O globo do meu avô gira na ponta do meu indicador – parte III

O fascínio por lugares remotos

Base las Torres, Torres del Paine, Patagónia do Chile

Por Pedro Guerra
Publicado 19/10/2022, 15:51

Vejo a luz do sol desvanecer-se lá fora. O globo continua no colo. A lâmpada acesa ilumina-o desde o interior. Predomina o azul, ou não fosse 70% da superfície da Terra coberta por água. Horas que passam. Oiço a porta abrir. Reconheço o compasso dos passos. Conhecemos as pessoas de quem mais gostamos até pela forma como andam. O meu avô senta-se ao meu lado. Passa-me a mão pelo cabelo. Abraça-me com o braço esquerdo. “Por onde viajaste hoje?” pergunta, enquanto faz girar o globo com a mão direita. Incita-me. Legitima-me o sonho. Viajo enquanto o globo gira. De olhos fechados e o indicador em riste. Viajo livre. Sem fronteiras. Sem limites. Viajo sedento do próximo destino. Afinal, o globo é demasiado bonito para conhecermos só uma parte. O globo gira e eu giro com ele.

Viajo pelo mundo. Vejo o tempo multiplicar-se em unidades crescentes. Minutos em horas. Dias em semanas. De onde vim e para onde vou? Questiono em jeito de reflexão. Percorro o globo com os olhos até ao ponto de partida. Foco Lisboa, a capital de Portugal. Dali saíram Magalhães, Gama e Cabral. Até que ponto permanecerá em nós a energia dos nossos antepassados? Até que ponto ela me impele rumo ao desconhecido? Coloco questões. Afinal, viajar pelo mundo é um caminho de descoberta. Autodescoberta, maioritariamente. Caminho pelo globo vivenciando os seus contrastes. Absorvo as diferenças. Tomo decisões. Acumulo erros. E a cada erro, nova aprendizagem. Conheço-me melhor a cada dia que passa. Sei melhor o que procuro, o que valorizo, o que preciso. Quais os lugares mais remotos do planeta?

Torres del Paine, Patagónia do Chile 

Fotografia por Pedro Guerra

Deixo o deserto do Atacama. Rumo a sul. Chego a Santiago, a capital chilena. Os seis milhões de habitantes tornam-na na sétima maior cidade da América Latina. Olho em redor. Santiago fica num vale circundado pela cordilheira dos Andes. Os cumes que a envolvem, cobertos pelo branco da neve, tornam qualquer vista sobre a cidade, num postal para mais tarde recordar. Bonita, de facto. Mas Santiago não é o destino, é um ponto de ligação. Afinal, eu procuro um dos lugares mais remotos do globo. Avanço, determinado. Sobrevoo o Pacífico sul durante seis horas. Percorro os mais de 3700 quilómetros que tornam Rapa Nui no local habitado mais isolado do mundo. Vou colado à janela. Ansioso. Expectante. Ao longe, algo parece querer contrariar a imensidão azul do Pacífico. A Ilha de Páscoa mostra-se aos meus olhos. Enigmática. Misteriosa. Intrigante. Sinto-me a fervilhar por dentro. Esqueço o cansaço. Desço as escadas do avião de sorriso nos lábios. Degrau a degrau. Pés no chão. Abro o mapa da ilha. A forma é triangular. Três vértices, três vulcões. Será o triângulo o símbolo da perfeição? Já vos direi.

Esquerda: Superior:

Ahu Tongariki, Ilha de Páscoa 

Direita: Inferior:

Ahu Tahai, Ilha de Páscoa

fotografias de Pedro Guerra

Começo cedo. Exploro cada centímetro de terra. Vejo o nascer do sol em Ahu Tongariki. Inexplicável! Os raios de sol surgem do mar e nas costas de quinze Moais gigantes e perfilados. O misticismo chega a ser palpável. O sol ergue-se e eu prossigo. Encontro o vulcão Rano Raraku, a antiga pedreira da ilha, que por muitos séculos funcionou como a fábrica de Moais. Caminho pela encosta verde serpenteando centenas de esculturas gigantes. Imagino-me num jardim. Moais em vez de flores. Aqui estou. Atónito. Parco em palavras. Copio a trajetória do sol. De este para oeste. Chego a Anakena. Uma praia de areia branca, salpicada por palmeiras e águas cristalinas. Avisto o Ahu Nau Nau, uma plataforma de sete Moais. À frente, há uma enseada e uma baía em forma de lua crescente. Confirmo o que ouvira dizer, é a praia mais bonita da ilha. Ilha que se entranha em mim à mesma velocidade com que me cruzo com os mais de 887 Moais. Uma ilha de mistérios. Como foram esculpidos, transportados e erguidos? Muitas teorias para poucas certezas. Avanço sem verdades absolutas.

Prossigo na rota do sol, ou não girasse eu com o globo. Subo à cratera do Rano Kau. Um dos três vulcões que estiveram na origem da ilha. Rendo-me à sua imponência e simetria. Há um recorte na cratera que permite ver o mar e a linha do horizonte. A natureza sabe o que faz. Ali permaneço contemplativo e só a cor do céu me faz levantar. O sol está a baixar e eu sei exatamente onde quero estar. Acelero até Ahu Tahai.  O horizonte está exuberante. Uma mescla de tons vivos. Na ponta, junto ao mar, cinco Moais gigantes. O enquadramento é cénico. Sinto-me estranhamente observado. Os Moais estão virados com as faces para terra. Olham-me nos olhos sem nunca pestanejar. Os ancestrais esculpidos protegem o seu território. Protegem Rapa Nui, a ilha grande, o umbigo do mundo. O sol põe-se. Gira o sol, gira o globo.

Praia de Ovahe, Ilha de Páscoa

Fotografia por Pedro Guerra

Abro os olhos. Sobressaltado. Já não distingo o real do imaginado. Seguro o globo com as duas mãos. Trémulas. Desassossegadas. O ponto que identifica Rapa Nui no mapa é ínfimo. O que vivi naquela ilha, com pouco mais de 160 quilómetros quadrados, é paradoxalmente avassalador. É essa a energia dos lugares remotos. Imersiva. Intocada. Inquietante. Da janela do avião vejo a Ilha de Páscoa diluir-se na imensidão do Pacífico. Levo a testa colada ao vidro. Cabisbaixo. Carrego uma nostalgia difícil de digerir. Memórias que são simultaneamente aliadas e inimigas. Mas o globo não para. O mesmo que nos aprisionou é o mesmo que nos libertará.

Torres del Paine, Patagónia do Chile 

Fotografia por Pedro Guerra

Deixo o azul do Pacífico. Regresso à massa continental. Rumo ao extremo sul. Levo um 4x4 nas mãos. As rodas ganham tração na Ruta del Fin del Mundo. A temperatura desce. Subo o fecho do meu melhor casaco. Já não o vestia desde o Alasca. Permaneces fria. Distante. Inacessível. Acumulo quilómetros. Encurto distâncias. Perfuro o nevoeiro denso com que me recebes. Multiplico horas solitárias de estrada. Vejo o sol esgueirar-se, finalmente. Iluminas-te ao longe. Avisto o maciço de Paine. Os bicos pontiagudos das torres distinguem-se. Há um mesclado de cores. O branco da neve. O cinza do granito. O verde da floresta. A dimensão assusta. A beleza intimida. A conjugação é cinematográfica. Aproximo-me timidamente, como se acreditasse no amor à primeira vista. Que alternativa me resta? Um primeiro encontro. Isolados do mundo. Sem rede. Só tu e eu. Saímos para caminhar. Como se me chamasses: “anda, quero mostrar-te uma coisa”. Caminhamos a compasso. Lado a lado. Levas-me ao Glaciar de Grey. A terceira maior extensão de gelo continental do globo. Contrastamos perspetivas. Primeiro de barco. Depois a pé. Continuamos por entre riachos, pontes e vales. Desafias-me a cada dia que passa. Subimos à Base las Torres. Três torres esculpidas em granito, rodeadas por um lago glaciar. Paisagens de cortar a respiração, que valem cada gota de suor. Seguimos juntos. Mais dias. Mais de nós. Olho-te sem me cansar. É como ver a mesma cara todos os dias e a cada dia descobrir um ângulo ainda mais apaixonante. Somamos quilómetros. Mostras-me o Valle Francés e o Lago Pehoé. Paramos, exaustos. Desenrolas o mapa. Giras a bússola. Desenhas um W. Olhas-me nos olhos: “Caminhámos vários dias num dos lugares mais remotos e bonitos do mundo. Subimos montanhas. Circundámos lagos. Caminhámos sobre glaciares. Cruzámos vales. Percorremos os 76 quilómetros do circuito W, um dos mais icónicos e desafiantes do mundo. Nunca duvides da capacidade que o globo tem para te voltar a surpreender.” Patagónia, não há amor como o primeiro. Gira a bússola, gira o globo.

 

Pedro Guerra já visitou 96 países e completou uma trilogia de voltas ao mundo. Tem um fascínio especial por montanhas, frio e locais remotos. Começou a viajar à procura de respostas. Adora escrever, pontos finais e frases curtas. Pode acompanhar as suas viagens na sua conta Instagram.


Leia também a primeira e segunda parte desta aventura.

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