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4 Lugares incríveis que necessitam urgentemente de conservação

Desde o Peru à Zâmbia, os exploradores revelam lugares maravilhosamente selvagens e preciosos que estão ameaçados.

Por Allie Yang
Publicado 21/09/2022, 14:23
Monte Kilimanjaro

Aproximadamente 30.000 pessoas tentam escalar o Monte Kilimanjaro todos os anos, um feito que o alpinista Phil Henderson encoraja qualquer pessoa com capacidade para tentar. Phil Henderson diz que esta jornada relativamente acessível é uma ótima maneira de as pessoas verem os efeitos das alterações climáticas em ação.

Fotografia por Stephen Álvarez, Nat Geo Image Collection

Desde o líder de expedições ao Evereste Phil Henderson, ao cineasta de vida selvagem Bertie Gregory, os exploradores da atualidade colocam a conservação no centro das suas expedições. Estes aventureiros pretendem mostrar ao mundo lugares com uma vida selvagem ou valor cultural e histórico extraordinários – mas que estão à beira de sofrer danos irreversíveis.

O efeito dos humanos na natureza vai muito para além das alterações climáticas, abrangendo a caça furtiva e o tráfico de animais selvagens, a desflorestação e a poluição da água. As consequências modernas são apenas a última iteração do nosso impacto. Tal como escreve Yuval Noah Harari no seu livro Homo Deus - História Breve do Amanhã, “quando os nossos antepassados da Idade da Pedra se espalharam de África Oriental para os quatro cantos da Terra, mudaram a flora e fauna de todos os continentes e ilhas onde se estabeleceram… mesmo antes de plantarem o primeiro campo de trigo, moldarem a primeira ferramenta de metal, escreverem o primeiro texto ou cunharem a primeira moeda.”

Seguem-se quatro lugares que alguns dos principais exploradores do planeta querem que as pessoas conheçam antes de as suas paisagens mudarem para sempre.

Ajudar os morcegos-da-fruta na Zâmbia

Com apenas 29 anos, Bertie Gregory, cineasta de vida selvagem e Explorador da National Geographic, já tem uma carreira incrível a produzir e a apresentar vários documentários premiados com a National Geographic pelo mundo inteiro. Mas há um lugar que precisa de conservação que se destaca na sua memória: o Parque Nacional de Kasanka, na Zâmbia.

Os morcegos-da-fruta que vivem no Parque Nacional de Kasanka, na Zâmbia, dependem de fontes de alimentos que estão fora das suas fronteiras em terras ameaçadas pela desflorestação.

Enquanto filmava um episódio de Aventuras Épicas para a National Geographic, a equipa de Bertie Gregory testemunhou a migração de morcegos do Parque Nacional de Kasanka, a maior migração de mamíferos em África. Os morcegos-da-fruta saem para se alimentar na escuridão e correm contra o tempo – quanto mais tempo passarem a alimentar-se, mais conseguem comer. Contudo, assim que nasce o dia, os seus predadores (incluindo águias-marciais, coroadas e pesqueiras) têm luz suficiente para os caçar.

 (Veja Aventuras Épicas com Bertie Gregory no Disney+.)

“Ver 10 milhões de animais nos céus é completamente alucinante e de facto é algo muito difícil para o nosso cérebro processar”, diz Bertie Gregory. “Parecia que estava a viajar no tempo até uma Terra pré-histórica enquanto os sons das suas asas a bater e chamamentos ocupavam o ar. Ficámos lá um mês e todas as manhãs eram inspiradoras.”

Os morcegos – e todos os outros animais selvagens deste parque nacional – estão ameaçados pela agricultura industrial. Bertie Gregory diz que, quando visitou o local, enormes áreas de floresta já tinham sido cortadas ilegalmente perto dos limites do parque.

“Os cientistas colocaram etiquetas de rastreio em alguns dos morcegos e descobriram que estes podem voar mais de 50 quilómetros a partir dos poleiros todas as noites para se alimentarem. É muito distante da área protegida, ou seja, embora a preservação dos poleiros seja importante, se a área em torno do parque nacional estiver a ser desflorestada, esta migração épica vai desaparecer”, diz Bertie. “Perder estes morcegos é uma tragédia que vai muito para além de perdermos um espetáculo alucinante de vida selvagem. Os morcegos-da-fruta são conhecidos como os jardineiros de África.”

Isto porque quando os morcegos comem fruta, engolem as sementes e “plantam-nas” através dos seus excrementos. A desflorestação pode quebrar este ciclo natural – menos fruta significa menos morcegos, e menos morcegos significa menos árvores novas e assim por diante.

Desde que Bertie Gregory filmou o referido episódio para a série Aventuras Épicas, houve algumas notícias positivas. Um juiz na Zâmbia emitiu uma interdição que impede duas empresas de derrubar florestas junto ao parque nacional – um pequeno passo, mas que é vital na longa batalha para salvar a vida selvagem de Kasanka.

“É realmente remar contra a maré. É vital não apenas manter a floresta existente – tal como acontece em muitos lugares pelo mundo inteiro – mas também precisamos de aumentar a cobertura florestal”, diz Bertie Gregory. “Isto é vital para os morcegos, para o ecossistema, para o clima e crucialmente para nós, os humanos”.

Proteger uma forma de vida no Vale Sagrado do Peru

Carmen Chávez é uma bióloga tropical e Exploradora da National Geographic que iniciou a sua carreira profissional ao participar em projetos de investigação na Estação Biológica de Cocha Cashu, no Parque Nacional de Manú, no Peru. Quando Carmen era mais nova, a sua família muitas vezes enchia o seu Volkswagen “carocha” para acampar no Vale Sagrado dos Incas.

O rio Vilcanota, no Peru, atravessa a cidade de Ollantaytambo, que tem várias ruínas Incas e é um dos destaques importantes do Vale Sagrado.

Fotografia por Javier Gogna, Getty Images

Uma das memórias que Carmen guarda é a do seu pai a dedicar-lhe a pesca do dia no seu quinto aniversário – uma truta, uma espécie invasora que foi introduzida intencionalmente décadas antes vinda da América do Norte para ajudar a economia. A sua família comprou terrenos agrícolas no coração do Vale Sagrado e dedicou a sua vida ao cultivo tradicional de milho e batata.

“Quando eu era criança, corria livremente pelos campos e nadava nos pequenos rios e riachos de águas limpas cheios de peixe”, diz Carmen Chávez. “O mesmo afluente do rio Vilcanota da minha infância, onde eu nadava, é agora o coletor de águas residuais da cidade crescente de Lamay. Com águas negras, poluídas e com um odor forte a putrefação, [é] um lugar que não deixo o meu filho chegar perto.”

Os tratamentos básicos de água e os sistemas de esgoto rudimentares ou inexistentes despejam águas residuais diretamente nos riachos que desaguam no rio Vilcanota, diz Carmen. Este rio ainda continua a ser a principal fonte de irrigação para toda a agricultura no vale. A mineração ilegal de areia e pedra também interrompe o fluxo natural do rio e contribui para a inundação de quintas e cidades locais.

(Explore a vida Inca para além de Machu Picchu neste trilho sul americano.)

Esta região é um lugar sagrado para a cultura Inca em grande parte porque os seus terrenos férteis sustentavam a próspera civilização antes da chegada dos colonizadores espanhóis. O Vale Sagrado continua a suportar as comunidades com quinoa, kiwicha (um cereal que pode ser usado para substituir a farinha), variedades de batata e o milho branco gigante, que só cresce neste local.

“Os agricultores, assim como o meu pai e o meu irmão, vivem agora na incerteza devido às mudanças sem precedentes nos padrões climáticos e às consequências inegáveis de um clima cada vez mais quente”, diz Carmen Chávez, acrescentando que há pouco interesse entre a geração mais nova em continuar a agricultura tradicional e que há uma dependência crescente dos fertilizantes sintéticos que são nocivos.

Lidar com as alterações climáticas no Kilimanjaro

Em maio de 2022, Phil Henderson liderou a primeira expedição composta inteiramente por negros ao cume do Evereste. Sete membros chegaram ao cume, duplicando o número de alpinistas negros a conseguir tal feito. Mas para Phil Henderson, há outra montanha que lhe vem à mente quando questionado sobre um lugar que lhe seja mais querido.

O povo Massai caminha pela área de conservação de Elerai, perto do Parque Nacional de Amboseli, no Quénia, com o Monte Kilimanjaro em pano de fundo.

Fotografia por Roger de la Harpe, Education Images, Universal Images Group, Getty Images

Phil Henderson escalou pela primeira vez o Kilimanjaro, a montanha mais alta de África, com 5.895 metros de altitude, no ano 2000.

“As pessoas, a cultura e a terra estão todas ligadas. Se olharmos para a montanha em si, é única porque se eleva nas planícies de África, não está no meio de uma cordilheira”, diz Phil. “É um lugar onde o público pode realmente ser educado sobre as alterações climáticas e a ligação entre as pessoas. A razão pela qual visitamos um lugar como este não é pela experiência selvagem, mas sim para ter uma experiência cultural.”

(Descubra como Phil Henderson e a sua equipa fizeram história no Evereste.)

O povo Chagga, o terceiro maior grupo étnico da Tanzânia, está intimamente ligado a esta montanha. Este povo vive nas encostas sul e leste do Kilimanjaro, produzindo banana, café e milho nos seus solos férteis.

Estas comunidades são testemunhas do desaparecimento das calotas polares e glaciares da montanha, que podem desaparecer nos próximos 25 anos, segundo os especialistas, em grande parte devido às alterações climáticas.

“Regressei ao local em 2018 e houve uma mudança drástica na quantidade de gelo permanente na montanha”, diz Phil Henderson. “Eles estão a enfrentar tempestades severas e temperaturas demasiado elevadas, seguidas de seca severa.”

Phil Henderson diz que a solução deve passar por um esforço global para conter as alterações climáticas. Phil espera que as pessoas que escalam o Kilimanjaro ajudem a espalhar esta mensagem.

Escutar os leões no Parque Nacional de Luangwa Sul

Thandiwe Mweetwa, bióloga de vida selvagem natural da Zâmbia e Exploradora da National Geographic, gere o departamento de educação sobre conservação do Programa de Carnívoros da Zâmbia. Esta iniciativa foi projetada para obter o apoio local para a proteção dos grandes carnívoros e do seu habitat – e para promover o interesse em carreiras de conservação entre os jovens locais.

Um grupo de leões descansa sob um céu estrelado no Parque Nacional de Luangwa Sul.

Fotografia por Nature Picture Library, Alamy Stock Photos

Um dos lugares favoritos de Thandiwe Mweeta é o Setor Nsefu, no Parque Nacional de Luangwa Sul, na Zâmbia, um local que Thandiwe visita quando está a trabalhar e também nas férias.

“Visitei este lugar pela primeira vez em 2009, no meu primeiro dia de trabalho como voluntária no Programa de Carnívoros da Zâmbia, e fiquei instantaneamente impressionada com a beleza da região”, diz Thandiwe. “É um santuário de vida selvagem muito rico em caça na margem leste do rio Luangwa. É o lar de uma diversidade de espécies carismáticas de vida selvagem, como cães selvagens, leões, grandes manadas de búfalos e bandos enormes de pássaros icónicos, como o grou-coroado. A área também tem locais culturais e históricos muito interessantes, como um sítio antigo para fazer chuva”, um lugar onde as comunidades de antigamente rezavam para chover em tempos de seca.

Thandiwe Mweeta descreve a sua primeira visita ao Setor Nsefu como uma experiência que lhe mudou a vida. Enquanto os voluntários ajudavam os investigadores a colocar coleiras de rádio para rastrear os leões na área, usaram sons de búfalos a morrer para atrair os grandes felinos. Três leões jovens avançaram rapidamente e pararam perto do veículo da equipa.

“Consegui sentir de perto todo o poder dos leões a rugir”, diz Thandiwe. “Parecia que estava tudo a tremer. O carro estava literalmente a vibrar. Senti como se os meus órgãos internos também estivessem a vibrar em sintonia com os rugidos destes jovens leões poderosos. Foi uma experiência muito intensa e espiritual.”

Porém, os leões e outros animais selvagens por toda a África estão ameaçados, diz Thandiwe Mweeta. O Setor Nsefu também não escapou ao impacto das atividades ilegais, como a caça furtiva com armadilhas de arame que é impulsionada pelo comércio ilegal de carne de caça. As espécies-alvo são principalmente os ungulados (grandes mamíferos com cascos), como impalas e pukus, explica Thandiwe, mas também animais maiores, como búfalos e hipopótamos.

A convivência complicada dos humanos com a vida selvagem também é um problema, porque os leões e outros carnívoros atacam por vezes o gado da população local.

As alterações climáticas são uma ameaça iminente, com os padrões climáticos a tornarem-se cada vez mais imprevisíveis, diz Thandiwe Mweeta. “Com todos estes desafios, corremos o risco de perder o ecossistema e a incrível diversidade de vida selvagem que existe aqui atualmente e torna este lugar excecional.”

As comunidades locais, agências governamentais e conservacionistas estão a colaborar para lidar com estas preocupações. “Através da ciência de conservação, das ações, do desenvolvimento de liderança e promoção da coexistência entre pessoas e vida selvagem, estamos a trabalhar para proteger esta área agora e no futuro”, acrescenta Thandiwe. “A força desta colaboração dá-me esperança para o futuro desta magnífica parte do Parque Nacional de Luangwa Sul.”

Aventuras Épicas com Bertie Gregory já está disponível no Disney+.

A National Geographic Society, comprometida em iluminar e proteger as maravilhas do nosso mundo, trabalha e ajuda a financiar a investigação de exploradores como Bertie Gregory, Carmen Chávez e Thandiwe Mweeta.

Allie Yang é editora da National Geographic Travel. Pode encontrá-la no Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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