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As algas são um superalimento que podemos colher

A tendência mais recente à beira-mar é procurar algas – uma forma divertida e sustentável de explorar as áreas costeiras do planeta.

Por Kristen Pope
Publicado 1/09/2022, 11:04
recolha de algas

Heidi Herrmann (à esquerda), da organização Strong Arm Farm, recolhe algas com Ariana Mazzuchi e Jack Herron perto de Jenner, no norte da Califórnia. Nos últimos anos, a colheita de algas marinhas tem vindo a tornar-se cada vez mais popular em todo o mundo.

Fotografia por Michael Macor, The San Francisco Chronicle, Getty Images

Os forrageadores, com os seus capacetes bem apertados, descem até à zona entremarés em East Neuk, ao longo da costa de Fife, na Escócia. À beira da água, o seu guia, Jayson Byles, proprietário da East Neuk Seaweed Foraging, aponta para uma variedade de algas que crescem nas rochas e flutuam nas poças de água – longos fios semelhantes a espaguete marinho cor de azeitona e emaranhados de tons verdes de alfaces-do-mar – perfeitos para um petisco ao final da tarde.

Algas gigantes crescem ao longo da Fossil Bay do Parque Nacional da ilha Maria, na Tasmânia, Austrália, onde colher e comer algas é uma tradição para o povo palawa.

Algumas horas depois, os forrageadores levam a sua recompensa para a praia, onde Jayson Byles acende uma fogueira e prepara um molho para o espaguete marinho, cujo sabor suave pode ser acompanhado por um molho pesto vegan, carbonara ou molho de bacon com cogumelos, dependendo do gosto e preferências dos convidados. A alface-do-mar, com o seu sabor marinho ligeiramente salgado, é enrolada em torno de peixe fresco e depois frita. Cada alga tem um perfil de sabor diferente, explica Jayson Byles. Há um tipo de alga vermelha, chamada dulse, que quando é preparada de uma determinada maneira até pode saber a bacon.

Jayson Byles, um forrageador de longa data, adora apresentar às pessoas este tipo de alimentação sustentável. A melhor parte, diz Jayson, é partilhar a experiência. “É uma forma ótima de criar uma espécie de comunidade onde partilhamos a comida que apanhamos. Existe uma certa antiguidade nisto.”

As algas gigantes, vistas na imagem a crescer nas águas do Parque Nacional das Ilhas do Canal, na Califórnia, ajudam a formar um dossel que abriga muitas criaturas marinhas e desempenham um papel fundamental na mitigação das alterações climáticas.

Fotografia por Douglas Klug, Getty Images

Pelo mundo inteiro, há pessoas que procuram algas desde sempre. Nos últimos anos, esta atividade tem aumentado de popularidade à medida que mais pessoas descobrem os benefícios proporcionados por este superalimento. Desde aromatizar sopas, fazer molho ou até para desidratar, este é um alimento básico em muitos países asiáticos, incluindo no Japão, onde a prefeitura de Okinawa é designada uma “zona azul” de longevidade. Para além disso, a experiência de colher na natureza pode criar ligações profundas com a conservação de áreas costeiras, sobretudo quando o resultado é uma refeição saborosa.

Há muitas variedades de algas que são comestíveis, mas existem práticas recomendadas a levar em consideração quando se forrageia à beira-mar. Para além das precauções de segurança devido às rochas escorregadias, nomeadamente perto das ondas do mar, que são poderosas e imprevisíveis, Jayson Byles enfatiza a importância da sustentabilidade – devemos colher apenas uma pequena parte de cada planta e cortar sempre acima da base, ou seja, nunca devemos arrancar algas das rochas. Eis o que precisa de saber sobre a colheita de algas marinhas.

Introdução ao forrageio de algas

Um forrageio seguro e gratificante envolve muita coisa, e um guia experiente pode fazer uma grande diferença. Os guias podem educar as pessoas sobre fatores grandes e pequenos, desde a forma como o ecossistema costeiro local funciona às roupas que devemos usar para estarmos seguros enquanto vasculhamos por entre as rochas escorregadias.

É essencial conseguir decifrar as previsões meteorológicas e as marés, e saber quando é que o sol se põe para obter a máxima visibilidade. Há vários fatores, como os alertas de rebentação, mau tempo, qualidade da água e chuvas recentes – que podem levar ao escoamento – que podem cancelar ou adiar uma viagem. Os guias também fornecem informações sobre as regras e regulamentos locais – que podem variar bastante – e ensinam os participantes a colher, limpar e a preparar as algas de forma responsável.

As algas marinhas, um superalimento rico em vitaminas e antioxidantes, são comidas pelo mundo inteiro em lugares como Okinawa, no Japão, que é há muito tempo considerada uma zona de muita longevidade.

(‘Forrageio urbano’ – a nova forma de explorar uma cidade.)

A colheita responsável de algas é fundamental para Melissa Hanson, cofundadora da Kelpful, que organiza aventuras de forrageio para adultos e crianças perto de San Luis Obispo, na Califórnia. “Falamos sobre a forma [como] este espaço bonito, frágil e selvagem não é uma mercearia. Não podemos simplesmente chegar aqui e levar o que quisermos”, diz Melissa. “Falamos sobre o que é uma relação de reciprocidade e da gratidão e respeito que devemos ter pela abundância que existe, e reconhecer que isto não está aqui apenas para levarmos o que quisermos.”

Parte desta ética passa por estarmos sensibilizados durante o forrageio, explica Melissa Hanson. “Colhemos apenas as variedades [de algas] que existem em grande abundância naquela época e lugar, e colhemos uma quantidade muito reduzida em relação ao que está no local. O nosso objetivo, quando terminamos, é deixar a área como se não nunca tivéssemos lá estado.”

Ligações culturais

O forrageio de algas marinhas é uma prática cultural importante em muitas comunidades de todo o mundo. No País de Gales, os forrageadores apanham algas para fazer pão de laver, uma tradição secular. Ao longo da costa da Tasmânia, na Austrália (conhecida por lutruwita pelos palawa, um povo aborígene da Tasmânia, os habitantes originais da ilha), a organização wukalina Walk leva os visitantes numa jornada de quatro dias e três noites que envolve caminhadas, experiências culturais e alimentos tradicionais, como algas e marisco.

Esquerda: Superior:

As algas marinhas são cultivadas em muitos lugares, inclusive na ilha de Benjamin, que faz parte das Ilhas Salomão.

Direita: Inferior:

Mulheres colhem algas marinhas para vender, no Golfo de Mannu, em Tamil Nadu, na Índia.

Fotografia por Joerg Boethling, Alamy Stock Photo

Ao longo destas viagens, os guias palawa (cujo idioma não usa muitas palavras e nomes de lugares em maiúsculas) ensinam a moldar e a secar algas numa tigela que é inspirada nas embarcações tradicionais de transporte de água. O objetivo é procurar algas e desfrutar de aspargos marinhos, alfaces-do-mar e muitas outras iguarias.

Melissa West, diretora de operações da wukalina Walk, explica que é tradição as mulheres palawa mergulharem para colher algas marinhas, alimentos e conchas de moluscos endémicos – chamados maireeners – que depois transformam em joalharia. “Eu tenho duas filhas, portanto, é muito importante para mim passar-lhes este conhecimento”, acrescenta Melissa West.

Esquerda: Superior:

Uma agricultora de algas marinhas em Tanga, na Tanzânia, prepara uma corda com algas marinhas para estas crescerem.

Fotografia por Jenny Matthews, Panos Pictures, Redux
Direita: Inferior:

Um mergulhador segura numa variedade de algas marinhas na Reserva Natural de Tjurpannan, em Havstenssund, na Suécia.

Fotografia por Leisa Tyler, LightRocket, Getty Images

Jayson Byles também acredita que é crucial transmitir os seus conhecimentos sobre este tipo de forrageio, muitos dos quais vem da sua ascendência maori. Jayson acredita que fazer isto é particularmente benéfico para os jovens, para incutir uma noção de responsabilidade ambiental. “Gosto de trabalhar com as crianças porque é importante que as próximas gerações conheçam estas áreas e se apaixonem pela praia e pelo litoral.”

Refeições deliciosas

Quando se trata de comer algas, um dos aspetos fundamentais pode ser a sua versatilidade, que pode ajudar até mesmo os mais exigentes – as crianças. Vincent Nattress é um chef que serve algas marinhas colhidas comercialmente no restaurante Orchard Kitchen, em Langley, Washington, do qual é proprietário juntamente com a sua esposa, Tyla.

Vincent Nattress consegue transformar alguns tipos de algas marinhas numa mistura de temperos semelhante ao furikake japonês. Outros tipos de algas podem ser servidos como picles ou misturados num molho. “As algas têm uma capacidade incrível de adicionar o mesmo tipo de umami [sabor] que conseguimos obter dos cogumelos”, diz Vincent Nattress.

Em casa, Vincent prepara algas – que são colhidas graças a uma licença de pesca de marisco/algas – que os seus filhos adolescentes comem com muito gosto. Agora, diz Vincent, eles estão sempre prontos para uma aventura culinária, mesmo quando estamos a viajar. “Não há nada que eles não queiram comer porque foram expostos a tudo.”

Independentemente da forma como se prepara as algas, resume-se tudo à experiência. “Voltar a ligar as pessoas às nossas raízes e à natureza, para mim, é uma grande parte deste forrageio”, diz Jayson Byles. “Não se trata apenas de algas marinhas. É sobre o ambiente, é sobre ligarmo-nos novamente às terras, às águas e também uns aos outros.”

Kristen Pope é uma escritora freelancer que cobre temas como ciência, conservação, vida selvagem e alterações climáticas.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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