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Será que a música consegue salvar um idioma em vias de desaparecer?

Um movimento ditado ao ritmo da música está a revitalizar a língua garifuna na América Central, no Belize, e os viajantes são convidados a participar.

Por Stephanie Vermillion
Publicado 8/08/2022, 09:52
Hopkins, Belize

Cantores, bailarinos e bateristas garifunas dão um espetáculo em Hopkins, uma pequena vila no distrito de Stann Creek, no Belize. O povo garifuna está a usar a música para revitalizar o seu idioma, que está em vias de desaparecer. Um novo trilho cultural oferece aos viajantes uma forma de conhecer e ajudar este importante movimento cultural.

Fotografia por Roijoy, Getty Images

Os famosos e biodiversificados sítios de mergulho que atraem aventureiros para a Barreira de Coral do Belize são uma das histórias de sucesso de conservação da América Central. Mas há outro movimento de restauração impressionante em andamento em terra firme – a luta para revitalizar uma língua em perigo de desaparecer.

Durante séculos, o povo afro-indígena garifuna da América Central tem mantido viva a sua história cultural de forma oral, recorrendo à língua nativa dos seus antepassados. Contudo, as décadas de modernização, o ensino desleixado da língua nativa nas escolas garifunas, os casamentos entre culturas e os poucos jovens que falam esta língua levaram coletivamente em 2001 o idioma garifuna a ficar listado no Atlas de Línguas Ameaçadas da UNESCO. Hoje, os linguistas estimam que restam cerca de 100.000 falantes deste idioma.

Hopkins, uma pequena vila piscatória na costa do distrito de Stann Creek, é frequentemente considerada o epicentro da cultura garifuna no Belize.

Fotografia por Hemis, Alamy Stock Photo

A ameaça de extinção de línguas não é uma coisa recente. Alguns linguistas estimam que desaparece um idioma a cada duas semanas, porque alguns tornam-se ferramentas dominantes para trocas sociais e económicas, ao passo que outros vão perdendo o seu espaço.

Mas também existem maneiras de salvar os idiomas em risco. A chave é a língua ser pensada e não tanto preservada, “fazendo de facto parte do nosso presente como do nosso futuro”, diz Liliana Sánchez, linguista e professora da Universidade de Illinois em Chicago.

É exatamente isso que o povo Garinagu (Garifuna) está a fazer. Nas últimas duas décadas, os artistas garifunas têm recorrido a um marco cultural – um estilo de música ritmado – para inspirar os jovens garinagu a aprender e a partilhar a sua língua nativa. Agora, com o novo Trilho de Turismo Garifuna do Belize, os viajantes também podem conhecer e ajudar este renascimento cultural.

Uma cultura orgulhosa

De acordo com a história oral, os garinagu descendem de um grupo de africanos ocidentais que sobreviveram ao naufrágio de um navio negreiro no Mar das Caraíbas no século XVII. Os sobreviventes nadaram até à ilha de São Vicente, agora parte do país caribenho de São Vicente e Granadinas. Estas pessoas passaram mais de um século a estabelecer-se e a casar com a população indígena Carib-Arawak da ilha, criando a cultura garifuna.

Um bailarino garinagu faz o jankunu para uma multidão em Dangriga, no Belize. Este espetáculo satírico é uma mistura de canto, mímica e dança.

Fotografia por Edwin Remsberg, VWPics, Redux

Durante quase cem anos, os garinagu lutaram contra a colonização de São Vicente. Os britânicos tomaram a ilha no final do século XVIII, e depois exilaram os Garinagu sobreviventes para as Honduras. A partir daí, os garifuna dispersaram-se pela Nicarágua, Guatemala e Belize, onde, enquanto cultura centrada na pesca, se estabeleceram em comunidades costeiras.

Alvin Laredo, um guia turístico garifuna da vila de Barranco, na região sul do Belize, diz que os garinagu da atualidade precisam mais do que simples histórias, precisam do idioma real, para compreender a posição corajosa dos seus antepassados contra a escravatura. Sem isso, diz Alvin, a nossa cultura nunca estará completa. “Quando estamos a perder o nosso idioma, estamos a perder as nossas raízes. Isto desmantela tudo aquilo pelo qual os nossos antepassados lutaram.”

Os Garifuna Collective atuam no Festival Jazz & Heritage de Nova Orleães, no Fair Grounds Race Course em abril de 2016. Durante as apresentações de jankuku, os homens usam trajes coloniais e máscaras brancas para troçar dos seus escravizadores britânicos.

Alvin Laredo acrescenta que grande parte da história dos seus antepassados é transmitida não apenas por palavras, mas por canções e danças, como o jankunu. Nesta dança satírica, executada ao ritmo de tambores durante os feriados de Natal e Ano Novo, os garinagu usam máscaras brancas e trajes coloniais para troçar dos seus mestres escravizadores ingleses.

O poder da música

Estes elementos da cultura garifuna – incluindo a música, dança e idioma – foram listados como uma Obra-prima do Património Oral e Imaterial da Humanidade da UNESCO em 2001. Na mesma época, músicos e ativistas culturais garifunas traçaram um plano: criar melodias irresistíveis, cantadas inteiramente em garifuna, para mobilizar os jovens garinagu a abraçar a cultura e aprender a língua.

Os espetáculos de jankunu acontecem frequentemente durante as celebrações de Natal e Ano Novo. As mulheres podem cantar com o grupo, mas os tambores e as danças são exclusivas dos homens garifuna.

Fotografia por Kacie Crisp, Getty Images

Ou, como disse em entrevista em 2007 o garifuna cantor, compositor e Artista da Paz da UNESCO, Andy Palacio: “Isto torna a cultura garifuna ‘fixe’”.

Punta-rock é que leva tudo pelos ares”, diz Alvin Laredo. É semelhante ao punta, mas com teclado, guitarra elétrica e mais – a mistura perfeita para impressionar no palco mundial.

Andy Palacio, ele próprio um líder neste renascimento cultural, começou a reunir músicos garifunas em 2007 por toda a América Central para formar a banda Garifuna Collective. As letras Garifuna passam uma mensagem poderosa – chegou o momento de defender a nossa cultura.

Depois de várias digressões mundiais e prémios de música internacionais, os Garifuna Collective “colocaram os garifuna no mapa internacional e levaram o Belize juntamente com eles”, diz Alvin Laredo. Apesar de Andy Palacio ter falecido em 2008, as suas letras e o trabalho de ativistas musicais garifuna por toda a América Central reacenderam uma chama cultural para os garinagu pelo mundo inteiro.

“A música deixou-me intrigado com a cultura; tornou-se numa identidade”, diz Kevin Ramirez, músico e produtor garifuna radicado em Nova Iorque, para onde os seus pais, ambos garifuna, imigraram das Honduras. Kevin Ramirez cresceu a ouvir falar sobre a cultura da sua família, porém, enquanto garifuna americano, tinha dificuldade em compreender a sua identidade. “Sou negro, mas os negros americanos não me acolhiam porque eu falava espanhol; eu falava espanhol, mas os latinos não me acolhiam porque eu era negro.”

Os Garifuna Collective atuam no Festival Paleo em Nyon, na Suíça, em 2017. Esta banda foi formada em 2007 pelo cantor garifuna Andy Palacio para ajudar a revitalizar a música garifuna e levá-la até ao público internacional.

Fotografia por Loona, Abaca, Sipa USA, AP

Kevin encontrou um sentimento de pertença depois de visitar as Honduras e assistir aos espetáculos de música garifuna ao vivo; viagens que o inspiraram a fundar a Hagucha Records, uma das principais editoras garifuna da atualidade. Esta história de recuperação cultural, de aprimoramento e difusão da cultura e da linguagem através da música, espelha a trajetória de muitos artistas garifunas contemporâneos.

Por exemplo, o músico James Lovell adotou este idioma aos 16 anos para seguir os passos do seu músico e revivalista cultural preferido, Pen Cayetano, “o rei do punta-rock”. James Lovell tornou-se parte de um esforço base maior para ensinar este idioma em Nova Iorque. E há cada vez mais aulas de língua garifuna disponíveis online.

Há outro conjunto de músicos que também foi inspirado pela mensagem de Andy Palacio – os fundadores do Battle of the Drums, uma competição internacional de música no Belize. Esta equipa reconhecida ajuda escolas do ensino básico e secundário no Belize a ensinar a cultura e a língua garifuna através da música – uma estratégia que outros professores de idiomas também usam para ensinar garifuna.

Será que a música vai salvar a língua garifuna? Só o tempo o dirá. O idioma garifuna permanece na lista de línguas ameaçadas da UNESCO, que foi atualizada pela última vez em 2010. E, tal como os havaianos aprenderam ao revitalizar a sua própria língua após a colonização, este tipo de renascimento é um caminho longo e multigeracional.

O papel desempenhado pelo turismo

O renascimento da língua garifuna recebeu agora uma ajuda muito bem-vinda – o Trilho de Turismo Garifuna do Belize, inaugurado formalmente em março de 2022. Semelhante às experiências culturais Maia do país, este trilho é o primeiro esforço coletivo do Belize para promover as experiências de turismo garifuna. Em vez de seguir um modelo de turismo de “bailarinos em estâncias”, os garinagu convidam os viajantes a conhecer e a ligarem-se a esta cultura nos locais onde os garifuna vivem, sob as suas condições.

Esta iniciativa, financiada por doações, é liderada pelo Conselho de Turismo do Belize e pela Organização de Turismo das Caraíbas, incluindo 50 empresas geridas por garifunas em Dangriga e Hopkins, dois centros culturais na costa sul do Belize. À medida que o trilho cresce, os organizadores esperam adicionar mais negócios locais à mistura.

As experiências variam desde aulas de música no Lebeha Drumming Center, em Hopkins, a exposições de arte tradicional na Galeria Garinagu de Artes e Ofícios em Dangriga. Os objetivos que faltam cumprir para o trilho ficar concluído em 2024  incluem a formação de guias turísticos e a expansão para outras cidades garifunas.

O turismo por si só não vai salvar um idioma; até porque um renascimento sustentável deve primeiro assentar raízes com os próprios falantes nativos. Mas o turismo pode fornecer uma motivação eficaz para a retenção da língua: os rendimentos económicos. Liliana Sánchez diz que, as oportunidades económicas, juntamente com o orgulho sobre a identidade cultural, podem ajudar a motivar os jovens garinagu a continuar a aprender o idioma.

Há outro lugar, quiçá inesperado, onde Alvin Laredo e Kevin Ramirez encontram esperança para o futuro da cultura dos seus antepassados: no TikTok, onde vídeos de punta-rock com novas versões das músicas e danças tradicionais garifuna já acumulam coletivamente 800 milhões de visualizações – e continuam a subir.

DESCOBRIR A CULTURA GARIFUNA DO BELIZE

Vila de Barranco, distrito de Toledo: Desfrute de espetáculos de punta, aulas de culinária e atrações culturais em Barranco, no sul do Belize, uma vila garifuna tradicional e local de nascimento de Andy Palacio.

Lebeha Drumming Center, em Hopkins: Aprenda a tocar bateria, a dançar e a cantar como um garinagu no Lebeha Drumming Center, uma sala de música ao vivo no coração de Hopkins.

Restaurante Black & White Garifuna, em Ambergris Caye: Prove a culinária garifuna e aprenda sobre a cultura local no Restaurante Black & White Garifuna, o principal centro cultural garifuna no sítio de férias mais popular do Belize, Ambergris Caye.

Stephanie Vermillion é uma cineasta, fotógrafa e jornalista que cobre viagens e atividades ao ar livre. Pode seguir as suas aventuras no Twitter e Instagram.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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