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Estas ilhas ‘fantasma’ existem apenas em atlas

Os primeiros cartógrafos e exploradores cobriram os mares com terras míticas. Eis onde pode encontrar as ilhas que são mesmo reais.

Por Ronan O’Connell
Publicado 30/08/2022, 11:09
ilha Bouvet

Outrora considerada uma ilha “fantasma”, a existência da ilha Bouvet foi comprovada 200 anos depois de ter sido avistada pela primeira vez em 1739. Localizada a 2.400 quilómetros a sudoeste de África, esta ilha é agora um ponto de paragem para alguns cruzeiros antárticos.

Fotografia por Scubazoo, Alamy Stock Photo

Desde os primórdios da cartografia que há fantasmas a assombrar os nossos mapas – até que a tecnologia moderna os purgou numa espécie de exorcismo científico. Devido a mitos, erros de cálculo, ilusões de ótica ou simples mentiras, centenas de massas de terra inexistentes foram colocadas em mapas, onde permaneceram durante séculos.

Até à década passada, estas listas erradas deram origem a muitas viagens oceânicas fúteis e ocasionalmente mortais para tripulações que procuravam tesouros, fama ou território virgem. Acreditava-se que a ilha de Hy-Brasil, supostamente localizada no Oceano Atlântico a oeste da Irlanda, tornava os seus visitantes imortais. Gamaland, a leste do Japão, atraía marinheiros que perseguiam o seu lendário ouro e prata. A ilha fantasma de Sannikov Land, na Sibéria, conseguiu até fazer desaparecer parte da tripulação de uma expedição russa.

Apesar de estes espectros terem sido praticamente apagados dos mapas, os viajantes podem rastrear estes contos misteriosos nas bibliotecas cartográficas, nos monumentos dedicados a exploradores e cartógrafos, e nas ilhas fantasma que afinal são mesmo reais.

Explosão da cartografia

Todos os dias, os turistas que passam pela arborizada Praça Petit Sablon, em Bruxelas, podem ver a estátua do cartógrafo belga Abraham Ortelius, que inspirou os exploradores a perseguir fantasmas geográficos. Em 1570, Abraham Ortelius publicou o primeiro atlas moderno, o Theatrum Orbis Terrarum (Teatro do Mundo), cujas cópias podem ser encontradas em muitas bibliotecas, incluindo na Biblioteca do Congresso em Washington D.C. Este atlas continha 70 mapas detalhados que revelavam um tesouro de ilhas inexploradas. Muitas das ilhas, como se veio a verificar, só existiam neste livro.

Em 1570, o cartógrafo belga Abraham Ortelius publicou o primeiro atlas moderno, o Theatrum Orbis Terrarum (Teatro do Mundo), que apresentava 70 mapas detalhados e várias ilhas inexploradas.

A corrida à exploração marítima feita pelos europeus no século XVI desencadeou uma explosão na cartografia, que deu origem a mais expedições, e cujos relatos alimentaram ainda mais os atlas. “[A cartografia] era um negócio competitivo, e os cartógrafos estavam desesperados para receber as informações mais recentes recolhidas pelos exploradores, para preencher os espaços em branco”, diz Edward Brooke-Hitching, autor do livro The Phantom Atlas publicado em 2016.

“Inevitavelmente, a geografia fantasma começou a florescer nas páginas dos mapas. Os rumores e os avistamentos não confirmados, cálculos errados – antes da longitude, as localizações das ilhas eram registadas através de “acertos de contas”, que eram basicamente suposições – e havia até mitologia incorporada pelos cartógrafos para publicar uma imagem mais completa do mundo recém-revelado.”

Assim que surgia uma ilha fantasma, era difícil erradicá-la. Estas ilhas só eram removidas dos mapas quando um navio visitava o referido local da ilha e confirmava a sua inexistência, diz Edward Brooke-Hitching. Esta tarefa foi dificultada pelas ilusões de ótica provocadas pelas refrações de luz, incluindo o infame efeito Fata Morgana, “que parece uma faixa distante de terra que está tentadoramente perto, mas sempre fora de alcance”.

Reivindicar terras fantasma

As ilhas fantasma geraram muitos problemas para os marinheiros que perseguiam estas massas de terra obscuras, de acordo com Kevin Wittmann, investigador da Universidade de La Laguna, em Espanha, cuja tese se centrou em torno de mapas antigos. “Estas expedições eram dispendiosas e, em alguns casos, perigosas. E descobrir que estavam a navegar para um lugar que não existia não era bom”, acrescenta Kevin Wittmann.

No início do século XX, o explorador alemão Eduard Vasilyevich Toll liderou uma expedição a Sanniko Land, relatada pela primeira vez por um navio russo em 1810, a cerca de 690 quilómetros a norte da Sibéria continental. Depois de o navio de Eduard Toll ter ficado preso no gelo, nas Ilhas da Nova Sibéria, o explorador e vários colegas usaram trenós e caiaques para seguir para a ilha Bennett, que os turistas podem agora ver em cruzeiros de lazer no Oceano Ártico. Estes exploradores desapareceram, assim como Sannikov Land, que provavelmente era apenas uma miragem provocada pelo referido efeito Fata Morgana, de acordo com Edward Brooke-Hitching.

Algumas das ilhas fantasma chegaram até a provocar tensões diplomáticas, diz Kevin Wittmann. A mais famosa foi a ilha Bermeja, a oeste da península mexicana de Yucatán, que se tornou no centro de uma disputa territorial nos anos 2000 entre os Estados Unidos e o México devido à exploração de petróleo – contudo, as pesquisas feitas em 1997 e 2009 concluíram que esta ilha não existia. Bermeja ficou nos mapas durante mais de 400 anos, até ter sido apagada recentemente. Esta ilha até pode ser real, diz Kevin Wittman, mas pode estar escondida devido à subida do nível do mar.

Outras ilhas fantasma evoluíram no sentido inverso, de acordo com Malachy Tallack, autor do livro The Un-Discovered Islands. Os turistas podem agora embarcar em cruzeiros antárticos que visitam a antiga ilha fantasma de Bouvet. Esta massa de terra gelada e desabitada, a 2.400 quilómetros a sudoeste de África, foi considerada um mito durante muitos anos depois de ter sido descoberta pela primeira vez em 1739 por um navegador francês, diz Malachy Tallack. A ilha Bouvet só foi novamente avistada quase 80 anos depois, e muitos avistamentos registaram-na em locais separados e com nomes diferentes. “Só passados quase 200 anos do primeiro avistamento é que a ilha foi devidamente nomeada e reivindicada por uma expedição norueguesa”, diz Malachy Tallack.

Esquerda: Superior:

Nesta imagem de arquivo de 1929, dois homens estão perto da cabana de refúgio no Cabo Circoncision, na ilha Bouvet.

Direita: Inferior:

Declarada reserva natural desabitada em 1971, a ilha Bouvet (vista nesta imagem de satélite da NASA) tem 93% da sua superfície coberta por um glaciar e é uma das ilhas mais remotas do planeta.

No entanto, nem todas as ilhas fantasma estão escondidas em locais tão remotos. As pessoas que cruzam diariamente o oceano nos ferries entre Hong Kong e Macau passam sem saber perto de uma ilha que não está assinalada e que abrigou a primeira povoação europeia na China. Conhecida por Tamão, esta ilha foi fundada pelo explorador português Jorge Álvares, cuja história os visitantes podem conhecer no Museu de Macau. Tamão não aparece nos mapas modernos, dado que a sua localização exata já não é conhecida. Os historiadores admitem que pode ser qualquer uma das várias ilhas neste trecho do Mar da China Meridional.

(A cidade perdida de Tamão está escondida à vista de todos.)

Hoje em dia, pelo menos, há muito menos confusão sobre ilhas fantasma como a Frislândia e a ilha de São Brandão, ambas detalhadas nos livros de Malachy Tallack e Edward Brooke-Hitching. Localizada a sul da Islândia, o nascimento da Frislândia deveu-se ao veneziano Nicolò Zeno no século XVI, com base apenas na memória de cartas que Nicolò Zeno tinha lido, escritas pelos seus antepassados exploradores. O próprio Nicolò Zeno nunca visitou a Frislândia, e não havia quaisquer evidências que que outra pessoa a tivesse visitado. No entanto, este espectro permaneceu nos mapas durante mais de cem anos.

Esta gravura do século XVI ilustra a viagem do monge irlandês São Brandão, o Navegador. Este monge encontrou alegadamente uma ilha na costa noroeste de África no século VI, porém, após várias expedições infrutíferas, a ilha foi removida dos mapas no século XVII.

Ainda mais duradoura foi a crença numa ilha aparentemente descoberta pelo irlandês São Brandão, o Navegador. Os visitantes da pitoresca vila costeira irlandesa de Fenit, no condado de Kerry, podem agora admirar uma estátua enorme deste famoso explorador com vista para o Oceano Atlântico. Foi neste local que São Brandão afirmou ter encontrado uma ilha na costa noroeste de África no século VI. As suas alegações ganharam raízes e a ilha de São Brandão foi o foco de muitas expedições infrutíferas, permanecendo nos mapas até ao século XVII.

No século XIX, várias ilhas fantasma foram eliminadas, diz Edward Brooke-Hitching, “conforme as vias oceânicas iam ficando mais movimentadas e o posicionamento global mais preciso”. Em 1875, 123 ilhas inexistentes foram apagadas do mapa da Marinha Real Britânica do Pacífico Norte.

O fim das ilhas fantasma?

Atualmente, as ilhas fantasma são principalmente “uma coisa do passado”, diz Alex Tait, geógrafo da National Geographic Society. “Dada a infinidade de imagens de sensoriamento remoto de todo o planeta, temos uma boa noção de quais são as ilhas que existem no mundo, e é pouco provável que ilhas fantasma persistam nos nossos mapas”, diz Alex Tait. Contudo, Alex enfatiza que o dinamismo geofísico da Terra significa que há novas ilhas a surgir e outras já estabelecidas que desaparecem, quer seja devido ao vulcanismo, à erosão ou ao degelo glaciar.

Em 2013, a atividade vulcânica criou uma das ilhas mais jovens do mundo, a cerca de 965 quilómetros a sul de Tóquio. Esta massa de terra emergiu gradualmente do Oceano Pacífico até se fundir com a ilha mais pequena e há muito estabelecida de Nishinoshima. Esta nova fusão de ilhas, com o mesmo nome, é mais de dez vezes maior que a original.

Algumas massas de terra não mudam de forma tão linear – emergem, recuam, emergem, recuam. Dependendo do horário em que são visitadas, podemos encontrar um trecho de mar aberto ou uma imensa plataforma de corais a projetar-se acima do mar como se fosse uma ilha.

O recife Montgomery, na costa australiana de Kimberley, pode ter sido considerado uma ilha fantasma, dado que a maré faz com que surja ou desapareça. Este espetáculo é agora muitas vezes testemunhado de barco ou hidroavião.

Fotografia por Janelle Lugge, Getty Images

É o que acontece com a notável atração turística da Austrália Ocidental, o recife Montgomery. Esta maravilha isolada, a cerca de 1.930 quilómetros a norte da capital do estado, Perth, transforma-se regularmente numa ilha devido a algumas das maiores mudanças de maré do mundo. Habitada por dugongos, tartarugas, raias manta, golfinhos jubarte e crocodilos de água salgada, este recife com 400 quilómetros quadrados ergue-se do Oceano Índico durante a maré baixa. Este espetáculo é muitas vezes testemunhado pelos barcos de turistas.

No lado oposto da Austrália estaria aquela que provavelmente seria a ilha fantasma mais recente do mundo. Com cerca de 24 km de extensão e quase 5 quilómetros de largura, a ilha Sandy esteve listada no Google Maps no Mar de Coral, a oeste da Nova Caledónia, até 2012 – ano em que não foi encontrada por cientistas australianos que visitaram o local e encontraram apenas oceano. Talvez esta fosse a última das ilhas fantasma.

Ou talvez os erros, alguma maldade e as ilusões de ótica ainda possam plantar mais ilhas fantasma nos nossos mapas.

Ronan O’Connell é um jornalista e fotógrafo australiano que vive entre a Irlanda, a Tailândia e a Austrália Ocidental.



Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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