Será a Argélia o próximo grande destino de viagem em África?

Antigas cidades fortificadas, ruínas romanas e as areias do Sahara tornam o maior país africano num gigante do turismo escondido à vista de todos.

Por Henry Wismayer
Publicado 27/10/2022, 11:52
Gardaia

A cidade de Gardaia, na Argélia, construída entre os séculos XI e XIV, está entre as várias atrações históricas e culturais deste país pouco visitado no Norte de África. 

Fotografia por Robert Harding Picture Library, Nat Geo Image Collection

A partir do teto aberto da torre de vigia, por cima de um labirinto de ruelas estreitas e fileiras de telhados, Gardaia parece um quadro ondulante de cubos pastel. 

Os únicos indícios de modernidade são as colunas de som Tannoy que se projetam dos minaretes de barro no cume de cada colina. Caso contrário, podíamos estar a olhar para um cenário retirado de qualquer um dos últimos dez séculos. 

Apesar da sua proximidade com a Europa e da vasta presença na costa norte de África – que tem aproximadamente o tamanho do Alasca e do Texas juntos – a Argélia e muitas das suas vistas mais espetaculares são pouco conhecidas pelos viajantes fora das suas fronteiras. 

“A Argélia é um dos lugares mais difíceis de entrar no mundo e um dos menos visitados”, diz Andrew Farrand, especialista em questões do Norte de África no Atlantic Council, um grupo de reflexão focado em relações externas. “Entre os cerca de dois milhões de turistas que chegam oficialmente todos os anos, a maioria faz parte da diáspora argelina que regressa a casa para visitar a família. Só meia dúzia é que são visitantes estrangeiros.” 

Esquerda: Superior:

Espessas paredes de gesso e formas onduladas caracterizam uma mesquita em Gardaia, na Argélia.

Direita: Inferior:

As calçadas de pedra serpenteiam por entre as casas de Gardaia, o lar ancestral dos mozabitas, a quarta maior tribo berbere da Argélia.

Para os que estão dispostos a lidar com os obstáculos burocráticos para chegar até aqui, a Argélia é sem dúvida um dos destinos mais gratificantes que podemos alcançar através de um voo de curta distância a partir da Europa continental. Atualmente, este é considerado um destino seguro e relativamente estável, um fator de extrema importância. A maioria dos governos estrangeiros só desaconselha as viagens para as suas fronteiras com a Líbia e o Níger. 

O legado do colonialismo francês 

As origens do anonimato da Argélia residem num passado recente. Entre 1830 e 1962, este era o bem mais valioso do império francês. A independência surgiu em 1962, mas só depois de oito anos de uma guerra sangrenta entre os insurgentes argelinos e os colonos franceses, que ceifou entre 400.000 a um milhão de vidas. 

“Os esforços bárbaros de França para destruir a cultura argelina geraram um profundo sentimento antiocidental”, diz Adel Hamaizia, investigador visitante da Universidade de Harvard. “No rescaldo, este país recém-independente ficou muito motivado para reconstruir e proteger a sua identidade religiosa e cultural.” 

Uma fotografia de 1925 mostra a mesquita principal de Gardaia, na Argélia. 

Fotografia por Roger Viollet, CAP, Getty Images

Na década de 1990, com o aumento do turismo nos países vizinhos de Marrocos e Tunísia, a Argélia estava mergulhada em algo a que o seu povo chama de “Década Negra”, quando uma insurgência islâmica instigou uma sangrenta e prolongada guerra civil. Recentemente, em abril de 2019, os protestos antigovernamentais derrubaram o governo do presidente de longa data Abdelaziz Bouteflika. 

Desenvolver o turismo 

Um dos legados desta revolta interna traduz-se numa atitude predominante em relação aos visitantes estrangeiros, que apesar de não ser verdadeiramente hostil, revela pelo menos indiferença. O processo para solicitar visto é bizantino. A promoção do turismo é inexistente. Durante a minha viagem ao país na primavera, o único guia que consegui arranjar foi um guia de bolso em segunda mão da Berlitz publicado em 1990. 

O desinteresse do governo pelo turismo, argumentam muitos observadores, deve-se ao domínio económico dos hidrocarbonetos. O setor do petróleo e gás da Argélia representa 20% do seu PIB. O turismo, por outro lado, representa apenas 0,1%. 

(Descubra uma antiga cidade na Arábia Saudita que está a tentar atrair mais turistas.) 

“A maldição do petróleo contamina tudo”, diz Andrew Farrand. “A indústria dá ao Estado argelino o dinheiro necessário para evitar o trabalho árduo de desenvolver setores mais complexos como o turismo.” De acordo com relatórios recentes, a subida dos preços do petróleo e do gás devido à guerra na Ucrânia fez com que a Argélia ultrapassasse em 70% as suas metas de exportação projetadas para o primeiro semestre de 2022.  

Maravilhas escondidas à vista de todos 

Ainda assim, as recompensas que nos esperam são muitas. A Argélia é, de várias formas, um gigante escondido à vista de todos. Na faixa de terrenos férteis que abraçam a sua costa mediterrânea encontram-se cidades históricas como Constantina, Orão e a capital Argel. Antigos postos avançados romanos, como Djémila e Timgad (ambos Patrimónios Mundiais da UNESCO) figuram entre os destinos arqueológicos mais bem preservados do Norte de África. Mais a sul, no interior do Sahara, os mares de dunas da Grande Erg Oriental rebentam contra os maciços de arenito da cordilheira de Hoggar e Tassili n'Ajjer. 

“Neste outono, o interesse bateu recordes, mas podemos passar dias na Argélia sem ver outro turista”, diz Omar Zahafi, cuja empresa de turismo, a Fancyellow, recebe quase exclusivamente visitantes estrangeiros. “Quando visitamos as ruínas romanas e os clientes perguntam porque é não há outras pessoas, gosto de brincar e digo que reservei o local especialmente para eles!” 

Os cumes do Maciço Hoggar elevam-se por cima do deserto do Sahara, perto da cidade argelina de Tamanrasset. 

Fotografia por Dieter Telemans, Panos Pictures, Redux

Um rapaz anda de bicicleta nas ruas de Ksar Tafilelt, uma das cidades Património Mundial da UNESCO no Vale de M'zab, na Argélia. 

Fotografia por Ryad Kramdi, AFP, Getty Images

Poucos lugares encarnam melhor a tensão entre a insularidade da Argélia e o seu potencial turístico como Gardaia, o lar ancestral dos mozabitas, a quarta maior tribo berbere da Argélia. Esta extensa cidade oásis, a pouco mais de 600 quilómetros a sul de Argel, na autoestrada Trans Sahara, é o lugar onde a vida argelina é mais tradicional. 

Estamos ao início da tarde em El Atteuf, uma das cinco ksours, ou cidadelas no topo de colinas, que são coletivamente conhecidas por “Pentápolis”. Outrora entidades separadas, estas cinco cidades muradas fundiram-se há muito numa aglomeração labiríntica que serpenteia ao longo do vale dessecado do rio M'Zab. (Gardaia é o nome da maior cidadela e uma abreviação não oficial para toda a região.) A filósofa francesa Simone de Beauvoir chegou a compará-la a “uma pintura cubista, maravilhosamente construída”. 

Tal como acontece com a maioria dos lugares na Argélia, é melhor explorar Gardaia com um guia. De facto, nas ksours é obrigatório um guia. As regras estabelecidas pelos conselhos religiosos, que defendem uma forma estrita do islão ibadita, só permitem a entrada de pessoas estranhas em determinadas horas do dia, e apenas com um acompanhante local. Algumas mulheres casadas vestem o haik, uma roupa branca que envolve o corpo e a cabeça, deixando apenas um olho exposto. Os transportes motorizados são proibidos. O lixo continua a ser recolhido com a ajuda de burros. 

A Maison Traditionelle Akham é uma das poucas pousadas tradicionais de gesso localizadas em Gardaia. 

Fotografia por Lindsay Mackenzie, Redux

O meu guia, Hassissane Hadjsmael, um talhante com ar endiabrado, leva-nos pelas ruelas silenciosas. A meio do dia, quando a maioria dos habitantes do vale faz uma sesta, as ruas só estão povoadas por grupos de crianças tímidas. 

A consistência arquitetónica da cidadela resulta das antigas normas de design e decoração. De perto, conseguimos ver que as paredes foram rebocadas com barro, e depois pontilhadas com folhas de palmeira para refletir o calor do sol. 

Hassissane Hadjsmael guia-nos por uma porta baixa para entrarmos numa divisão modelo, que agora é preservada como um museu não oficial. O interior é um quadrângulo com pilares e o telhado é aberto. Os cantos estão enfeitados com tapeçaria. A maioria das casas nas cidades antigas apresenta uma imagem semelhante, embora com algumas concessões do século XXI. “A minha casa é semelhante”, diz Hassissane. “Mas eu tenho uma televisão plasma enorme.” 

A mudança está a chegar lentamente a Gardaia, mas está a chegar. Nos seus arredores ficam as palmeiras e os bosques de tamareiras cujos frutos sustentaram outrora a espinha dorsal da economia local. Agora, as antigas casas de verão estão a ser convertidas em pousadas. 

Numa destas pousadas, encontro viajantes vindos de Ohio sentados no interior de uma tenda berbere montada num pátio à sombra. Um músico, com um turbante tuaregue verde-escuro, dedilha um cordofone debaixo de uma oliveira carregada de azeitonas. 

“Conseguimos perceber que muitas pessoas na Argélia estão ansiosas para partilhar o seu país com o mundo”, diz Katelyn Jarvis, consultora de investimentos em Cincinnati. “Quase todas as interações que tivemos resultaram num convite para visitarmos as aldeias das pessoas ou para partilhar uma refeição nas suas casas.” 

O turismo aqui está na sua infância, mas a hospitalidade é uma coisa instintiva. 

“Recentemente, consegui a licença para começar a hospedar estrangeiros”, diz o proprietário da pousada, Rostom Labchek. “Espero que venham mais.” 

SE QUISER VISITAR 
Muitas operadoras na Europa e em África podem organizar visitas guiadas aos principais pontos turísticos da Argélia, incluindo visitas às aldeias antigas no Sahara e ruínas romanas. As empresas especializadas em itinerários no Norte de África incluem a Algeria Travel and Tours e a Wild Frontiers.  
A maioria das empresas de turismo pode ajudá-lo a solicitar um visto de turista, necessário para entrar no país. 

Henry Wismayer é um escritor sediado em Londres. Pode encontrá-lo no Twitter



Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com 

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