Os naufrágios de Porto Santo

Uma segunda vida alguns metros abaixo da superfície

O CORDECA jaz agora no fundo marinho, onde ganhou uma nova vida como recife artificial e habitat de muitas espécies marinhas.

Fotografia por Nuno Vasco Rodrigues
Por Nuno Vasco Rodrigues
Publicado 14/10/2022, 08:32

Um número incontável de equipamentos que outrora serviam como meio de transporte para pessoas ou mercadoria, ferramentas bélicas ou de exploração marinha jaz hoje no silêncio quase absoluto do leito marinho. Não obstante, a vida útil de um navio não se encerra necessariamente em caso de afundamento. A curiosidade que os naufrágios suscitam em nós esbarra, porém, na frequente inacessibilidade que tipicamente os caracteriza. Ora pelas grandes profundidades a que se encontram, ora por o seu acesso ser proibido por questões militares e/ou de segurança, ora pela logística e custo que a sua exploração acarreta.

Ainda assim, existe a nível global uma grande quantidade de naufrágios que é possível explorar, recorrendo tão simplesmente a algum equipamento de mergulho recreativo.

Mergulhar num destroço afundado é algo fascinante. Um misto de emoções percorre os mergulhadores que o fazem, quais exploradores marinhos que desbravam um mundo desconhecido e cheio de mistérios, mas também de arqueólogos numa jornada de descoberta de algo há muito abandonado e considerado perdido para sempre.

E a verdade é que assumir a pele de um destes exploradores/arqueólogos está praticamente ao alcance de todos, bastando para isso fazer formação em mergulho especializada.

O nosso país, com todo um passado intimamente ligado às viagens e descobertas marítimas, mas também agente com grande representação na rota marítima internacional até aos dias de hoje, tem uma grande quantidade e variedade de naufrágios de norte a sul, mas também nos Açores e Madeira. Alguns destes destroços são hoje imperceptíveis, alvo da ‘digestão’ do ecossistema marinho, mas outros preservam o ‘esqueleto’ praticamente intacto, apresentando-se como estruturas imponentes e invariavelmente um oásis de vida marinha. Portugal apresenta-se, por isso, como um autêntico santuário de naufrágios, seja numa perspectiva histórica, exploratória ou lúdica. E a comunidade de mergulho internacional já se apercebeu disso, sendo cada vez mais numerosos os mergulhadores que procuram o nosso país precisamente para os conhecer, explorar, estudar, catalogar, fotografar.

Apercebendo-se desta tendência e da abertura deste mercado, algumas regiões do nosso país decidiram capitalizar esta crescente procura através do afundamento intencional de embarcações obsoletas. Estes naufrágios têm o propósito de servir como recifes artificiais, o que geralmente se traduz numa agregação considerável de vida marinha.

Um destes exemplos é o projecto Ocean Revival, em Portimão, que levou ao afundamento de quatro navios de guerra da Marinha Portuguesa em profundidades até trinta metros, criando o maior recife artificial da Europa. Após anos de planeamento, licenciamento, preparação e limpeza das embarcações para que cumprissem os requisitos para serem ‘mergulháveis’, deu-se o afundamento de duas das embarcações em 2012 e mais duas em 2013. Desde então, milhares de mergulhadores já tiveram oportunidade de explorar estes naufrágios, saber um pouco da história de cada uma das embarcações e ainda testemunhar a abundância e diversidade de vida marinha que, entretanto, os colonizou.

Porto Santo, ilha de areia dourada e águas límpidas.

Fotografia por Nuno Vasco Rodrigues

Um outro exemplo, e de grande sucesso, situa-se na ilha de Porto Santo, na Madeira. Em Outubro de 2000, a embarcação “Madeirense” torna-se o primeiro naufrágio intencional para ser convertido em recife artificial em Portugal. Este cargueiro português, construído em Aveiro em 1962 tinha inicialmente capacidade para doze passageiros e foi concebido essencialmente para transporte da banana da Madeira para o continente. No início da década de noventa o mesmo viria a ser modificado de modo a permitir transportar mais passageiros, e passou a fazer a ligação Funchal - Porto Santo, assumindo um papel preponderante no abastecimento daquela ilha. O progresso e desenvolvimento tecnológico viriam a torná-lo obsoleto, daí a sua eleição para o afundamento.

Mais de vinte anos volvidos, o “Madeirense” é um dos mergulhos mais procurados pelos mergulhadores, atraindo praticantes desta modalidade de todo o mundo. De acordo com Emanuel Almada, instrutor de mergulho da Porto Santo Sub (uma das duas empresas a operar em Porto Santo) “as condições climatéricas favoráveis e as águas límpidas que caracterizam a Ilha Dourada, aliadas ao facto de o ponto de afundamento ser abrigado do vento e correntes e localizado a poucos minutos de barco da marina do Porto Santo, fazem com que seja possível mergulhar neste naufrágio praticamente todo o ano”.

Mergulhar no “Madeirense” é uma experiência inolvidável! A descida é um mergulho na imensidão azul. Porém, e dependendo da visibilidade, a cerca de dez metros abaixo da superfície, vislumbra-se uma mancha escura que se torna mais distinta à medida que se continua a descida, até que, uns metros mais abaixo, se revela o destroço quase por inteiro, numa perspectiva assombrosa.

A secção da popa do “Madeirense” desvenda-se à medida que descemos na coluna de água.

Fotografia por Nuno Vasco Rodrigues

Toda a superfície do destroço se encontra hoje completamente coberta por organismos colonizadores marinhos como algas, briozoários ou corais num caleidoscópio de cores, padrões e formas único. É possível ainda observar diversas espécies de crustáceos, moluscos ou poliquetas a percorrer as diversas secções do navio onde outrora embatiam vagas, se sentavam passageiros, operavam tripulantes ou se transportavam bananas.

Invariavelmente, os mergulhadores são recebidos por grandes meros, os guardiões do naufrágio. Sempre curiosos, estas garoupas gigantes aproximam-se dos visitantes como que dando as boas-vindas, mas mostrando que ali é a sua casa e que estarão atentas a cada passo (barbatana) dado.

Grandes meros curiosos vêm frequentemente saudar os mergulhadores.

Fotografia por Nuno Vasco Rodrigues

Mas um dos maiores espectáculos decorre na coluna de água que envolve o naufrágio. Milhares de sargos-safia, salemas e bogas formam cardumes que envolvem o destroço, movendo-se sincronizadamente e confundindo os grandes lírios, xaréus e barracudas que investem sobre os cardumes na esperança de saciar a fome.

O fundo, localizado um pouco abaixo dos trinta metros, é de areia, mas nem por isso menos interessante. Ratões, salmonetes e enguias-de-jardim são comuns em redor do naufrágio e merecem uma visita.

A limitação de ar obriga a voltar à superfície ao fim de algum tempo, mas em cada mergulhador fica sempre a promessa de voltar, dado que o tanto que há para explorar não se esgota em apenas uma imersão.

Cardumes numerosos de diversas espécies são comuns em redor dos naufrágios em Porto Santo.

Fotografia por Nuno Vasco Rodrigues

Ciente do sucesso que representou o naufrágio “Madeirense”, o governo regional local reforçou a aposta neste sector com um novo afundamento, no ano de 2016. Desta feita, a embarcação escolhida foi a corveta “General Pereira d'Eça” (CORDECA), construída em 1970 e com 85 metros de comprimento. O local de afundamento escolhido dista cerca de duas milhas do “Madeirense”, e situa-se na baía de Porto Santo, integrando a rede de áreas marinhas protegidas da ilha.

Para este projecto foi implementado um programa pioneiro de monitorização científica, iniciado ainda antes do afundamento da CORDECA. “Este programa integrava uma equipa multidisciplinar e o objectivo era monitorizar as comunidades de fauna e flora presentes no local designado antes e depois do naufrágio, de modo a perceber o impacto que o mesmo teria nessas comunidades” refere Mafalda Freitas, membro da equipa do projecto e actual Directora Regional do Mar.

Um programa de monitorização científica foi implementado ainda antes do afundamento do CORDECA e mantêm-se até aos dias de hoje.

Fotografia por Nuno Vasco Rodrigues

Segundo o relatório científico publicado em 2018, os resultados iniciais indicam que não foram detectados impactos negativos derivados do afundamento da corveta, mas refere que “é necessário continuar a acompanhá-la, de forma a avaliar a trajectória de convergência com os habitats naturais e perceber como esta se irá prolongar no tempo.”

Quanto ao mergulho propriamente dito, rapidamente se percebe que caminha a um ritmo acelerado para atingir o sucesso alcançado pelo ‘irmão’ mais velho “Madeirense”, sendo notório um incremento de abundância e diversidade a cada ano que passa, atraindo cada vez mais mergulhadores à ilha do Porto Santo.

O CORDECA jaz agora no fundo marinho, onde ganhou uma nova vida como recife artificial e habitat de muitas espécies marinhas.

Fotografia por Nuno Vasco Rodrigues

O crescimento da comunidade internacional de mergulhadores abre boas perspectivas de receita em locais que privilegiem este tipo de oferta, como é o caso de Porto Santo. É fundamental, no entanto, que estas iniciativas sejam sempre acompanhadas de estudos semelhantes ao referido, de modo a avaliar o impacto das mesmas nos ecossistemas e não corrermos o rico de perdermos a identidade biológica que torna cada local único e tão especial.

 

Nuno Vasco Rodrigues é biólogo marinho, investigador no MARE IPLeiria e fotógrafo de conservação.

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