Explore 13 mil anos de história da humanidade nesta ilha remota da Califórnia

O Parque Nacional das Ilhas do Canal inclui a ilha de Santa Rosa, uma espécie de museu de história natural com quilómetros de trilhos praticamente desertos e vistas deslumbrantes do oceano a partir de penhascos.

Por Miles Griffis
Publicado 8/06/2022, 11:59
ilha de Santa Rosa

Praias de areia branca recebem os viajantes que fazem a viagem de barco de três horas até à ilha de Santa Rosa, uma das cinco ilhas que compõem o Parque Nacional das Ilhas do Canal, na Califórnia.

Fotografia por Alex Krowiak

Rodeada por águas cristalinas, a ilha de Santa Rosa apresenta uma paisagem retorcida com desfiladeiros, montanhas e falésias. Mas nem tudo é o que parece. Há mistérios arqueológicos escondidos nesta ilha árida, a segunda maior ilha do Parque Nacional das Ilhas do Canal, na Califórnia.

Em 1959, enquanto realizava escavações no desfiladeiro Arlington da ilha, o arqueólogo Phillip Orr descobriu dois fémures humanos que ele suspeitava datarem de finais do Pleistoceno, e levou-os para o continente. Mas não foi um caso isolado. Phillip Orr fez trabalho de campo em Santa Rosa, uma ilha varrida pelo vento, durante mais de duas décadas. Ao longo das suas várias expedições, Phillip escavou aldeias Chumash inteiras, inúmeras sepulturas, ‘monturos’ (ou pilhas de detritos arqueológicos), bem como ossos enormes de mamutes pigmeus, que vaguearam por esta ilha há mais de 10 mil anos.

Contudo, quase 40 anos depois da descoberta feita em 1959, John R. Johnson, sucessor de Phillip Orr no Museu de História Natural de Santa Bárbara, determinou que os fémures tinham mais de 13 mil anos, tornando-os nos restos mortais humanos mais antigos de que há conhecimento na América do Norte.

Entre as ilhas do Parque Nacional das Ilhas do Canal, a ilha de Anacapa é a que fica mais perto do continente, a apenas uma hora de barco. Aqui, uma caminhada desafiadora de 2.4 km até ao chamado Ponto de Inspiração recompensa os viajantes com vistas espetaculares de 360 graus.

Fotografia por Alex Krowiak

O Homem de Arlington Springs, o nome dado aos ossos, suporta a teoria de uma migração costeira dos primeiros povos do Nordeste Asiático para as Américas. “Agora temos uma apreciação mais aprofundada sobre a diversidade dos estilos de vida de há 13 mil anos – não eram todos caçadores da cultura Clóvis”, acrescenta John Johnson, referindo-se às primeiras pessoas que migraram pela Ponte Terrestre de Bering e caçavam mamutes.

Os parentes modernos dos Chumash não eram apenas fabricantes de barcos habilidosos, eram tecelões de cestas e pescadores experientes que construíram vilarejos prósperos por toda a região, liderados por homens ou mulheres numa sociedade matrilinear. Atualmente, podemos ver a sua astronomia, a sua narração de histórias e a sua ligação com o ambiente em pictogramas em lugares como o Parque Histórico da Caverna Chumash de Arte Rupestre, perto de Santa Bárbara.

Uma viagem à ilha de Santa Rosa – onde a flora e fauna únicas estão alinhadas por trilhos – oferece uma compreensão real não apenas sobre a profunda história e cultura Chumash da região, como também da história norte-americana. Eis as razões pelas quais deve visitar este local.

Cultura Chumash da Califórnia

Em 1769, antes da chegada da expedição de Gaspar de Portola, a população Chumash na Califórnia estava estimada em cerca de 22.000 individuos. O seu território estendia-se ao longo de 11.000 km, desde Malibu até Paso Robles, e incluía quatro das cinco Ilhas do Canal: Tuqan (ilha de San Miguel), Wi'ma (ilha de Santa Rosa), Limuw (Santa Cruz) e Anyapakh (ilha de Anacapa). Em 1810, os Chumash que não morreram devido às epidemias introduzidas pelos europeus, como o sarampo, foram removidos à força das ilhas e colocados em missões espanholas.

Atualmente, existem 14 grupos de índios Chumash reconhecidos federalmente, incluindo o grupo Santa Ynez. Muitos outros grupos continuam a tentar obter reconhecimento federal. “Somos um grupo diversificado de pessoas com sete idiomas separados”, diz Julie Tumamait-Stenslie, ex-líder tribal do Grupo Indígena Barbeño/Ventureño, cuja árvore genealógica se ramifica pelas ilhas de Santa Cruz, Santa Rosa, Malibu e Carpinteria. Julie diz que visitar as ilhas é como regressar a casa.

Durante o verão, no Parque Nacional das Ilhas do Canal, Julie Tumamait-Stenslie educa os campistas sobre a cultura Chumash à volta da fogueira (entre em contacto com o centro de visitantes para obter a programação). “Temos a história da Ponte Arco-íris, na qual fomos criados na ilha de Santa Cruz e atravessámos para o continente.” Estes contos giram em torno da deusa da Terra, Hutash, que criou as pessoas a partir das sementes da Planta Mágica, e do seu marido, Alchupo'osh, a Serpente do Céu, também conhecida por Via Láctea.

Julie Tumamait-Stenslie diz que devemos encarar a ilha como um museu de história natural, para compreendermos a relação dos Chumash (e dos seus antepassados) com a paisagem. Quando Julie visita as ilhas, acaba muitas vezes por pensar no engenho dos seus antepassados, na forma como usavam as ervas marinhas, os salgueiros e partes de animais para construir cabanas com cúpulas para se protegerem dos elementos. “[Imagine] sair pela porta de casa, que por acaso era a mandíbula de uma enorme baleia”, diz Julie.

O Museu Indígena Chumash, em Thousands Oaks, na Califórnia, (a 30 minutos de carro de Ventura Harbour), oferece mais informações sobre a história Chumash da região, com réplicas de aldeias tradicionais e um jardim etnobotânico.

“É muito importante recordar às pessoas de que o povo Chumash ainda continua presente”, diz Bárbara Tejada, presidente e diretora interina do departamento de programas do museu. Um evento realizado recentemente concentrou-se na Travessia Anual do Canal de Santa Bárbara, desde o continente até Scorpion Beach, na ilha de Santa Cruz, a bordo de tomols, as enormes canoas tradicionais construídas em madeira e seladas com alcatrão.

“Há réplicas de canoas construídas pela comunidade moderna de Chumash. Esta comunidade pratica remo no litoral de Santa Bárbara durante o verão e a travessia anual em setembro”, acrescenta Bárbara Tejada. “Isto mostra a ligação importante deste meio de transporte entre o continente e as ilhas, e ajuda realmente a preservar o remo nas culturas nativas marítimas da atualidade.”

Como explorar a ilha de Santa Rosa

Localizada a 41 km do continente, o trajeto até à ilha de Santa Rosa é metade da aventura. A maioria dos visitantes faz um passeio de barco de três horas, partindo de Ventura Harbour, a bordo da Island Packers Cruises, a concessionária oficial de barcos do parque nacional. As reservas (algumas das quais são sazonais) podem esgotar rapidamente, particularmente para as viagens noturnas, portanto, planeie a sua visita com antecedência. Os velejadores podem visitar a ilha em embarcações particulares, mas devem verificar as áreas aprovadas e ter uma licença de navegação do Serviço Nacional de Parques dos EUA.

Caminhantes contemplam a Baía de Becher, o ponto principal de entrada para a ilha de Santa Rosa.

Fotografia por Alex Krowiak

“A viagem em si é fabulosa”, diz Julie Tumamait-Stenslie, referindo-se à travessia do Canal de Santa Bárbara. “Pode encontrar baleias, leões marinhos e golfinhos.” Os observadores de aves vão encontrar uma vida aviária muito abundante, incluindo pelicanos-pardos da Califórnia, aves Ptychoramphus aleuticus, cormorões-de-Brandt e tordas-de-Scripps.

Na ilha, os trilhos serpenteiam por entre uma floresta rara de pinheiros Torrey (uma de duas restantes no mundo) e campos de folhas ameaçados de extinção. Procure a raposa-das-ilhas de Santa Rosa, doninhas malhadas, pinípedes e outras colónias de aves, como tarambolas-brancas.

Apesar de poder visitar a ilha de Santa Rosa num dia, Julie Tumamait-Stenslie diz que devemos pelo menos passar uma noite para sentir a ilha da mesma forma que os Chumash e os seus antepassados o fizeram – no silêncio quase total e com vistas deslumbrantes da Via Láctea e do céu noturno. O único parque de campismo da ilha, com espaço para 15 locais de acampamento, é acessível através de uma caminhada de 2.5 km a partir do cais. As reservas desaparecem rapidamente, ou seja, reserve com alguns meses de antecedência no site de reservas do parque. Os caminhantes e praticantes de caiaque mais experientes podem acampar na praia de agosto até dezembro, mas devem verificar as condições meteorológicas antes de partir.

“As pessoas estão sempre a perguntar-me como é viver na minha terra natal”, diz Julie Tumamait-Stenslie. “Eu digo-lhes para irem para casa. Mas não me estou a referir a um lugar em especifico, como Chicago, mas sim algures do outro lado do oceano, e caminhar por aquelas terras. Porque existe uma memória genética que de repente faz com que comecemos a pensar nos nossos antepassados. Começamos a pensar no nosso nome e de onde vem.”

Esquerda: Superior:

Julie Tumamait-Stenslie, ex-líder tribal do grupo Barbeño/Ventureño, diz que visitar as Ilhas do Canal é como regressar a casa. Julie costuma contar histórias tradicionais sobre a criação dos Chumash aos campistas na ilha de Santa Rosa.

Direita: Inferior:

Julie Tumamait-Stenslie fez este colar com fragmentos de conchas de abalone e de outros animais. Cada elemento simboliza o conhecimento ecológico dos Chumash.

fotografias de Alex Krowiak

Miles W. Griffis é um jornalista e escritor independente sediado em Los Angeles, na Califórnia. Miles escreve para a High Country News, New York Times, Vogue e muitas outras publicações. Pode encontrá-lo no Instagram e no Twitter.

Alex Krowiak é um fotógrafo sediado em San Diego e instrutor na Expedições Lindblad & National Geographic. Pode encontrá-lo no no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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