No sul da Califórnia, a cultura do surf está a ficar mais inclusiva

Várias organizações estão a trabalhar para atrair raparigas, mulheres e surfistas de cor para as ondas destas famosas praias.

Por Shauna Farnell
Publicado 15/06/2022, 15:02
MALIBU, CA

Jordyn Romero rema na sua prancha em First Point, a secção de oceano mais próxima do cais onde as ondas são mais consistentes, em Malibu, na Califórnia. O surf tem vindo a aumentar de popularidade desde o início da pandemia, com cada vez mais jovens a pegarem em pranchas.

Fotografia por Gabriella Angotti-Jones

A prática de surf, tal como muitas outras atividades ao ar livre, tem vindo a aumentar durante a pandemia, à medida que mais pessoas pegam em longboards e começam a ter aulas de formação. Muitos destes novos surfistas são crianças ou adolescentes, como Caitlin Simmers, de 16 anos, que vive em Oceanside, na Califórnia, e tem vindo a subir rapidamente no ranking das competições deste desporto.

“Durante a pandemia, [surfar] era uma das únicas coisas que podíamos fazer, ou seja, agora há mais pessoas na água”, diz a mãe de Caitlin, Ali Simmers.

Com praias de areia branca, parques à beira-mar e piscinas naturais para as crianças mais pequenas explorarem – sem esquecer o facto de no inverno haver menos pessoas e as ondas continuarem consistentes – o sul da Califórnia é um lugar ideal para as famílias aprenderem a surfar durante o ano inteiro. E a presença de um número crescente de jovens surfistas a dominar as ondas também serve de inspiração.

Nos penhascos, as casas à beira têm vista para a Strand Beach de Dana Point, em Orange County, na Califórnia. As praias neste local são conhecidas pela sua rebentação suave, tornando as suas ondas ideais para os surfistas mais novos.

Fotografia por Jon Bilous, Alamy Stock Photo

“Quando vemos alguém parecido connosco, quer seja do mesmo sexo, idade, com a mesma cor de pele – alguém que espelhe quem somos ou quem queremos ser – isso inspira-nos a seguir os passos dessa pessoa”, diz Rocky McKinnon, instrutor de surf da McKinnon Surf and SUP Lessons em Huntington Beach, uma escola com programas de surf adaptáveis para todas as idades e níveis de aptidão.

“O que está a acontecer é que a nova geração… está a levar este desporto até outro nível”, diz Rocky McKinnon. “Talvez tenha começado com este pequeno enclave de mulheres que fazem as coisas acontecer, e as raparigas veem isso. E em vez de ficarem na praia, cada vez há mais e mais pessoas a dizer que também querem apanhar ondas.”

Há sete anos, quando Vanessa Yeager, uma habitante local, criou o grupo Surf Mamas no Facebook, era apenas um encontro local para algumas jovens mães que queriam alternar entre surfar ondas e cuidar dos bebés na praia. O grupo, agora rebatizado Women Who Surf, já conta com mais de 21 mil membros de todo o mundo.

“O surf continua a ser dominado pelos homens, mas vejo mais raparigas por aqui, principalmente aos fins de semana, e adoro. Sorrimos umas para as outras e sentimos a camaradagem”, diz Vanessa Yeager.

Fotografia por Jon Bilous, Alamy Stock Photo

Aumentar o apelo do surf

Por todo o litoral da Califórnia, várias organizações têm trabalhado para diversificar mais este desporto e para o tornar mais convidativo para os recém-chegados, sobretudo para as crianças. A Surf Bus Foundation, uma organização sem fins lucrativos sediada em Los Angeles, tem vindo a introduzir os jovens do centro da cidade ao surf todos os verões desde 2003. As famílias que visitam o local tornam-se nos clientes mais regulares das aulas de surf da Whitlock Surf Experience e da North County Surf Academy, em Oceanside, que são especializadas em aulas de 90 minutos para toda a família.

Quando Nicole Peterson e a sua família começaram a visitar Encinitas, na Califórnia, vindos de Park City, em Utah, Nicole e o marido colocaram os filhos em campos de surf da escola Eli Howard, que dá aulas de surf durante o ano inteiro, sete dias por semana.

Sierra Brown ouve os oradores durante o Black Sand Peace Paddle em Manhattan Beach, na Califórnia, no dia 21 de fevereiro de 2021. Este evento foi organizado depois de um surfista local ter sofrido um incidente racista. Muitas organizações de surf estão a trabalhar para tornar este desporto mais inclusivo.

Esquerda: Superior:

Shelby Tucker espera por um set de ondas no chamado “Inkwell” em Santa Mónica, na Califórnia, no dia 10 de fevereiro de 2019. Desde o início do século XX até à década de 1960, esta praia no bairro de Ocean Park era uma das poucas na área onde os banhistas negros se sentiam protegidos do assédio racial.

Direita: Inferior:

Olga Diaz, membro da organização Black Girls Surf, salta uma onda durante uma sessão de treino em “Inkwell”, no dia 10 de fevereiro de 2019. No final da Bay Street, uma placa regista a história racial da praia e revela que um estudante negro do ensino secundário, chamado Nick Gabaldon, foi o primeiro surfista negro documentado neste local. Nick Gabaldon aprendeu a surfar sozinho na década de 1940.

“Quando começámos a visitar o local, nenhum de nós sabia surfar”, diz Nicole Peterson. “Há muitas coisas para aprender e oportunidades para acampar no verão em todas as praias. As nossas filhas andaram lá cinco ou seis anos. Nós deixávamo-las às 9 [da manhã], e íamos buscá-las ao meio-dia. Foi ótimo para todos.”

Hoje em dia, a família Peterson vai à praia junta, incluindo as filhas, que agora têm 14 e 16  anos, mesmo que não surfem as mesmas ondas.

“A nossa mais nova prefere brincar com a prancha de bodyboard”, diz Nicole Peterson. “Não importa o tamanho das ondas, ela mete as barbatanas e rema com todos os surfistas, ou leva o tubo e a máscara de mergulho e vai procurar peixes. Podemos estacionar o veículo e esquecê-lo, podemos surfar, andar de bicicleta, procurar conchas nas poças durante a maré baixa, passear e ver as lojas, podemos fazer o que nos apetecer.”

Em Newport Beach, a Escola de Surf Endless Sun, uma empresa gerida por mulheres, organiza acampamentos de surf só para mulheres, incluindo aulas particulares individuais e familiares e programas de surf para as crianças em horário pós-escolar. Foi neste local que a proprietária da escola, Amy Reda, aprendeu a surfar aos 8 anos de idade. Amy Reda destacou-se neste desporto e habituou-se a ser uma das poucas mulheres a apanhar ondas todas as manhãs.

“É óbvio que, quando eu era criança e durante a adolescência, eu ia surfar e olhava à minha volta e era quase sempre a única rapariga”, diz Amy Reda.

Contudo, parece que a maré está a mudar na costa oeste dos EUA, incluindo em Orange County, um condado cuja história tem raízes militares e onde os papéis de género foram sempre mais definidos do que em qualquer outro local na costa da Califórnia.

Marikah Burnett, Olga Diaz e Kimiko Russell-Halterman confraternizam depois de uma sessão de surf matinal na praia de San Onofre, no dia 6 de fevereiro de 2021.

Apesar de, durante a manhã cedo, ainda encontrarmos mais surfistas do sexo masculino, esta demografia parece estar a mudar.

“Nas nossas aulas extracurriculares, há duas turmas com muito mais raparigas do que rapazes”, diz Amy Reda. “Atualmente, as raparigas têm todos os incentivos e apoios para surfar. Creio que o facto de eu ser mulher, e de ser a dona da empresa, ajuda as pessoas a sentirem-se mais confortáveis. E querem que as suas filhas venham para aqui aprender.”

O mundo do surf

Mas não se trata apenas de haver mais raparigas a surfar na Califórnia, as suas aptidões também se destacam.

Em 2021, Caitlin Simmers, de 15 anos, tornou-se na segunda surfista mais nova a vencer o US Open de Surf em Huntington Beach. “Eu costumava ser... uma das raparigas que ficava a ver”, diz Caitlin Simmers. “É estranho ser a pessoa que agora dá os autógrafos.”

(Mulheres lideram no próximo grande destino de surf do mundo.)

Os fãs podem ter a oportunidade de conhecer Caitlin Simmers em eventos como a competição Super Girl Surf Pro, um festival anual para toda a família que foi lançado em Oceanside em 2007 e atrai centenas de surfistas vindos de todo o mundo.

“Não nos podemos esquecer de que cada cidade e cada praia tem a sua própria vibração”, diz Nicole Peterson. “Se a praia de Huntington não lhe agradar, pode conduzir mais cinco quilómetros e ao fundo da estrada tem outra praia, e essa pode ser realmente do seu agrado.”

Nicole Peterson usa a aplicação Surfline para verificar as condições em várias praias quando visita o local com a família. E quando as famílias não estão literalmente a molhar os pés, podem aproveitar para descobrir as raízes californianas do surf no Museu de Surf da Califórnia, que tem uma exposição especial sobre Caitlin Simmers e uma exposição de pranchas de surf que abrange várias décadas.

Em Dana Point pode encontrar uma atmosfera amigável e uma rebentação tranquila, incluindo uma praia dedicada para bebés, ou Baby Beach, bem como o Ocean Institute, que organiza caminhadas por piscinas naturais todos os fins de semana e oferece lições sobre oceanografia durante o ano inteiro.

Acima de tudo, o sul da Califórnia oferece uma introdução acolhedora ao mundo do surf.

“Quando viajo para apanhar ondas grandes noutros lugares, geralmente são locais que ficam em recifes, que é ainda mais assustador”, diz Caitlin Simmers. “Mas aqui sabemos que, se cairmos, vamos cair na areia.”

Shauna Farnell é uma escritora freelancer sediada no Colorado que alimenta a esperança de se tornar numa surfista melhor, mas geralmente costuma andar de prancha em águas congeladas. Pode encontrá-la no Instagram e no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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