclui pessoas LGBTQ+, então inclui todas as pessoas, e isso é importante.”

Portanto, como é que os destinos globais representam todo o espectro desta comunidade? E o que é preciso fazer por parte das empresas que querem capitalizar na aceitação e igualdade? Eis o estado atual das coisas.

Observar o espectro

Nas últimas décadas, uma compreensão mais aprofundada e serviços mais inclusivos ajudaram a dar mais confiança à comunidade LGBTQ+ quando se trata de viajar, mas nem tudo acompanhou os tempos.

Uma pesquisa rápida de imagens no Google com as palavras “gay travel” revela que não faltam inúmeros casais predominantemente masculinos que adoram praia. Para uma comunidade definida pela sua diversidade, a realidade online continua a parecer unidimensional.

Multidões enchem a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, Brasil, um destino muito popular para os viajantes LGBTQ+.

Ainda assim, alguns países estão a prestar atenção. Em 2013, a Tailândia lançou a campanha “Go Thai. Be Free”, com uma lista abrangente de experiências, hotéis e guias de destinos voltados para os viajantes LGBTQ+ – para pessoas de todas as cores e orientações sexuais. Enquanto isso, Malta posicionou-se como um dos destinos europeus mais acolhedores através de campanhas de marketing mais inclusivas, em sintonia com as leis atualizadas de igualdade do país.

Rick Stiffler acredita que tem havido uma mudança genuína no setor de viagens, refletindo um público mais eclético do que nunca, incluindo famílias com pais do mesmo sexo e viajantes transexuais e não binários. “A publicidade deve apresentar pessoas parecidas com pessoas reais da comunidade, e não dois modelos a posar numa praia”, explica Rick.

Jill Cruse é vice-presidente do departamento de experiências de hóspedes na Olivia Travel, uma operadora sediada em São Francisco com clientela maioritariamente lésbica. Jill Cruse está entusiasmada com as ligações que surgem nas viagens de grupo da empresa, ligações que, segundo Jill, ganham ainda mais valor depois de dois anos de isolamento social. Jill Cruse acredita que os viajantes LGBTQ+ estão a perceber os benefícios de estar novamente entre pessoas que pensam da mesma forma. “Significa que somos livres para sermos nós próprios e, na verdade, não há nada como sentirmo-nos aceites.”

O tipo de viagens que esta comunidade procura também está a mudar. De acordo com Burn, os destinos LGBT mais bem estabelecidos, como a Tailândia, Gran Canaria e Ibiza, continuam a ser populares, mas também há viajantes a demonstrar confiança em fazer viagens mais aventureiras. “Também estamos a ver cada vez mais viajantes individuais no mercado; homens homossexuais solteiros que desejam juntar-se a um grupo para fazer caminhadas épicas em Machu Picchu, por exemplo”, diz Burn.

Por mais atraentes que estes destinos possam ser, muitos continuam a ser hostis, e até mesmo perigosos para os viajantes LGBTQ+. O rastreador de igualdade Equaldex lista mais de 70 países com leis homofóbicas, muitos deles até impõem a pena capital para atividades sexuais entre pessoas do mesmo sexo. “Contudo, ter a mente aberta pode ser uma coisa benéfica”, diz Burn. “Vale a pena lembrar que estes países também têm cidadãos homossexuais. O turismo pode mostrar às pessoas que, afinal de contas, não somos assim tão diferentes.”

Acolher de mente aberta os viajantes mais diversificados tem recompensado alguns destinos. Telavive e o Rio de Janeiro, diz Simon Mayle, perceberam que uma abordagem inclusiva, para além da recompensa financeira, também tem benefícios humanos. “Por natureza, as pessoas LGBTQ+ são acolhedoras e têm uma mente aberta. Para além disso, muitos de nós temos uma grande rede contactos com ideias semelhantes.”

Percorrer o caminho

Como é óbvio, qualquer mudança legislativa começa no topo hierárquico, mas alguns governos representam um desafio para o setor. Nestes casos, as empresas que procuram comunicar diretamente com os viajantes homossexuais ou transexuais raramente o podem fazer abertamente.

As ilhas Seychelles, na imagem, estão entre os poucos países africanos que oferecem proteção para as pessoas LGBTQ+.

Burn argumenta que estes destinos – que geralmente aceitam reservas de viajantes LGBTQ + – precisam de transformar as palavras em ações. “Muitos deles dependem do dinheiro destes viajantes, mas será que estão a fazer esforços para mudar as leis? Não é justo ter uma regra para os cidadãos e outra para os visitantes.”

Apesar de tudo isto, tem havido algum progresso em países que, até recentemente, estavam muito atrasados no que diz respeito a igualdade.

Em 2019, o Supremo Tribunal do Botswana decidiu a favor da descriminalização da homossexualidade, e movimentos semelhantes têm feito progresso nas Seychelles, Moçambique e Trinidad e Tobago.

A mudança demora tempo, diz Jill Cruse, alegando que alguns destinos, como as Bahamas, hesitavam em receber um cruzeiro de lésbicas no início dos anos 1990. “Quando nós [a empresa] chegámos ao mercado, as pessoas tiveram a oportunidade de nos conhecer e perceberam que não éramos assim tão diferentes, e as coisas começaram a mudar.”

Simon Mayle acredita que ainda não é demasiado tarde para as empresas que desejam fazer uma mudança positiva, mas é fundamental fazê-lo com propósito e autenticidade. John Tanzella concorda, acrescentando que as palavras ocas já não são suficientes para convencer os viajantes de que a indústria se importa com eles. “Se afirmam que apreciam a diversidade, mas no conselho de administração parecem todos iguais, então não estão a percorrer o caminho. É preciso levar realmente a sério o que se diz.”

Rick Stiffler diz que os viajantes de hoje são experientes e que um autocolante com um arco-íris na janela não é propiamente uma coisa má, mas é preciso ir muito mais longe. “A diversidade é algo que também precisa de ser refletido nos bastidores, para que os consumidores percebam que se trata de algo genuíno.”

A autenticidade tem funcionado, pelo menos para Madrid. Como é óbvio, na capital espanhola não faltam bandeiras e autocolantes com arco-íris, mas o progresso é o mais importante – esta é a capital de um país onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em 2005 – o terceiro país do mundo a fazê-lo a seguir à Bélgica e aos Países Baixos. Talvez isto seja a prova de que, se mostrarmos ao mundo que temos a mente aberta, as pessoas virão.

 

As outras nações podem querer tomar nota: afinal de contas, onde os viajantes LGBTQ+ vão, outros seguirão. “Isto aconteceu com Ibiza, e agora estamos a ver o mesmo com Mykonos – de repente está toda a gente a ir para lá”, diz Burn. “É quase uma questão de saber para onde é que os gays irão a seguir.”

CINCO CIDADES A CONSIDERAR

Brighton, Reino Unido


Devido à pandemia, já passaram quase três anos desde que a cidade recebeu pela última vez um evento do Orgulho, mas este verão regressa a maior (e sem dúvida melhor) celebração do país. De 5 a 7 de agosto, um fim de semana cheio de espetáculos, desfiles, festas de rua, cabaré e até um espetáculo de cães vão fazer parte das comemorações atrasadas dos 30 anos do evento.

Belgrado, Sérvia

Embora as mentalidades na Sérvia permaneçam divididas, as leis deste país têm melhorado consideravelmente na última década. A primeira-ministra, Ana Brnabić, que é abertamente gay, assumiu o cargo em 2016 e, este ano, de 12 a 18 de setembro, a cidade vai receber o Europride, o maior festival do orgulho do continente europeu. Os eventos realizados anteriormente na cidade foram recebidos com muita hostilidade, portanto, este é um momento decisivo para a comunidade LGBTQ+ do país.

Toronto, Canadá

Em dezembro, o Canadá seguiu o exemplo de países como o Brasil, a Alemanha e Malta e proibiu a controversa prática da terapia de conversão – outro sinal da postura progressista deste país em relação à igualdade. A cidade multicultural de Toronto é o núcleo da cena LGBTQ+ do país – pronta para ganhar vida durante um mês de celebrações ecléticas do Orgulho em junho.

Valletta, Malta

Malta liderou o Índice ILGA-Europe Rainbow pelo sexto ano consecutivo em 2021. Esta métrica analisa as políticas de igualdade em 49 países europeus e descobriu que Malta, um país de mente aberta, está muito à frente de muitos dos seus países vizinhos, com alterações recentes, incluindo uma política atualizada para os pedidos de asilo para refugiados LGBTQ+.

Sydney, Austrália

Esta cidade cosmopolita australiana usa o véu de anfitriã do Orgulho Mundial em fevereiro de 2023. Esta vai ser a primeira vez em que este evento é realizado no Hemisfério Sul, incluindo um programa comemorativo de 17 dias com desfiles do Orgulho, festas na praia, conferências e um concerto de gala das Primeiras Nações. As celebrações decorrem entre 17 de fevereiro e 5 de março de 2023.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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