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Explore a vida inca para além de Machu Picchu neste trilho Sul Americano

Descubra caminhadas através de cumes andinos e ruínas antigas – sem multidões – neste trilho de pedra de 30.000 quilómetros, desde a Colômbia à Argentina.

Caminhantes e lhamas de carga percorrem o sistema de trilhos de Qhapaq Ñan, no Peru. Um trecho deste trilho inca vai dar às ruínas repletas de turistas de Machu Picchu, mas noutras secções desta extensa rota comercial da antiguidade, os viajantes andam sozinhos. As operadoras de turismo e o governo peruano estão a expandir o acesso à área.

Fotografia por of SA Expeditions
Por Mark Johanson
Publicado 10/08/2022, 10:00

O único trilho inca sobre o qual a maioria das pessoas já ouviu falar é o caminho de 42 quilómetros que parte de Piscacucho (perto de Cusco, no Peru) até às ruínas cobertas de selva de Machu Picchu. Esta caminhada, uma das mais emblemáticas do planeta, atrai cerca de 25.000 caminhantes por ano. Enquanto isso, os trilhos da enorme rede de Qhapaq Ñan têm passado quase despercebidos, são pouco utilizados e estão desprotegidos.

Mas estes trilhos não são menos espetaculares ou importantes, o que torna os esforços recentes para o desenvolvimento e conservação de áreas em torno dos caminhos de pedra de Qhapaq Ñan tão significativos. Este feito extraordinário de engenharia pré-industrial permitiu aos incas comunicar, trocar mercadorias e consolidar o poder durante o auge do seu império no final do século XV. Foi também quando este sistema de estradas se estendeu ao longo de quase 30.000 quilómetros, cruzando florestas húmidas, salinas secas e picos andinos escarpados entre a Colômbia da atualidade, a norte, e o Chile e a Argentina, a sul.

Esta rota comercial desgastada continua a ligar as ruínas de cidades antigas e campos inclinados com plantações de batatas semeadas pelos agricultores da atualidade, que galopam a cavalo com os seus ponchos de lã ao sabor do vento. Em 2014, a UNESCO reconheceu a rede de Qhapaq Ñan como Património Mundial da Humanidade que abrange vários países, solidificando vários anos de pesquisa do investigador peruano Ricardo Espinosa.

Pedras cortadas pelos incas pavimentam o trilho de Qapaq Ñan, um trilho com mais de 12 metros de largura em alguns trechos.

Fotografia por of SA Expeditions

Agora, há um esforço vindo do Peru – que detém a maior parte da rota – para preservar, restaurar e agregar valor para impulsionar o desenvolvimento rural e diversificar o turismo longe de Machu Picchu, que ficou muito sobrelotado em 2019 e obrigou o governo a decretar um sistema de entrada cronometrada para controlar os 5 mil visitantes diários.

Nos últimos anos, tanto exploradores, como arqueólogos e antropólogos têm viajado pelos trilhos de Qhapaq Ñan para identificar os trechos de caminhos de pedra contíguos, procurar comunidades em locais privilegiados para o desenvolvimento rural e ruínas que precisem de conservação. Há rotas turísticas a emergir ao longo do corredor principal desta extensa rede – conhecida por Grande Trilho Inca – que vai desde Cuenca, no Equador, a norte, até Cusco, no Peru, a sul. O objetivo é ajudar a salvar uma estrada antiga, revelando-a de outra perspetiva.

Os esforços em torno de Qhapaq Ñan podem oferecer uma alternativa viável às caminhadas focadas em Machu Picchu, bem como estender o alcance da economia gerada pelo turismo – e o potencial para o desenvolvimento sustentável – a novas regiões.

Uma obra-prima consolida um império

Mais do que um simples trajeto, a rede de Qhapaq Ñan parece um gráfico desenhado com linhas para gerir um império. Os incas construíram estes trilhos – em muitos casos sobre caminhos já existentes – com uma série de estruturas de pedra a cerca de 15 quilómetros de distância umas das outras. As estruturas, chamadas tambos, eram motéis, postos de controlo militares e centros de abastecimento num só.

Caminhantes percorrem a rede de Qhapaq Ñan perto de Andahuaylas, uma pequena cidade peruana no meio de planícies andinas.

Fotografia por of SA Expeditions

John Leivers, um explorador australiano e investigador da história andina – que percorre trechos de Qhapaq Ñan desde 1994 – elogia a eficiência destes trilhos. “[Os incas] aperfeiçoaram tudo, desde o comprimento até aos ângulos, altitudes, degraus e gradientes. Era impossível pedir uma rota melhor para ir do ponto A ao ponto B.”

A rede de Qhapaq Ñan, construída com o trabalho dos homens incas que faziam o mit'a, ou serviço público obrigatório, atravessa um dos terrenos mais extremos do mundo, incluindo o deserto não polar mais seco da Terra (o Atacama) e alguns dos picos mais altos para além dos Himalaias. No entanto, os trilhos raramente sobem ou descem em linha reta, navegando em vez disso os obstáculos geográficos (montanhas, vales com rios) de uma forma tão educada que os grupos de soldados ou as caravanas de lhamas poderiam facilmente percorrer todo o trajeto marchando de tambo em tambo.

“Os incas construíram os trilhos em lugares muito altos porque quanto mais alto subimos nos Andes, menos ravinas temos de atravessar e há menos chatices”, explica John Leivers. “E também há mais nascentes, lagos e água.”

No Peru, a rede de Qhapaq Ñan atravessa uma faixa pelos Andes entre os sítios arqueológicos incas de Huánuco Pampa e Huarautambo. Atualmente, as pessoas continuam a usar esta antiga estrada para comunicar e transportar mercadorias.

Fotografia por of SA Expeditions

As secções de maior altitude, na região centro do Peru – a rondar os 3.300 e os 4.500 metros, por trás dos picos nevados das montanhas da Cordilheira Huayhuash e Cordilheira Blanca – são as que estão mais bem preservadas, diz John Leivers, devido ao seu relativo isolamento e aos pequenos centros populacionais. No entanto, mesmo neste local, os habitantes removeram pedras dos caminhos para fazerem currais para os animais ou bases para as suas casas de tijolos de barro. As empresas de mineração também pavimentaram trechos da rede Qhapaq Ñan para construir estradas de acesso – embora a lei peruana salvaguarde este património nacional.

Será que o turismo consegue salvar Qhapaq Ñan?

Nick Stanziano, cofundador e CEO da empresa de aventuras SA Expeditions, sediada em Lima, vê o ecoturismo como a melhor forma de combater a rápida deterioração da rota. Depois de estudar mapas antigos, examinar textos seculares e consultar investigadores peruanos, Nick Stanziano partiu com John Leivers numa série de expedições a partir de 2017. O objetivo era desenvolver o turismo de aventura na rede de Qhapaq Ñan, sendo necessário para isso avaliar os melhores trilhos, abri-los para os caminhantes e reunir as equipas de apoio (cozinheiros, guias de montanha e tratadores de lhamas) necessárias para gerir as caminhadas nos altos Andes.

Muitas das caminhadas peruanas ao longo da rede de Qhapaq Ñan começam em Huánuco Pampa, uma cidade inca notável pelos seus depósitos de pedra e uma ushnu, ou pirâmide cerimonial.

Fotografia por of SA Expeditions

Nick Stanziano concentrou os seus esforços no Grande Trilho Inca, a espinha dorsal peruana da rede de Qhapaq Ñan. É a estrada mais monumental que existe e tem o tipo de valor estético necessário para desenvolver o turismo.

“Esta é a maior estrada pré-industrial que existe atualmente e está num lugar que foi esquecido pelo mundo industrial”, diz Nick Stanziano. “Portanto, é necessário haver alguns incentivos económicos para a preservar, e acredito que o turismo é o melhor que podemos oferecer a esta região, que precisa urgentemente de um desenvolvimento mais humano.”

O e-book de Nick Stanziano documenta 220 dias na rede de Qhapaq Ñan, explicando como o Grande Trilho Inca de 30.000 quilómetros se pode tornar numa rota turística épica semelhante ao famoso Pacific Crest Trail, onde Nick cresceu, no norte da Califórnia. Por enquanto, Nick Stanziano está concentrado num trecho com cerca de 160 quilómetros a meio do percurso, oferecendo caminhadas de cinco dias e 80 quilómetros em direção a norte e a sul de Huánuco Pampa, que fica a cerca de 440 quilómetros a nordeste de Lima.

As operadoras turísticas peruanas, como a Apumayo Expediciones e a Lima Tours, têm seguido o exemplo com caminhadas semelhantes; e as grandes empresas internacionais, incluindo a Intrepid, planeiam lançar as suas rotas em 2023, ajudando a guiar os caminhantes aventureiros por este terreno de alta altitude, onde as temperaturas na época alta de inverno (de maio a setembro) podem oscilar entre um sol escaldante e um frio de rachar.

Ao longo da rede de trilhos de Qhapaq Ñan, os caminhantes atravessam uma passagem andina a uma altitude superior a 4,500 metros. Para combater os efeitos da altitude, os habitantes locais recomendam mascar folhas de coca.

Fotografia por of SA Expeditions

A maioria das caminhadas envolve campismo selvagem perto dos referidos tambos ou de aldeias, ou nas quintas familiares ao longo do caminho, injetando assim dinheiro na economia local através das taxas de campismo, no comércio de alimentos e no acesso às ruínas.

‘O futuro está nestas estradas’

A vila de Huánuco Pampa oferece o melhor exemplo de como a indústria do turismo, o Ministério da Cultura do Peru, os doadores estrangeiros e as comunidades locais estão a cooperar para preservar a rede de Qhapaq Ñan e para a mostrar às pessoas vindas de fora. Graças em parte a uma doação de 100.000 dólares feita em 2018 pela Embaixada dos EUA, os arqueólogos estão agora a restaurar as ruínas de um enorme centro administrativo neste local, que inclui um templo inca, um ushnu (estrutura cerimonial) e imponentes qollqas (armazéns) construídos entre 1460 e 1539.

Estes esforços têm atraído turistas, que ficam na região graças a um novo parque de campismo com instalações para refeições e visitas guiadas, tudo fornecido por uma cooperativa de turismo gerida por 20 moradores da comunidade vizinha de Aguaymiro.

“Caminhar ao lado de lhamas ternurentas por baixo de apus cobertas de neve (divindades da montanha), mascar folhas de coca para evitar os efeitos da altitude, é difícil perceber como é que estes caminhos monumentais de pedra foram esquecidos pelo tempo.”

por MARK JOHANSON

“Temos o privilégio de ter um legado muito poderoso no Peru, mas nem sempre o reconhecemos ou as formas como o podemos transformar em oportunidades de desenvolvimento para as comunidades rurais”, explica Carla Córdova, especialista do Ministério da Cultura do Peru, que ajudou a formar a cooperativa de Huánuco Pampa em 2017. “Para as comunidades investirem na conservação, primeiro precisam de ver alguns benefícios tangíveis.”

José Valverde, membro da referida cooperativa, diz que ficou surpreendido quando percebeu que Huánuco Pampa podia “atrair tantos estrangeiros como Cusco”. José Valverde oferece visitas guiadas às ruínas e prepara fartas refeições de pachamanca, onde carnes e batatas são cozidas num forno de barro sobre pedras quentes. “Nós, enquanto comunidade, precisamos de perceber que, com o turismo, também podemos ganhar a vida. Sobreviver só da agricultura já não está a funcionar assim tão bem para nós.”

Existem sete locais semelhantes a Huánuco Pampa ao longo das secções peruanas de rede de Qhapaq Ñan que agora têm equipas do Ministério da Cultura a trabalhar na investigação, conservação e alcance comunitário. Nick Stanziano fica assim esperançoso de que, na próxima década, trechos importantes do Grande Trilho Inca possam ver um grupo ou dois de caminhantes a passar diariamente, com uma variedade de empresas a comprar alimentos aos agricultores locais, com pessoas a acampar nas suas terras e a criar novas oportunidades económicas ao longo do caminho.

“O Peru tem de pensar como é que vai ser o turismo daqui a 20 anos”, diz Nick Stanziano. “E acredito que o futuro está nestas estradas.”

PLANO DE VIAGEM

Como chegar: Para chegar a Huánuco Pampa, faça a viagem de oito horas de autocarro (10 dólares) de Lima até La Unión, a vila mais próxima, e apanhe um táxi para as ruínas. Alternativamente, as operadoras como a SA Expeditions oferecem o transporte de Lima em excursões com reserva.

O que esperar: As caminhadas ao longo do centro do Grande Trilho Inca variam em média entre os 15 e 20 quilómetros por dia, dependendo da duração da viagem. As caminhadas podem ser muito desgastantes devido à alta altitude. Não há parques de campismo para além de Huánuco Pampa, pelo que a maioria dos caminhantes monta as suas tendas perto de tambos ou em quintas familiares (ambos tipicamente perto de água doce), pagando uma taxa informal de alguns dólares por pessoa para ajudar a comunidade local. É útil saber falar espanhol básico para comunicar. As temperaturas podem cair muito abaixo de zero durante a noite, mas geralmente está sol e um ambiente primaveril durante o dia.

Excursões guiadas: O Grande Trilho Inca é na sua maior parte fácil de navegar (basta procurar as pedras!), mas dada a altitude e o isolamento, a maioria dos visitantes opta por levar lhamas para transportar os mantimentos, bem como cozinheiros para obter e preparar as refeições. Um pacote turístico completo de oito dias partindo de Lima com transporte, guias, equipamentos, cozinheiros, lhamas e hotéis custa cerca de 5.000 dólares por pessoa.

Mark Johanson é um jornalista chileno que escreve sobre viagens, gastronomia e cultura. Pode encontrá-lo no Instagram e no Twitter.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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