A disseminação global do coronavírus está a afetar os viajantes. Mantenha-se atualizado sobre a explicação científica por trás do surto>>

Na Polinésia, as tatuagens vão para além da pele

Por todo o Pacífico, as tatuagens estão gravadas na cultura. Encontrar significado na história “através da pele” ajuda a honrar a tradição.

Um jovem em Oahu, no Havai, faz uma tatuagem da forma tradicional, com um pente afiado mergulhado em tinta e depois na pele. A arte de tatuar é praticada por todo o Triângulo Polinésio, com desenhos e significados que variam de cultura para cultura.

Fotografia por Paul Nicklen, Nat Geo Image Collection
Por Jill K. Robinson
Publicado 1/09/2022, 11:22

Ta-tau, ta-tau, ta-tau. Os sons das ferramentas de tatuagem polinésias tradicionais ecoam quando um osso afiado como uma agulha rasga a minha pele. Enquanto o assistente de tatuador James Samuela segura firmemente na minha perna, olho pela janela do estúdio para ver a ilha verdejante de Mo'orea e o tempo parece abrandar. Pensei em fazer esta tatuagem durante três anos. Mas desde a minha hesitação inicial no jardim do estúdio até à conclusão da tatuagem, passam menos de três horas.

Papeete, a capital do Taiti, é o local que acolhe os navios de cruzeiro. O Taiti é um dos destinos turísticos mais populares desta região.

Fotografia por SHUTTERSTOCK, Nat Geo Image Collection

O legado do tatau polinésio, o nome onomatopeico para a prática de tatuagem, começou há 3.000 anos – as tatuagens são tão diversas quanto as pessoas que as usam. O Triângulo Polinésio inclui mais de mil ilhas individuais no Oceano Pacífico Sul, formando várias dezenas de grupos culturais, a maioria dos quais com as suas próprias tradições distintas de tatuagem.

Pelo mundo inteiro, as tatuagens têm vindo a tornar-se cada vez mais populares – já não são um interesse pessoal que deve ser coberto no trabalho. As tradições indígenas de tatuagem tornaram-se recentemente mais visíveis – em 2021, uma jornalista maori tornou-se na primeira pessoa com tatuagens faciais tradicionais a apresentar as notícias em horário nobre na televisão da Nova Zelândia. Na capa da edição de julho de 2022 da National Geographic, Quannah Rose Chasinghorse – uma modelo com herança Hän Gwich'in e Oglala Lakota – foi fotografada perto das formações rochosas em Tse'Bii'Ndzisgaii, ou Parque Tribal Navajo de Monument Valley (o retrato de Kiliii Yüyan faz parte de um artigo sobre o movimento de soberania nativa).

Um homem com uma tatuagem no braço pesca em Fakarava, o maior atol da Polinésia Francesa que faz parte de uma reserva da biosfera da UNESCO.

A qualidade única das imagens presentes nas tatuagens polinésias tem inspirado os visitantes, incluindo eu, a levar para casa uma lembrança mais permanente. No entanto, ao considerarmos a diferença entre o que é honrar e apropriar uma cultura, como é que os viajantes que não fazem parte desta cultura podem fazer uma tatuagem respeitosamente?

Como esta prática está entrelaçada no modo de vida polinésio, há uma abordagem essencial que requer consideração em relação ao propósito da nossa tatuagem e na forma como comunicamos com o tatuador.

Tatuagens como forma de comunicação cultural

Antigamente, esta prática cultural polinésia era transmitida verbalmente, mas as tatuagens também desempenhavam um papel na transferência de conhecimento usando o corpo como se fosse uma tela. “Tradicionalmente, o tatau servia como uma forma de identificação ou posição social, acompanhando a genealogia da família e representando marcos importantes”, diz James Samuela, cujos pais vieram da Polinésia Francesa – a sua mãe veio do arquipélago das Marquesas e o seu pai veio da ilha do Taiti, capital da Polinésia Francesa.

Esquerda: Superior:

As ilhas que compõem a Polinésia são culturalmente diversas e têm tradições e símbolos únicos de tatuagem. Estas imagens de Teiki Huukena, do Dicionário de Tatuagem Polinésia: Ilhas Marquesas, mostram uma cruz peka 'enana. Este é um dos temas mais populares das Marquesas e representa uma forma humana com os quatro membros representados por linhas curvas no interior de um bloco.

Direita: Inferior:

A chama dançante das Marquesas simboliza a luz que mantém a morte afastada.

fotografias de National Geographic

“Dependendo do arquipélago de onde uma pessoa vem, o tatau é praticado de forma diferente e os símbolos têm significados diferentes”, diz James Samuela. “Por exemplo, as pessoas que vivem [numa] ilha com montanhas ou um atol que só tem coqueiros usam símbolos diferentes da terra com base na sua própria experiência.”

Esquerda: Superior:

Esta forma em espiral representa um broto de feto, simbolizando o início de uma nova vida na cultura de tatuagem das Marquesas.

Direita: Inferior:

Este design das Marquesas inclui formas repetidas que transmitem a imensidão de um céu claro e uma grande jornada.

fotografias de Illustration by National Geographic

Em muitas ilhas do Pacífico, as práticas culturais tradicionais foram desencorajadas e completamente banidas quando surgiram os primeiros contactos com o Ocidente. “As tatuagens eram frequentemente feitas como uma forma de desafiar as potências coloniais, porque esta foi uma das primeiras coisas que os homens brancos tentaram erradicar”, diz Tricia Allen, tatuadora em Oahu que tem uma vasta experiência na história da Polinésia e é autora dos livros The Polynesian Tattoo Today e Tattoo Traditions of Hawaiʻi. “Nas últimas décadas, os habitantes das ilhas do Pacífico recuperaram muitas das suas artes tradicionais e orgulham-se da sua herança cultural, mas é compreensível que as tatuagens possam ser um tópico sensível para os povos indígenas.”

Contar a nossa própria história

Para muitos tatuadores polinésios, a resposta mais confortável para a questão em torno do respeito em vez de apropriação reside no facto de que cada tatuagem ser completamente única, proveniente de uma conversa entre o cliente e o artista.

Um turista faz uma tatuagem tradicional samoana no seu quarto de hotel, no Annie Grey's Lagoon Beach Resort, em Apia, Samoa.

Fotografia por Kent Kobersteen, Nat Geo Image Collection

“Pergunto aos meus clientes sobre as suas próprias histórias e o que querem que a sua tatuagem represente”, diz Eddy Tata, um tatuador do arquipélago das Marquesas que pratica o seu ofício a bordo do Aranui 5, um navio de passageiros e cargueiro que viaja entre o Taiti, as ilhas Marquesas, Tuamotu e o arquipélago das ilhas Sociedade. “Enquanto os clientes falam, faço o design na minha cabeça. Se o cliente me mostrar uma fotografia a pedir um desenho em específico, não o vou copiar. Replicar algo personalizado é uma forma de apropriação – é como roubar a história de outra pessoa. Explico isto à medida que adapto o design para corresponder à narrativa do cliente.”

Em vez de desenhar primeiro com um estêncil de tatuagem no papel e depois transferir a imagem para a pele, muitos artistas polinésios esboçam o desenho diretamente no corpo com uma caneta. Este esboço livre dá ao tatuador a flexibilidade para moldar uma composição única à medida que avança.

Apesar de existirem muitas fontes online que explicam o significado das diferentes imagens e padrões, muitas destas informações não estão corretas, sendo por isso essencial comunicar com o artista sobre o propósito de determinada tatuagem e o que queremos que represente.

Para muitas pessoas, as tatuagens têm um significado profundo e representam uma ligação pessoal. Dada a história da tatuagem enquanto tela para representar linhagens e conquistas familiares, há imagens que tradicionalmente são reservadas para uma utilização apropriada, mas há outras que são tapu, ou proibidas. Para além disso, cada grupo diferente de ilhas tem longas tradições em relação ao local onde as tatuagens são colocadas no corpo, como acontece com os guerreiros tonganeses, cujas tatuagens são feitas desde a cintura até aos joelhos.

Um homem com uma tatuagem polinésia típica de corpo inteiro, em Mo'orea, na Polinésia Francesa.

Embora seja aceitável que um viajante se sinta inspirado por algo, convém ter uma ligação com o design que a pessoa escolhe – afinal de contas, essa pessoa vai viver com a tatuagem no futuro próximo. E deve ser uma representação da jornada e conquistas individuais dessa pessoa.

“Cada tatuagem que tenho demorou três anos – desde o momento em que comecei a pensar sobre elas, incluindo o tempo que demorei a encontrar o artista certo e para conversar com esse artista sobre o simbolismo por trás de cada imagem”, diz Tahiarii Yoram Pariente, especialista em cultura polinésia, conselheiro e conservador sediado em Raʻiātea. “A dor e o simbolismo no ato da tatuagem são muito pessoais, e o que vemos não representa necessariamente toda a história. As pessoas não compreendem de imediato a nossa história se olharem apenas para as nossas tatuagens. É simplesmente a capa de um livro que compõe a pessoa no seu todo.”

(Esta mulher navegou pelo Pacífico sem mapas, revitalizando uma tradição polinésia.)

Intencionalidade

James Samuela acredita que, quando as pessoas percebem que existe um significado e uma história por trás das tatuagens polinésias, passam mais tempo a pensar sobre o que querem e como querem eternizar a sua jornada. “As tatuagens fazem parte das nossas vidas. É uma coisa cultural, não é uma moda”, diz James. “Eu tive sempre interesse em partilhar a arte tradicional tatau com outras pessoas.”

Tal como acontece com muitos outros fatores a considerar enquanto visitantes num destino, tudo se resume a respeitar a vontade dos povos indígenas. Muitas destas culturas estão vivas e prosperam. Se estas pessoas acreditam que há elementos da sua arte devem ser deixados em paz, esse sentimento merece ser respeitado.

“As pessoas não percebem que a grande diferença entre uma tatuagem tradicional e as tatuagem modernas é que, nas culturas tradicionais, as tatuagens são uma marca de conformidade com as normas culturais”, diz Tricia Allen. “Isto é bastante diferente do que acontece na cultura ocidental, onde uma tatuagem geralmente representa a individualidade.”

Os tatuadores aconselham cuidado e ponderação nas escolhas feitas para celebrar uma história pessoal, mas também incentivam os viajantes a não perderem o interesse. Eddy Tata destaca a positividade em sermos curiosos e sensíveis às origens tradicionais do tatau. “Não tenham medo das tatuagens”, diz Eddy. “Sinto que é uma honra partilhar a minha cultura com os outros, e isto é feito de uma forma que leva a minha cultura ao mundo inteiro.”

Regressando ao estúdio de James Samuela, uma osga corre esporadicamente ao longo da parede enquanto um cavalo curioso espreita pela janela aberta. Observo o novo símbolo que tenho na perna. Para um estranho, este símbolo ondulado a negro pode parecer apenas um desenho bonito. Para mim, conta uma história importante sobre a minha vida – a minha ligação com a água e as viagens, bem como o meu trabalho enquanto escritora que partilha as histórias de pessoas e lugares.

A cultura polinésia, e o seu lugar na história que é contado através das tatuagens, torna-se uma parte duradoura de nós próprios. “Nascemos nus e sem nada. Durante a nossa vida acumulamos memórias e, eventualmente, quando morrermos, deixamos tudo partir”, diz Tahiarii Yoram Pariente. “A única coisa que adquirimos ao longo da nossa vida e que fica connosco depois de morrermos são as nossas tatuagens.”

“O que vemos na pele é um subproduto da tatuagem – é uma pele que fazemos. Gravamos a história da nossa vida na pele”, acrescenta Tahiarii Pariente. “É um pouco de eternidade.”

Jill K. Robinson é uma escritora de viagens e aventuras sediada em São Francisco. Pode encontrá-la no Twitter e Instagram.

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler

Também lhe poderá interessar

Viagem e Aventuras
Descubra a história Maia ao longo do primeiro trilho de longa distância do México
Viagem e Aventuras
No Chipre é onde pode encontrar Afrodite
Viagem e Aventuras
Será que a música consegue salvar um idioma em vias de desaparecer?
Viagem e Aventuras
A poluição está a ameaçar parte da arte rupestre mais antiga do mundo
Viagem e Aventuras
A controvérsia em torno das maravilhas antigas desta cidade da Rota da Seda

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio Ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem e aventuras
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeos

Sobre nós

Inscrição

  • Revista
  • Registar
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados