Quer conhecer a verdadeira Paris? Faça uma caminhada.

Estendendo-se ao longo de mais de 500 quilómetros, o Trilho da Grande Paris destaca as inúmeras facetas da cidade, desde as atrações arquitetónicas aos tesouros do quotidiano, longe das multidões.

Por Mary Winston Nicklin
Publicado 8/07/2022, 10:57
Palácio de Versalhes

O Palácio de Versalhes (com a sua Capela Real aqui retratada) é dos um destaques suburbanos acessíveis através de um extenso sistema de trilhos em Paris, França.

Fotografia por Martin Bureau, AFP, Getty Images

Todos os anos, milhões de visitantes chegam a Paris com itinerários centrados num trecho de cinco quilómetros ao longo do rio Sena, que está ladeado por monumentos famosos – a Catedral de Notre-Dame, o Louvre, a Torre Eiffel. Mas há muito mais para conhecer na capital francesa do que os típicos postais.

A grande Paris, com 11 milhões de habitantes, é uma das maiores cidades da Europa. Desta forma, oferece um mundo de descobertas que vão para além da Boulevard Périphérique, o anel rodoviário que ficou concluído em 1973 e se tornou tanto numa barreira mental como numa via púbica, reduzindo a cidade de Paris a uma perspetiva centrada no Sena.

Um projeto chamado Sentier du Grand Paris (“Trilho da Grande Paris”) ajuda a quebrar esta barreira, ampliando o mapa até lugares suburbanos que muitas vezes são esquecidos – ou incompreendidos – pelos visitantes e até pelos moradores locais. Inaugurada em 2020 após três anos de mapeamento, esta rede de trilhos urbanos estende-se ao longo de mais de 500 quilómetros e está dividida em 39 etapas, ou secções, por toda a grande Paris, cada uma projetada para uma caminhada de um dia.

O Château de Malmaison, casa de Josefina Bonaparte, agora museu, está localizado no ramo ocidental do Trilho da Grande Paris, fora do centro de Paris.

Fotografia por Alain Poirot, Alamy Stock Photo

Detalhadas num guia (em francês) e na aplicação Avenza Maps, as secções têm a forma de um trevo e são facilmente acessíveis pela rede suburbana de metro e comboios RER. De facto, a criação do chamado Sentier coincide com a ambiciosa expansão dos transportes públicos conhecida por Grand Paris Express, com conclusão prevista para 2030 e um custo a rondar os 23 mil milhões de euros.

O trilho foi idealizado por um quarteto filosófico: Jens Denissen (urbanista e paisagista), Denis Moreau (artista), Baptiste Lanaspeze (editor livreiro) e Paul-Hervé Lavessière (geógrafo urbanista). O projeto, integrado no programa Metropolitan Trails, visa criar um novo tipo de espaço público, “um centro cultural ao ar livre”, através de caminhadas urbanas.

“Caminhar é uma forma de descobrir um lugar e também de fazer parte do seu tecido”, explica Jens Denissen, que organiza caminhadas públicas nos subúrbios desde 2014. Com um senso de curiosidade e observação, os caminhantes podem descobrir o extraordinário nas coisas mais vulgares. “É um processo permanente de exploração.”

Como eu vivo em Paris, abracei as caminhadas como uma forma de passatempo e também porque são muito práticas. Mas eu nunca tinha caminhado para além do anel rodoviário. Depois de caminhar por trechos do Sentier ao longo de vários meses, descobri que o trilho faz com que repensemos a longa narrativa histórica sobre a origem de Paris na Île de la Cité, a ilha no Sena onde os romanos estabeleceram a cidade de Lutécia, no topo de um assentamento construído pela tribo gaulesa dos Parisii.

Após a descoberta de um importante sítio arqueológico celta em Nanterre, alguns estudiosos argumentam que a capital celta não ficava na atual Paris, mas sim nos subúrbios da atualidade.

Uma caminhada pela história

Em cada caminhada que fiz, percorri vários séculos com o Sentier a iluminar um corte transversal da história e da sociedade francesa. Os próprios nomes dos lugares fazem alusão à antiguidade: o rio Marne tem origens celtas, assim como a comuna de Créteil, cujo nome foi mais alterado para latim pelos romanos.

Vi um mosaico de paisagens povoadas por comunidades diversas e repletas de arquitetura inovadora, desde o Palácio de Versalhes (século XVII) ao complexo habitacional Les Courtillières (década de 1950), do arquiteto Emile Aillaud, em Pantin

Na Secção 20, explorei o medieval Château de la Madeleine, um castelo fortificado no topo de uma colina com vista para a vila de Chevreuse e para a sua paisagem bucólica. Na Secção 9, através de locais como a Basílica de Saint-Denis, descobri os efeitos transformadores da industrialização naquele que outrora era um importante centro durante a Idade Média.

Pessoas passeiam em frente à Basílica Saint-Denis ao pôr do sol. Este é o local de descanso final dos governantes reais de França e uma das muitas vistas deslumbrantes na zona norte do Sentier.

Fotografia por Bruce Yuanyue Bi

Esta necrópole centenária dos monarcas franceses foi o berço da arquitetura gótica e serviu de inspiração para a catedral de Notre-Dame. Ainda antes disso, a fértil Plaine de Saint-Denis era um ponto de encontro importante para as tribos celtas. “Historicamente era central, mas agora está marginalizada”, explica Jens Denissen.

Na Secção 11, caminhei por pequenos passeios e trilhos nas margens do Marne à sombra de salgueiros-chorões, incluindo em túneis para pedestres debaixo de autoestradas para descobrir a École du Breuil. Escondida no extremo leste do parque Bois de Vincennes, esta academia do século XIX formava os jardineiros da cidade e tem jardins magníficos que ficam virados para o Arboretum de Paris, que exibe centenas de espécies de árvores.

Contudo, a Secção 24 tornou-se na minha preferida. Comecei o dia no Château de Malmaison de Josefina Bonaparte, uma adorável propriedade rural que a imperatriz dividia com Napoleão. Seguindo o Sena, passei por uma fábrica de papel encerrada, outrora famosa por imprimir Le Petit Parisien (o jornal de maior circulação no mundo, com 1.300.000 exemplares em 1904), agora convertida em distrito comercial amigo do ambiente chamado Campus Arboretum.

A partir da Universidade de Nanterre, que foi o coração da revolta estudantil francesa de 1968, o caminho passa pelo Parc André-Malraux, construído em 1971 num antigo bairro clandestino habitado por trabalhadores argelinos, e termina no monumental arranha-céus Grande Arche, o bastião do distrito de La Défense.

Este arco, uma extensão do eixo histórico de Paris, a oeste do Arco do Triunfo, é uma “janela aberta para o mundo” e exigiu os esforços de dois mil trabalhadores e quatro anos para ser construído. O Grande Arche foi inaugurado em 1989 para celebrar o 200º aniversário da Revolução Francesa.

Mapear a megalópole

Durante o processo de levantamento (o passo antes de se traçar o mapa), os criadores do Sentier trabalharam com as comunidades locais para determinar a melhor rota e os locais a incluir. “Não era apenas uma linha no mapa”, explica Jens Denissen. “Uma perspetiva importante era a história das pessoas que conhecemos ao longo do caminho.”

“Chamamos-lhe a grande caravana”, diz Paul-Hervé Lavessière, referindo-se ao processo de pesquisa. O projeto transformou-se e passou a incluir fotógrafos, jornalistas e designers de som que fizeram expedições de dois dias para encontrar as hipotéticas etapas do Sentier, testando e modificando a rota à medida que avançavam.

Duas pessoas num barco a remos desfrutam de uma tarde no Lac Daumesnil, um lago artificial no parque de Bois de Vincennes. Os caminhantes podem entrar no Sentier na extremidade leste deste parque, onde atravessa o Arboretum de Paris.

Fotografia por Olivier DJIANN, Getty Images

A primeira versão do mapa era um triângulo que ligava Saint-Denis, Créteil e Versalhes. Mas foi ampliado para incluir as chamadas cinco Villes Nouvelles (Cidades Novas), símbolos do desenvolvimento urbano da região no século XX, representando o alvorecer da grande Paris. Num esforço utópico para criar cidades auto-funcionais nos subúrbios e, assim, conter a expansão, as chamadas Cidades Novas estão ligadas pelas novas redes de comboios RER.

A versão final do mapa do Sentier tem uma forma com três arcos interligados, que homenageia as origens celtas de Paris e a arquitetura gótica medieval encontrada ao longo do trajeto. Em breve, a equipa do Sentier vai ligar o trilho ao coração de Paris, em Châtelet-Les Halles – um terminal de comboios que liga várias linhas. Existe ainda a esperança de que eventualmente possa ser adicionada sinalização aos trilhos, apesar dos desafios administrativos.

Ao longo do caminho, o Sentier emana a história da cultura de caminhada ao cruzar outros trajetos, incluindo as rotas da Grande Randonnée (GR) que atravessam França. “Abrimos as portas para os trilhos existentes em homenagem às caminhadas e à sua história. A caminhada foi inventada no século XIX – como uma forma de afastamento da cidade industrial – por grupos [comunitários] como Les Excursionnistes, em Marselha, que iam para Calanques [um parque nacional]”, diz Jens Denissen.

Os criadores do Sentier também encontraram inspiração em figuras do século XX, como o artista americano Robert Smithson, que organizou visitas industriais guiadas a Nova Iorque, e ao coletivo Stalker, que começou a explorar terrenos abandonados em torno de Roma na década de 1990.

A verdadeira Paris

Com o passar do tempo, à medida que Paris crescia, a cidade também começou a exteriorizar as suas funções – desde fortificações defensivas para a guerra, campos agrícolas para a alimentação e até a própria morte, dado que os cemitérios foram sendo movidos para fora dos limites da cidade. Em suma, o Sentier não se esquiva da indústria e infraestrutura que fizeram de Paris o que é hoje: as estradas, o sistema de canais de Napoleão, as fábricas.

É uma abordagem filosófica que encoraja os caminhantes a despertar uma ligação com o que os rodeia. De certa forma, isto também é político. “Caminhar é uma forma de cuidar destas terras, de sensibilizar para as suas áreas naturais escondidas... de pensar em formas de proteger os campos férteis do desenvolvimento desenfreado”, diz Jens Denissen.

Foi às ordens do Barão Haussmann, no século XIX, que o planeamento urbano começou a incorporar uma reflexão sobre a vida metabólica da cidade: um novo sistema de esgotos que canalizava as águas residuais para fertilizar os campos na Plaine Saint-Denis, ao passo que os aquedutos transportavam água doce vinda de fontes distantes.

Num belo dia de primavera, no Sentier, dei por mim a caminhar pela primeira vez ao lado do Aqueduto Vanne, a sul de Paris. Para desenvolver este projeto, o engenheiro Eugène Belgrand inspirou-se nos antigos aquedutos romanos, uma conduta reta de pedra que canalizava água a uma distância superior a 170 quilómetros, desde a Borgonha.

Este aqueduto corta a paisagem, muito parecido com os comboios que levam aceleradamente os passageiros com destino a Paris, “evitando” o país dos subúrbios. Porém, naquele dia, enquanto caminhava ao longo dos arcos de pedra deste marco do século XIX, eu não tinha pressa. O aqueduto foi invadido por plantas e flores que ganharam raízes, mais um exemplo de como a beleza, história e indústria se fundem nestes trilhos.

Mary Winston Nicklin é uma escritora e editora freelancer sediada em Paris e na Virgínia. Pode encontrá-la no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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