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Que segredos antigos esconde este pântano irlandês pouco conhecido?

Um novo centro de visitantes revela um pouco sobre Céide Fields, um sítio arqueológico mais antigo do que as pirâmides do Egito.

Por Yvonne Gordon
Publicado 21/09/2022, 14:40
Céide Fields

Ao longo da costa irlandesa, e outrora enterrado sob pântanos no condado de Mayo, Céide Fields é um dos mais extensos sítios arqueológicos da Idade da Pedra do mundo. As novas experiências de visitantes ajudam os viajantes a compreender como é que a terra era cultivada e preservada neste local há mais de 6.000 anos.

Fotografia por Gareth McCormack, Alamy Stock Photos

Ladeado por penhascos dramáticos e pelo Oceano Atlântico, um trecho de 13 quilómetros quadrados de pântano no condado de Mayo cobre um campo entre Ballycastle e Belmullet, no oeste da Irlanda. Com poucas árvores e colinas rasteiras, o local parece vazio, mas nesta costa isolada encontra-se um dos maiores achados arqueológicos da Irlanda.

Vários pântanos na Irlanda têm revelado vislumbres de sociedades do passado. Os tesouros encontrados nestes locais incluem cálices religiosos, muito ouro, um saltério medieval, “manteiga de pântano” com 2.000 anos (pedaços de manteiga feitos de gordura de leite e enterrados no pântano para preservação) e “corpos de pântano” (restos mortais humanos preservados, como o Homem de Cashel, o corpo de pântano mais antigo encontrado até agora, que data de 2000 a.C.).

Contudo, só na década de 1930, quando um professor de Belderrig, na Irlanda, estava a cortar turfa para combustível é que os primeiros restos do maior sítio neolítico da Irlanda foram revelados. Este achado levou os investigadores a descobrir alguns dos campos mais antigos com paredes de pedra conhecidos no mundo, datados de cerca de 3800 a.C. – mais antigos do que as pirâmides do Egito (2550 a.C.) e Stonehenge (3500 a.C.).

Conhecidos por Céide Fields – ou Achaidh Chéide, que significa “campos de colinas planas” – este local pode não ser tão conhecido quanto o famoso The Burren, mas uma nova experiência imersiva projetada a pensar nos visitantes, inaugurada em junho, pode vir a mudar isso. Neste local candidato a Património Mundial da UNESCO, exposições interativas mergulham na história das muralhas, nos antigos campos agrícolas que protegiam e no que ainda podemos vir a aprender sobre as pessoas que aqui viveram.

Tesouros do pântano

Os milénios de matéria vegetal em decomposição e solo encharcado apagaram lentamente qualquer prova de que Céide Fields existia, até que o professor Patrick Caulfield, que estava no pântano a cortar turfa (a remover e a secar turfa para queimar como combustível), encontrou pedras enormes empilhadas em longas filas no fundo da lama. Patrick Caulfield escreveu ao Museu Nacional em Dublin em 1934 a alertar sobre a sua descoberta. Apesar de considerar este achado significativo, naquela época o museu não tinha recursos para investigar o local.

Quase três décadas depois, em 1963, uma equipa de arqueólogos, liderada pelo filho de Patrick, Seamus, usou sondas tradicionais de ferro – normalmente usadas para encontrar árvores caídas em áreas profundas de pântano – para vasculhar o terreno. A equipa desenterrou fundações de residências domésticas, ferramentas neolíticas, como raspadores e pontas de flechas, e hectares de paredes desmoronadas. A datação por carbono provou mais tarde que o local existia há quase 6.000 anos, revelando que uma comunidade agrícola organizada desenvolveu o terreno.

Durante muitos anos, os habitantes e agricultores locais evitaram este “anel de fadas” com receio de que trazia má sorte se fosse remexido. As escavações arqueológicas posteriores revelaram que este círculo de pedra era na verdade a fundação de uma casa redonda da Idade do Bronze.

“Em termos de paisagens agrícolas primitivas, [Céide Fields] é um excelente exemplo ao nível global”, diz Gabriel Cooney, professor emérito de arqueologia celta na Universidade College de Dublin. “Céide Fields fornece-nos evidências da interação das pessoas com o ambiente circundante. É fundamental para a nossa compreensão da agricultura e de como isto aconteceu, e o contexto em que aconteceu pelo mundo inteiro.”

O neto de Patrick, Declan Caulfield, continua o legado da família com a sua empresa, a Belderrig Valley Experience. Declan Caulfield lidera visitas particulares, que podem variar entre duas horas a dois dias, em torno do pântano onde as paredes foram encontradas pela primeira vez. Durante os passeios, os visitantes moem grãos usando pedras antigas, descobrem como os grãos locais eram moídos e aprendem como as construções eram feitas de pedra e madeira.

“O meu avô teve uma visão de algo muito antigo. Creio que [a sua descoberta] é uma parte importante da história que deve ser contada”, diz Declan.

Enquanto sou guiada por trechos de minúsculas urzes-de-rosa e potentilhas amarelas (achados raros neste pântano pobre em oxigénio e nutrientes), Declan explica como os mitos irlandeses e as descobertas científicas ficam muitas vezes entrelaçados, criando por vezes inadvertidamente espaços sagrados.

Durante décadas, habitantes e agricultores locais evitaram um círculo de pedras na área devido à superstição de que era um anel de fadas, ou um forte de fadas, que podia trazer má sorte se fosse adulterado. As escavações arqueológicas acabariam por revelar que o chamado “forte de fadas” era uma casa redonda da Idade do Bronze, construída com pedras usadas no desenvolvimento original de Céide Fields.

(Descubra as ‘cavernas infernais’ irlandesas onde nasceu o Halloween.)

Sondar o pântano

Embora algumas partes de Céide Fields tenham sido escavadas, ainda existem centenas de hectares de história submersos em pântanos que podem nunca vir a ser explorados. “Sabemos que há uma enorme quantidade de material que ainda está por aí”, diz Gretta Byrne, arqueóloga que se juntou à equipa de escavação de Céide Fields em 1981 como estudante e agora gere o centro de visitantes. “[Mas] muito disso vai ficar lá. Nós simplesmente não conseguimos investigar todos os centímetros do local. Ficávamos aqui mais 5.000 anos.”

Depois de passar por uma renovação a rondar os 2.6 milhões de euros, o novo centro de visitantes de Céide Fields transporta os viajantes para a Irlanda da Idade da Pedra com exposições interativas e narrativas envolventes.

Fotografia por Hemis, Alamy Stock Photos

Ainda assim, os viajantes podem tentar resolver os mistérios das pessoas que viveram e cultivaram estas terras no recém-renovado centro de visitantes imersivo que custou cerca de 2.6 milhões de euros, um ponto de paragem pouco conhecido nos 2.500 quilómetros da Wild Atlantic Way, uma das rotas costeiras definidas mais longas do mundo.

Com exposições audiovisuais de última geração, reconstruções artísticas e uma plataforma de observação que oferece vistas deslumbrantes das paisagens do penhasco, o centro oferece aos visitantes uma compreensão mais aprofundada sobre a Irlanda da Idade da Pedra. As réplicas de barcos de madeira mostram como os primeiros agricultores chegaram à Irlanda, as ilustrações mostram como as florestas dominadas por pinheiros e bétula foram desflorestadas para construir casas de habitação e vedações para o gado, e as exibições interativas descrevem como os agricultores ergueram monumentos de pedra para homenagear os mortos.

Roberta Richiero, uma turista vinda de Turim, em Itália, diz que visitar o centro é “como estar nos limites do tempo e do espaço, porque estamos nas falésias, [que] é como estar no ‘fim’ do mundo, e ao mesmo tempo entramos na história, como é que se fosse o início do mundo”.

Para obter mais informações sobre a extensão do local, a arqueóloga Gretta Byrne realiza visitas guiadas pelo pântano, explicando a geografia, a ecologia e a importância da chuva na área. “São necessários cerca de 130 centímetros de chuva durante 225 dias por ano para formar um pântano cobertor”, diz Gretta. “E temos chuva em cerca de 250 dias.”

Enquanto caminha sobre a turfa macia, Gretta Byrne guia-me até às secções do pântano onde a relva foi cortada para mostrar a profundidade que os arqueólogos tiveram de escavar para desenterrar as paredes. Uma secção mostra onde estaria o terreno quando os agricultores começaram a construir e depois como o pântano subiu mais de quatro metros sobre o assentamento. Após uma breve demonstração de Gretta Byrne, os visitantes são convidados a usar barras de ferro como as que os investigadores usaram para fazer as suas próprias descobertas.

Apesar de ainda haver muito mais para explorar, Gretta Byrne diz que o facto de grande parte de Céide Fields permanecer intocada é uma coisa boa. “Com as escavações, assim que removemos solo do terreno, esse pedaço de solo é essencialmente destruído, mas no futuro pode haver novas técnicas com as quais nem sequer conseguimos sonhar atualmente”, diz Gretta. “Esse é o segredo da arqueologia, há sempre novas descobertas a surgir.”

Yvonne Gordon é uma escritora de viagens e fotógrafa premiada de Dublin, Irlanda. Pode encontrá-la no Instagram e Twitter.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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