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O globo do meu avô gira na ponta do meu indicador - parte II

A América do Sul e os sonhos de criança

Estradas que falam por si, deserto do Atacama

Por Pedro Guerra
Publicado 12/07/2022, 12:15

Globo no colo. A mão esquerda segura na base. A direita molda-se à forma esférica. Os dedos movem-se lateralmente. Ávidos. Sequiosos. O globo gira na ponta do indicador. Uma e outra vez. Há uma espécie de simbiose. Ele gira e eu viajo. Ele gira e o dia escurece. Literalmente. Estou nisto há horas. Imerso. Sem olhar para o relógio. O tempo passa a correr quando estamos a gostar. Gira o ponteiro. Gira o globo.

De onde vim e para onde vou? Questiono retoricamente. O indicador aponta o caminho. O globo mostra o destino. Abro e fecho os olhos para focar as letras pequenas. Deixo a América Central e irrompo pela América do Sul. Uso o verbo irromper propositadamente. Busco na semântica o ímpeto e o arrojo necessários. A América do Sul dá vida a muitos dos meus sonhos de criança. Quanto valem esses sonhos? Acumulo retóricas. Gosto de perguntas, nem sempre das respostas. Afasto ligeiramente a cabeça do globo. Privilegio uma visão mais ampla. Exploro-o com os olhos. Projeto. Idealizo. Os 8000 quilómetros da cordilheira dos Andes obrigam-me a trabalhos forçados e a percorrer de norte a sul toda a extensão continental. Prossigo. Busco Cusco no mapa como referência para o Machu Picchu. Oriento-me a sul à procura do deserto do Atacama. Qual o local mais seco do mundo?  Sinto a adrenalina no corpo. Afinal, o cérebro não distingue o real do imaginado. Os olhos esgueiram-se para o lado do pacífico. Insurgentes. Procuro um pequeno ponto isolado no mapa. Encontro-o. Cabeças gigantes esculpidas em rocha basáltica? Os olhos guiam-me os sonhos. Fará sentido parar por aqui? Deixo-me ir.  Olhos que rumam ao extremo sul. Será a patagónia o local mais bonito do globo? Muitas perguntas para poucas respostas. Escrevo-as. Tinta azul em papel branco. Gira a caneta. Gira o globo.

Banhos de sal, Laguna Cejar

Fotografia por Pedro Guerra

Organizo-me melhor do geral para o particular. Será o todo maior do que a soma das suas partes? Procuro respostas. Aterro em Lima, capital do Peru. Cheira a mar, ou não fosse Lima a única capital sul americana com vista oceânica. O sol brilha. Sento-me virado para o azul do pacífico. Na mesa servem-me ceviche. Provo vários pratos de porções pequenas. Degusto, ou não fosse Lima a capital gastronómica da América do Sul. Entre garfadas esboço o passo seguinte. Torno a ideia palpável. A próxima ação tangível. E num ápice aterro em Cusco. Coração do império inca, situada no sudeste do vale de Huatanay. Há uma aura de mistério, misticismo e espiritualidade. Há o Cristo negro, a virgem do leite, os “bricheros” e o dia das esposas. Há 3400 metros de altitude. Há folhas de coca na boca. Há uma noite para dormir. Pouco, acrescento. São 3 da manhã e o despertador já toca. Vejo a energia digladiar-se com o peso da altitude. Saio do banho rápido para entrar numa carrinha branca. Noite cerrada. Levo a cabeça encostada. Vejo o dia clarear. A luz refletida faz sobressair as manchas do vidro mal lavado. O sol nasce. Troco a carrinha pelo comboio. O teto é de vidro. Está frio, mas promete aquecer. Vou abrindo e fechando os olhos ao ritmo a que a luz se esgueira por entre vales e montanhas. Vamos junto ao rio, serpenteando encostas e colinas. O comboio para. Já aqueceu, mas promete não ficar por aqui. Tiro o casaco. Olho para cima. “Deve ser num destes topos”, murmuro, revigorado. Passo o controlo da entrada em passo acelerado. Há um verde imenso à minha volta. Vértices montanhosos a perder de vista. As nuvens agarram-se teimosamente aos cumes mais altos. Caminho apressado. O verde começa a mesclar-se com a cor granítica das pedras. O aglomerado ganha formas à medida que avanço. Procuro uma primeira visão mais ampla. Paro. Olho em volta. Várias vezes num movimento típico de uma câmara de vigilância. Contemplo a velha montanha, a cidade perdida dos incas. Junto-me disfarçadamente a alguns grupos turísticos. Ouço os guias. Qual é o segredo da longevidade da construção? O sistema de drenagem. Sem ele e num local de tanta precipitação, a obra já teria desmoronado. Aprendo. Sorrio de soslaio. Vejo o sol mudar de lugar. Novos tons. Novas nuances. Novas sombras. No Machu Picchu as fotos ficam melhor à tarde. Giram as sombras. Gira o globo.

Geysers el tatio, deserto do Atacama

Fotografia por Pedro Guerra

Atónito. Esfrego os olhos na esperança de reconquistar alguma clarividência. Recomponho-me na cadeira. Escureceu, entretanto. Aperto o botão que ilumina o globo desde o interior. Faz-se luz. Viajo pelo mundo através do globo do meu avô. Quem diria. Sem tempo a perder. Vivencio o desassossego da descoberta. A ânsia. A inquietude. Viajar é libertador. Paradoxalmente castrador. Sinto-me refém do próximo destino. Da próxima memória. Da próxima saudade. Estou refém de um globo.

Esquerda: Superior:

Pueblo de artesanos, deserto do Atacama

Direita: Fundo:

Machu Picchu, Peru

fotografias de Pedro Guerra

Aponto a sul. Oriento-me em função da cordilheira dos andes. Deixo o Peru. Entro no Chile pela fronteira norte. Conduzo um 4x4. Percorro quilómetros em linha reta. A envolvente é seca. Prevalecem os tons avermelhados. Áridos. Desérticos. A amplitude térmica é alta. Calor de dia. Frio de noite. Conduzo de sol a sol. Avisto as cidades fantasma que outrora abrigaram os trabalhadores das minas locais. Percorro estradas intermináveis sem vislumbrar viva alma. A paisagem não muda, ou não fosse o deserto do Atacama o mais seco do globo. É uma amostra de Marte no planeta terra. Não exagerei, a NASA já confirmou a semelhança. Voltando à terra, todo o deserto tem um oásis. Chego finalmente a San Pedro de Atacama. Vila da província de El Leoa, na região de Antofagasta. Estaciono. Saio do carro, entorpecido. Pouso a mochila e reparo nas bicicletas disponíveis no lodge. Contrario o cansaço. Pedalo para uma visita de reconhecimento. Observo. Há uma harmonia cromática. As estradas são de terra. As casas têm apenas um andar e são feitas de uma mistura de barro e palha. Há uma rua principal – Caracoles – repleta de restaurantes e lojas. Pedalo. Cruzo-me com a pequena igreja de San Pedro, construída em 1774 pelos jesuítas espanhóis. Passo pelo interior do Pueblo Artesanos. Aproveito as descidas. Chego à extremidade da vila. Ao longe os vulcões desenham o contorno da Cordilheira dos Andes. Cerro Toco, o mais próximo. Lascar, o mais ativo. Sairecabur, o fronteiriço. Licancabur, o mais cónico. Pili, o mais imponente.  Admiro, parco em palavras. “De dónde eres?” O meu momento de contemplação é interrompido por uma voz grave, rouca. Matías, meia idade, chapéu de palha, cara queimada pelos ares do deserto. Conversa puxa conversa. Trivialidades, história e geografia. Aponto dicas e locais a visitar. Lagunas Altiplânicas. Salar de Atacama. Piedras Rojas. Valle de la luna e Valle de la muerte. Geysers el tatio. Laguna Cejar. Dias que prometem. Agradeço com um “muchas gracias amigo”.  De volta à bicicleta. Gira o pedal. Gira o globo.
 

Continua.

Pedro Guerra já visitou 96 países e completou uma trilogia de voltas ao mundo. Tem um fascínio especial por montanhas, frio e locais remotos. Começou a viajar à procura de respostas. Adora escrever, pontos finais e frases curtas.  Pode acompanhar as suas viagens na sua conta Instagram.

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