Para os caminhantes muçulmanos, uma comunidade capacitadora faz toda a diferença

Sozinhos, recebem atenção indesejada – mas juntos, sair ao ar livre torna-se “numa experiência maravilhosa”.

Em junho de 2021, uma caminhante na jornada inaugural do grupo Muslim Hikers, no País de Gales, observava a paisagem ao longo do caminho de Llanberis. O grupo britânico Muslim Hikers tem proporcionado uma sensação de segurança e pertença aos seus membros que adoram estar ao ar livre.

Fotografia por Active Inclusion Network
Por Heather Greenwood Davis
Publicado 27/09/2022, 12:01

Aysha Sharif, que usa a cabeça coberta por um hijabe, diz que quando começou a fazer caminhadas regulares em Lake District, Inglaterra, atraía atenções indesejadas.

“Eu usava hijabe, era uma mulher de cor e andava por estas montanhas onde havia muitos brancos”, recorda Aysha Sharif, que é uma dentista paquistanesa britânica e mãe de três filhos. Os comentários dos transeuntes deixavam bem claro que as pessoas achavam que Aysha não pertencia ali naquelas montanhas. Explorar as cidades vizinhas foi ainda pior.

“É nestes momentos que sentimos”, diz Aysha Sharif, “que somos a única pessoa assim, mas é estranho porque falamos a língua, conhecemos a cultura… mas ainda assim existe uma barreira.”

Caminhar é uma das atividades mais fáceis para qualquer viajante participar. Com um simples par de ténis, podemos escolher o nosso destino e partir à aventura. Mas para os caminhantes que são muçulmanos, pode ser mais difícil encontrar um sentimento de pertença.

Contudo, uma iniciativa do maratonista britânico Haroon Mota visa criar uma comunidade de caminhada mais inclusiva e garantir uma experiência melhor para todos os que se queiram aventurar nos espaços selvagens ao ar livre.

Ajudar os caminhantes muçulmanos

A experiência de caminhar sozinha de Aysha Sharif contrasta fortemente com a alegria que ela sentiu no verão passado numa caminhada até ao Monte Snowdon, o pico mais alto da Grã-Bretanha, no País de Gales. Aysha foi acompanhada por dezenas de caminhantes com a mesma cor da pele, a mesma preferência pelo uso tradicional muçulmano do lenço na cabeça (hijabe) e a mesma determinação em completar a caminhada.

“Era uma espécie de família”, recorda Aysha com um suspiro durante uma videochamada a partir de sua casa, perto de Manchester.

Membros do grupo Muslim Hikers param para um almoço com vistas panorâmicas a caminho de Monte Snowdon, o pico mais alto do País de Gales.

Fotografia por Active Inclusion Network

Esta caminhada foi organizada pelo grupo Muslim Hikers, um grupo fundado online por Haroon Mota no Instagram em 2020. Naquele verão, o assassinato de George Floyd provocou indignação global, e Haroon Mota viu uma oportunidade para capacitar a sua comunidade.

Haroon sabia que muitas pessoas na sua comunidade, sobretudo as mulheres muçulmanas que “se cobrem”, achavam a cultura predominantemente branca ao ar livre excludente e intimidante. Haroon Mota decidiu criar um espaço no qual os muçulmanos – com niqabs (coberturas faciais), lenços na cabeça ou barbas compridas – se sentissem seguros e ativos ao ar livre. Desde que os confinamentos devido à pandemia terminaram, o grupo Muslim Hikers conseguiu organizar caminhadas por todo o país e tem planos de crescer.

O problema da sub-representação não é exclusivo da Grã-Bretanha. Um relatório feito em 2021 pela Outdoor Industry Association descobriu que, embora os brancos representem quase 60% da população dos EUA, englobam quase 75% das pessoas que participam em atividades ao ar livre, quer sejam caminhadas, ciclismo, pesca e campismo.

Esquerda: Superior:

Mais de uma centena de participantes juntaram-se à caminhada do grupo Muslim Hikers em setembro de 2021 na Reserva Natural Nacional de Kinder Scout, em Peak District, Inglaterra.

Fotografia por Active Inclusion Network
Direita: Inferior:

O grupo caminha em direção a Kinder Low, uma colina com vistas amplas de Peak District, em Inglaterra.

Fotografia por Active Inclusion Network

Entre as pessoas que participam em atividades ao ar livre mais de uma vez por semana, 6% são asiáticas e 11% são hispânicas. As taxas de participação de negros na mesma categoria permanecem estagnadas nos 9% – um número que não se alterou nos últimos três anos, apesar dos esforços feitos nos últimos anos para aumentar a participação minoritária nos espaços ao ar livre por parte de organizações como a Latinx Hikers, Black People Who Hike, Unlikely Hikers, e Outdoor Asian.

Mas Haroon Mota está otimista de que estas taxas de participação podem vir a mudar. Haroon emprega guias de montanha profissionais para as suas caminhadas, a maioria também muçulmana ou de comunidades de minorias étnicas, para as pessoas se sentirem física e emocionalmente seguras.

Guias profissionais de montanha, a maioria dos quais são muçulmanos ou de comunidades de minorias étnicas no Reino Unido, lideram as caminhadas do grupo Muslim Hikers. Nesta imagem, o grupo caminha em Peak District.

Fotografia por Active Inclusion Network

“Queremos fomentar a confiança e dar às pessoas a oportunidade de estarem em contacto com outras pessoas que pensam da mesma forma… sobretudo quando se trata de mulheres muçulmanas que viajam de forma independente”, diz Haroon. “Estou a ver círculos de amigos a crescer e pessoas a planear as suas próprias aventuras juntas.”

Aysha Sharif diz que estas ligações pessoais são particularmente poderosas. “Não foi apenas uma caminhada, foi como uma oração pessoal”, diz Aysha. “Foi como uma sessão de terapia, e todos estavam apenas a levar as suas próprias experiências de vida e a encorajarem-se uns aos outros. Foi uma sensação muito bonita.”

Construir laços comunitários

O que começou por ser um objetivo para capacitar os caminhantes muçulmanos no Reino Unido tem-se expandido para outras comunidades.

Um passeio organizado recentemente por Haroon Mota em Peak District envolveu uma caminhada durante a tarde seguida de um chá na única loja halal da região. (A fé muçulmana exige que a comida seja halal, referindo-se às leis religiosas que regem a forma como um animal é criado, abatido e consumido.) Este evento esgotou em três horas.

O que os caminhantes provavelmente não sabiam quando se inscreveram é que a proprietária do Salão de Chá Millie’s Hayfield, Rukiya Dadhiwala, de 36 anos, tem enfrentado ataques racistas no seu negócio – que também é um B&B e chocolataria – desde que abriu em 2019. Os amigos dizem a Rukiya Dadhiwala que estão preocupados com a sua segurança.

“Tem sido uma montanha-russa”, diz Rukiya. “Não temos muito apoio na nossa pequena aldeia.”

Portanto, na tarde em que 35 caminhantes muçulmanos comeram na sua loja e beberam chá na esplanada foi um dos momentos altos da sua vida. “Foi maravilhoso ver o salão de chá tão cheio”, diz Rukiya Dadhiwala, que atualmente trabalha apenas dois dias por semana devido à falta de apoio local. “Para mim, olhar pela janela e ver tantas pessoas parecidas comigo foi uma sensação incrível. Foi por isto que chorei tantas lágrimas e é para isto que tenho trabalhado.”

O Millie's Hayfield é o único salão de chá halal em Peak District e um paraíso para os caminhantes que desfrutam de um chá após uma caminhada.

Fotografia por Active Inclusion Network

Recentemente, Haroon Mota foi convidado para falar sobre a forma como a indústria de atividades ao ar livre pode apoiar melhor os atletas do quotidiano durante os períodos obrigatórios de jejum religioso como o Ramadão. (Durante este mês sagrado, os muçulmanos jejuam desde o amanhecer ao anoitecer.)

Algumas empresas de roupa desportiva têm começado a demonstrar o seu apoio. A Arcteryx tem patrocinado eventos do grupo Muslim Hikers; a Jack Wolfskin e a Adidas produzem linhas de roupa desportiva que incluem hijabes e coberturas faciais.

“Neste momento, estamos num ponto muito interessante”, diz Haroon Mota. “Ao mesmo tempo, estamos a pensar em medidas estratégicas que irão criar mudanças ainda mais sustentáveis.”

Os esforços do grupo, porém, também têm atraído atenção negativa. “A nossa caminhada mais recente foi no dia de Natal”, diz Haroon Mota. “Mais de 130 caminhantes de todo o Reino Unido inscreveram-se para subir Mam Tor em Peak District. Após a caminhada, algumas fotografias da nossa viagem foram partilhadas no Facebook no grupo de Caminhadas de Derbyshire e Peak District. Não demorou muito para alguns membros deste grupo fazerem comentários racistas e maldosos.”

Embora a leitura deste tipo de comentários seja dolorosa para os membros do grupo, o resultado provavelmente foi o oposto do esperado pelos seus autores. O grupo Muslim Hikers conquistou mais de 25.000 seguidores nas suas redes sociais em apenas uma semana, com mensagens de inclusividade e solidariedade.

“Não sou o tipo de pessoa que fica perturbada ou desanimada com comentários [racistas], isso só me motiva ainda mais para fazer o que gosto”, diz Haroon Mota. “Vamos continuar a sair ao ar livre, não há nada que nos pare.”

Heather Greenwood Davis é uma escritora de viagens sediada em Toronto e editora colaboradora da National Geographic. Pode encontrá-la no Instagram.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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