A última estepe selvagem de Itália está a assistir a um renascimento

Após décadas de estagnação, a região de Alta Murgia – um tesouro cultural negligenciado – está a entrar numa nova era de prosperidade.

Os fãs de James Bond podem reconhecer Gravina em Apúlia, uma charmosa cidade ribeirinha construída à beira de uma ravina no coração do parque nacional de Alta Murgia, em Itália, devido ao salto dado pelo agente 007 em Sem Tempo Para Morrer. A tentativa desta região para atrair mais visitantes inclui chamar a atenção das produções cinematográficas e restaurar sítios arqueológicos abandonados.

Fotografia por Alessandro Gandolfi
Por Agostino Petroni
Publicado 12/10/2022, 09:43

Numa tarde abrasadora de verão, Mariantonietta Scalera, uma pastora de 32 anos, abre os portões da sua quinta em Altamura, uma pequena cidade na fronteira com o parque nacional de Alta Murgia, a cerca de 50 quilómetros a oeste de Bari, capital da região de Apúlia, no sul de Itália. Cento e cinquenta ovelhas e cabras, seguidas de perto por sete cães rafeiros, passam a correr por Mariantonietta em direção às pastagens, farejando ervas e sementes selvagens pelo caminho.

Mariantonietta Scalera herdou a paixão do seu pai pela criação de animais e produção de queijo artesanal em tenra idade. Depois de passar um ano nos Países Baixos em 2019 integrada num programa de intercâmbio agrícola, Mariantonietta decidiu regressar a casa e tomar conta da quinta da família, em vez de continuar a trabalhar no estrangeiro como fizeram muitos dos seus amigos.

“Quando nos afastamos, vemos [a nossa casa] de outra perspetiva”, diz Mariantonietta Scalera.

Em Apúlia, Alta Murgia é uma das últimas paisagens de estepe remanescentes de Itália e abrange 13 municípios que preservam tesouros históricos, culturais e gastronómicos pouco conhecidos. Em Altamura, cerca de 30.000 pegadas de dinossauros cobrem a pedreira de Pontrelli. Esta cidade também é o local onde foi encontrado o Homem de Altamura, um esqueleto excecionalmente bem preservado de um Neandertal que viveu há aproximadamente 150.000 anos.

Visitantes caminham pela pedreira de Pontrelli que foi inaugurada recentemente em Altamura, Itália. Este local apresenta a maior coleção de pegadas de dinossauros da Europa.

Fotografia por Alessandro Gandolfi

Em Apúlia, as dolinas e ravinas cársicas são características naturais presentes em Altamura, Laterza e Gravina que outrora acolheram os viajantes que percorriam a antiga Via Ápia Romana. Perto da cidade de Andria, o imponente Castel del Monte é conhecido como o coração de pedra de Alta Murgia. Os chefs regionais usam ingredientes colhidos localmente, como cardo selvagem, cogumelos-do-cardo, lampascioni (cebolas selvagens pequenas), trigo duro, amêndoas, uvas e azeitonas. (Apúlia produz quase 40% do azeite em Itália.)

Porém, Alta Murgia desapareceu do mapa quando milhares de pessoas abandonaram o campo para se mudarem para as cidades industriais à procura de emprego e uma vida melhor. Ao longo de várias décadas, a região tornou-se num depósito ilegal de lixo industrial, um refúgio para criminosos e o lar de 10 instalações de lançamento de mísseis nucleares dos EUA na década de 1960.

Mas este canto obscuro de Apúlia está a passar por um renascimento. Voluntários e jovens empresários locais que regressam a casa, como Mariantonietta Scalera, e as autoridades da cidade estão a restaurar áreas que até agora estavam cobertas de lixo, mostrando a cultura e a gastronomia locais e abrindo sítios arqueológicos que até agora estavam encerrados ao público.

Este esforço coletivo para transformar Alta Murgia de um cenário desagradável para uma paisagem charmosa pode ser visto em filmes de sucesso como 007: Sem Tempo Para Morrer, onde o famoso espião internacional James Bond atravessa a ponte de Gravina perseguido por vilões, ou em desfiles de casas de moda como fez a marca Gucci, com o pano de fundo octogonal e sobrenatural do Castel del Monte, construído pelo imperador Frederico II em 1240 d.C.

“Existe um desejo de renascer. Há entusiasmo”, diz Mariantonietta Scalera. “As pessoas estão a regressar.”

Apesar de as praias de Salento em Apúlia e a costa de Gargano se terem tornado recentemente nalgumas das áreas mais movimentadas de Itália, atraindo milhões de visitantes e celebridades como Helen Mirren, George Clooney e Madonna, Alta Murgia permanece fiel às suas tradições culturais e gastronómicas únicas, oferecendo aos que se aventuram pelos seus caminhos o sabor inesperado de um lugar perdido no tempo.

Uma região renascida

Após décadas a eludir turistas, Alta Murgia e as comunidades vizinhas iniciaram uma extensa reabilitação liderada por organizações sem fins lucrativos, empresários e políticos locais. Os seus esforços foram recompensados em 2004, quando este terreno de 675 quilómetros quadrados se tornou parque nacional. Francesco Tarantini, presidente do parque, diz que esta designação lançou as fundações para pessoas como Mariantonietta Scalera regressarem e investirem na terra.

Quando a extração de bauxite terminou em 1978, a Caverna de Bauxite de Spinazzola tornou-se num depósito ilegal de desperdício têxtil industrial. Após anos de limpezas organizadas localmente, a pedreira abriu ao público este verão.

Fotografia por Alessandro Gandolfi

Enquanto Francesco Tarantini e eu caminhamos pela extremidade da Caverna de Bauxite de Spinazzola, uma pedreira abandonada de bauxite com 50 metros de profundidade no interior do parque, o barulho das cigarras ecoa ao longo dos penhascos de tons avermelhados. Francesco diz que assim que a extração de bauxite terminou na década de 1970, a caverna tornou-se imediatamente num depósito ilegal de desperdício têxtil industrial. As operações de limpeza demoraram anos, mas o local reabriu ao público neste verão.

Em novembro do ano passado, com o objetivo de atrair mais atenção para o parque, Francesco Tarantini candidatou a região de Alta Murgia a Geoparque Global da UNESCO, um local protegido de importância geológica que deve ser mantido de forma sustentável. Os esforços para receber esta designação incluem trabalhar com as cidades regionalmente para melhorar os acessos e a conservação do parque e criar itinerários de vários dias para os visitantes.

“Somos um paraíso geológico”, diz Francesco Tarantini. “Queremos partilhar a nossa herança com o mundo.”

Ali perto, em Andria, fica a joia da coroa da região de Alta Murgia, o chamado Castel del Monte, uma fortaleza octogonal do século XIII e local designado pela UNESCO que atrai cerca de 200.000 visitantes por ano. Elena Saponaro, diretora do Castel del Monte desde 2017, tem trabalhado para tornar o castelo mais interativo, incluindo a implementação de um projeto digital que mostra aos visitantes os trechos do edifício que não podem ser visitados, como as cisternas subterrâneas e o sistema hidráulico do castelo. Este local histórico também lançou o projeto HoloMuseum em 2021 para permitir aos visitantes explorar o local através de realidade aumentada.

Esquerda: Superior:

Castel del Monte, uma fortaleza geométrica do século XIII construída por Frederico II, tem vista para a pequena cidade de Andria, na região de Apúlia, Itália. Construído em forma octogonal, com cada um dos oito cantos a ostentar uma torre octogonal, este castelo foi declarado Património Mundial da UNESCO em 1996.

Direita: Inferior:

O contador de histórias Donato Laborante está no interior da cripta que abriga os afrescos bizantinos dedicados a São Miguel Arcanjo, na Masseria Jesce de Altamura. Construído ao longo da antiga Via Ápia Romana, este edifício chegou a ser um mosteiro e uma quinta.

fotografias de Alessandro Gandolfi

“Castel del Monte possui um valor universal excecional devido à perfeição da sua estrutura, à harmonia e fusão de elementos culturais do norte da Europa, do mundo muçulmano e da antiguidade clássica”, diz Elena Saponaro.

A cerca de 50 quilómetros de Andria, Francesco Mastromatteo, historiador e guia turístico da Terre di Murge Experience, acompanha-me pela Gravina Sotterranea de Apúlia, um labirinto subterrâneo de túneis, adegas e aquedutos escavados em rocha sólida sob a cidade.

“Precisamos de lentidão”, diz Francesco Mastromatteo, que acolhe projetos inovadores e inclusivos como o FlyOn, que permite às pessoas com deficiência ver a cidade através de imagens captadas por um drone. “Não nos queremos tornar na Disneylândia, mas acolhemos um turismo suave.”

Passado e presente interligados

Os esforços de revitalização de Alta Murgia podem ser vistos na Masseria Jesce, uma casa de quinta do século XVI nos arredores de Altamura. Outrora um antigo ponto de descanso na Via Ápia Romana, esta casa de quinta apresenta uma cripta com afrescos do século XIV dedicada a São Miguel Arcanjo. A propriedade foi comprada pela autarquia no final da década de 1980 e parcialmente remodelada, mas pouco depois foi abandonada.

Donato Laborante, um contador de histórias de 67 anos, cuida da Masseria Jesce juntamente com outros voluntários. Donato Laborante mantém este lugar vivo com eventos de teatro e exposições de arte. Atualmente, a única forma de visitar esta masseria (casa de quinta), é telefonar para Donato Laborante e esperar que ele esteja disponível.

Gabriele Tarantino, que gere a quinta Lo Cuocio, faz equitação em Gravina, Apúlia, perto do parque nacional de Alta Murgia.

Fotografia por Alessandro Gandolfi

Com uma barba farta, uma camisa branca e calças azuis desbotadas e remendadas, Donato Laborante acompanha-me até ao andar superior da masseria. Donato diz-me para esperar na primeira divisão enquanto se apressa a abrir as duas portas seguintes, uma após a outra, deixando entrar a luz dourada do sol.

“Porque é que as pessoas se apaixonam por estes lugares? Pela luz”, diz Donato  Laborante, apontando para a janela mais distante com vista para a estepe selvagem de Murgia. “Estes lugares permitem-nos, através do silêncio, aproximarmo-nos da nossa essência.”

No ano passado, quando me mudei novamente para Alta Murgia vindo de Nova Iorque, pensei que estava à procura dessa parte de mim que tinha deixado para trás. Em 1991, os meus pais compraram uma masseria do século XVIII na entrada norte do parque nacional de Alta Murgia. Os meus pais sonhavam em transformar uma estrutura decadente, juntamente com os 200 hectares de terra circundantes, num olival repleto de visitantes. Após quase uma década de renovações lideradas pelo meu pai, Pietro, a antiga casa de quinta em ruínas é agora a Biomasseria Lama di Luna, um hotel sustentável com 11 quartos e vista panorâmica sobre hectares de oliveiras, amendoeiras e videiras.

Desde que regressei, juntei-me ao meu pai na luta contra os muitos obstáculos que tanto agricultores como empresários têm de superar para ter sucesso neste terreno difícil, mas maravilhoso. Enquanto monto um cavalo quarto de milha de tons castanhos claros e sigo as indicações de Antonella Urbano, uma instrutora de equitação que me deu formação quando eu era criança, sinto o doce aroma da menta selvagem e das orquídeas violeta de Alta Murgia. As cigarras fazem uma serenata ao sol que se afasta ao longe, por trás de Castel del Monte. As primeiras estrelas brilham nos vastos céus abertos.

Sinto um arrepio de tranquilidade. Estou em casa.

Agostino Petroni é antigo bolseiro do Centro Pulitzer de Reportagem em Ciência Climática e autor de vários livros. Pode encontrá-lo no Twitter.

Alessandro Gandolfi é um fotógrafo e jornalista italiano, cofundador da agência fotográfica Parallelozero. O seu trabalho tem sido publicado em vários jornais e revistas.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

 

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