Siga as pegadas dos samurais neste antigo trilho

Conforme o Japão reabre as suas portas aos viajantes, agora é o melhor momento para explorar Tokaido, uma estrada importante que inspirou guias de viagem humorísticos ao estilo da banda desenhada manga e uma das obras de arte mais famosas do país.

Por Rob Goss
Publicado 6/10/2022, 12:01
estrada Tokaido

O Monte Fuji eleva-se para além do Desfiladeiro Satta, uma das várias paragens ao longo da estrada Tokaido que outrora se estendeu ao longo de 513 quilómetros, de Tóquio até Quioto.

Fotografia por Yuga Kurita, Getty Images

Na década de 1650, um sacerdote budista e o seu companheiro partiram de Tóquio, na altura chamado Edo, para uma caminhada de várias centenas de quilómetros pela estrada Tokaido, no Japão, até Quioto. Viajando como muitas outras pessoas sob os auspícios de uma peregrinação, ambos seguiram o trilho mais importante daquela época ao longo da costa acidentada, através de montanhas arborizadas e rios de correntes fortes.

No caminho, ambos provaram iguarias locais e visitaram marcos famosos, como templos, santuários, castelos e a beleza simétrica do Monte Fuji. E também enfrentaram alguns contratempos – chegaram a ser perseguidos por um cão de cauda encaracolada.

Tokaido serviu de inspiração para as 53 Estações de Tokaido, da série de xilogravuras do artista Utagawa Hiroshige, que inclui este painel do Desfiladeiro Satta (que data de 1833/34).

Fotografia por Heritage Art, Heritage Images, Getty Images

Ao contrário de outros viajantes, porém, estes dois homens não eram reais; eram os personagens principais de um guia ficcional de seis volumes chamado Tokaido Meishoki (Sítios Famosos ao Longo de Tokaido). Nesta obra, o autor Asai Ryoi, um sacerdote budista que viajou pela estrada de Tokaido, usou as aventuras muitas vezes humorísticas dos seus protagonistas para apresentar aos leitores a cultura local, os costumes e as informações históricas centradas nesta estrada. Asai Ryoi também incluiu desenhos simples semelhantes à banda desenhada manga – quase 150 anos antes de o próprio termo manga ter sido cunhado – para aguçar o apetite dos leitores que viajam indiretamente a partir do conforto dos seus tapetes tatâmi.

Com a indústria crescente de impressão e uma população relativamente alfabetizada, a obra Tokaido Meishoki e outros guias antigos como Tōkaidōchū Hizakurige ajudaram a popularizar as viagens da era Edo (1603-1868) e lançaram as fundações para as gerações de guias e diários de viagem que se seguiram. Segundo escreve Nicole Fabricand-Person em The Tokaido Road, durante quase três séculos, os livros ilustrados juntamente com as xilogravuras posteriores “criaram e promoveram a perceção de que Tokaido era mais do que uma rota ao longo da costa leste do país – era um destino em si".

Apesar de Tokaido já não existir como um trilho único e principal, o seu legado cultural continua bastante vivo. Desde a comida à hospitalidade e da arte à literatura, Tokaido tem gerado e alimentado todos os tipos de desenvolvimentos que podemos descobrir atualmente em fragmentos do trilho original.

A grande estrada do Período Edo

A estrada de Tokaido era a mais importante e a mais percorrida das cinco rotas administradas centralmente durante o Período Edo – e juntas ligavam a capital Edo à Quioto imperial e a outras partes importantes do Japão. Estas estradas bem cuidadas eram cruciais para o comércio, comunicações e peregrinações — sendo que as peregrinações eram a única razão pela qual a maioria dos japoneses tinha permissão para viajar.

Estas cinco estradas também facilitaram a política de residência alternativa, através da qual os governantes xoguns Tokugawa mantinham um olhar atento sobre os seus potenciais rivais, exigindo que os mais de 200 lordes feudais (ou daimyo) espalhados por todo o país residissem em Edo a cada dois anos. As suas famílias permaneciam na capital como garantia colateral de que os daimyo regressavam às suas províncias.

A pavimentação de pedra, chamada ishidatami, marca a secção Hakone Hichiri de Tokaido na província de Shizuoka, um dos poucos segmentos da estrada original que ainda sobrevive.

Fotografia por Masao Taira, Getty Images

Para suportar todo este tráfego, uma série de 53 estações de correio (semelhantes a pequenas aldeias ou vilarejos naquela época, embora nenhuma esteja agora completamente intacta como estação de correio) foi desenvolvida ao longo de Tokaido, para os cavalos poderem descansar ou ser trocados, os viajantes cansados encontrar abrigo, comida e talvez até desfrutar de um pouco de entretenimento.

As acomodações modestas ao longo de Tokaido foram precursoras dos luxuosos e tradicionais ryokan que ainda são muito populares – tratam-se de lugares onde os hóspedes trocam as suas roupas do quotidiano pelo conforto de um vestido yukata, ficam em salas de tapetes tatâmi, tomam banhos em águas termais naturais e desfrutam de jantares com vários pratos apresentados de forma esplendorosa.

As referidas estações de correio podem ter ajudado a estabelecer a cultura omiyage (souvenirs) do Japão. Nicole Fabricand-Person escreve que “cada uma das 53 estações de correio oficiais tinha o seu próprio caráter e os seus próprios produtos especiais (meibutsu)”. Quase todas as aldeias, vilas e cidades do Japão têm meibutsu. Assim como os guias da era Edo documentaram tudo isto para os antigos viajantes, as revistas e folhetos de viagem coloridos da atualidade permitem aos viajantes saber qual é exatamente o omiyage a levar para a família, colegas de trabalho e qualquer outra pessoa na sua lista (quase obrigatória) de recordações.

Esquerda: Superior:

Neste painel, criado por volta de 1834, Utagawa Hiroshige retrata um grupo de viajantes a passar pela aldeia de Megawa, em Ishibe, no Japão.

Fotografia por Rogers Fund, The Metropolitan Museum of Art
Direita: Inferior:

Esta impressão de 1838 mostra um viajante a entrar num movimentado distrito comercial em Kuwana, no Japão.

Fotografia por Heritage Art, Heritage Images, Getty Images

Para Llewelyn Thomas, diretor administrativo da Walk Japan, uma empresa que realiza visitas guiadas pela antiga rota de Tokaido, os meibutsu que nos dão maior ligação à obra de Asai Ryoi são os pratos locais. “A cultura e o espírito desta rota sobreviveram através das lojas e da comida. De certa forma, Tokaido torna-se basicamente num ponto de paragem para comer várias coisas famosas à medida que vamos avançando”, diz Llewelyn Thomas.

“Se observarmos a estrada de Tokaido na província de Shizuoka, que é sem dúvida a melhor secção para caminhar atualmente, Yui (que era a estação de correio número 16) é famosa pelos camarões sakura-ebi. Se ficarmos na estação de correios seguinte, em Okitsu, o prato mais famoso é a dourada doce amadai. Depois chegamos a Abekawa e temos os bolinhos de arroz Abekawa-mochi, antes de chegarmos a Mariko e ao famosíssimo restaurante Choji-ya, que serve tororojiru (sopa de inhame ralado) há mais de 400 anos.”

Tokaido, antigamente e agora

Perto do restaurante Choji-ya, os viajantes são lembrados de outro legado de Tokaido – um cartaz exibe uma das 55 gravuras ukiyo-e das icónicas 53 Estações de Tokaido (1834) de Utagawa Hiroshige. Esta série extremamente influente capta um momento de cada uma das 53 estações de correio e os pontos de início e fim da estrada Tokaido em Edo e Quioto.

Neste caso, o cartaz mostra dois viajantes do sexo masculino numa solitária casa de chá feita de colmo (o restaurante Choji-ya original) a serem servidos por uma senhora com um bebé às costas. O atual Choji-ya também está coberto de colmo e é rústico por dentro, mas hoje em dia a antiga estação de correios de Mariko já não é apenas um ponto de paragem no campo. Em vez disso, é uma parte tranquila e quase rural dos subúrbios da cidade de Shizuoka, que se estende ao longo da rota original de Tokaido.

Viajantes vestidos com yukatas sentam-se para uma refeição num típico ryokan em Tóquio.

Fotografia por Azman Jaka, Getty Images
Esquerda: Superior:

Este antigo posto de controlo, que foi reconstruído em Hakone, tem vista para o lago Ashinoko e acolhe os viajantes da atualidade na antiga estrada de Tokaido.

Fotografia por iStock, Getty Images
Direita: Inferior:

Hakone é conhecida pelos seus banhos de águas termais, como acontece em Unryu Onsen, na imagem.

Caminhar por aqui oferece tranquilidade suficiente para ouvir o zumbido dos insetos, quando a rota contorna brevemente o rio. Algumas das casas têm sacos de frutas e legumes no exterior para vender através de um sistema de honra.

Se seguirmos o que teria sido a rota de Tokaido a leste de Mariko, em direção a Tóquio, encontramos outras facetas do Japão. Shizuoka é uma cidade regional animada, que dá lugar a uma mistura de trilhos costeiros cénicos ao longo de pomares de citrinos nas encostas e manchas de betão, onde a moderna linha de comboio e a autoestrada de Tokaido abafam o som do oceano. Aqui também encontramos outras vistas criadas por Utagawa Hiroshige, incluindo uma vista clássica do Monte Fuji a partir do Desfiladeiro Satta – isto quando as nuvens ajudam. É completamente diferente de experimentar um trilho de caminhada convencional.

O mais próximo que a estrada de Tokaido chega de um trilho natural é ao longo da secção Hakone Hachiri, que se estende por cerca de 32 quilómetros entre a cidade de Mishima, na região leste de Shizuoka, e a cidade-castelo de Odawara, na província de Kanagawa (faz fronteira com Tóquio). A cidade de Hakone é bem conhecida no Japão pelo seu lago Ashinoko, pelos banhos termais onsen, estadias em ryokans e vistas aproximadas do Monte Fuji – é uma viagem clássica por Tóquio. Mas o trilho de Hakone Hachiri tem passado despercebido.

Segmentos como este podem ser apenas uma fração da enorme estrada original, mas continuam a ter o poder de transportar os visitantes para outros tempos.

“Tokaido é uma mistura entre o antigo e o moderno, e Hakone é um dos lugares onde ainda podemos sentir o ar de há 400 anos”, diz Shin Kaneko, nascido em Hakone, CEO e guia da empresa de turismo Explore Hakone. “Não vai ver estações de correio perfeitamente preservadas, mas ainda existem pequenas aldeias tradicionais. O lago Ashi e o Monte Fuji pouco mudaram desde que as pessoas passaram por aqui no Período Edo.”

“O trilho de Tokaido continua a passar por uma imponente floresta de cedros, por trechos históricos pavimentados e, após uma subida íngreme, paramos na casa de chá Amazake-chaya, que tem 400 anos”, diz Shin Kaneko. “Sentimos que estamos a suar da mesma forma que os viajantes de antigamente.”

COMO CAMINHAR POR TOKAIDO

Tokaido estendeu-se outrora ao longo de 513 quilómetros, mas hoje restam apenas fragmentos da rota original. Várias empresas de turismo oferecem experiências de um ou vários dias com guias que falam inglês, incluindo a empresa Walk Japan, que realiza uma excursão em grupo de oito dias, desde Tóquio até Quioto, que passa pelos destaques ao longo da rota. A empresa Explore Hakone oferece caminhadas de um dia em Hakone Hachiri, na província de Kanagawa. Partes de Tokaido em Shizuoka e Hakone também são fáceis de visitar de forma independente. Pode consultar a Shizuoka Tokaido Walker e Hakone Japan para visitar estas regiões.

Rob Goss é um escritor de viagens sediado em Tóquio. Pode encontrá-lo no Instagram.



Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

 

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