A disseminação global do coronavírus está a afetar os viajantes. Mantenha-se atualizado sobre a explicação científica por trás do surto>>

Alex Honnold liderou a primeira escalada a um dos penhascos mais altos do mar Ártico – em nome da ciência

Enfrentando condições traiçoeiras, alpinistas famosos ajudam uma cientista a atravessar uma calota de gelo remota na Gronelândia, recolhendo dados climáticos cruciais ao longo do trajeto.

Por Andrew Bisharat
Publicado 22/08/2022, 14:32

Entre os perigos das rochas soltas, temperaturas abaixo de zero e tempestades repentinas, dois dos alpinistas mais famosos do mundo, Alex Honnold e Hazel Findlay, completaram uma notável primeira escalada a um dos monólitos mais altos do mundo, uma parede rochosa remota com mais de 1.140 metros de altura, no leste da Gronelândia, alcançando o cume ao meio-dia de terça-feira da semana passada.

Esta formação, conhecida localmente por Ingmikortilaq – que em gronelandês significa “o separado” – tem o nome da península onde está localizada. Esta imponente formação de granito-gnaisse ergue-se diretamente sobre as águas geladas de Nordvestfjord, na região da ilha Scoresby Sound. Até agora, esta era uma das falésias mais altas do mundo por escalar.

“Saímos literalmente das extremidades do mapa para chegar a esta parede”, diz Alex Honnold por telefone via satélite a partir do acampamento-base da equipa, referindo-se aos mapas náuticos que estavam a seguir e que não ofereciam detalhes sobre o fiorde onde a formação de Ingmikortilaq está localizada. “Foi definitivamente uma das maiores primeiras ascensões que já fiz – e uma das mais stressantes devido ao quão perigosa foi a escalada.”

Alex Honnold na primeira escalada a um penhasco do mar Ártico - 2
Depois de passarem uma semana na parede, Alex Honnold e Hazel Findlay chegaram ao cume de Ingmikortilaq. Alex Honnold disse: “A Hazel e eu pensámos que era a coisa mais grave deste tipo que alguma vez tínhamos feito”.

“Foi muito satisfatório, depois de dois dias de stress constante, emergir numa parede virada para norte e banharmo-nos no sol quente no cume.”

por ALEX HONNOLD, MEMBRO DA EXPEDIÇÃO

Mas esta expedição não se tratava apenas de escalada. Os cientistas consideram a camada de gelo da Gronelândia, que está a derreter a um ritmo alarmante, um indicador da crise climática, mas conseguir aceder a algumas das suas áreas mais acidentadas para efetuar estudos é extremamente difícil.

É aqui que entram Alex Honnold, Hazel Findlay e o alpinista profissional Mikey Shaefer – todos superestrelas do mundo da escalada. O plano era ajudar Heidi Sevestre, glaciologista francesa que trabalha com o Programa de Monitorização e Avaliação do Ártico, a conseguir acesso a glaciares e fiordes remotos e à calota de gelo de Renland, localizada num planalto de alta montanha perto de Scoresby Sound. Os cientistas especulam que este local pode ser menos sensível às alterações climáticas devido à sua altitude, mas carecem de dados atuais ao nível do solo para suportar esta teoria.

“A região leste da Gronelândia é uma das partes mais remotas e menos estudadas do Ártico, tornando-a muito importante cientificamente”, diz Heidi Sevestre. “Precisamos desesperadamente de dados científicos desta região. Estudar fiordes, glaciares, e os mantos de gelo, vai trazer tantos dados para a comunidade científica que a sua contribuição vai ser extremamente positiva.”

Alex Honnold e Hazel Findlay planeiam a rota a seguir até à parede. “É tão grande”, diz Alex Honnold, “que temos praticamente de nos deitar no chão para a ver. Parecia que ia ser demais”.

Fotografia por J.J. Kelley, National Geographic para o Disney+

A aventura antes da aventura

Para aceder à calota de gelo de Renland, a equipa teve de fazer uma escalada assustadora num monólito com mais de 455 metros de altura conhecido por Pool Wall. De acordo com o sistema de classificação que os alpinistas usam para descrever a dificuldade de uma rota, Alex Honnold classificou a sua primeira subida em 5,12c, que significa uma subida difícil para um alpinista experiente. Contudo, Alex Honnold diz que este número não revela a experiência no seu todo. “Não faz justiça ao tamanho da parede”, diz Alex, sublinhando a vasta extensão que é necessário escalar e as condições inóspitas. “Estavam mais de 6 graus negativos, e fizemos a escalada durante uma tempestade de neve.”

Foi uma introdução particularmente difícil à escalada para Heidi Sevestre, que nunca tinha tentado uma escalada como esta. “Foi muito fora da minha zona de conforto”, diz Heidi Sevestre. “Os cientistas normalmente não escalam grandes paredes.” Quando Alex Honnold perguntou pela primeira vez se Heidi queria fazer a escalada, ela pensou: “Não faço isto nem por nada. Mas depois de pensar em toda a ciência que precisava de ser feita, percebi que fazia sentido escalar.”

Os três alpinistas profissionais escalaram primeiro a parede, fixando âncoras e cordas para Heidi Sevestre e o quinto membro da equipa, o guia na Gronelândia, Adam Kjeldsen. Mas enquanto Heidi Sevestre lutava contra os seus receios e subia pela corda, centenas de metros acima da extensão gelada abaixo de si, também ia parando regularmente para recolher amostras do núcleo da rocha. Estas amostras vão ajudar os climatologistas a reconstruir a história glaciar da área e a compreender melhor a rapidez com que a camada de gelo recuou no final da última era glacial, há 11.500 anos. Isto, por sua vez, vai permitir aos cientistas refinar as suas projeções para a subida do nível do mar à medida que a camada de gelo da Gronelândia vai derretendo.

Depois de chegar ao cume da chamada Pool Wall, os membros da equipa deram por si na extremidade da calota de gelo de Renland. Nos cinco dias seguintes, a equipa arrastou um dispositivo semelhante a um trenó com um radar especial que faz medições em tempo real da profundidade e densidade da neve e do gelo por baixo.

“Usámos um total de 15 técnicas de investigação diferentes durante esta expedição para realizar um ‘exame de saúde’ numa área da Gronelândia que permanecia inexplorada”, diz Heidi Sevestre.

Estas técnicas incluem a colocação de sensores de temperatura em penhascos, scanear o interior de glaciares com lasers 3D e lançar um flutuador especial projetado pela NASA no fiorde que vai recolher dados sobre a temperatura e salinidade do oceano nos próximos dois anos.

Graças aos satélites e a outras ferramentas, os cientistas já tinham uma ideia aproximada sobre o que estava a acontecer aqui, diz Heidi Sevestre. “Mas não importa quantos satélites estejam no céu, não importa quantos helicópteros ou aviões recolham dados científicos, não há nada que chegue perto de recolher dados no campo com os pés assentes no terreno. E também são os dados mais difíceis de recolher.”

Estas informações obtidas arduamente vão ser partilhadas com investigadores da NASA, bem como com instituições nos EUA, Europa e Ásia. Heidi Sevestre está relutante em fazer muitas previsões sobre o que os dados podem revelar, mas uma coisa parece clara – os glaciares nesta área, comparados com os de outras partes da Gronelândia, parecem à primeira vista um pouco menos afetados pelo degelo. “Esta área pode ser uma das últimas fortalezas que ainda não sofreu os efeitos das alterações climáticas”, diz Heidi Sevestre.

Alex Honnold na primeira escalada a um penhasco do mar Ártico - 3
“A região leste da Gronelândia é uma das partes mais remotas e menos estudadas do Ártico, tornando-a muito importante cientificamente”, diz Heidi Sevestre. “Estudar os fiordes, os glaciares e os mantos de gelo vai trazer tantos dados para a comunidade científica que a sua contribuição vai ser extremamente positiva.”

Durante o tempo de inatividade no acampamento-base, Alex Honnold fortalece a aderência pendurado numa rocha.

Alex Honnold na primeira escalada a um penhasco do mar Ártico - 4
A equipa da expedição atravessa o Glaciar Edward Bailey em Renland, no leste da Gronelândia.

A primeira subida a Ingmikortilaq

Para os três alpinistas profissionais, o grande apelo da expedição era a primeira escalada da formação Ingmikortilaq — “uma parede horrenda que desafia a morte”, segundo Alex Honnold.

Vindo de um alpinista, isto significa alguma coisa. Em 2013, Hazel Findlay e Alex Honnold exploraram falésias ao longo da costa de Omã, mas nenhuma era semelhante ao monstro de gelo enfrentado na Gronelândia.

"A Hazel e eu pensámos que era a coisa mais grave deste tipo que alguma vez tínhamos feito”, diz Alex Honnold por telefone via satélite, enquanto a equipa embarca numa lancha para fazer a viagem de 20 horas pelos fiordes congelados até à aldeia inuíte mais próxima. “Para fazer quase 1.200 metros de escalada em rochas terrivelmente soltas… parece uma coisa interminável.”

A equipa optou por seguir a cordilheira nordeste porque parecia o trajeto mais fácil para o cume. Os alpinistas avançaram cordas fixas ao longo da primeira metade da parede durante cinco dias. A partir deste ponto intermédio, Alex Honnold e Hazel Findlay fizeram um último esforço de dois dias para alcançar o cume, carregando consigo toda a água e comida liofilizada às costas e pernoitando numa saliência.

“A Hazel e eu pensámos que era a coisa mais grave deste tipo que alguma vez tínhamos feito”

por ALEX HONNOLD, MEMBRO DA EXPEDIÇÃO

Composta por gnaisse com três milhões de anos, a formação de Ingmikortilaq apresentou inúmeros desafios aos alpinistas – rochas soltas, fixadores que se partiam nas suas mãos e superfícies lisas semelhantes a mármore, que exigiam uma força extra de aderência.

Esquerda: Superior:

A equipa da expedição celebra o aniversário do guia na Gronelândia, Adam Kjeldsen, que fez 40 anos, um dia depois de uma caminhada pela calota de gelo de Renland (da esquerda para a direita: Hazel Findlay, Mikey Schaefer, Adam Kjeldsen, Alex Honnold, Aldo Kane e Heidi Sevestre).

Direita: Inferior:

A equipa acampa numa morena no Glaciar Edward Bailey, no caminho para a formação conhecida por Pool Wall. Não se sabe exatamente o que os dados recolhidos durante a expedição irão revelar, mas os glaciares da região, comparados com os de outras partes da Gronelândia, mostram poucos sinais de degelo. “Esta área pode ser uma das últimas fortalezas que ainda não sofreu os efeitos das alterações climáticas”, diz Heidi Sevestre.

A formação de Ingmikortilaq acabou por se revelar um terreno de escalada muito mais complicado e perigoso do que os alpinistas antecipavam. A rocha, gnaisse com três milhões de anos, estava solta em todo o lado devido às intempéries e aos ciclos de congelamento e degelo nesta região extrema do Ártico.

Alex Honnold e Hazel Findlay navegaram habilmente por baixo, por cima e em torno de flocos de rocha de várias toneladas, que estavam precariamente pendurados no penhasco. Os fixadores geralmente partiam-se nas suas mãos, enquanto que outros estavam escorregadios, exigindo força extra de aderência para os alpinistas se segurarem. E a equipa enfrentou constantemente a perspetiva de sofrer quedas catastróficas que, apesar de os alpinistas estarem presos a cordas, podiam terminar em ferimentos graves ou morte.

“Foi muito satisfatório, depois de dois dias de stress constante, emergir numa parede virada para norte e banharmo-nos no sol quente no cume”, diz Alex Honnold.

A maior das grandes paredes

É difícil dizer exatamente onde se classifica a formação de Ingmikortilaq entre as “grandes paredes” do planeta. No mundo da escalada, este termo refere-se a penhascos íngremes – muitas vezes parte de um monólito, em vez da face de uma montanha – que exigem vários dias para escalar. Uma das grandes paredes mais famosas é o El Capitan, no Parque Nacional de Yosemite, que Alex Honnold escalou sem qualquer equipamento de proteção e foi documentado no filme Free Solo da National Geographic.

Ao contrário de Yosemite, que fica num parque nacional muito conhecido nos EUA, as grandes paredes mais remotas têm os desafios adicionais de estarem localizadas em lugares onde não existe a possibilidade de resgate.

Os especialistas sentem relutância em declarar abertamente quais são as paredes mais altas do mundo, porque há inúmeras regiões, principalmente nos Himalaias, que não foram exploradas pelos alpinistas. De acordo com John Middendorf, um dos principais pioneiros e exploradores de “grandes paredes”, a Face Leste da Great Trango Tower, que sobe até aos 1.340 metros desde a base até ao cume, na cordilheira de Karakoram, no Paquistão, é a parede de rocha mais alta alguma vez escalada.

John Middendorf considera a Polar Sun Spire, na Ilha de Baffin, uma grande parede de 1.150 metros, porque exigiu aos primeiros alpinistas que a escalaram em 1996 – Mark Synnott, Warren Hollinger e Jeff Chapman – 26 dias para chegar ao cume.

O Monte Thor, também na Ilha de Baffin, tem uma face oeste com quase 1.100 metros e pende 15 graus em toda a sua extensão, sendo possivelmente o penhasco mais íngreme com esta extensão no mundo.

A formação de Ingmikortilaq, com 1.140 metros de altura, está certamente entre estas falésias – embora Alex Honnold a considere agora mais uma montanha do que uma grande parede.

Independentemente de ser uma montanha ou uma grande parede, o monólito na Gronelândia provou ser um teste digno para os dois aclamados alpinistas, ainda assim, antes de desligar a ligação via satélite, Alex já parecia estar a esquecer todo o desconforto extenuante e o risco angustiante. “Eventualmente, acho que tanto o Hazel como eu vamos recordar esta experiência com carinho.”

Esta expedição foi filmada e documentada para a nova série da National Geographic, "ON THE EDGE WITH ALEX HONNOLD", que vai estrear brevemente no Disney+.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Viagem e Aventuras
Alex Honnold na primeira escalada a um penhasco do mar Ártico - 1
Viagem e Aventuras
Alex Honnold na primeira escalada a um penhasco do mar Ártico - 4
Viagem e Aventuras
Uma equipa revolucionária de alpinistas fez história no Evereste
Viagem e Aventuras
Explorador Polar Atravessa o Ártico Para Mostrar Efeitos do Degelo
Viagem e Aventuras
As Mais Épicas Escaladas de Alex Honnold

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados