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Burning Man – como um festival caótico pode ser acessível para todos

Descubra como este evento anual transforma o inóspito deserto do Nevada numa cidade artística para foliões de todos os tipos.

Membros do Mobility Camp, que servem de “lamparinas” no festival Burning Man, passam por Black Rock City, um vasto acampamento que serve de base para este festival no deserto. As “lamparinas” fornecem iluminação durante todas as noites do festival, ajudando as pessoas a regressar às suas tendas após o pôr do sol.

Fotografia por Morgan Lieberman
Por Laken Brooks
Publicado 6/09/2022, 11:07

Numa cerimónia que é realizada todos os anos desde 1993, uma procissão de pessoas chamadas “lamparinas” vestidas com mantos bordados com chamas leva os foliões que participam no Burning Man até às instalações de arte homónimas do festival. À medida que a noite cai no deserto do Nevada, uma colossal estátua de madeira, serapilheira e cera é incendiada, marcando a penúltima noite nesta celebração de uma semana que promove uma “inclusão radical”.

O lema de que “todos são bem-vindos” é um princípio fundamental do Burning Man, um espetáculo no deserto onde vale (quase) tudo. Dani Moore – conhecida por “Rat Lady” pelos seus companheiros “incendiários” – tem ajudado a fazer história. Dani Moore foi uma das primeiras “lamparinas” a usar uma cadeira de rodas, deixando os seus rastos ao lado de pegadas na terra. Dani Moore está entre as centenas de pessoas com limitações físicas que participam neste famoso festival através do Mobility Camp.

Os festivaleiros andam de bicicleta pelos vários acampamentos que compõem a Black Rock City, no deserto de Black Rock, no Nevada.

Fotografia por Morgan Lieberman

Fundado por Dale Huntsman com o nome de Hot Wheelz Camp por volta do ano 2000, o Mobility Camp é um grupo liderado por voluntários no festival Burning Man que torna o acampamento – que é uma parte essencial da experiência – mais acessível. Este grupo fornece estações de recarga para equipamentos médicos e um dos poucos veículos – um trator e reboque Gibson da década de 1940 decorado a condizer com tema criativo de cada ano – que dá acesso às instalações de arte espalhadas pelo deserto.

O Mobility Camp é um dos diversos grupos do festival Burning Man que ajudam a promover uma noção de comunidade no deserto, mas não é o único. Ao longo dos anos, o festival tem contado com o grupo Da Dirty Hands, uma comunidade para festivaleiros surdos, o Blind Burners, uma comunidade de artistas e voluntários cegos e amblíopes – que torna o festival Burning Man mais acessível para os cegos – e acampamentos como o Uni-Corny, centrado nas pessoas que têm alergias alimentares.

O Mobility Camp, um dos grupos de acessibilidade mais antigos em atividade, mostra como os festivais podem ser mais inclusivos, fornecendo transportes e serviços de apoio adaptados para cadeiras de rodas, com líderes com várias deficiências que asseguram um evento comunitário verdadeiramente acessível.

Igualdade no deserto

Os princípios base do festival afirmam que “qualquer pessoa pode fazer parte do Burning Man”, contudo, o seu ambiente desértico pode ser particularmente severo para as pessoas com deficiências. O festival Burning Man começou em São Francisco em 1986, mas em 1991 mudou-se para Black Rock, uma região árida de desfiladeiros escarpados e leitos secos de lagos a mais de 160 quilómetros a norte de Reno, no Nevada.

Antes da pandemia, cerca de 70.000 a 80.000 participantes faziam a sua jornada anual até Black Rock, construindo uma metrópole improvisada em forma de meia-lua com quase 20 quilómetros quadrados de área, conhecida por playa (espanhol para praia). Recorrendo aos materiais que eles próprios levam, os chamados Burners constroem acampamentos, edifícios comunitários e as descomunais peças de arte que tornam este festival tão distinto. No fim do festival, os participantes derrubam todas as construções e carregam novamente tudo de volta. Tudo isto acontece com temperaturas a rondar os 38 graus, incluindo tempestades de areia imprevisíveis.

Esquerda: Superior:

Dani Moore, conhecida por Rat Lady, leva o seu novo “veículo mutante”, que também transporta a sua cadeira de rodas, até ao Departamento de Veículos Mutantes (DVM) do festival para fazer o registo. O engenheiro russo que criou este quadriciclo pediu a Dani Moore para o testar no deserto.

Direita: Inferior:

A maioria das pessoas que participam no festival Burning Man andam de bicicleta para se movimentar, mesmo que sejam distâncias curtas. Os transportes acessíveis a cadeiras de rodas como este abrem o acampamento de quase 20 quilómetros quadrados para os participantes com mobilidade reduzida.

fotografias de Morgan Lieberman

Os campistas fazem fila para jantar no Mobility Camp, um espaço seguro para participantes do festival Burning Man com vários tipos de deficiências

Fotografia por Morgan Lieberman

“As tempestades de areia são terríveis – a poeira e a areia são corrosivas para as cadeiras de rodas. E o Burning Man é tão grande que podemos ficar presos. A maioria das cadeiras de rodas simplesmente não tem bateria para viajar desde os acampamentos até à playa, onde está a arte”, diz Dani Moore, líder do Mobility Camp. “Conheço pessoas com histórias fantásticas sobre o que viveram no Burning Man, mas disseram-me que nunca iriam ao festival numa cadeira de rodas.”

(Para os viajantes com deficiências, os videojogos são uma janela para o mundo.)

Mas tudo isto está a mudar. Dani Moore diz que, em 2019, 85% das pessoas – desde crianças a idosos – que se inscreveram para ficar no Mobility Camp tinham uma deficiência. (Este acampamento também está aberto para as pessoas que não têm deficiências e procuram acomodações mais silenciosas e livres de substâncias.) Quando a fotógrafa Morgan Lieberman visitou o festival em 2019, conheceu pessoas que não estavam simplesmente a tentar sobreviver, mas sim a prosperar.

As fotografias de Morgan Lieberman revelam uma comunidade onde os membros se ajudam uns aos outros – quer seja a fazer tatuagens temporárias, a deslocar-se até à playa ou a embelezar cadeiras de rodas e muletas.

“A comunidade do Burning Man é muito visual, ou seja, há muitas fotografias online onde parece que todas as pessoas andam de bicicleta. Podemos pensar que este é um lugar para pessoas sem deficiências, mas não é”, diz Morgan Lieberman. “O meu objetivo era ir ao local e documentar os momentos reais de alegria e intimidade que as pessoas de todas as capacidades sentem neste espaço.”

Esquerda: Superior:

Os participantes do festival levam todos os materiais necessários para construir os seus acampamentos, obras de arte e edifícios comunitários. No final do festival, desmontam tudo e seguem as regras de “não deixar rasto”, levando tudo consigo.

Direita: Inferior:

Nesta imagem, uma das muitas instalações de arte que definem o Burning Man ergue-se no deserto.

fotografias de Morgan Lieberman

Para Emily Jacobs, o festival Burning Man teve um impacto profundo no seu bem-estar. Depois de um acidente de viação em 2010 ter resultado na perda da sua perna, Emily sentiu muitas dificuldades de adaptação ao seu novo normal. Seis anos e 37 cirurgias depois, Emily Jacobs estava sozinha, algo pelo qual muitas pessoas passam porque muitas vezes ficam isoladas dos seus pares e não têm acomodações.

Emily Jacobs recebeu um bilhete para o festival, um presente do homem que perdeu o controlo do carro e provocou o acidente que lhe tirou a perna. “Nós ficámos amigos e ele pensou que o Burning Man podia ser um lugar benéfico para mim”, diz Emily.

Aquele que é indiscutivelmente o momento mais dramático do festival acontece na penúltima noite, quando o The Man é incendiado, um ato simbólico para muitos festivaleiros.

Fotografia por Morgan Lieberman

Os festivaleiros desfrutam de um momento de tranquilidade no interior de um veículo decorado no Burning Man.

Fotografia por Morgan Lieberman

“No primeiro ano que fui lá, durante os momentos iniciais, fiquei apavorada. [Eu estava] sozinha, com dores, a montar o acampamento entre estranhos”, diz Emily Jacobs. “Eu nem sequer sabia andar de bicicleta antes do acidente, portanto não sabia o que ia acontecer.” Naquela altura, os médicos de Emily tinham-lhe dado recentemente permissão para fazer exercícios com pesos.

Pouco depois de chegar ao Mobility Camp, Emily Jacobs e outro campista levaram um carrinho de golfe para ver os carros alegóricos alinhados no Departamento de Veículos Mutantes. “Ao menos posso visitar este lugar, mesmo que não consiga fazer mais nada”, pensou Emily na altura.

Cinco anos depois de participar no seu primeiro Burning Man, Emily Jacobs continua grata pela liberdade que tem para traçar a sua própria rota, ao seu ritmo, num dos maiores festivais ao ar livre da América. “Não quero que as pessoas façam as coisas por mim. Quero ter a possibilidade de estar em espaços onde eu posso fazer as coisas por mim própria”, diz Emily Jacobs. “É terapêutico ter independência e receber ajuda quando precisamos, sem qualquer tipo de julgamento.”

Festivais para pessoas de todas as capacidades

De acordo com a National Endowment for the Arts, os eventos de arte (sobretudo os festivais ao ar livre) estão a ganhar popularidade nos Estados Unidos. Esta agência federal afirma que os festivais podem contribuir para o estabelecimento de comunidades mais fortes, incentivando as pessoas a fazer novas ligações, a considerar novas ideias e a fazer novos tipos de arte.

Contudo, muitos festivais e concertos ao ar livre não acomodam pessoas com deficiências ou melhoram a experiência para muitos dos 61 milhões de americanos adultos que vivem com algum tipo de deficiência. Alguns eventos não têm lugares adequados e nem todos contratam intérpretes de língua gestual. Outros podem não estar equipados para pessoas com diferenças de processamento sensorial, onde a música alta e as luzes a piscar podem ser desconfortáveis ou provocar reações.

Mas há progressos. O Pitchfork Music Festival tem plataformas de visualização para as pessoas com deficiências, para estas poderem ver qualquer um dos palcos. O festival Coachella, para além de fornecer plataformas de interpretação e visualização de língua gestual, também designa uma área para as empresas de partilha de viagens que fornecem veículos equipados com cadeiras de rodas. A organização sem fins lucrativos Accessible Festivals colabora com festivais de música e arte para encontrar formas de melhorar as acomodações.

Este membro do Mobility Camp, vestida de “lamparina”, prepara-se para a cerimónia onde se acendem as lâmpadas.

Fotografia por Morgan Lieberman

No entanto, apesar de todos estes progressos, a comunidade de pessoas com deficiências continua a lutar por mais melhorias. Por exemplo, a plataforma de visualização do festival Pitchfork não deixa os participantes sentarem-se ao lado dos seus amigos.

Quando um festival inclui todas as condições, isso traz o benefício adicional de alargar a acessibilidade e melhorar a experiência para muitos outros, incluindo idosos. É o caso de Carolyn Power que, apesar de ter maior risco de exaustão e insolação – perigos reais no Burning Man – diz que se sentiu confortável quando participou no seu primeiro Burning Man com 70 anos, ficando hospedada no Mobility Camp, onde “tem água gelada, sombra e autocarros que nos levam onde precisamos de ir”, diz Carolyn. “São opções ótimas para pessoas com deficiências, mas também são muito úteis para os idosos como eu.”

“Nunca sabemos quando é que vamos precisar destes recursos. Podemos cair e torcer o tornozelo. Podemos estar a um passo de precisar de uma cadeira de rodas”, diz Dani Moore. “À medida que envelhecemos, temos todos mais propensão para ter qualquer tipo de deficiência.”

Porém, não basta dar assistência a quem precisa. Os componentes educacionais do Mobility Camp, que estão acessíveis a todos, oferecem um vislumbre de como é participar no festival com uma deficiência. As experiências de aprendizagem, como os percursos de obstáculos que têm de ser percorridos com muletas e cadeiras de rodas, fornecem uma perspetiva sobre como se pode melhorar as instalações.

Estas lições têm ramificações em tempos de pós-pandemia. À medida que os eventos culturais regressam com programas presenciais após os hiatos induzidos pela pandemia, Morgan Lieberman pondera sobre a forma como a COVID-19 pode mudar o Burning Man. Ninguém sabe quantos americanos continuam a lidar com os efeitos a longo prazo do vírus, como por exemplo a fadiga persistente, os danos respiratórios e casos de névoa cerebral.

“O Templo vai ser intenso este ano. É um lugar de memória e luto”, diz Morgan Lieberman sobre a instalação de arte que foi construída para homenagear um amigo de vários artistas do Burning Man que morreu num acidente de moto. “Vai haver muitas pessoas com uma dor e tristeza que não sentiram em 2019.”

Apesar de alguns eventos comunitários deste género continuarem no limbo devido à pandemia, Dani Moore e os seus colegas campistas estão gratos por poderem cumprimentar um novo grupo de participantes que procuram estabelecer ligações no deserto. “As pessoas com deficiências merecem pertencer”, diz Dani Moore. “Os humanos precisam de aventura e amor, portanto as ‘lamparinas’ em cadeira de rodas vão continuar a carregar as nossas lanternas.”

Laken Brooks escreve sobre deficiência e bem-estar, cultura e tecnologia para a CNN, Washington Post, Forbes e outros meios de comunicação.

Morgan Lieberman é uma fotógrafa documental sediada em Los Angeles, na Califórnia, cujo trabalho se concentra em narrativas de identidade queer, deficiências e capacitação das mulheres. As fotografias de Morgan Lieberman têm sido publicadas no New York Times, Wall Street Journal, Los Angeles Times e noutras publicações.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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