Descubra a história Maia ao longo do primeiro trilho de longa distância do México

Após três anos de desenvolvimento, este trilho de caminhada e ciclismo de 110 quilómetros visita locais culturais Maias quase esquecidos.

Por RICHARD COLLETT
Publicado 26/09/2022, 12:24
Hacienda Uayalceh

A Hacienda Uayalceh é uma das várias propriedades espanholas que pontilham o Camino del Mayab, um trilho construído em colaboração com as comunidades Maias que vivem na Península de Yucatán, no México.

Fotografia por Richard Collett

A oeste das praias repletas de turistas de Cancún, uma rede de antigos trilhos de caminhada e linhas ferroviárias abandonadas foi transformada no Camino del Mayab (Caminho Maia), o primeiro trilho de longa distância do México.

Desenvolvido em colaboração com habitantes Maias, este trilho conta a história dos povos indígenas do México e tem como objetivo elevar as 14 comunidades que vivem ao longo da sua rota de 110 quilómetros, um trajeto que conta uma história de exploração colonial e erosão cultural.

Um passeio de bicicleta de três dias ou uma caminhada de cinco dias leva os visitantes ao coração do mundo Maia em Yucatán – desde Dzoyaxché, uma pequena comunidade construída em torno das paredes amarelas desbotadas de uma quinta do século XIX, cerca de 25 quilómetros a sul de Mérida, até aos templos escavados de Mayapán, uma das últimas grandes capitais Maias.

“O objetivo principal do Camino del Mayab é proteger a cultura, a história e o património das comunidades Maias – elementos que correm o risco de desaparecer”, explica Alberto Gabriel Gutiérrez Cervera, diretor da EcoGuerreros, uma organização de conservação ambiental que ajudou a construir o trilho e faz a sua gestão. “O projeto Camino del Mayab não é apenas para os turistas, é um projeto para todas as pessoas de todas as comunidades.”

Após a conquista espanhola de Yucatán no século XVI, os Maias foram empurrados para a base de um sistema de castas raciais imposto pelos colonizadores europeus. A língua Maia ficou em segundo lugar em detrimento do espanhol, ao passo que os templos Maias foram derrubados e as suas pedras usadas para construir igrejas cristãs.

Atualmente, os Maias continuam em desvantagem na sua terra natal, diz Alberto Cervera, que é descendente Maia. A falta de oportunidades nas áreas rurais força muitas pessoas a procurarem trabalhos na construção civil em Mérida ou empregos em hotéis em Cancún, que continuam a erodir a cultura Maia.

Alberto Cervera espera que o Camino del Mayab comece a mudar esta situação. “Queremos oferecer uma oportunidade através do turismo, para as pessoas poderem optar por permanecer na sua comunidade.”

Uma história de ‘haciendas’

Há quase 3.000 anos, as primeiras cidades Maias foram esculpidas em florestas como as de Dzoyaxché, onde me junto a um pequeno grupo que pedala pelo Camino del Mayab. No século VII d.C., a civilização Maia já se tinha expandido pela América Central e sul do México, construindo templos monumentais como os de Chichen Itza, no México, e Tikal, na Guatemala.

Esquerda: Superior:

Visitantes caminham em direção à Hacienda Yaxcopoil, uma das muitas propriedades espanholas que cultivavam henequém no século XIX, uma cultura comercial que ajudou a enriquecer estas quintas familiares. Agora, quintas como esta ajudam a contar a história dos Maias no Camino del Mayab.

Direita: Inferior:

Nesta imagem vemos uma sala de jantar na Hacienda Yaxcopoil. “A história da Yucatán moderna é a história das quintas”, diz Israel Ortiz, gestor comunitário e guia de trilhos no Camino del Mayab.

fotografias de Richard Collett

A seca, a guerra e o excesso de população provocaram o colapso do império Maia no século IX. Quando os europeus chegaram às Américas no final do século XV, a civilização Maia já tinha recuperado, apenas para enfrentar o ataque da colonização espanhola. Os conquistadores espanhóis começaram a devastar Yucatán em 1527 e, em 1542, os espanhóis estabeleceram Mérida no local de uma povoação Maia chamada Ti'ho. O colonialismo e as doenças trazidas do velho continente devastaram os Maias, e as suas terras foram parceladas e entregues aos colonos europeus.

(Quem eram os Maias? Descodificar os segredos de uma antiga civilização.)

Hoje, as comunidades Maia ao longo do trilho estão localizadas em quintas ou perto das mesmas, propriedades em torno de enormes casas centrais que foram criadas pelos europeus após a conquista espanhola. “A história da Yucatán moderna é a história das quintas”, diz Israel Ortiz, gestor comunitário e guia de trilhos da EcoGuerreros.

No século XIX, as quintas de Yucatán cultivavam enormes quantidades de henequém, um tipo fibroso de agave que pode ser transformado em corda. Este “ouro verde” permitiu a Mérida prosperar, mas foi algo que aconteceu às custas dos Maias, que foram obrigados a servir num sistema de trabalho escravo.

O sistema de quintas persistiu até ao momento em que os produtos sintéticos superaram a necessidade de henequém – após a Segunda Guerra Mundial. Agora, muitas das grandes casas outrora ocupadas pelos hacendados (donos de quintas) são ruínas fantasmagóricas e abandonadas, onde ciclistas como o nosso grupo procuram abrigo do sol.

Algumas quintas, como a Hacienda Yaxcopoil, onde paramos para uma aula de história logo após o início da nossa jornada, foram transformadas em museus ou acomodações. No entanto, “nada mudou realmente”, diz Israel Ortiz, “porque a Hacienda Yaxcopoil continua a pertencer à mesma família há 200 anos”.

Vida no Caminho Maia

Depois de uma breve pausa para descansar na Hacienda Yaxcopoil, passamos a primeira noite em cabanas tradicionais com telhados de colmo em San Antonio Mulix, antes de partirmos cedo na manhã seguinte para Abalá. Seguindo as antigas rotas de transporte de henequém, passamos por apicultores na floresta, onde Israel Ortiz aponta para as marcas nas árvores que eram usadas para guiar os caçadores. Num momento de pura alegria, paramos em silêncio quando um Momotus lessonii, ou Toh em Maia – uma ave de cor turquesa que os Maias acreditavam levar os viajantes às fontes de água – emerge de um poço abandonado.

Esquerda: Superior:

Os caminhantes e ciclistas que percorrem o trilho ficam em acomodações simples, como esta cabana tradicional com telhado de colmo.

Direita: Inferior:

Ao longo do caminho, os viajantes visitam cenotes, sumidouros cheios de água doce que os Maias consideravam locais sagrados.

fotografias de Richard Collett

Conforme avançamos, paramos em alguns dos 3.000 cenotes que pontilham a península. Estes buracos cheios de água doce tornaram-se numa das atrações turísticas mais duradouras da região, fornecendo rendimentos para as famílias locais que possuem coletivamente a terra.

Contudo, como os cenotes eram tradicionalmente dedicados a divindades Maias como Chaac (o deus da chuva) ou considerados entradas para Xibalba (o submundo Maia), pode ser difícil conciliar o seu desenvolvimento enquanto atrações turísticas com as tradições do passado. Um destes cenotes, o Cenote Kankirixche, ainda contém restos humanos e relíquias de rituais Maias. “Os Maias consideram os cenotes sagrados”, diz Israel Ortiz.

É uma situação complexa, mas Israel Ortiz diz que prefere ver as próprias comunidades a gerir o turismo, em vez de venderem os seus recursos naturais a quem oferecer mais.

Quando chegamos a Abalá, vemos outra forma pela qual os habitantes locais estão a restabelecer a sua cultura. Na Casa dos Artesãos de Abalá, propriedade de Jose Pech Remi, encontramos os produtos tradicionais de Yucatán, incluindo o traje Huipil, estátuas de jaguares esculpidas à mão e mel de origem local. “Muitas pessoas trabalham aqui a terra, mas não ganham muito dinheiro”, diz Jose Remi. “Vender artesanato [tradicional] dá às pessoas um rendimento extra [e] ajuda a proteger a nossa cultura e raízes.”

É um fator importante, diz Jose Remi, explicando os problemas da comunidade com o álcool e a dependência devido ao histórico de desvantagens económicas. Para além da loja de artesanato, Jose Remi criou uma fundação que realiza regularmente eventos culturais, onde há música ao vivo, comida e bancas de mercado, gerando trabalho imediato para os habitantes locais, para além de divulgar a cultura de Abalá.

Elsie Maria Neydi Bacab é uma de várias mulheres Maias que gerem um restaurante comunitário em Mucuyche, que serve pratos caseiros tradicionais.

Fotografia por Richard Collett

“As tradições, o conhecimento tradicional e a língua Maia são as características mais importantes da cultura Maia”, acrescenta Alberto Gutiérrez Cervera. “Ser Maia significa preservar a floresta, a água, os animais e as plantas. Significa preservar os Milpa [sistemas de cultivo] e ensinar às gerações seguintes a realizar o Chaa Chaak [uma cerimónia religiosa] para pedir chuva, e celebrar o Hanal Pixan [“Alimento para as Almas”, a versão Maia de Día de los Muertos, ou Dia dos Mortos] para recordar os falecidos”.

Na nossa terceira e última manhã, paramos para reabastecer no Restaurante Comunitário, um antigo edifício abandonado que foi transformado em restaurante local e é gerido pelas mulheres de Mucuyche. Este restaurante oferece alternativas caseiras à Hacienda Mucuyche, um ponto turístico popular repleto de cenotes, propriedade da empresa Xcaret, a mesma empresa que gere os parques temáticos ao longo da Riviera Maia.

Neste restaurante, Elsie Maria Neydi Bacab ajuda a preparar pratos como as papadzules (tortilhas de milho recheadas com ovos cozidos e salsa), os tamales (massa de milho cozida a vapor com recheio de carne e vegetais) e pok chuuc (carne de porco grelhada e marinada em citrinos). “Ser Maia é ter orgulho”, diz Elsie Neydi Bacab, acrescentando que oferecer estes pratos – para além de vestir o Huipil artesanal e continuar a falar a língua Maia – é outra forma importante de preservar as tradições.

Depois de reabastecermos, pedalamos por trilhos cobertos de vegetação densa e vida selvagem, avançando em direção a Mayapán, o ponto final do Camino del Mayab. É aqui que deixamos as nossas bicicletas ao portão e, com as pernas e os músculos doridos, subimos os íngremes degraus de pedra até ao topo do Templo de Kukulkan, a peça central desta antiga capital Maia. Deste ponto elevado, consigo ver as florestas de Yucatán e a rota pela qual pedalámos.

Não há dúvida de o que Camino del Mayab é un reto, ou um desafio, diz Israel Ortiz. E também é um vislumbre de uma parte do México que poucos viajantes veem, e que está muito distante da mentalidade de hotel com tudo incluído de outros destinos mexicanos mais familiares. Alberto Gutiérrez Cervera quer estender o Camino del Mayab numa rede de trilhos que circundem toda a Península de Yucatán, para que mais viajantes possam experimentar este estilo ambicioso de turismo comunitário.

“Com o Camino del Mayab, as pessoas não estão apenas a viajar”, diz Alberto Gutiérrez Cervera, “estão a devolver algo ao local que visitam”.

Richard Collett é um escritor de viagens sediado no Reino Unido focado em cobrir destinos pouco conhecidos e curiosidades culturais. Pode encontrá-lo no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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